Sábado, Fevereiro 11, 2012

Dama de Ferro, filme de bronze

Uma das melhores atrizes em atividade no cinema mundial interpretando uma das personagens mais ricas e controversas da política internacional, isto é, Meryl Streep vivendo Margaret Thatcher no cinema. Certeza de um grande filme, não é mesmo? Não mesmo. O que temos na obra dirigida por Phillida Lloyd, A Dama de Ferro, é uma grande personagem vivida por uma excelente atriz, com infinitos recursos cênicos, mas o filme passa longe de ser grande. A narrativa adota um esquema burocrático e com aqueles flashbacks que truncam a narrativa, procedimento que Clint Eastwood já tinha adotado em J. Edgar sobre o poderoso líder e fundador do FBI, J. Edgar Hoover. Naquele filme também o que empolga é a brilhante atuação de Leonardo DiCaprio, mas a trama não decola.



Mas vamos ao filme. A diretora situa Margaret Thatcher já nos anos 2000 apresentando sinais de demência e vigiada para não sair de casa sozinha. A primeira cena mostra uma senhora idosa na fila de um pequeno mercado, contando as moedas para comprar a leite. Esta senhora que caminha por dificuldade pelas ruas de Londres foi a primeira mulher a se tornar primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, ganhando o apelido de dama de ferro por ter um estilo firme, agressivo e por vezes cruel no exercício do mandato.

O plot de Phyllida Lloyd, a partir do roteiro de Abi Morgan, é a tentativa de desligamento do marido Denis (o sempre eficiente Jim Broadbent), morto recentemente. A simbologia do luto está ligada ao fato de ela tentar se desfazer das suas roupas e sapatos. Os sintomas da demência estão associados ao fato de que Margaret ainda conversa com Denis, que sempre aparece alegre para ela, e repete frases que disse em vida para ela “ser firme” e não se intimidar com os homens.

Nas conversas imaginárias com Denis, o seu passado aparece desde o tempo em que assistia aos comícios de seu pai, prefeito na pequena Grantham, até o momento em que vai para Oxford e se candidata ao Parlamento pelo Partido Conservador. Em alguns momentos, a diretora assume a porção feminista do filme, pois Maggie Thatcher precisa enfrentar a zombaria dos homens, como na cena em que ela debate pela primeira vez no Parlamento inglês.    

O viés político de Thatcher aparece bem pouco, ou menos do que deveria. Os grandes momentos são a guerra das Malvinas e também as políticas de austeridade, com cortes nos gastos públicos, medida bastante impopular nos anos 80.  A diretora Phillida Lloyd já tinha dito em entrevista que evitou um posicionamento político, mas seria impossível fazer um filme como “Pollock” sem exaltar a obra de Jackson Pollock no nascituro da Action Painting, apesar de o filme de 2000 com direção e atuação de Ed Harris também ter desperdiçado muita tinta ao tentar abordar a carreira de Pollock 


Mas Meryl Streep é o que faz a roda girar. Com uma maquiagem mais regular e eficiente (assinada por Mark Coulier, indicado ao Oscar), ao contrário de J. Edgar, de Eastwood, que inclui um envelhecimento perfeito e o capricho no laquê do famoso penteado e uma prótese dentária, que auxilia no acento britânico perfeito e na impostação similar a voz da Thatcher real, Streep tem todas as credenciais para receber o seu terceiro Oscar, numa disputa acirrada que terá com Viola Davis, de Histórias Cruzadas, pela estatueta. Streep faz a Dama de Ferro virar realidade para os mortais não-ingleses, que conviveram pouco com a emblemática figura, mas o filme derrapa neste imbróglio narrativo com flash backs truncados e com pouca alma lírica e a resolução do filme (não posso contar por aqui) deixa a desejar, trabalhando demais no plano íntimo e  pouco no plano público, apesar de expor de forma apenas rasa o que a perda de poder faz com uma pessoa.

Filme mediano para a grandeza da personagem histórica.

Crédito: Paris Filmes / Divulgação 




Sábado, Fevereiro 04, 2012

As lições do silêncio

Enfim, o cinema se voltou para a sua própria história, para a sua base, para os primeiros pilares da sua construção audiovisual. Não é à toa que “O Artista” tem dez indicações ao Oscar, recebeu três Globos de Ouro, incluindo filme e diretor, foi o melhor filme do Critics Choice Awards, entre outras láureas. O filme de Michel Hazanavicius nos apresenta as lições do silêncio, do tempo em que ver e fazer um filme era um acontecimento, não que não o seja atualmente.

Desde o início a história nos arrebata, pois começamos a assistir a um filme mudo que mostra um astro do cinema mudo em ação, George Valentin (ator cheio de recursos cênicos). Ele observa por trás da tela o filme no qual ele é o protagonista e a orquestra executa a trilha ao vivo (aí abro parênteses para a trilha de Ludovic Bource, que é um acontecimento, dando a cada cena o ritmo e tom cômico dramático necessário).  George Valentin é o ator que está no topo e quer aparecer mais do que todos nos créditos, nos aplausos pós-filme. Está no auge. O ano é 1927.

Nos filmes, ele sempre aparece com seu treinadíssimo cachorro (Uggie), que rola e se finge de morto, mas tem outras habilidades em cena. Num dia, quando está saindo de mais uma estréia, cercado pelos fãs e fotógrafos, George esbarra em Peppy Miller (Berenice Bejo), uma aspirante a figurante de cinema em Hollywoodland. O esbarrão e o beijo que ela lhe dá na face viram notícia e ela acaba virando figurante de um filme de George. Um natural clima rola, pois George não vive mais uma paixão por sua esposa (atuação discreta de Penelope Ann Miller).  Até aí seguimos no ritmo do filme mudo, com pouco conflito, o ator de obras silenciosas segue sorrindo, fazendo caretas e mexendo com a boca.

O produtor (John Goodman) do Kinograph Studios é que apresenta o conflito, quando mostra um filme falado para George, “Romeu e Julieta”, com Constance Grey, uma ex-parceira de obras mudas. George ri e diz que não acredita neste tipo de filme.  O produtor lhe diz que este é o futuro. A partir deste ponto, a queda  está declarada e o filme ganha a sua intensidade dramática e passa a emocionar a cada minuto. Com uma trilha precisa, o drama de George e a ascensão de Peppy com filmes falados, os personagens ganham corpo e o som aparece pela primeira vez no próprio filme de Hazanavicius num pesadelo de George, que ouve risadas dos demais artistas e o barulho dos objetos no seu camarim.

Deste momento em diante, o filme nos apresenta um rosário de referências que passam por Cantando na Chuva e A Felicidade não se Compra, e mostra o fim de uma era tão necessária ao cinema, dos filmes mudos, e o início da falada, que foi agregada nas últimas décadas pelas eras technicolor, digital, de efeitos especiais e mais recentemente 3D. A derrocada de George é a troca do velho  pelo novo, do vinil e da fita cassete pelo CD e MP3, da tevê pelo vídeo, DVD e blu-ray,  do livro pelo ebook, do cinema mudo pelo cinema falado. O filme fala de amor, de gratidão, de fidelidade em relação a George, representada pelo cão que o salva da morte, do chofer Clifton, que não quer abandonar o patrão, e de Peppy, que quer cuidar de George enquanto ele destrói  o pouco que restou da sua vida e carreira. Um filme para os amantes da mais pura sétima  arte e que vai merecer todos os prêmios que vier a ganhar ainda nas próximas semanas. Que se façam mais filmes mudos, pois a história do cinema acabou de ganhar mais um capítulo com o Artista.    

Fotos: Miramax

Domingo, Janeiro 22, 2012

Mulheres no poder


O diretor romeno Radu Mihaileanu já provou no filme O Concerto que tem uma capacidade acima do comum de entender as necessidades e demandas de alguns grupos, fazendo com que as canções sejam o elo de ligação entre estes personagens. Foi assim que os antigos membros da orquestra Bolshoi conseguiram viajar sem autorização do governo russo para se apresentar no Teatro de Châtelet em Paris. A música é o elo de ligação entre as protagonistas mulheres de A Fonte das Mulheres. Com os lamentos, com as cantorias cheias de percussividade, as mulheres do filme falam das suas tragédias e alegrias, quando nascem filhos ou quando os filhos morrem antes de nascer porque as mulheres são obrigadas a buscar água para a pequena aldeia localizada entre o norte da África e o Oriente Médio. É a tradição, dizem os homens e o xeque do local, pois a água é para o serviço de casa. Está no Corão, diz o líder religioso.

Leila (Leila Bekhti) é a estrangeira, veio de longe para casar com Sami. Ela não é aceita pela sogra Fátima (Hiam Abbass), pela cunhada e por muitas das mulheres da aldeia. Ela aprendeu a ler e escrever e não aceita esta sina de as mulheres, mesmo sendo mais frágeis, andarem quilômetros com dois baldes pendurados numa vara de madeira para trazerem água aos maridos, aos homens, que não têm nem trabalho, não há colheita, e nem guerras, pois o tempo é de paz. Ajudada pela líder feminina da aldeia, Velho Fuzil (uma interpretação primorosa de Biyouna), Leila sugere que as mulheres façam greve de amor ou greve de sexo, caso os maridos não concordem em eles mesmos irem buscar a água. A referência é básica no texto “Lisístrata – a Greve do Sexo”, do grego Aristófanes. “É o nosso único poder sobre os homens”, diz Leila para tentar convencer as amedrontadas mulheres.

Assim, ela adquire inimizades, principalmente entre o público masculino da aldeia. Leila briga, invoca o Corão, não cede, quer o caminho mais difícil. O filme teria tudo para cair no piegas, mas não. Ele se aprofunda nos dramas, se solidifica no amor de Leila e Sami (Saleh Bakri), que é ameaçado pela chegada de um jornalista que ama Leila. O jornalista Soufiane (Malek Akhmiss) também é considerado a salvação para abrir o verbo e contar ao país inteiro a história das mulheres, que acabam apanhando em casa e sendo submetidas a certas humilhações em público. Sami tem outra tarefa. Ele é o único professor da aldeia, tem que educar, mas não pode fugir muito das tradições. Ele apoia Leila incondicionalmente. A sogra porém quer que o filho a repudie, o que seria uma vergonha para os pais dela e a condenaria a ser solteira para sempre naquela cultura machista.

As mulheres que lideram a greve pedem atenção aos homens, mas são chamadas de feiticeiras. Para não descambar para a pieguice, os lamentos, os cantares são o antídoto ideal. Quando elas cantam, tudo se assenta, os homens fazem vistas grossas, mas acabam recebendo a mensagem de que os seus corações secaram como a terra da aldeia. Entre o trágico e o cômico, elas avançam algumas jardas, mas a força política e religiosa dos homens é grande. Na verdade, a briga seria pela água na aldeia, pois a seca é personagem insistente e no filme a mensagem é de que a luta continua, companheiro, pelos direitos, pela igualdade, pelo amor. Amor que move a personagem Loubna/Esmeralda (Hafsia Herzi, a Samira, de “L´Apollonide – os Amores da Casa de Tolerância”). Com ajuda de Leila, ela manda e recebe cartas de um amor fora da aldeia.

Um filme com uma dúzia de lições, que não se rende à pieguice, que mostra que o amor pode vencer e que a luta pelos direitos não pode ser em vão. O filme também nos presenteia com uma visão imparcial e modernista da cultura árabe, dos muçulmanos, do islamismo, além de uma paisagem fora de série, das locações no Marrocos. Assina a produção do filme (que é belga, francesa e italiana) o francês Luc Besson. Um filme belo e com uma temática bastante profunda, visceral neste mundo multiétnico, mostrando a mão firme do diretor romeno, sempre preocupada com as questões do mundo atual.


Crédito da foto: Paris Filmes / Divulgação

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Menino ou menina?


Menino ou menina?

A pergunta do título desta crítica poderia ser feita a qualquer mãe ou pai que anuncia a gravidez do casal ou pelo casal ao médico que faz a ecografia que determina o sexo da criança. A determinação do sexo de uma criança é uma das coisas mais importantes para a maioria dos pais, para outros não. A proposta da diretora francesa Céline Sciamma (Lírios D´Água) em Tomboy é primeiro tornar natural e num primeiro momento irrevelante esta pergunta. Com este naturalismo, desprovido de efeitos cinematográficos como trilha sonora, luzes, explosões, a cineasta que criou o roteiro e dirigiu o filme acerta a mão e nos oferece um singelo retrato da sexualidade a ser determinada entre a infância e adolescência.

Mesmo que eu esteja tecendo este comentário, é importante que o espectador vá para a sala de cinema despido de qualquer ideia pré-concebida de sexualidade e vá esperando um cinema com teor dramático, no qual as coisas acontecem no seu tempo, isto é, o ritmo se determina pela ação natural dos personagens. Lembra um pouco Entre os Muros da Escola, filme dirigido por Laurent Catent, sobre uma escola pública francesa.

O que não pareceria natural no filme acaba sendo. Laure (Zoé Héran) é a filha mais velha de um casal francês que está se mudando de bairro. Ela se veste como menino, corta os cabelos curtos, mas em nenhum momento isto é um problema dentro de um lar bastante amoroso. Após chegar ao bairro novo ajudando o pai (Mathieu Demy) a dirigir o carro da família – aí também já é explorado um subtexto necessário que é o apego do pai e filha, a vontade do pai de ter um filho homem, o que acaba acontecendo com o terceiro filho que acaba nascendo (são duas meninas, Laure e a mais nova Jeanne, de seis anos, com uma excelente interpretação de Mallon Lévanna, apesar de adultizada demais) – Laure olha pela janela o que serão os novos amigos e ao conhecer a primeira amiga, Lisa (Jeanne Disson), responde instintivamente que o seu nome é Mickäel. Aí o conflito começa a ser estabelecido.

Na primeira brincadeira, Mickäel/Laure mostra as suas habilidades de menino, força, velocidade, esperteza e com ajuda de Lisa passa a ser melhor aceito pelo grupo. Então, Laure segue tranquila sendo Mickäel para os amigos e Laure com jeito masculino em casa. Como estão em férias escolares, o conflito não é estabelecido no âmbito dos novos amigos, mas as aulas irão começar e o segredo não poderá mais ser guardado. Quando Lisa vem bater a porta do apartamento de Laure, perguntando por Mickäel, a irmã Jeanne adentra o segredo e vira cúmplice. Lisa rouba um beijo de Mickäel e algo  desperta entre eles.

Quando a mãe (Sophie Cattani) descobre que ele está se fazendo passar por um menino vem a primeira lição do filme e uma das frases para serem guardadas. A mãe obriga Laure a colocar um vestido azul e a ir na casa de Lisa e de um menino no qual Mickäel deu uma surra. Parece uma agressão ao natural de Laure que é ser Mickäel, mas não é como diz a mãe: “Não estou aqui para lhe dar uma lição ou para fazer maldade com você, quero ver uma solução para isto, você tem a solução?”.

Com estas sutilezas e naturalismos, trilha sonora utilizada somente do aparelho de som de Lisa, de um piano de brinquedo de Jeanne e no início e final do filme, Celine Sciamma cria um filme real, que aborda com a maior normalidade possível sobre o tema, com atores tão orgânicos que parecem não-atores, enfim, nos deixa sair contentes e despidos de preconceitos da sala de cinema.


Foto: Pandora / Divulgação


Domingo, Janeiro 15, 2012

Uma comédia para degustar


Num dos primeiros diálogos entre os protagonistas de Românticos Anônimos, produção franco-belga dirigida por Jean-Pierre Améris, Jean-René (Benoît Poelvoorde) diz a Angélique (Isabelle Carré) se ela ama o chocolate e o que o maior problema dos chocolateiros e das pessoas em geral é confundir chocolate com doce. Ela retribui falando do amargor que é um dos elementos necessários a um bom chocolate. Somente ao falar de chocolate, eles mostram verdadeiramente o a sua alma, o seu amor, mas amargam na vida o fato de serem “emotivos” (o título original do filme é Les Emotifs Anonymes), de serem tímidos, de suarem, gaguejarem, terem autoestima baixa, entre outras coisas A brincadeira dos emotivos anônimos já começa logo no início do filme quando Angélique está no grupo de Emotivos Anônimos (como os Alcoólicos) e começa a falar das dificuldades que teve em ser bem-sucedida como chocolateira, quando era avaliada ou quando olhavam para ela para a julgarem. Cada um do grupo tem um problema, uma não sabe dizer não, o outro tem autoestima baixa etc.

Quando Angélique vai solicitar emprego numa fábrica de chocolates à beira da falência, dirigida por Jean-René, é que tudo se mistura, como no chocolate. Os medos de cada um são tratados por Améris com humor, mas com seriedade. Jean-René realmente sua frio e troca de camisas quando está para ter intimidade com uma mulher. No consultório do psicólogo, ele admite que ama as mulheres, mas não quer intimidade. Já Angélique não consegue dizer ao patrão que ela é chocolateira, não representante comercial, mas ele percebe que ela entende e ama os chocolates. A receita da contracenação perfeita é a de um grande chocolate. Isabelle Carré e Benoît Poelvoorde estão extremamente convincentes como os tímidos emotivos medrosos apavorados aspirantes a um namoro.

Os risos se multiplicam nesta comédia curta, apenas 1h20min de duração. O primeiro jantar entre os dois é uma aula de cinema cômico, quando Jean-René e Angélique não conseguem entabular uma conversação normal. Ela até faz uma lista de assuntos possíveis, ele responde com monossílabos. O medo é paralisante. Eles não conseguem responder ao garçom. Quem já não conheceu uma pessoa assim? Mas é no chocolate como pano de fundo e na trama em torno da história de amor entre emotivos é que Améris ganha a luta com o espectador por nocaute.

Quando eles desenvolvem uma nova linha de chocolates para tentar salvar a empresa ou quando degustam chocolates da Mercier - fábrica que Angélique trabalhou, mas se apresentava como uma eremita com medo de ser reconhecida – parece que sentimos cada nuance do sabor e as sensações que o chocolate causa. Neste ponto, o filme se assemelha ao filme do dinamarquês Lasse Hälstrom: Chocolate, com Juliette Binoche, Johnny Depp, Lena Olin e Judi Dench. Tanto neste como naquele, o chocolate consegue ser o elemento redentor. Neste filme a redenção é do amor quase impossível de dois emotivos. Naquele filme, a aceitação de Vianne (Binoche) pela pequena cidade da França rural e o chocolate como apimentador de relações e proporcionando realmente o prazer de degustar e viver.

O romantismo achocolatado nos envolve a todos e a sensação ao sair do cinema é que realmente alguns problemas crônicos podem ser resolvidos pela paixão, neste caso pelo chocolate ou por outra pessoa. A respeito de comédias românticas - e aí cito Nora Ephron, Rob Reiner e Garry Marshall, este um pouco decadente após Idas e Vindas do Amor e Noite de Ano Novo – enfatizo que elas são necessárias para suavizar o mundo, assim como musicais e filmes infantis, pois ação, policial e terror estão presentes no nosso cotidiano fora das telas. Isto tudo faz de Românticos Anônimos um filme delicioso, para degustar, docemente necessário para desamargar a vida.

Crédito da foto: Imovision / Divulgação

Sexta-feira, Setembro 10, 2010

Entrevista com Goran Bregovic


O show de Goran Bregovic e sua Weddings and Funerals Orchestra foi um dos cinco melhores do ano, incluindo Metallica, Aerosmith, Amelita Baltar e Simple Minds.

Publico aqui entrevista que fiz com Goran Bregovic no site e na edição impressa do Correio do Povo. O crédito da foto é de Fabiano Amaral


"Fiquei surpreso pois o público
conhecia a minha música"
O bósnio Goran Bregovic, que abre o 17º Porto Alegre em Cena na quarta, lembra com carinho do show de 2001 no Em Cena, em entrevista exclusiva ao CP

Nada melhor do que alguém que foi a sensação de uma das edições do festival (na 8ª edição em 2001), para abrir o 17º Porto Alegre em Cena, que para além da diversidade proposta por Luciano Alabarse e seus curadores, traz grandes grupos ou diretores que se destacaram em edições anteriores da mostra. Uma reafirmação do novo, misturado ao já consagrado, como é o caso dos espetáculos de Sankai Juku (2ª vez): “Tobari”; do diretor lituano Eimuntas Nekrosius (4ª vez) com “O Idiota”; Bob Wilson (2ª vez) com “Happy Days”; além de habituais diretores do Mercosul como o argentino Eduardo Pavlovsky e nacionais como Celso Frateschi e Enrique Diaz.

Goran Bregovic e sua Weddings and Funerals Orchestra (Orquestra de Casamentos e Funerais) abrem o festival, nesta quarta, às 21h no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 100). O show divulga o seu mais recente CD “Alkohol”, lançado no fim de 2008, e será realizado também na quinta, às 21h, no Bourbon Country. Não há mais ingressos para as duas noites (detalhes no www.poaemcena.com.br ).

O músico e compositor bósnio toca uma mistura entre ritmos tradicionais da música da Sérvia, as populares músicas ciganas para casamentos e funerais, recheadas de arranjos modernos e pop.
O projeto "Alkohol" é composto de dois discos. O primeiro "Sljivovica" foi lançado no fim de 2008 e tem 14 faixas — 13 normais e uma bônus — com destaque para “Jeremija” — onde ele brada antes do início da música o título do disco: Alkohol — “Venzinadiko”, “Gas Gas” e “Na Zandjem Sedistu Moga Auta” (“No Banco de Trás do Meu Carro". O segundo "Champanhe" está sendo produzido e deve ser lançado em 2011.

Bregovic e sua banda formada por mais 18 músicos, entre seis metais ciganos, duas vozes femininas búlgaras, seis vozes masculinas e quarteto de cordas, deve tocar durante 2h30min e recuperar sucessos executados em 2001, como “Mesecina”, “Kalashnikov”, “Ausencia”, “Te Kuravle” e “Ya Ya (Ringe Ringe Raja)”.

Nascido em 22 de março de 1950, em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, Bregovic tornou-se famoso como líder da banda Bijelo Dugme e como compositor de trilhas sonoras para cinema (destacando-se os trabalhos para filmes de Emir Kusturica como “Underground - Mentiras de Guerra” e “Arizona Dream”, além de “Borat”, de “Sascha Baron Cohen” e “Rainha Margot”, de Patrice Chéreau.

Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Povo, Bregovic fala com carinho do show de 2001, da mensagem do disco "Alkohol", dos novos projetos e de World Music.


Correio do Povo - Os seus discos e as suas músicas, trilhas de filmes ou de espetáculos, sempre carregam mensagens contra a guerra e outros temas. Qual a mensagem do disco "Alkohol", de 2009?
Goran Bregovic - O meu álbum “Alkohol” não tem nenhuma mensagem especial, mas como explico no encarte do CD: "Minha mãe se divorciou do meu pai porque, como a maior parte de oficiais, ele bebeu demasiado sljivovica (conhaque típico da Bósnia à base de ameixa) . Depois que ela o abandonou, ele sofreu o tratamento para deixar de beber. Nos 15 anos seguintes, ele não bebeu. Minha mãe morreu da leucemia e a segunda esposa do meu pai disse-me que durante a doença de minha mãe ela o tinha seguido secretamente algumas vezes. Noite após noite meu pai sentava até o amanhecer embaixo das janelas da sala onde minha mãe morria no 3º andar do hospital militar na Divisão para fumar. Então ele voltou à sua aldeia na fronteira húngara e plantou um vinhedo que produzia mil litros por ano. Ele sobreviveu a mãe a vinte anos e bebeu este mil litros mais ou menos sozinhos. Dedico 'Alkohol' aos meus pais".

CP - Você tem alguma lembrança do seu primeiro show em Porto Alegre em 2001?
Goran - Eu me lembro que fiquei surpreso ao ver que havia um grande público para o meu concerto e que eles pareciam conhecer a minha música.
CP - Quais são os seus atuais projetos na música, discos, trilhas para cinema e teatro?
Goran - Acabo de terminar um novo projeto, uma peça para minha grande orquestra e uma atriz intitulou “Margot, as Memórias da Rainha Infeliz”. Ele teve uma première em Paris, na Basilique Saint Denis, em junho deste ano. Estou trabalhando agora na segunda parte do meu álbum “Alkohol”. A primeira parte "Sljivovica" saiu no ano passado e estou editando agora a segunda parte: "Champanhe". E há projetos sempre diferentes – possivelmente uma nova ópera (Goran é autor de óperas como "Karmen de Bregovic") que estão cozinhando lentamente em fogo brando.

CP - Por que a música do Leste Europeu ficou fora do boom da World Music nos anos 80 e agora onde ela estaria inserida?
Goran - É bom que o mundo ficou curioso e tem o interesse em uma cultura musical que é muito pequena em comparação com as grandes como Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. Eu agradeço a esta curiosidade que fez com que a minha música fosse conhecida em todo o mundo.

CP - Como você define a sua música?
Goran - Sou um compositor contemporâneo que escreve a música com uma estrutura sólida e que não é tediosa – o que é bastante excepcional atualmente. Conservei uma faixa hedonista dos meu temperamento de rock´n´roll. Se escrevo coisas simples de instrumentos infantis ou mais complicados do coro e orquestra, eu sempre tenho divertimento.

CP - Você tem participados de movimentos contra as guerras ou eventos musicais e causas similares?
Goran - Eu estou muito velho agora e demasiado distante dos tempos quando – fora de vaidade – imaginei que a arte podia modificar a ordem de coisas. Mas sou ainda demasiado jovem para perder a esperança!


Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo

Quinta-feira, Junho 24, 2010

Um dia sem Globo


Por diversas razões, vou participar deste movimento Um Dia sem Globo. Gosto das informações veiculadas pelos repórteres da Globo. Eles têm uma boa cobertura, mas se consideram donos da verdade em algumas questões. Neste caso com Dunga foi assim. Foi um massacre. O Dunga errou, mas o motivo que o levou a este destempero foi os ardis daquela que quer ser sempre exclusiva. Direitos iguais. A Era Dunga estabeleceu direitos parcos, mas iguais para os jornalistas. Se ele está certo ou errado, o tempo dirá. Vou ver o jogo do Brasil pela Band (Cala Neto!), Band Sports ou ESPN Brasil, que dá um show de cobertura, de informações sobre as seleções, estatísticas e conhecimento do histórico e das potencialidades de cada uma das equipes. Tomara que dê uma baixada significativa de audiência na Vênus Platinada para que ela sinta que também estava errada nesta querela com o Dunga.

Terça-feira, Maio 11, 2010

Que os anjos digam Amém ao Armazém!!!


Estou escrevendo ainda sob o impacto de assistir ao espetáculo Inveja dos Anjos, da Armazém Companhia de Teatro, dentro da programação do Palco Giratório na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Na hierarquia dos anjos proposta por Rainer Maria Rilke no texto de apresentação, posso me lembrar dos seres alados de Wim Wenders para dizer como este processo construído pela companhia com seus dramaturgos Paulo Moraes e Maurício Arruda Mendonça nos faz acessar a zonas remotas do sentimento e da reminiscência.

Um trio de amigos recordando. Um trilho de trem que viaja ao alto, traz e leva pessoas e consigo os sentimentos. Um escritor, Tomás (Ricardo Martins) que quer queimar todas as suas anotações com títulos tão criativos quanto vagos: Vestígios de Afeto é um exemplo. Os personagens desta estrutura onírica, quase fabular, nos fazem recordar da Alice Através do Espelho, o texto de Lewis Carroll (o grupo prefere a dramaturgia própria, mas já montou este texto). O escritor tem uma filha, Natália (Verônica Rocha) e agora não quer queimar nem os escritos e nem tampouco consegue negar o rebento.

Uma garçonete, Cecilia (Patrícia Selonk) não conseguiu mais amar. Um mágico fugiu de sua vida, usando o seu principal recurso, o ilusionismo de entrar no trem da existência e sumir num rastro de liberdade. Uma filha, Luiza (Simone Mazzer), que viu a mãe, Branca (Simone Vianna), matar o pai e agora implora para que a sua matriz se vá, enquanto ainda faz milhares de bolos para ela, matando a sua sanha de loucura e fome. A mãe dança com o paletó do pai morto. O carteiro, Eleazar (Marcelo Guerra), que lê e seleciona as correspondências que devem ser entregues, adiando algumas que trazem notícias inesperadas. São tantas as imagens e situações que quase nos engasgamos todos. O personagem mágico de Rocco (Thales Coutinho) parece dar o tom da narrativa, pois tudo parece um passe de ilusão. Rocco e Cecília protagonizam os momentos de maior afeto, tensão, recuerdos e também, por que não, de regozijo na intimidade, como quando ela diz que pensou em 100 maneiras de dizer que não o queria mais, botando-as para fora quando ele retorna, após 15 anos.

O diretor Paulo Moraes explica que o mote era o esfacelamento da memória e que os atores desenvolveram as suas situações, escrevendo e atuando a partir de um tema. O tema é fragmentar a memória para recordar que a existência é vã e também tão linda quanto as brincadeiras de Natália ou as mágicas de Rocco, ou o fogo que consome os livros de Tomás. A fumaça do afeto.

Os anjos devem estar dizendo: “Amém ao Armazém!”, pois o anjo existe para nos guardar e nos lembrar um pouco a nossa humanidade de asas quebradas, como as da estátua do centro da cidade onde todos os personagens moram, que como todas as cidades da nossa recordação estão decadentes. Amém também a cenografia de Carla Berri e Paulo Moraes, que mostram a decadência das paredes descascadas e o trilho que desloca o nosso ponto de visão, criando geometrias novas. Amém a Maneco Quinderé o homem que dá a acuidade luminescente à locomotiva, que cria momentos de rara poesia com sua luz sobre trilhos e outras invenções como a luz vermelha tal qual um carrossel. A trilha sonora de Ricco Viana compõe este panorama onírico, incluindo de Radiohead a Beatles, buscando o foco íntimo, pré-emotivo e preciso do espectador. Por tudo isso, não tenho inveja dos anjos. Só tenho louvores a eles e ao Armazém que nos vende sonhos, narrativas tocantes e o acesso ao mais íntimo que há em nossas viagens para dentro da alma recordante, alegre por voltar, por ir e retornar pelos trilhos da vida.

Domingo, Maio 02, 2010

Entrevista com Eugenio Barba


Coloco aqui no blog a entrevista com o fundador do Odin Teatret, o diretor Eugenio Barba, publicada no site do Correio do Povo agora há pouco.

"Porto Alegre poderia virar pólo de teatro", diz Eugenio Barba

Diretor do Odin Teatret é a principal atração do Palco Giratório Sesc

Porto Alegre poderia virar pólo de teatro, diz Eugenio Barba
Crédito: Luiz Gonzaga Lopes/Especial CP
A programação do 5º Festival Palco Giratório Sesc/Porto Alegre trouxe à Capital neste final de semana o italiano radicado na Dinamarca, Eugenio Barba, 73 anos, uma das principais referências vivas da antropologia teatral. Barba foi também fundador da companhia Odin Teatret, em 1964.

Ele protagonizou uma conferência com três horas de duração, diante de um Teatro do Sesc lotado, sábado à noite, abrindo o 5º Palco Giratório. Barba abordou diversos assuntos, entre eles suas ligações com o Brasil e Porto Alegre, com o falecido Luiz Otávio Burnier, fundador do grupo Lume, de Campinas, e Irion Nolasco, no Rio Grande do Sul.
A conferência também abordou o legado do Odin Teatret, o método de trabalho do grupo situado em Holstebro, na Dinamarca, e até uma demonstração de trabalho de Julia Varley, sob a direção de Barba.

O festival segue até 31 de maio, em Porto Alegre, com 38 espetáculos de 35 grupos de 11 estados brasileiros, além de participação da França. A atividade é promovida pelo Arte Sesc – Cultura por toda parte. Mais no site www.sesc-rs.com.br/palcogiratorio. Acompanhe a seguir uma entrevista feita com Eugenio Barba:

Correio do Povo - Existe alguma pesquisa nova em antropolgia teatral?
Eugenio Barba - A antropologia teatral é como uma referência que hoje não pode ser considerada uma pesquisa. É um estudo comparativo, compreendendo direfentes estilos e gêneros estéticos. Hoje, existem os mesmos princípios para a técnica de todos os atores. O nosso trabalho teve influência na presença física, material do ator. Trata do equilíbrio, tensão, de uma maneira paradoxal de pensar. Como Hamlet. Ele pensa e pensa que o outro ator faz isso.

Não temos mais que pesquisar. Este foi nosso território durante 20 anos. Estudos comparativos. Só o que utilizamos não é pesquisa estética, mas tinha a ver com resultados artísticos, mas tudo que se percebe no sentido pré-expressivo, não no sentido cronológico. É uma maneira de pensar, transformando a presença do ator em expressão artística. Existem pesquisas novas na Europa sobre antropologia do espetáculo, compreendendo tipos diferentes de espetacularidade, que interessa sobretudo aos acadêmicos.

CP - Qual a sua visão do teatro de grupo em Porto Alegre?
Barba - Todos os meus amigos brasileiros sempre me disseram que Porto Alegre era muito ativa em nível de grupos. Agora chegando aqui e vendo o interesse dos grupos pela experiência fora do comum do Odin, constatei que existe um ambiente muito particular para o teatro de grupo, talvez resultado do trabalho de grupos dos anos 80 e 90, que criaram uma história. Os professores universitários também têm responsabilidade por este interessen crescente entre os jovens.

Me pergunto por que Porto Alegre não pode virar um pólo de teatro de grupo? Romper o isolamento, a maneira de pensar. Há uma possibilidade de abrir ou dar meios para desenvolver a partir do que já existe com todas as novas formas. Os grupos já têm história, identidade e possibilidade de incrementar e fortalecer o seu trabalho. Precisa de uma contínua confrontação.

CP - A realização de um grande festival de teatro de grupo seria um dos caminhos?
Barba - Sim, porque não existe no mundo todo um festival internacional que abranja só teatros de grupo. No Brasil, tem uma experiência próxima da ideal que é o Festival de Teatro de Grupo Latino-Americano, do Teatro Oco, de Salvador. Antes existia nos anos 70 o festival de Santarcangelo Di Romagna, na Itália, idealizado pelo diretor Roberto Bacci, que tinha uma energia extraordinária. Durante muitos anos, foi o festival que tinha realmente a marca do teatro de grupo.

CP - Como é Eugenio Barba quando não está pensando o teatro?
Barba - Quando não estou trabalhando, eu sou reservado. Não frequento pessoas, casas. Vivo solitário com minha família. Tenho muito pouco contato social, até porque vivo isolado em Holstebro. O que me acompanha sempre são os livros, a leitura.

CP - O que o senhor trouxe para ler no Brasil?
Barba - Estou lendo uma biografia do pintor Paul Cézanne. Gosto muito de ler biografias. Para me acostumar de novo com o português, também estou lendo um livro de um jornalista brasileiro, Paulo Markun, "Cabeza de Vaca".

CP - O Brasil está presente de alguma forma no novo espetáculo do Odin?
Barba - Sim, no novo espetáculo o título "A Vida Crônica", vem de um poema do brasileiro Paulo Leminski. É a história de uma jovem colombiana que chega em uma cidade europeia à procura do pai desaparecido. Ele era um criminoso, torturador, narco-comerciante, um pobre imigrante que tentou a vida na Europa e desapareceu, uma coisa muito comum na Europa. Este é o ponto de saída da história, com todos os choques entre uma jovem latino-americana e o mundo europeu com seus preconceitos.

Fonte: Luiz Gonzaga Lopes/Correio do Povo

Sábado, Maio 01, 2010

A referência viva da antropologia teatral em Porto Alegre



O fundador do Odin Teatret em Oslo, Noruega, em 1964, Eugenio Barba está em Porto Alegre para conferência no 5º Palco Sesc Giratório, neste sábado, às 19h. A presença do homem que é responsável pela divulgação dos princípios da Antropologia Teatral, a partir do polonês Jerzy Grotowski, já desencadeia uma “buena onda” como se diz na vizinha Argentina. Em junho de 2008, tive oportunidade de assistir a uma conferência de Eugenio Barba na 40ª edição do Festival Internacional de Teatro de Londrina. Foi simplesmente uma aula sobre a obsessão de pessoas pelo teatro, de história do teatro europeu no século 20, de uma visão autodidata da arte e dos conceitos de cultura, entre outros tantos aspectos abordados por este italiano radicado na Dinamarca, em Holstebro.

Acompanhe aqui no blog algumas frases de Eugenio Barba durante a conferência:

"Para compreender o trabalho de hoje do Odin Teatret, é preciso entender o que significa toda a história do teatro europeu. É preciso entender Stanislavski, um aficcionado pelo teatro ou melhor, com afinidade e valores comuns ao Odin"


“A partir de Stanislavski, ver não só como uma companhia que apresenta, com contratos durante três anos, com objetivos comerciais de ganhar dinheiro e de encher a barriga, mas sim pela ótica da continuidade. Foi a obsessão de todos os reformadores do teatro que nos moveu”.

“Em 1964 houve o início do Odin. Era um grupo de aficcionados. Não tínhamos local para ensaios, nem dinheiro. Ensaiávamos numa sala de ginástica, com medidas de 10mx15m, que vocês encontram reproduzido no palco do espetáculo “O Sonho de Andersen”.

“Eu pensava o teatro como um lugar de continuidade de relações. Não havia dinheiro, nem prestígio. Na Noruega, não achei trabalho. A sociedade não permitia. Então, eu teria que aceitar o que a sociedade decide para mim? Não. Eu preciso destruir, romper, quebrar a realidade. Criar uma maneira de pensar paralela que não levasse em conta o aspecto da razão. Não queremos que os outros imponham os seus valores”.


“No fundo, o trabalho teatral é uma possibilidade de dar forma a este diálogo com as formas obscuras, como se escolhe a história, como se organizam os espaços”.

“O teatro para mim no qual não se tomava em conta as ideologias, mas a vulnerabilidade”.


Por isso, Stanislavski representa o modelo, não só a técnica pelos livros. Foi uma pessoa que quebrou as circunstâncias históricas. Provocou uma Revolução Antropológica, o nosso modelo europeu de fazer teatro”


“Uma obsessão do Odin é a continuidade de grupo”

“Odin Teatret, Living Theatre (USA) e Grotowski eram os três representantes do teatro de grupo. Para os outros era um bando de aficcionados. Não passamos por escola teatral, aprendemos pelos livros e ensinávamos uns aos outros. Não porque éramos talentosos ou originais, mas porque éramos diferentes dos modelos que existiam. Os grupos começaram a olhar o Odin como precursor, não como modelo.

“O Odin ficou com um animal obsceno na zoologia do teatro. Um monstro dos Galápagos”.

“O ofício tem valor importantíssimo, não é só a técnica. Os outros descobriram o teatro como uma bomba, para fazer tremer a sociedade, transformando o teatro em veículo de desenvolvimento pessoal. Emulando e tentando emular. Quando fica tanto tempo junto é um monstro obsceno. Não se existe há mais de 40 anos. O teatro tem natureza efêmera”.

“Hoje em dia, os grupos ficam 10 anos e vão se quebrando”.

“No começo, há o desejo de aprender; aos 10 anos, há o momento da insegurança; aí chega o momento de desaprender. O Odin se encerra dois anos, prospecta lugares onde não há teatro, promove encontros com teatros de grupo”


“Estive na América Latina a primeira vez em 1973. Andei de carros dois meses por Peru, Bolívia, Colômbia e terminei a viagem no México. O Brasil era um país completamente imaginário e onipresente. Conheci o país a primeira vez por um livro: Os Sertões, de Euclides da Cunha. Antes só conhecia Carmen Miranda, Samba e Copacabana”.


“Com Os Sertões, passei a conhecer o estilo em toda a cultura, a história de Canudos. O Milenarismo – sonho de uma sociedade diferente”.

“O Evangelho de Oxyrinchus (peça de Barba de 1985) tem alguns aspectos da cultura brasileira bem presentes no espetáculo. O biógrafo de Stalin está vestido de Lampião”.

“Conheci também Guimarães Rosa, uma maneira de contar a história diferente, o fluxo de consciência, uma construção de narrativa fora das normas convencionais”.


“O primeiro brasileiro que encontrei se chamava Luiz Otávio Burnier (fundador do Lume, em Campinas). Em 1983, ele me dizia que eu tinha que vir ao Brasil. Que era um paraíso para a antropologia teatral. Eu achava que a Ásia era este o paraíso, achava que o Brasil ser este local era folclore.

“Em 1987, ele convidou o Odin para vir ao Brasil e fomos a Campinas, São. Paulo e Rio. A congada, bumba-meu-boi, candomblé, terreiros, não se pode estudar tudo isto
sem passar por antropologia teatral. É como uma porta aberta”.


“No Brasil, eu sempre tive laços fortes com duas pessoas, com o Luiz Otávio Burnier e com a Nitis Jacon (idealizadora do Festival Internacional de Teatro de Londrina)”

“Londrina é um local privilegiado para o teatro” .

“Qual é a diferença entre o Odin e os outros? Saber contar uma história. Nós pensamos em diferentes categorias de ações teatrais e vocais”.


“O Odin trabalha o átomo, como um poeta, como Stanislavski e Meyerhold”


“É importante questões como estas: Como trabalhar em ações físicas? Como montá-la em dramaturgia? Como ter organicidade? Como desenvolver a narrativa? São frutos que te orientam como espectador.”


“A dramaturgia deve mesclar os clichês com ações originais”


“A improvisação da Commedia Dell´Arte corresponde a Stanislavski. É como no jazz, tem que saber o tom e variar”.

Em Stanislavski, a aprendizagem se dá observando, imitando, personalizando”.

“No caso do Odin, a técnica teatral tem duas convenções: Formalidade e Estilicidade


“Qual é a solução de hoje: aprender o máximo possível e depois pessoalmente escolher e utilizar o que mais funciona para você. A técnica, tu só podes incorporá-la.

“Deve se atuar 300 vezes diante do espectador. Aí aprende e vira um tapete voador. Hoje, os jovens fazem projetos, apresentam 10 vezes e já param.


“No tempo de Shakespeare e Molière, eles eram capazes de atuar a cada dia, porque senão passariam fome”.


“Se sou artista, eu sou diferente. Tentei ser pintor, mas depois descobri que existe um ofício, onde você senta numa cadeira e diz: Faz isto ou aquilo”.


“Assim como Einstein concebia a coisa mais difícil é pensar o pensamento. Para mim o teatro é um refúgio do pensamento”.



“Nunca pensei em adaptar-me as exigências de uma cidade ou de uma subvenção para a nossa especificidade. O Odin está submetido às leis da natureza do teatro. Desde que o fundamos, sempre foi uma obsessão pessoal. Quero destruir esta noção de se adaptar às exigências. Existe um grupo que vive junto a sua história, que não desagrega. As pessoas ficavam não pelo dinheiro ou pelo contrato. Então pensamos em como inventar uma dinâmica de grupo, um festival em Holstebro, projetos diferentes dos integrantes para também satisfazer as necessidades individuais”


“Todos têm tarefas organizativas. Assistência. Limpar o teatro. O modelo do Odin indica que é possível este tipo de grupo. Brecht, Grotowski e Stanislavski eram pessoas com uma obsessão, que o Odin também tem: a continuidade”.

“Há um acordo, o Odin existe até quando os integrantes estiverem vivos. Quando todos morrerem, morre o grupo”.

“O que estamos fazendo, passando para as pessoas o nosso teatro. Esperamos que daqui há 50 anos vocês possam ver o Odin com os seus netos”.

Quarta-feira, Abril 28, 2010

O Coração Louco de quem vive as glórias do Presente



Eu não vivo da glória do passado. O João de Ricardo talvez viva, apesar de que ele é totalmente futurista na concepção da sua pesquisa em performance art O Homem que não Vive das Glórias do Passado, junto com o co-diretor e videomaker Bruno Gularte Barreto. Jeff Bridges teve muitas glórias no passado com Pescador de Ilusões, Sem Medo de Viver e Susie e os Baker Boys. Mas a maior delas foi com Coração Louco, com o qual conquistou o Oscar de Melhor Ator. O coração louco de João e Bruno nos coloca dentro de um mundo absurdo, adaptado de um conto de Bruno, aquele onde um homem é bem-sucedido, com fórmulas milagrosas, mas se vê trancafiado em seu apartamento, enquanto todas as mulheres do mundo estão mortas. O personagem Bad Blake no filme roteirizado e dirigido por Scott Cooper não tem mulheres mortas em sua volta, mas ele mesmo flerta com a morte, enquanto as mulheres ainda celebram a glória do seu passado.

A tecnologia, as imagens em profusão e a luz manipulável, ao alcance do performer/ator/diretor João de Ricardo, concebida por Carina Sehn, são na verdade o alicerce de uma multiplicidade criativa que coloca o espetáculo da companhia Espaço em Branco num patamar diferente, que não pode ser analisado à primeira vista. Não pode ser enquadrados por críticos tradicionais, destes que escrevem há séculos nos jornais da cidade, nem por outros ferozes, que destilam veneno em seus comentários. O Bad Blake de Bridges também sofre este preconceito. Vive de shows com canções antigas, das glórias do passado, mas se compusesse algo novo, o seu pupilo Tommy Sweet (Colin Farrell), um cantor country de sucesso o gravaria e ele veria de novo a cor do dinheiro.

O homem de João de Ricardo não quer saber disso. Ele quer saber de Bob Wilson e de Zé Celso. Da linguagem desnudada, do amordaçar com fita durex ou crepe, de conduzir duas dúzias de pessoas do público até o camarim e contar como se estivesse em um bar como é a sua vida, as suas experiências e como ele chegou até ali. Já no palco, novamente Carina, aquela que quer ver a luz ser tocada, chama cada um da assistência para sair do palco pelo nome e pela data de sua morte, aquela onde ele vai assistir ao espetáculo, sentado confortável e incomodamente diante de um homem em profunda transe, furor e algum questionamento, com uma riqueza estética ímpar.

Blake/Bridges foi toda a sua vida uma pedra rolando, ao som do country, mas encontra um amor, uma mulher que não está morta, a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal) e ela lhe dá um sentido para viver junto com seu filho pequeno. O cantor decadente, que ainda vive das glórias do passado, que bebe, fuma, está à beira do câncer e de outras doenças, acaba por ter uma razão para viver e até o distanciamento dela o faz compor. Como se o homem precisasse do par. No caso da peça da Espaço em Branco, o par formado por Bruno e João é fundamental para a performance de João. O artista pesquisa e mostra resultados concretos, sons dignos de David Lynch criados por Douglas Dickel ao vivo e a câmera de Pedro Karam não perde só uma expressão do ator. O que fazer com a existência, quando se está em meio a uma peça, querendo dar um sentido a todas as coisas, rompendo com a barreira do teatro tradicional. Nada ou tudo aquilo que foi feito. Não digo assim que o espetáculo com pouco mais de uma hora e meia resolva todas as suas brechas, porque as narrativas vão se construindo com o tempo, ainda mais neste tipo de trabalho experimental.

Bad Blake canta e toca bem o mais legítimo country e vive amargurado. João de Ricardo conhece as agruras do homem e desenvolve uma linguagem interessante de performance art. Os demais trabalhos da companhia estão aí para mostrar que há uma linguagem consistente, que eu não sei onde vai dar, nem quero saber.
Também não sei onde o Jeff Bridges vai parar. Apesar do filme Coração Louco ser simples no esquema decadência e uma certa redenção para que ele volte a compor e obtenha um certo sucesso e volte à estrada, é apenas um filme, como o o Homem que Não Vive da Glória do Passado também é apenas um espetáculo. Porém, o que estas duas formas de arte nos provocam, isto é o objeto de discussão. Em mim, estão claros
os sintomas. Vontade de criar, de não sufragar, de não viver de um livro ou conto bem escrito. De uma matéria jornalística bem feita há alguns anos. Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantava o Gonzaguinha, cujo apelido certa vez já me serviu.

A fita durex/crepe que amarra o rosto de João de Ricardo impede a expressão e a voz, bem como os fluídos que escorrem pelo seu rosto. A televisão e a mercantilização do mundo nos impede a expressão, a voz e o pensamento. Bad Blake faz tudo no automático, só pensa quando o coração enlouquece: “mas não deixa esquecer o caminho do coração”, diz a música Crazy Heart, tema do filme.
Alguém pode me perguntar por que relacionar estas duas histórias. Não há motivo razoável. Porém, digo que há um universo intangível, pairando em volta de todos nós. Nele, estão os Quixotes, as Alices, os homens, os músicos, os Holden Caufields, os Jean Valjeans, os Brás Cubas, os atores, enfim, os escritores. Lutando pelas ideais, pela arte fora dos padrões ditados e tradicionalmente aceitos.

O homem deve ter o seu coração cada vez mais louco e não aceitar os pensamentos impostos, nem tampouco as glórias do passado e neste sentido o espetáculo da cia Espaço em Branco e o filme de Scott Cooper cumprem o seu papel, nos despertando para algo. Parabéns a eles. Viva a arte. Viva o homem, sua reflexão e sua inconstância.

Luiz Gonzaga Lopes – jornalista

Segunda-feira, Abril 19, 2010

Por que tudo que é bom acaba um dia


Invariavelmente esta frase nos persegue como uma sentença de morte. Tudo que é bom um dia vai acabar. Para falar em séries, não consigo me conformar com o final de duas séries de tevê (alguns vão chamar de enlatados e o falam por ignorância da importância da mitologia de algumas séries para a formação do pensamento crítico de qualquer pessoas, mas isto é outra história). As séries em questão são 24 Horas e Lost. A série da ilha já tinha o seu final anunciado há muito tempo. Como todo seriemaníaco já assisti até o episódio 12 exibido no país comandado por Obama. Toda a mitologia está sendo explicada, com recuos no tempo de séculos, como no caso do Richard Alpert. J.J. Abrams e os produtores já disserem que não haveria mais o quê dizer após a sexta temporada. Hurley agora conversa com os mortos, principalmente com Jacob, o representante do bem na ilha (maniqueísmo é uma das fórmulas mais clássicas de narrativa, principalmente dos países derivados da linhagem anglo-saxã). O mais triste, porém, foi o anúncio da morte da série do imortal Jack Bauer. Ao produtor Brian Grazer coube esta tarefa. Kiefer Sutherland está meio passadinho na forma física, inclusive já é vovô na série, pois Kim já tem uma filha. Está se vendo melhor com as pistolas e metralhadoras do que com esforço físico, mas ele podia aguentar mais uns dois anos e se retirar na 10ª temporada, como outras duas clássicas: Seinfeld e Friends. O problema é que ele tem uma coisa meio Roberto Carlos. Todas as mulheres pela qual se apaixona, morrem. Outra fórmula clássica, até clichê. O agente da CTU que dá o sangue pelo bem comum dos Estados Unidos, o fiel escudeiro do presidente, no caso Wayne Palmer, Charles Logan ou da presidente Alysson Taylor, acaba sempre sozinho. Faltam sete míseros capítulos, mas que representaram uma vida de quem acompanha há nove longos anos uma série que marcou história, assim como outras ao longo da história: A Gata e o Rato, McGyver, CSI (que continua marcando), Carnivale, entre outras.
Por falar em marcar história, quem está ameaçada de acabar na primeira temporada é Flash Forward, com o piegas Joseph Fiennes. Apesar do papel principal do agente Mark Benford ter sido mal escolhido, ele não está comprometendo tanto. A série é um achado. Um apagão global faz com que as pessoas fiquem 2min17s inconscientes em todo o mundo. No momento da bobeira, todos avançam o pensamento em seis meses. Tudo que ocorreu durante este apagão vai fazer com que cada um construa um mosaico e os agentes do FBI vão investigar o ocorrido. Estou no 16º capítulo da primeira temporada, esperando que ela tenha pelo menos uma segunda dose em 2011.

Crédito foto: Fox / Divulgação

Domingo, Abril 11, 2010

Disney pasteuriza a Alice de Burton


Não adiantou um grande diretor colocar as suas mãos e sua inventividade estética a serviço de Alice. O filme Alice no País das Maravilhas que estréia em Porto Alegre no próximo dia 21 de abril é belo, porém pasteurizado pelo efeito Disney, que mais recentemente só conseguiu deixar à vontade o primeiro filme dos Piratas do Caribe, transformando as duas seqüências em filmes de muita aventura e grande limitação narrativa.

Neste filme, Tim Burton até que tenta criar grandes licenças poéticas dentro da mitologia criada por Lewis Carroll, transformando o Chapeleiro Louco num personagem mais destacado que Alice, os méritos vão todos à parceria com Johnny Depp que transforma o Hater em um terno e insano personagem, fundamental para o desenvolvimento da história, às vezes até com um pouco de flerte com a jovem Alice (Mia Wasikowska).

Apesar do empacotamento da narrativa por conta do estúdio que a produziu e de algumas pequenas falhas de roteiro e continuidade, como no caso das cenas em que Alice estica e encolhe, nas quais as roupas não seguem a proporção exata, o filme tem algumas riquezas que não podem ser desprezadas.
As criações de Burton para situações como a cena do chá, o jogo de croqué no castelo, as criaturas como o gato Cheshire (Stephen Fry) e a lagarta Absolom (Alan Rickman) são realmente impressionantes, assim como a atuação de Helena-Bonham Carter como a cabeçuda Rainha de Copas. Destaque negativo para a interpretação afetada e caricata de Anne Hathaway como a Rainha Branca.

Na história de Burton, que compila situação de Alice no País das Maravilhas com Alice Através do Espelho, a jovem está com 19 anos e está sendo pedida em casamento por Hamish (Leo Bill), filho de Lord Ascot (Tim Pigot-Smith) do sócio do seu pai Charles Kingsley, já falecido, que lhe apresentou 13 anos antes a história da menina no País das Maravilhas.

Ao fugir do coreto foi pedida em casamento, Alice foge e vai atrás do Coelho Branco (Michael Sheen), caindo num buraco e enfrenta situações como a de esticar e encolher, depois conhece personagens extremamente engraçados como os gêmeos gordos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas). Muitos destes personagens questionam se ela é a verdadeira Alice, que com a espada Vorpal vai matar Jabberwock (Christopher Lee) no Dia Colossal e devolver a coroa à Rainha Branca, usurpada pela Rainha de Copas, aquela que quer sempre cortar as cabeças de seus adversários e seu fiel escudeiro, o valete Ilosovic Stayne (Crispin Glover).

Alice passa o tempo inteiro pensando que tudo é um sonho e assim enfrenta os seus medos e alguns monstros como o temível Bandersnatch, mas ela descobre que já esteve no País das Maravilhas 13 anos antes e até o fim da jornada, o Dia Colossal, ajudada pelo Chapeleiro e outros personagens como o cão farejador Bayard (Timothy Spall), o Rato (Barbara Windsor) e a Lebre (Paul Whitehouse).
A partir do que está escrito no Compendium, todos já sabem que Alice realmente será a campeã e vai enfrentar o monstro alado da cabeçuda Rainha de Copas. Alice não tem tanta certeza, mas lembra que às vezes acredita em seis coisas impossíveis antes do café da manhã, quando já está com a armadura para a batalha final: numa poção que a faz encolher, num bolo que a faz crescer, em animais que falam, em gatos que aparecem e desaparecem, no País das Maravilhas e, finalmente, que ela pode matar Jabberwock.

O clima final do filme já é totalmente Disney, o que tira um pouco o brilho da batalha, pois tem um quê de redenção fabular, mas não tira o mérito da versão de Burton para o clássico de Carroll. A coroa volta para a Rainha Branca e a Rainha de Copas é punida. No final, mais méritos para a interpretação de Johnny Depp, que faz o Chapeleiro Louco dançar magistralmente a dança da vitória, o Futterwacken, e com um olhar carente consegue dar magia à despedida de Alice, que vai voltar a superfície dos vivos, longe do País das Maravilhas. Destaque também para a voz de Alan Rickman, como a sábia lagarta Absolom.

Na volta do buraco, Alice resolve todos os problemas que tinha e ainda vai se aventurar a comercializar produtos ingleses na China, sendo aprendiz de Lord Ascot. Nesta parte do texto, aparece um pouco da verve imperialista do texto de Lewis Carroll, tão comum aos ingleses e a seus genéricos estadunidenses. Um bom filme, um pouco atenuado pelo impacto dos estúdios Disney.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Giacomina, uma grande boneca de pau


Acabei de assistir "Giacomina en voyage", do grupo de teatro de bonecos italiano (da Sardenha) Is Mascareddas, dentro da programação do 16º Porto Alegre em Cena. O espetáculo é bem bom, principalmente pelo grau de dificuldade e de movimentos dos bonecos articulados em madeira. Giacomina é uma menina que olha o mundo pela janela de sua casa e resolve conhecê-lo, acompanhada do burro Berrabó, mas ele desaparece misteriosamente e a sua busca passa a ser pelo companheiro. A criança que pergunta, que suaviza o mundo, que tira o véu de uma noiva por pirraça, que cumprimenta as pessoas, mesmo que receba um batida de pratos de percussão como resposta. Uma saga bem bolada, com bonecos inspirados no artesanato de mestres sardenhos da década de 20,30, 40 e 50, do século 20, como Eugenio Tavolara e Tosino Anfossi. Tudo isto embalado por uma trilha sonora belíssima, com destaque para os temas com fundo árabe. Bello.

Aqui publico uma entrevista feita em inglês e italiano com a diretora artística Donatella Pau, o ator-manipulador Antonio Morru e a agente e produtora Maria Carozza:


1- First of all, I would like to know how and why is this homage to Eugenio Tavolara and Tosino Anfossi?

"Giacomina en voyage" richiama un momento storico fondamentale per la nascita del moderno artigianato artistico in Sardegna e getta una nuova luce su un patrimonio culturale, quello della collezione Atte, che ha svolto un ruolo importante nella cultura del Novecento in Sardegna.
ATTE è la sigla della società fondata negli anni 20 da Eugenio Tavolara e Tosino Anfossi a Sassari (the puppets are like some artistic toys whom are realized between 1920 and 1950 by two important figurative artists of our country: Eugenio Tavolara and Tosino Anfossi. They can be included in to Futurism Moviment):
un vero laboratorio di progettazione e creazione di giocattoli e di oggetti, per lo più di legno tornito e policromato, raffiguranti personaggi popolari del mondo agro-pastorale, ma anche urbano, della Sardegna. La sintesi creata dai due artisti, con la semplicità della scultura e l’uso del colore, rende questi personaggi fortemente espressivi trasformando le ambientazioni popolari come il carnevale, le processioni religiose, le sagre paesane, la via crucis, ma anche le favole come Pinocchio, in un patrimonio artistico interessante e prezioso per la nostra isola.
La produzione dei due artisti è stata notevole. Oltre al lavoro di ricerca per la creazione e l’innovazione della produzione artigianale in Sardegna, vi sono compresi, appunto, i giocattoli.

La Compagnia Is Mascareddas vide per la prima volta parte della collezione a Villanovaforru (in Sardegna) nel 1991.
Nel 1996 fu presentata a Sassari (Sardegna) la mostra “Eugenio Tavolara - scultura e arti applicate 1925-1962”. In quelle due occasioni la Compagnia ha potuto ammirare questi pezzi d’arte e già da allora ha pensato di dedicare loro un lavoro di “attualizzazione teatrale”.
Donatella said: a queste sculture mancava il movimento. Noi abbiamo pensato di farli rivivere in una storia che richiama delle atmosfere legate alla nostra isola


2 – What kind of character is Giacomina, always following by Berrabó donkey?

Donatella said: She is our guide trought this ancient and magic world. She go straight and find this world.
She look at this world which it's "like a stone" with a free and cool look. She is a baby who one day lives a story of love and death. She loses her donkey, but at least she find it again. She lives like in an initiatition to life. The adults don't talk like her, but she doesn't care of it.

3 – Tell us about the story, the narrative and animation
Donatella said: it didn't an easy work! the Tavolara and Anfossi's world is made by a lot of interesting caracthers. We started from that figures and after we created a story around them.

4 – Do you know something about puppet animators and animation from Brazil and from Porto Alegre?

Donatella said: Yes, Ubiratan Carlos, Anima Sonho, Compagnia Sobrevento, Catibrum (Lelo Silva and Adriana Focas Festival of Belo Horizonte).

5 – What the next projects of your group?
Donatella said: we are working at a new show without words for adults with two puppetts, Emilio and Norma. It talkes about this couple who try to find some new energy, some strategies for "escape from the misery of life".
At the end of 2008 we opened our new theatre in Monserrato, near to Cagliari, the capital of Sardegna.
Here we're organizing festival, some courses of different performing arts - like animation theatre, contemporary dance and concerts. Our principal purpose is to advance the culture around the Animation Theatre in Sardegna, because in our land there isn't a tradition about it and to bring in Sardegna the most important companies from over the world.

Rock por instantes


O show de Jerry Lee Lewis no Pepsi On Stage na noite desta quarta-feira foi daqueles shows mais dar gostinho do que propriamente para curtir intensamente. O público bem que tentou. As cerca de 1,8 mil pessoas que foram ao local procuraram mostrar o seu vigor rock na atitude, no vestuário - principalmente as mulheres com vestidos que lembravam os bailes americanos das décadas de 50 e 60. Em compensação, o show durou cerca de uma hora, das quais em apenas 38 minutos o pianista natural de Ferriday, na Louisiana com 73 anos e aquele sotaque anasalado do sul dos EUA comandou as ações, com a sua agilidade peculiar ao piano. As primeiras quatro músicas foram com a banda que o acompanhava. Ele desfilou alguns sucessos como Whole Lotta Shakin, Roll Over Beethoven e Great Balls of Fire. O público que pagou de R$ 80,00 a R$200,00 para ver o show saiu com um gostinho de quero mais, mas também com a certeza de ter visto uma lenda viva do rock, fazendo de tudo para mostrar que o rock (seus riffs e atitude) jamais vai morrer, mesmo que os seus protagonistas envelheçam.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Fadada ao Universal


A seguir publico na íntegra uma entrevista com a cantora portuguesa Mísia que se apresenta no 16º Porto Alegre, na quarta-feira, 16 de setembro, às 21h, no Theatro Sâo Pedro. A entrevista será publicada parcialmente no Correio do Povo. Não há mais ingressos para o espetáculo. O crédito da foto é Divulgação/Poa em Cena


1 - O que você pode nos dizer do show Ruas? O disco duplo é extremamente universal, pois apresenta a música portuguesa (Lisboarium) e investiga o fado que há cada canção universal em Tourists. O show nos remete a este clima "fados em todos os gêneros" e "canções universais com alma portuguesa"?
-O FADO é uma musica mas antes disso ja era uma palavra que significa Destino, Fatalidade.
Em Lisboarium sonha-se uma Lisboa desde longe e ouvem-se fados, Morna e Marchas de Lisboa.
Em Tourists ouvem-se temas de repertórios de artistas que tiveram uma relação tragica com o Destino( Ian Curtis, Dalida, Luigi Tenco, etc) e géneros musicais ( Flamenco, Enka Japonesa, Ranchera, Cançao Napolitana)que cantam noutras línguas de outras culturas, as mesmas emoçoes e sentimentos que canto no Fado. Neste sentido nao me mexo nem um milimetro, estou sempre no mesmo ponto.



2 - Por que decidiste cantar em tantas línguas? Isto revela a importância de extrair a musicalidade de cada língua? Existe projeto de um disco novo e show sem cantar em língua portuguesa?
Acho que cada língua tem uma maneira de sentir a vida e tem uma musica propria das suas gentes. Sempre que posso, evito traducçoes. Sim ha um projecto sobre Chopin para o ano 2010 (Bicentenário do seu nascimento)que penso que sera cantado todo em polaco e francês. Mas ainda esta em embriao.
3 - E a parceria com Adriana Calcanhoto, onde surgiu a ideia deste encontro tão produtivo e como serão as participações dela em seu show e sua no show dela?
Adriana e eu já nos conhecemos há alguns anos em Lisboa onde eu cantei para ela numa casa de Fados. Depois ela foi a minha convidada no concerto do Palau de la Musica de Barcelona, no Festival Unicas, no ano 2007. Sou uma grande admiradora do seu trabalho, cheio de talento e sensibilidade. Seguramente faremos uma colaboraçao cantando alguma musica do repertório uma da outra. Tudo será decidido na energia do momento do nosso encontro em Porto Alegre.
4 - Alguns lhe consideram como uma das principais responsáveis pelo caminho da renovação da música portuguesa. Você concorda com isso e qual a sua proposta para a renovação da música portuguesa?
Nao falarei de mim propria mas o que dizem os livros que agora se publicam em Portugal sobre o Fado é que o que se chama « Novo Fado » começou com o meu primeiro disco em 1991, quando o Fado nao estava na moda nem era parte do fenômeno da World Music. Estou entre Amalia (Rodrigues), que colocou o Fado em quase todo o Mundo num nível insuperavel , e a nova geração. O fado que eu cantei e canto (tendo como principal instrumento a palavra dos poetas que escrevem especialmente para o meu trabalho) nunca foi a resposta a uma demanda da industria discografica ou cultural. Nao sabia se haveria um publico para o meu Fado quando comecei.
Canto o Fado para comunicar com o Mundo e gosto de através dele dialogar com outras disciplinas artisticas de outros paises, com outros artistas, desde Bill T.Jones a Fanny Ardant ou Maria de Medeiros. Desde Patrice Leconte a Maria Joao Pires. O meu fado que respeita os profissionais das casas de fado de Lisboa, tem de ser universal , pois assim eu sinto o mundo. É uma simples linguagen para falar da vida e ser compreendida em Tokyo, em Nova York , em Porto Alegre etc. Cantar o fado é um meio , um instrumento cultural , nao é um objectivo. Nao procuro ter uma voz limpa ou perfeita Gosto de cantar como Maria Madalena, nao como a Virgem Maria …


5 - Para que caminho deve apontar a tua música no próximo registro em disco?
Nao faço a mínima ideia ainda ( risos) De momento estou metida em varios projectos muito diferentes entre si ( Chopin,Musica Barroca, participaçao num filme de John Turturro sobre musica napolitana, um documental que vou fazer sobre o fado no femenino etc). Nao sei se os novos concertos serão gravados, nao é essa a minha preocupação. Sou sobretudo uma intérprete de palco, é aí que reside a minha força que depois pode ou nao vir a transformar-se num disco, DVD, etc
Talvez um disco brasileiro inspirado por Clarice Lispector, Manoel de BArros, Raduan Nassar, Tarsila do Amaral….. quem sabe o que levarei comigo desta viagem ( sorriso) Gostaria muito de conhecer o Chico Buarque….. Sou uma admiradora da música brasileira e gostaria de vir mais vezes a este país.

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

A Magia Inebriante do Vinho


Texto escrito para a Fenavinho 2009 e não publicado:


A MAGIA INEBRIANTE DO VINHO


Quem já bebeu e celebrou com vinho sabe as transformações que ele opera no ser. Quem não bebeu, não sabe o que está perdendo. O vinho é uma bebida mágica que atravessa os tempos e inebria a história.

O espetáculo cênico da Fenavinho: Ópera Popular do Vinho – Mito e Magia – mostra a história do vinho desde o homem primitivo, passando pelos rituais pagãos aos deuses e faraós e depois cristão até a vinda dos imigrantes italianos para transformar Bento Gonçalves na Capital Nacional do Vinho no século 19.

A uva virou vinho, o vinho foi bebido em rituais, foi santificado transformando-se no Sangue de Cristo e foi o norte dos italianos que deixaram a sua terra natal para plantar a semente das suas vidas em Bento. Os seus habitantes trabalham pelo vinho, rezam com o vinho e festejam com o vinho. É a bebida ritual. Bebida santificada. Bebida que dá o sustento ao seu povo. Bebida benta.

O vinho com sua magia inebriante aparece em todo o seu esplendor na Ópera Popular do Vinho. O homem primitivo vem primeiro, transformando tudo, colhendo a uva que cai na terra e bebendo o suco fermentado do fruto da videira. Assim, aquele homem rústico descobriu a magia, acessou ao estado fantástico do ser, a essência, a transcendência.

O espetáculo segue mostrando a bebida como ritual para os deuses gregos e romanos – Dionísio e Baco – e para os faraós. A consagração para os cristãos é quando o vinho se transforma no Sangue de Cristo. Os sinos dobram por este milagre.

Os italianos aceitam este cálice e vão trabalhando, bebendo e rezando, firmando sua crença, até que uma praga os obriga deixar o seu país em navios a vapor, carregar em mudas de videira o seu sonho e chegar a uma cidade abençoada.

Na representação, Bento Gonçalves se ergue em torno do cultivo da videira e passa a ser a Capital Nacional do Vinho. Som, luz , cor, vinho, festas, carnaval, carros alegóricos representando carruagens, navios, a Pipa Pórtico da cidade. Um clima de enlevo e grande celebração com todos reunidos durante 1h20min em torno deste líquido precioso que inebria a alma e nos transforma em seres mais plenos.


LUIZ GONZAGA LOPES
JORNALISTA







O VINHO PELOS PENSADORES


“In vino veritas.” (“No vinho, a verdade.”)(Plínio, o Velho)


"O vinho é o amigo do moderado e o inimigo do beberrão."
(Avicena)

"Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram." (Cícero)

"O vinho é a prova constante de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes." (Benjamin Franklin)

"O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria." (William Shakespeare)

"O vinho é o sangue da terra." (Plínio)

"O vinho consola os tristes, rejuvenesce os velhos, inspira os jovens, alivia os deprimidos do peso das suas preocupações." (Lord Byron)

"O vinho tem o poder de encher a alma de toda a verdade, de todo o saber e filosofia." (Jacques-Bénigne Bossuet)

Sábado, Junho 27, 2009

História infantil em concepção



Esta é uma história infantil que está sendo gestada. Em primeira mão, algumas linhas:


João Livrinho

João Livrinho era um menino muito bonito, cheio de conhecimento, todo ajeitadinho. No inverno, usava dois tipos de capas, uma dura, para evitar a chuva e a ação do tempo, e a outra mais molinha, uma brochura, que aderia mais ao seu corpo e mexia mais quando caminhava.
Infelizmente, João Livrinho não era tão notado pelos seus coleguinhas. Eles pouco davam bola para o garoto. Só era percebido, quando a professora dizia para eles olharem para ele, para lerem e interpretarem o colega. Nem precisa dizer que João Livrinho se sentia super importante. Dava para ler nas suas entrelinhas, um sorriso com o cantinho da boca. Mas a alegria durava pouco.
Batia o sinal para o recreio e ele ficava anônimo. Muita lutinha, correria, mas ninguém vinha falar com ele. E todo o conhecimento que ele tinha era desperdiçado, pois era obrigado a falar sozinho e a se abrir com o vento e com as árvores ao seu redor.
As árvores que eram maltratadas pelo pai de João, o seu Celulose. Ele precisava da madeira das árvores para fazer o papel, que era o seu ganha-pão. Uma vez, o pai teve uma conversa com o filho tentando convencê-lo que a sua empresa fazia reflorestamento, mas como eram eucaliptos, as reservas da água do solo acabavam secando e a natureza sofria mais ainda.
João que era puro conhecimento, sempre tentava dizer para o pai, que o caminho era a reciclagem, utilizar papéis já usados, mas o pai ficava impaciente, pedia para ele não se meter em assunto de gente grande. Às vezes até lhe dava uma surra, que as crianças precisavam ter limites. João chorava no cantinho com cuidado para não molhar as páginas do livrinho que sempre carregava.
Ao dormir, João era tantas histórias ao mesmo tempo. Em algumas, ele era o personagem principal, um cavaleiro ecológico, que cavalgava pelas beiras de rios, impedindo as pessoas de jogarem garrafas plásticas, as pets, na beira.
No sonho, chegava até a ir aos supermercados pedir para que as pessoas comprassem garrafas de vidro. Se comprassem as plásticas, ele grudava um adesivo nas garrafas, dizendo para que eles separassem elas do lixo orgânico: restos de comida, folhas e outros organismos vivos, e também dos papéis e do papelão.
Outras vezes era Dom Quixote, o cavaleiro espanhol; Phileas Fogg, o homem que viajou o mundo em 80 dias; ou até Alice, a menina que mergulhou num mundo de maravilhas. Era um sonhador com páginas acordadas.
Um dia, João Livrinho decidiu pedir para sua mãe, dona Impressora para organizar uma festa que reuniria os seus familiares. Seria uma festa chamada Biblioteca. Todos agrupados, alguns parentes convidando um tio de Livrinho, o senhor Romance, para dançar; outros querendo dançar com a sua tia, dona Poesia. Festa animada, cheia de sopa de letrinhas para comer e de suco de palavras para beber.
A festa corria às mil maravilhas, mas Livrinho tinha muitos planos de levar os seus primos e amigos para tomar um banho de páginas, como eram chamadas as piscinas do clube que ele freqüentava. Lá, entre brincadeiras como bombinhas e caldinhos, Livrinho teve uma idéia de reunir mais chegados para uma aventura para salvar a natureza, principalmente as árvores e os lixões, das ações destrutivas dos homens, muitas até por desinformação e falta de campanhas de conscientização.

Os meninos todos concordaram e também uma amiga e uma prima. Éramos seis agora. Todos com uma grande idéia para salvar os pulmões do mundo.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Tempestade de lágrimas

O que Clint Eastwood conseguiu ao dirigir e atuar em “Pontes de Madison”, o diretor George C. Wolfe tentou, mas ficou no meio do caminho. O filme de Eastwood, a partir do romance Robert James Waller, foi um melodrama sério, que tira o máximo da narrativa de amor entre um fotógrafo e uma mulher, recuperada pelos filhos dela. Em “Noites de Tormenta” (“Nights in Rodanthe”). Com a dupla de “Infidelidade” - Richard Gere e Diane Lane – à frente do elenco, Wolfe adapta o romance de Nicholas Sparks, sobre uma artista plástica e um médico, que encontram sozinhos numa pousada, durante as tormentas de Rodanthe, no estado americano da Carolina do Norte, passam a ter um nova chance de encontrar o amor. Adrienne Willis (Diane Lane), tenta se recuperar da morte do pai e da traição do marido Jack Willis (Christopher Meloni) e se oferece para cuidar da pousada da amiga Jean (Viola Davis), que tem a reserva de apenas um hóspede, o médico Paul Flanner (Richard Gere). Ele foge do que a sua vida se tornou, após um suposto erro médico e vai tentar refazer o erro, conversando com o marido da paciente que morreu na sua mesa, Robert Torrelson (Scott Glenn) . Os dois estão em busca de encontrar a si mesmo, na relação com os seus defeitos, suas virtudes e com suas famílias. Os méritos do filme são a boa química entre Diane e Gere. (eles dizem que a afinidade deve ter vindo de vidas passadas), a trilha sonora baseada no jazz de Dinah Washington, Benny Brook e Count Basie e os cenários paradisíacos, numa fotografia que privilegia o mar, os bancos de areia e o pós-tormenta. Os pecados são a falta de profundidade do drama, a resolução fácil de alguns nós narrativos e a provocação gratuita a uma tempestade de lágrimas, sem que a história pudesse conduzir até isto.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Oasis brilha como Supernova


Para um público que esperou 15 anos para ver de perto o britpop do Oasis e os destemperados e irreverentes manos Noel e Liam Gallagher, a banda de Manchester brilhou como uma estrela Supernova. Aliás, Champagne Supernova foi a última música própria, a vigésima do cardápio de 21 canções em 1h45min, no show desta terça-feira, 12, no Gigantinho, em Porto Alegre.
Diante de 12 mil pessoas, a banda foi precedida pela Cachorro Grande, o correspondente gaúcho do Oasis, que tocou 12 músicas durante 45 minutos, fechando com a clássica beatle "Helker Skelter". Às 21h40min (em ponto!), começaram os primeiros acordes da instrumental Fuckin´the Bushes e o público formado basicamente por gente com idades entre 20 e 40 anos se agitou. A partir de "Rock´n´Roll Star" foi uma alternância de sucessos dos primeiros discos e seis músicas novas do disco "Dig Out Your Soul" (2008), como "The Schock of The Lightning" e "Ain´t Got Nothin" e "Waiting for the Rapture".
Com seu fleumatismo, as mãos para trás ou no bolso, Liam arriscou um "Obrigado, Porto Alegre" e também apontou para o público quando nas unânimes "Wonderwall" e "Don´t Look Back in Anger" a massa cantou, empunhhou suas câmeras e celulares, tentando se beliscar para ver se não estava sonhando. Encerrar o show com Beatles parecia ser a tônica da noite e então como já estava previsto no set list da turnê brasileira, "I am the Walrus" foi a apoteose. Destaque positivo para a qualidade do som e da luz. Destaque negativo para as caixas de som na frente dos dois telões e também para a beberrança desenfreada e a pista muito cheia, que ocasionou dezenas de desmaios principalmente nas mulheres. Longa vida ao Oasis, antes que os irmãos briguem para valer.

Segunda-feira, Março 02, 2009

São Paulo

São Paulo

Cidade amada, onde cada esquina se dobra para a cultura e o povo é cada vez mais cosmopolita e contemporâneo. Alguém quer mais. Para mim está ótimo. Fico aqui uns dias. Maravilha.

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Noite, simplesmente

É uma noite, simplesmente
Faltam quatro dias para o Oscar
Novos capítulos na novela da LIC estadual
A Opus anunciou os shows de 2009
O amor é lindo
Kate Winslet será a melhor atriz
Vou passar batido pelo Carnaval
Estou tomando um espumante
O calor nem é tanto assim
Deus existe
Amanhã, vou a um casamento de um casal bacana
O Inter perdeu
Enfim, uma quarta-feira para afundar o sofá
Au Revoir

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

A leitura libertou uma alma


Qualquer que seja o veredicto do Oscar sobre o filme O Leitor, o meu já está tomado, o filme alfabetiza em torno de uma grande história. É de uma rara beleza e soa realmente romântico o caso que a guarda nazista Hannah Schmitz tem com o jovem Michael Berg. Kate Winslet dá uma pureza e uma dureza a sua personagem que deixa-nos de queixo caído. Esta atriz vem amadurecendo a cada trabalho, ao contrário de Nicole Kidman, em descenso. A redenção e a lição mais contundente está na relação da personagem com as letras. Ela pedia para as prisioneiras de campos de concentração lerem os livros para ela. Depois para o jovem, antes de transarem, e finalmente aprendeu a ler pelos livros. Baseado no romance homônimo de Bernard Schlink, que ainda não li, é uma peça rara este filme e merece a atenção especial de todos que ainda não o viram. O filme me alfabetizou de novo (com lágrimas, diga-se de passagem) quando impelida por fitas mandadas por Michael, já crescido, vivido por Ralph Fiennes, resolve mandar fitas-cassete (Basf laranjinhas, lembram!) com os livros lidos por ele (A Odisséia, de Homero; "Metamorfose", de Kafka; e "A Dama e o Cachorrinho", de Tchekov. Todos precisamos ler para viver. Esta película nos ensina que ler é tão importante quanto respirar e qualquer esforço para manter este hábito e prazer sempre vai valer à pena. Stephen Daldry conseguiu cativar mais um leitor pela tela grande e eu espero que os leitores de Textostelona também sejam receptivos a este sensível filme que retrata os horrores da Segunda Guerra pela ótica de uma guarda analfabeta que acalmou sua alma na prisão com a leitura.

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Goya politicamente correto




O Prêmio Goya entregue horas atrás no Palacio de Congresos em Madrid premiou as obras politicamente corretas. Transmitido ao mundo pela TVE espanhola, a cerimônia teve muito humor com a mestre de cerimônias Carmen Macchi e com algumas esquetes dos humoristas do Muchachada Nui, durante pouco mais de três horas. O grande vencedor foi "Camino" com seis prêmios. O filme dirigido por Javier Fesser levou as estatuetas Goya de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Atriz (Carme Elías), Ator Coadjuvante (Jordi Dauder), Atriz Revelação (Nerea Camacho). Ao receber os prêmios de melhor diretor e roteirista, Javier Fesser agradeceu e dedicou o prêmio à personagem real que inspirou o filme, a menina de 13 anos, Alexia González-Barros, cuja doença foi manipulada pela organização Opus Dei. O filme ainda não tem estreia prevista para o Brasil.
Outros prêmios politicamente corretos foram para atores de países de língua espanhola que têm bastante trânsito em Hollywood, como foi o caso do de Melhor Ator para Benicio Del Toro por "Che, o Argentino", de Steven Soderbergh. Del Toro disse ser uma honra receber o Goya, quis compartilhar o prêmio com os demais indicados apesar de não ter visto nenhum dos filmes (crítica implícita aos problemas de distribuição de filmes não-americanos). Disse também que é muito importante que o filme "Che" tenha boa aceitação nos Estados Unidos (outra sub-liminaridade ideológica). Penélope Cruz foi a Melhor Atriz Coadjuvante por "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen, e o Melhor Filme Europeu foi "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", do romeno Cristian Mungiu, que esteve em cartaz em 2008 no Brasil, e trata dos abortos ilegais na Romênia.
O politicamente correto acompanhou a escolha de melhor canção original "A Tientas", do filme "El Truco del Manco" e do protagonista, o rapper e deficiente físico Juan Manuel Montilla, Langui, que agradeceu aos seus pais por lhe terem feito tão forte, mas teve dificuldades de acesso a escadaria do local da entrega dos prêmios. O momento mais emocionante da noite foi a homenagem ao cineasta Jesús Franco com o Goya Honorário. O diretor que em 50 anos de carreira fez mais de 188 filmes entre curtas e longas de todos os gêneros disse nunca ter pensado em receber este tipo de prêmio, oferecendo-o aos mais de quatro mil curta-metragistas da Espanha.

Veja a relação completa dos prêmios

- Mejor Película: 'Camino'

- Mejor Director: Javier Fesser

- Mejor Actor: Benicio del Toro por 'Che, el argentino'

- Mejor Actriz: Carmen Elías por 'Camino'

- Mejor Actor de Reparto: Jordi Dauder por 'Camino'

- Mejor Actriz de Reparto: Penélope Cruz por 'Vicky Cristina Barcelona'

- Mejor Actor Revelación: Juan Manuel Montilla 'Langui' por 'El truco del manco'

- Mejor Actriz Revelación: Nerea Camacho por 'Camino'

- Mejor Director/a Novel: Santiago A. Zannou por 'El truco del manco'

- Mejor Película Europea: '4 meses, 3 semanas, 2 días'

- Mejor Película Hispanoamericanea: 'La buena vida'

- Mejor Guión Original: Javier Fesser por 'Camino'

- Mejor Guión Adaptado: Rafael Azcona y José Luis Cuerda por 'Los girasoles ciegos'

- Mejor Película Documental: 'Bucarest, la memoria perdida'

- Mejor Corto Documental: 'Héroes. No hacen falta alas para volar'

- Mejor Montaje: A. Lázaro por 'Los crímenes de Oxford'

- Mejor Fotografía: P. Femenia por 'Sólo quiero caminar'

- Mejor Música Original: R. Baños por 'Los crímenes de Oxford'

- Mejor Canción Original: 'A tientas' por 'El truco del manco'

- Mejor Dirección Artística: A. Gómez por 'Che, el argentino'

- Mejor Diseño de Vestuario: Lala Huete por 'El Greco'

- Mejor Maquillaje y/o Peluquería: J. Quetglas y N. Sánchez por 'Mortadelo y Filemón'

- Mejor Sonido: Daniel de Zayas, Jorge Martín y Maite Rivera por '3 días'

- Mejor Dirección de Producción: R. Romero por 'Los crímenes de Oxford'

- Mejores Efectos Especiales: Romanillos, Costa, Quetglas, Diaz, A. Grau y Ch. Remacha por 'Mortadelo y Filemón'

- Mejor Película de Animación: 'El lince perdido'

- Mejor Cortometraje de Ficción: 'Miente' de Isabel de Ocampo

- Mejor Cortometraje de Animación: 'La increíble historia del hombre sin sombra' de José Esteban Alenda

- Goya de Honor: Jesús Franco




(FONTE: WWW.ELPAIS.COM, DO JORNAL ESPANHOL EL PAIS)

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Lacunas

Não há o que preencher nestas noites quentes de Porto Alegre. Lotar blogs com considerações, pegar um papel em branco e adorná-lo de palavras, crivar a ausência de balas. Não, não há nada o que fazer. Precisamos apenas esperar. Dias melhores. Verão. As notícias vêm tristes nas agências de notícias. Elas sufocam. Sou jornalista e entendo perfeitamente para que servem as notícias. Ouço ainda muitos ruídos, uma algazarra num salão de festas qualquer, batidas de portão - chegadas e partidas - só não entendo o que fazem os anjos numa hora destas. Alguns estão aqui à minha volta. Não se manifestam, mas eu os sinto. Sopram em forma de brisa atenuando o calor. Queria tocar o mundo, passar o dedo vagarosamente no céu de estrelas. Não posso. Então manuseio este teclado em busca de preencher algumas lacunas da noite. Vocês me entendem, não entendem?

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Rejeitado no "Poema no Ônibus"

Onibusca


Homem busca
amparo no transporte
a cadeira no lombo
rodas no asfalto
móvel pelas ruelas
cidadão crédulo
sem eira nem sobreira
que, onipresente,
ascende ladeira
a bordo, sem abordar
nada
porque esvaziou
com o tempo
a vontade de ser carregado
neste coletivo de onipresenças

Ônibus do Tempo


Ônibus do tempo

Põe o mar de gente
à espreita do falho poema
que se desloca lúcido pelo ônibus do tempo

Na cidade do vento
a catraca cobra justo a brisa
que é o vale-transporte
do silêncio pela erosão dos séculos

Poltronas alheias à vida
dúvida de minutos
Paradas com seres àvidos
Embarcando nas brechas do calendário
Amnesiestesiadas e transportáteis

Luiz Gonzaga Lopes

Ombros Largos


Ombros largos (2ª versão)

Coube-me a tarefa de adoecer o verbo
até confessar minhas entranhas
Não entorpeci a semente,
apenas a distraí de mim
Nesta posse longínqua em que
proliferam as palavras com adubo,
enquanto nego carícias
com minha mão cega
*
Nesta idade apenas carrego sombras
enlouqueço os pronomes em busca de par
Deixo a tampa aberta do sonho, sem olhar
Para o destempero da boca aleatória
Sobrevive a mim, a calma,
Seca superfície da alma
*
Quando há cisco no meu tombo,
enrijecem grilhões em meus ombros
Obra súdita, esta de apaziguar o cílio
No suplicante piscar da falta
ardem as cachoeiras da troca,
quando um pombal arrulha no peito
e sorrisos são distribuídos borbulha
Com frescor de sombra
*
Não degrado a ausência com perguntas
Inconsciente a esmolar à memória
Nuvens de esquecimento pousadas no umbral
Ombro que me ampara
na vulcânica vida que lava e seca
a perda
Língua na nuca do infinito

Luiz Gonzaga Lopes