quinta-feira, janeiro 03, 2013

Alice na Paris das maravilhas



A fórmula para uma boa comédia romântica parece estar sempre pronta, com uma cidade apaixonante, locais que simbolizam o amor e uma história que relacione a cidade com o romance vivido, um monumento, um café, um bar, um rio, qualquer coisa deste tipo. É preciso dizer que existe um recheio necessário, algo intangível, uma coisa meio Nora Ephron, Rob Reiner, Garry Marshall (só para citar alguns nova-iorquinos da boa safra oitenta-noventista),  ou então Woody Allen. Em "Paris-Manhattan”, a cineasta Sophie Lellouche resolveu apelar para o ingrediente Woody Allen.

Alice Ovitz (personagem vivido pela homônima Alice Taglioni) é uma mulher bonita e apaixonada pelo seu trabalho como farmacêutica. O problema é que a paixão pelo trabalho não é proporcional ao seu interesse pelo parceiro ideal, pelo par romântico. Ela já está sendo chamada de solteirona, está ficando para titia, como dizemos aqui no Brasil. O principal refúgio emocional é o cinema de Woody Allen. Alice conversa com Allen (o voz em off do próprio diretor nova-iorquino que faz uma ponta presencial no filme).
Ela gosta tanto dos filmes e dos ensinamentos contidos em filmes como "Manhattan", "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo..." e outros, que chegando ao ponto de transformar a sua farmácia em uma mini-locadora de DVDs, pois prescreve os filmes de Allen para as pessoas que procuram a farmácia para curar os seus problemas.

Nas conversas com Woody Allen, alguns ensinamentos do diretor estão presentes, como um freudiano, de que as duas coisas mais importantes da vida são a escolha da profissão e do sexo ou então: "case e tenha cinco filhos". Por outro lado, Alice ignora os apelos familiares para que se case. Um dia, Victor (Patrick Bruel) aparece em sua vida. Numa das dezenas de festas para a qual é convidada e na qual o pai (Michel Aumont), judeu como Woody Allen,  tenta lhe arranjar um namorado. Victor é especialista em alarmes e é claro que o pai o contrata para instalar um alarme na farmácia de Alice. Ele desenvolveu um alarme diferente, que expele clorofórmio para adormecer o assaltante. Victor é inteligente, irônico e sabe tudo que está passando à sua volta, como descobrir quem trai quem e sua presença masculina a ajudar e ao mesmo tempo incomodar a vida sem sobressaltos de Alice. O seu único defeito para Alice é nunca ter visto um filme de Woody Allen. O seu primeiro é "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo (e Tinha Medo de Perguntar)". Ele se espanta com a cena de Gene Wilder com uma ovelha na cama, mas segue vendo os filmes de Woody.

Crédito: Vinny Filmes

O filme nos apresenta alguns signos interessantes de comédias românticas, como casais apaixonados dançando na rua, crianças correndo nas ruas, nos mercados e na própria farmácia, coadjuvantes que roubam a cena como Michel Aumont, como o pai glutão e judeu de Alice, Marie-Christine Adam como a mãe alcoólatra e também a irmã e o cunhado perfeitos (Marine Delterme e Louis-Do de Lencquesaing) e os clientes da farmácia, que apoiam Alice na sua loucura woodyalleniana.

A magia do filme está na vontade de Alice de estar em Nova Iorque, de viver cenas dos filmes de Allen e ao mesmo tempo estar passando por cenários que hipnotizaram Allen quando ele construiu "Meia-Noite em Paris". É difícil comparar a Torre Eiffel com a Estátua de Liberdade (esta construída originalmente em Paris) ou Central Park com o Jardim de Luxemburgo, Hudson com Sena, mas o certo é que Woody Allen traz Nova Iorque para Alice, mas também um pouco do romantismo inteligente, irônico e perspicaz, que a Big Apple proporciona. Mas se não estivermos em Nova Iorque, nós sempre teremos Paris, como Ricky (Humphrey Bogart) já disse a Ilsa (Ingrid Bergman), que foi tão bem parodiada por Allen em "Sonhos de um Sedutor" ("Play it Again, Sam"). A aparição de Allen no filme é para falar da importância de uma das pessoas envolvidas na história.

O detalhe de produção do filme é que a cineasta Sophie Lellouche sempre foi obcecada por Woody Allen e  que havia dirigido apenas o curta "Dieu, que la nature est bien faite!", em 1999, passou algum tempo tentando encontros marcados ou ocasionais com o diretor de "Meia-Noite em Paris", até que ele concordou em fazer esta ponta no filme. Uma comédia romântica de boa qualidade para começar bem o 2013

sábado, novembro 03, 2012

"Nunca vi uma feira como esta", diz Jeffery Deaver

Deaver está impressionado com a Feira do Livro de Porto Alegre

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

O autor de “O Colecionador de Ossos, o norte-americano Jeffery Deaver, estará neste sábado, dia 3/11/2012, na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre para falar sobre a nova investigação do criminologista Lincoln Rhyme, o livro “A Janela Quebrada” (Record) lançado em 2008 nos Estados Unidos e em 2012 no Brasil. Ele fala sobre este e os demais livros, como “Carte Blanche” (Record), em que traz James Bond de volta à ação, às 18h30 na Sala Leste do Santander Cultural, com mediação do jornalista Carlos André Moreira. Às 20h, ele autografa as duas obras mais recentes no Brasil na Praça de Autógrafos da Feira. Em entrevista a este jornalista e blogueiro, Deaver fala sobre os livros, sobre cinema, séries de tevê e o seu processo de construção de um livro, entre outros assuntos.



Pergunta - Qual será o assunto que irás tratar na mesa-redonda?
 Jeffery Deaver – Vou falar de A Janela Quebrada e também de Carte Blanche, mas vou falar de como escrevo os livros. Quero explicar meus métodos a meus fãs. Eu considero o livro como um produto, como um carro, um avião por exemplo. É preciso ser muito cuidadoso com a qualidade deste produto, porque o leitor vem sempre em primeiro lugar. Quero dar ao leitor algo agradável, instrutivo ou esclarecedor, que valha o tempo e o dinheiro da pessoa. Levo oito meses organizando os capítulos, pensando em personagens, tramas, mortes e viradas, até pensar o final. Faço como um engenheiro. Então sento e escrevo durante dois meses, seja para 150 páginas ou mil.

Pergunta - Além de “O Colecionador de Ossos” que te deu fama, houve algumas outras adaptações para TV e cinema?
Deaver - Quanto mais pessoas conhecerem meu trabalho, melhor. Gostei da adaptação de “O Colecionador de Ossos”. Denzel Washington está muito bem. Angelina Jolie estava se revelando uma grande atriz. Depois, fizeram mais dois telefilmes: “The Devil´s Teardrop”, com Natasha Henstridge, baseado no livro homônimo, e “Dead Silence”, adaptado de “A Maiden´s Grave”, com James Garner. Alguns autores dizem que detestam Hollywood, que destruiu suas obras, mas não devolvem o dinheiro dos direitos autorais para os estúdios. Como escritor, não tenho nada a ver com a versão cinematográfica de um livro meu. A experiência de assistir a um filme é diferente de ler um livro. Faço de tudo para chegar ao máximo de pessoas possível. Gosto também de séries de TV, como Boarwalk Empire, Dexter, Família Soprano. Estou envolvido na produção de uma série: “Murder in Small Town X”. Recebi um e-mail de um estúdio já interessado em adaptar “A Janela Quebrada”.

Frente a frente com este jornalista e blogueiro 

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

Pergunta - Conheces alguns autores brasileiros?
Deaver - Não, não conheço. O problema é não haver traduções para o inglês, o que é uma pena. É a mesma coisa com as literaturas italiana, alemã e escandinava. Dos italianos, recentemente li Andrea Camilleri e o seu detetive Montalbano.

Pergunta - E sobre a Feira do Livro de Porto Alegre?
Deaver - Ela é maravilhosa. Já em feiras e festivais do livro no mundo inteiro, em lugares como Edimburgo, Frankfurt e no Japão e nunca havia tão grande e popular como esta feira. Ela é pelo menos dez vezes maior do que as dos Estados Unidos. A visão é fantástica, aqui na praça ou no Cais do Porto.  E as vistas são fantásticas, tanto aqui da praça, quanto do Cais do Porto. É inspirador.

Pergunta - O Brasil pode ser cenário para um dos seus próximos livros?
Deaver - Claro. Não uma história toda, mas uma parte da trama. Seria em Porto Alegre mesmo, pois um funcionário meu, o Adriano Rocha, é daqui. (Rocha é adestrador dos cães que Deaver leva a competições de Kennel Clubs nos Estados Unidos). O Cais me pareceu um lugar assustador, bom para a morte de algum personagem. O Adriano me disse para beber a cerveja Xingu e a caipirinha, que não tem em nenhum outro lugar.

Pergunta - E sobre os próximos livros?
Deaver - Estou terminando “The Kill Room” que deve ser publicado em junho de 2013. Será outro livro sobre o criminologista Lincoln Rhyme. Recentemente, publiquei “XO”, outra história da personagem Kathryn Dance. Uma Thurman já comprou esta história para filmar. Quero sempre dar aos leitores algo valioso, que rearranje suas percepções. Não consigo fazer isso como Jorge Luis Borges ou Gabriel García Marquez. Eles exploram coisas que levam os leitores com eles, a desfrutarem a obra com prazer.


sexta-feira, outubro 19, 2012

De Pai para Filho desde 1912



Por Luiz Gonzaga (Lopes)

Não haveria como eu não me envolver com este filme Gonzaga – de Pai para Filho, com direção e roteiro de Breno Silveira, que estreia nesta sexta-feira, dia 19 de outubro, nos cinemas. A começar pelo nome, pois como vocês estão sendo resolvi assinar o texto de cima para baixo. Desde que eu me conheço por gente, quando chego em um lugar e digo o meu nome, algum gaiato responde e cadê a sanfona. No início, eu respondia: “deixei em casa” ou “está na carteira” etc. e tal. A questão é que o velho Lula, ou Lua, ou Gonzagão povoa o imaginário brasileiro da segunda metade do século 20, pela história de persistência em popularizar no Rio e São Paulo (Sul, como diz o ator que vive dos 27 aos 50 anos, Chambinho do Acordeon) um estilo totalmente nordestino, o baião.

A despeito das escolhas narrativas de Breno Silveira que opta sempre pelo folhetim ao contar uma história, pela busca do drama, este filme se encaixa no estilo do cineasta, pois o retrato desta entidade da música brasileira é duro e mostra o jovem Gonzaga (Land Vieira e depois Nivaldo Expedito Carvalho) que procurou o sucesso que o tiraria daquela realidade nordestina da cidade pernambucana de Exu, onde amava Nazarena, a Nazinha (Cecília Dassi), filha do coronel Raimundo Delgado, mas apesar de ser correspondido, o pai dela jamais iria permitir o casamento com um garoto “sem eira nem beira”. Ele tinha era a sua sanfona, que também era o amor do pai Januário. Para ser alguém, se alistou no Exército em Fortaleza (CE), mas nunca deu um tiro em ninguém.

A opção pela narrativa a partir do ano de 1981 é acertada, pois foi neste ano em que Gonzaguinha (em uma atuação e uma caracterização magistral do ator gaúcho Julinho Andrade, nenhuma novidade para quem já o viu atuando pelos teatros de Porto Alegre com o Depósito de Teatro e em outras montagens como o Menino Maluquinho) após emplacar a carreira e as capas das principais revistas e jornais do país resolve voltar para acertar os ponteiros com o passado e principalmente com o seu velho pai.



O encontro entre Gonzagão (1912-1989) e seu filho, o cantor e compositor Gonzaguinha (1945-1991) é tenso, mas o pai começa a contar a sua vida ao filho e Gonzaguinha começa a entender os amores, a luta do pai, que acabou afastando-o da família e principalmente da mãe do cantor de MPB, Léa (vivida por Nanda Costa, que será protagonista de Salve Jorge, nova novela das nove da Globo). O recurso do flash back, desgastado em alguns outros filmes brasileiros, nesta cinebiografia acaba tendo um grande efeito, pois quem acompanha os desajustes entre pai e filho, a partir do respeito que Gonzaga tinha por Januário (“Respeita Januário”), a ideia de que Gonzaguinha deveria ser doutor, o acompanhamento da forma como ele compunha as suas músicas, com as letras sempre precisas de Humberto Teixeira, o parceiro que ele conseguiu com persistência pelas ruas da Lapa Carioca, tudo conspira neste filme. Como não se impressionar com: “quando olhei a terra ardendo e a fogueira de São João / eu perguntei a meu Deus do céu / por que tamanha judiação”. Outra letra que também retrata o sentido do popular em Gonzagão é A Vida do Viajante: “Minha vida é andar / Por esse país / Pra ver se um dia / Descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras por onde passei / Andando pelos sertões / E dos amigos que lá deixei”. Uma das cenas do filme em que ele toca na marquise do Cine Pax, no Rio de Janeiro também traduz esta noção do popular, de tocar para o povo e não somente por dinheiro ou fama.



A vida do Rei do Baião teve tons épicos, por que não? Breno Silveira soube condensar os avanços e recuos no roteiro, com o tom exato de dramaticidade necessário a personagens da história da música como estes dois personagens. Um dos destaques do filme é cena que foi real quando Luiz Gonzaga impressionou Ary Barroso em um programa de rádio carioca nos anos 60. A decadência de Luiz Gonzaga e a ascensão de Gonzaguinha são mostradas sem comedimento, com a participação de alguns bons atores coadjuvantes como Silvia Buarque e Luciano Quirino, como os padrinhos de Gonzaguinha, que realmente criaram o menino e jovem Gonzaguinha no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro e também de Roberta Gualda, que vive Helena, a mulher que assume o coração de Gonzagão com a morte de Léa, por tuberculose.

O filme é bom de ver, resgata duas biografias importantíssimas na história da música brasileira e uma época que ao mesmo tempo foi difícil, pois Sem contar a infinidade de músicas que todos nós gostamos de ouvir um dia e que hoje talvez não tenhamos tempo para tal como “Asa Branca”, “Xamêgo”, “Vira e Mexe”, “Paraíba” e “A Vida do Viajante”, cuja turnê em 1981 de Gonzagão e Gonzaguinha foi um enorme sucesso. Uma história a ser contada. Um filme necessário para a cinematografia brasileira. Uma das grandes estréias, senão a maior estreia da semana.


GONZAGA DE PAI PRA FILHO
Elenco: Chambinho do Acordeon, Julio Andrade, Land Vieira, Luciano Quirino, Nanda Costa, Ana Roberta Gualda, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Giancarlo di Tomazzio.
Direção: Breno Silveira
Gênero: Drama
Distribuidora: Downtown Filmes
Duração: 120 min
Sinopse: Um pai e um filho, dois artistas, dois sucessos. Um do sertão nordestino, o outro carioca do Morro de São Carlos; um de direita, o outro de esquerda. Encontros, desencontros e uma trilha sonora que emocionou o Brasil. Esta é a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e de um amor que venceu o medo e o preconceito e resistiu à distância e ao esquecimento.
Site: www.gonzagadepaiparafilho.com.br


quarta-feira, outubro 17, 2012

O "Homem-Massa" visita o Século XXI



Conforme o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o “homem-massa” é um novo bárbaro, que vive na cultura como em estado de natureza, que se ocupa em desocupar-se. Pois o filósofo e atual secretário adjunto da Cultura do Rio Grande do Sul, o filósofo Jéferson Assumção, resolveu transpor ao livro “Homem-Massa – a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada” o resultado de uma pesquisa e posterior dissertação ao Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, na Espanha. A obra editada pela Bestiário e Fundación Ortega-Marañon terá lançamento nesta quarta-feira, 17 de outubro, às 19h, na Pinacoteca (República, 409). Em entrevista a este blogueiro, Jéferson fala sobre a obra, sobre os pontos mais importante da filosofia de Ortega y Gasset e sobre o raciovitalismo. 


1 - Como foi a concepção do livro e qual a ideia básica da obra. Originalmente era uma dissertação para o Diploma de Estudos Avançados (DEA) na Universidade de León, teve algumas adaptações para ter o ritmo de um livro aberto a outros interessados extra-acadêmicos?

O livro resulta de uma pesquisa sobre o conceito de "homem-massa", dos principais da fiosofia do espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), para a Suficiência Investigadora do programa de Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, Espanha. Teve alguma adaptação, pequena, para um público mais aberto, mas ainda assim a própria dissertação originalmente segue uma linha, eu diria, um tanto orteguiana, ensaística, menos rígida. Ortega tinha uma forma própria de expor seu pensamento, francamente oposto à linguagem tradicional da filosofia acadêmica. "A clareza é a cortesia do filósofo", ele dizia. E a filosofia, profundo esforço de buscar a superfície, de se manter flutuando no mar do absurdo. Ortega sempre tentou evitar o hermetismo e a mera exibição de "bíceps de feira do tecnicismo acadêmico" - como ele definia. Escreveu na encruzilhada entre filosofia, sociologia, jornalismo e literatura, buscando juntar o que há de mais interessante em cada uma dessas áreas, numa exposição elegante, desportiva, de suas ideias - a maioria publicada em jornais espanhóis e latino-americanos das primeiras décadas do século XX. Ele se incomodava muito com o idealismo e o racionalismo, mas não sentia suficiência em um pensamento meramente vitalista. Por isso seu filosofar é "Raciovitalista". E seus textos coerentes com esta intersecção entre razão (filosofia e sociologia) e vida (jornalismo e literatura). Eu tentei seguir esta forma de exposição, obviamente que com resultados bem menos interessantes que os do filósofo espanhol. Para o livro, escrevi uma Introdução e um Posfácio, nos quais coloco mais frontalmente minhas opiniões sobre o tema e proponho uma forma de abordagem atual para ele. No “corpo do livro”, limito-me a expor o que Ortega pensava, coisas que, hoje em dia talvez soem um pouco anacrônicas e até mesmo preconceituosas a respeito da relação massa e minoria, por exemplo. Mas que, para um pesquisador sobre o tema, é mais importante que tenha um certo nível de objetividade e distanciamento.


Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação

Quais os pontos mais importantes da filosofia de Ortega y Gasset e com o que você concorda ou não?

Concordo com sua visão de cultura como “esforço natatório”, gosto muito de sua estética, de sua ética da gratuidade, de sua exigência de criatividade antiqueixosa contra o coitadismo, da maneira como ele considera o homem-massa paciente, mas também agente (ou seja, responsável em certa medida) por sua condição de massa, devido às suas escolhas etc. Acho que a ideia de coimplicação eu-circunstância, ou seja, de que o ser humano não é apenas o sujeito encapsulado em si mesmo, mas também não é apenas circunstância (corpo, psiquismo, língua, pátria etc) mas um amálgama desses dois, de que recebeu gratuitamente uma vida, mas que esta não lhe foi dada pronta e sim por fazer. Que ele tem que fazê-la criativamente, com esforço diário de dar sentido a essa flecha já lançada, que está forçado a esta liberdade (o que ele disse antes mesmo de Sartre). Que pode escolher massificar-se na heteronomia, vivendo as leis do outro, ou, o que seria mais nobre, conforme Ortega, tentar viver de maneira mais autônoma, elegendo o seu programa de vida e sendo responsável ele. Mesmo a mais pobre das pessoas, para Ortega, é portadora dessa vocação inicial do ser humano, dessa chama de humanidade. Claro que as circunstâncias pesam e muitas vezes desanimam, diminuem a alma, o ímpeto. Mas isso não pode resultar em angústia. Ortega chamava isso de o “caráter desportivo da moral”, avesso à asfixia da angústia existencialista e ao queixume de autores materialistas ou religiosos, que ele também evitava. A ideia de que a vida humana individual é a realidade radical, mas que nós somos um ser-com-os-outros, milhões de eus-circunstâncias geradores de um perspectivismo universalmente distribuído inversa à fragmentação relativista, é portadora de uma ideia de humanidade muito rica. Acho tudo isso ainda muito válido para fundamentar uma ideia de sociedade que não desmoralize seus integrantes, que leve em consideração que as pessoas não são apenas circunstâncias, não são apenas zoe, mas biós, duas palavras para designar “vida” em grego, o primeiro mais ligado à biologia e o segundo, cheio de narrativa pessoal, de razão narrativa, como dizia Ortega, à biografia de cada um. Ortega era muito bélico em relação às instâncias que achatavam o ser humano, principalmente o estado ortopédico, da revolução bolchevique, e o mercado de massas, que ele via nascer com a emergência dos Estados Unidos. O homem-massa do início do século XX tinha duas capitais, Moscou e Nova Iorque, ambas cidades representavam simbolicamente grandes centros geradores de heteronomia. E de homens-massa.

3 - Quais as questões do conceito de homem-massa de Ortega y Gasset que devem ser trabalhados nos dias de hoje e quais as soluções para a sociedade que podem ser postas a partir da problematização orteguiana

Bom, eu não posso ser considerado um orteguiano clássico, mesmo tendo feito minha dissertação e a tese de doutorado sobre temas de Ortega e escrito alguns artigos sobre questões orteguianas. Não acho que as soluções por ele apontadas para o problema da heteronomia e da rebelião das massas sejam as mais adequadas. Por exemplo, uma volta das minorias ao seu papel de educador das massas, de pedagogo social, por meio de uma reforma radical da educação, reintroduzindo nela o que falta de vital e retirando o que sobra de razão físico-matemática, geradora dos bárbaros especialistas: aquele que sabe tudo sobre quase nada e balbucia sobre o resto, como um bárbaro. Este, segundo Ortega, é capaz de fazer uma cirurgia muito complexa e ao mesmo tempo ter uma visão infantil sobre como a sociedade se estrutura. Mas ele achava, em sua época, em plena fé na indústria cultural e nas impressoras rotativas, que as minorias intelectuais poderiam, pela exemplaridade, reinvertebrar a sociedade massificada. Era um outro tempo e ele pensava que a “saudável” tensão massa-minoria havia se rompido e disso resultou a rebelião das massas do início do século XX, ou seja, a emergência de um tipo de pessoas que se aproveitou dos benefícios dos avanços técnicos do século XIX e início do XX para massificar-se, desresponsabilizar-se, para colher os frutos da cultura como se esses fossem produtos da natureza.

Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação

4 - Um dos capítulos de A Rebelião das Massas que mais me atenho e gosto é "A Época do Senhorzinho Satisfeito" que fala exatamente do homem vulgar, que impõe a sua barbárie e o seu primitivismo. O filósofo falava da história europeia, mas de certo modo a indústria cultural tornou a nos dar muitos homens vulgares na música, na literatura. Qual a sua análise à luz de Ortega y Gasset?

Ele dizia que o homem-massa é um bárbaro que ascendeu pelo alçapão da história e que vive na cultura como em estado de natureza. Fala, mas não sabe de onde vieram as palavras, liga o interruptor e surge a luz, liga o carro e ele parte, como se isso tudo não viesse do acúmulo da cultura, de um passado construído com esforço individual e coletivo. O homem-massa é o mocinho satisfeito pela técnica, que despreza a cultura. Este é o mais contundente diagnóstico orteguiano. Agora, massa não coincide com classe social. Não se trata, em Ortega, de um conceito sociológico e sim filosófico. O rico, o pobre, o classe média podem ser, por escolha de sua vontade e de acordo com o esforço que faz para dar sentido à sua vida um homem-massa ou o que ele chamava de um homem-autêntico. Esse diagnóstico segue vigente, talvez mais vigente hoje do que nos anos 30 do século passado. No entanto, hoje vivemos uma mudança nas condições técnicas que foram fundamentais para a emergência do homem-massa. Sobre isso, escrevi um posfácio chamado “Cultura digital e desmassificação”. Se o diagnóstico de Ortega está certo, ou seja, de que a técnica daquele período engendrou o homem-massa, podemos nos perguntar se as novas tecnologias e o uso cultural delas, a cultura digital, oa ambientes pós-massivos, a cultura colaborativa em rede, a diminuição da centralidade do mediador, das indústrias culturais tradicionais, a desmaterialização dos suportes da arte, do conhecimento e da informação, em que em vez da mão única e do monólogo dos meios de entretenimento temos hoje a muldidirecionaridade dos fluxos de informação, podemos estar gerando um ambiente mais favorável à desmassificação? Tudo depende do uso dessas tecnologias para gerar mais autonomia ou mais heteronomia: consumo, principalmente. Eu acho que hoje, momento em que vivemos ao mesmo tempo as camadas pré-industrial, industrial e pós-industrial, temos também homens solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa. Por homens-massa customizado chamo aqueles que a indústria atual faz parecer que suas escolhas são autônomas e que sua produção não é mais em série. São nichos possibilitados pelos avanços técnicos de produção sob demanda de menor custo que dão a impressão de individualidade e pessoalidade nesses produtos. O símbolo maior disso é uma marca de refrigerente colocar nome de pessoas na lata, para consumo de homens-massa customizados. Mas a cultura digital vem dando condições, pelo menos tecnológicas, para se driblar esse uniderecionamento dos desejos, fazendo com que tenhamos mais condições para sair do que Ortega chamava de a crise dos desejos do século XX e a substituição de valores por preços. Vejo com otimismo a possibilidade de apropriação cidadã, autônoma, dessas tecnologias, gerando uma diminuição da dependência do sujeito ao Estado ortopédico ou ao mercado de consumo. Há um terceiro elemento, emergente com a cultura digital: o Comum. Mas isso Ortega jamais poderia imaginar que poderia vir a acontecer como fato social tal como hoje.


5 - Como secretário-adjunto de Estado da Cultura e também ex-coordenador-geral do Plano Nacional do Livro e da Leitura, queria uma opinião sobre como se inseriria o pensamento de Ortega y Gasset e o tua tese de Doutorado nas questões ligadas ao livro e leitura e a um maior acesso à cultura?
Em minha tese “A Ilustração Vital; O Racionalismo de Ortega y Gasset como via para o desenvolvimento de uma sociedade leitora”, ainda inédito, utilizo o conceito de leitor-massa e o contraponho ao de “leitor vital”, ou seja, um tipo de leitura utilitária e pragmática, com respeito a fins mais de ordem técnica, para inserção no mercado ou de simples resposta consumista aos produtos que o mercado inculca como “os melhores livros” etc. Precismos buscar desenvolver leitores vitais, leitores culturais, cuja relação com a leitura ultrapasse o funcional e se torne um hábito cultural que se leva para a vida. Ler porque necessitamos dar sentido a nós mesmos e ao mundo à nossa volta, com mais autonomia do que receber as respostas de fora. Como dizia Paulo Freire, muito orteguianamente: aprender a dizer a própria palavra.



quinta-feira, outubro 04, 2012

A Lua Castelhana de Maria da Graça



A escritora Maria da Graça Rodrigues lança o seu segundo livro “Lua Castelhana” (Editora Movimento), na noite desta quinta-feira, às 19h, no Mezanino da Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80, 2º piso). Dois anos depois da obra de estreia, “Helena de Uruguaiana”, a autora uruguaianense nos traz um romance estruturado em 51 capítulos curtos, contando uma história que se desenrola entre 1950 e 2010 entre as cidades de Bella Unión, Punta del Diablo e Punta Del Este, no Uruguai;  Uruguaiana e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

O personagem principal do romance é um jogador de futebol, Juan Rios Ortega, nascido em Bella Unión, mas residente em Uruguaiana. Quando tranfere-se para jogar num grande clube de Porto Alegre, inicia um romance com a jornalista Ana Lúcia Silva, que entrevista um político brasileiro exilado no Uruguai e tempos depois é sequestrada. Em entrevista a este blogueiro, Maria da Graça fala do processo de criação do livro, da história e dos escritores de Uruguaiana, entre outros assuntos.

P - Como foi concebido o Lua Castelhana?
R - Há muito venho colecionando plots para romances.  Só recentemente consegui condições e tempo necessários para mergulhar na feitura de minhas obras de ficção. Muitos se originaram de impressões fortes que me acompanham desde a infância, como é o caso do Lua Castelhana, pleno de lembranças de minha primeira ida ao Uruguai quando tinha em torno de seis anos de idade.

P - Quais as características da escritura dos autores de Uruguaiana?
R - Eu diria que o ponto em comum é o gosto por escrever,  pois cada um tem seu estilo e temática própria. Há uma lista enorme de grandes talentos da literatura nascidos em Uruguaiana. Dando apenas alguns exemplos: Alceu Wamosy e Gonçalves Vianna já falecidos. Tabajara Ruas e Vera Molina na prosa,  Luiz de Miranda, Nei Duclós, Colmar Duarte na poesia e Cícero Galeno Lopes que além de grande contista, agora estreou com sucesso na poesia. 

P -  As temáticas que envolvem o futebol e o sequestro ligado a temas políticos eram do teu universo de vivência ou foram recolhidos ao longo do tempo?
R - Política e futebol são assuntos apaixonantes, não tem como ficar alheio a eles. Mas meu romance aborda o drama humano de um jogador de futebol e não o esporte em si. Quanto a política, sou de uma geração de brasileiros que testemunhou os anos de chumbo. As sequelas deixadas por duas décadas de privação de liberdade e pela barbárie decorrente do arbítrio e do abuso de poder é justamente o foco do meu romance. 

P - Qual a importância das oficinas literárias e dos cursos teóricos como graduação e Pós na área de letras para o desenvolvimento do escritor?
R - Acho que uma boa base teórica pode, sim, colaborar no  desenvolvimento do escritor, mas com limitações. O estilo, a maneira de criar e o que dizer aos seus leitores, isto nenhuma oficina ou curso poderá ensiná-lo. Ele fará estas descobertas sozinho, no simples exercício de sua escrita.   

                                                                                                      

sexta-feira, agosto 24, 2012

O rock não tem idade neste musical

Alec Baldwin e Russel Brand administram o Bourbon Room no musical 'Rock of Ages'<br /><b>Crédito: </b> warner bros. pictures / divulgação cp
Alec Baldwin e Russel Brand administram o Bourbon Room no musical 'Rock of Ages'
Crédito: Warner Bros. Pictures / Divulgação
Estreia hoje nos cinemas "Rock of Ages: O Filme", um musical para provar que o rock não tem idade e que a chama dele está acesa, mesmo que o pop, o rap, o axé e o sertanejo universitário tenham invadido o mercado há muito tempo. Estrelado por Tom Cruise, Alec Baldwin, Russel Brand, Paul Giamatti e Catherine Zeta-Jones, essa adaptação para as telas do sucesso da Broadway, com direção de Adam Shankman, parte de um enredo linear e trivial (base de boa parte dos musicais) sobre a garota interiorana de Tulsa, Sherrie (Julianne Hough) e de um garoto de Los Angeles, Drew (Diego Boneta), que se conhecem no Sunset Strip, quando roubam a mala dela com discos de vinil de uma vida inteira.

Os dois buscam o sonho musical em Hollywood e nada melhor do que encontrá-lo no Bourbon Room, local onde trabalham como garçons, administrado por um cinquentão, Dennis Dupree (Alec Baldwin), que ainda crê no rock and roll em pleno ano de 1987, auxiliado pelo fiel escudeiro Lonny (Russel Brand). O Bourbon vai sediar o último show da banda Arsenal, liderada pelo mito do rock Stacee Jaxx (inspirado no problemático Axl Rose), que vai se lançar em carreira solo.

O clima de romance rock e de alcançar o sonho entre Sherrie e Drew ganha tons de êxtase e bater de pezinhos com os clássicos dos anos 80, interpretados pelo próprios atores/cantores, como "Rock of Ages", do Def Leppard; "Paradise City", Guns N'' Roses, "Wanter Dead or Alive", Bon Jovi; "I Love Rock and Roll", Joan Jett, e "I Wanna Rock", do Twisted Sister, além da clássica "Don''t Stop Believin'', do Journey.

Uma elegia ao rock. Imperdível.

Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo. 

sexta-feira, agosto 17, 2012

As voltas que os mundos podem dar


Os filmes coral, no qual diversos personagens aparecem e se conectam em algum ponto do filme são na maioria das vezes daqueles que nos motivam a ir ao cinema e pensar sobre o fato de uma palavra ou ação em um lugar poder desencadear uma tragédia em outra cidade ou país. Robert Altman ("Short Cuts"), Paul Thomas Anderson ("Magnólia") e "Alejandro Gonzáles Iñàrritu ("Babel") são destes exemplos bem-sucedidos. No terceiro grande passo da sua carreira hollywoodiana, Fernando Meirelles ("Ensaio Sobre a Cegueira" e "Jardineiro Fiel") resolveu encarar a estrutura coral e contar nove histórias que se entrelaçam, com personagens que se conectam ou se deslocam por cidades como Viena, Paris, Londres, Bratislava, Denver e Phoenix.

Foto: Paris Filmes / Divulgação

A estrutura de construção coletiva da história no roteiro de Peter Morgan ("A Rainha"), com cortes para pequenas histórias parte de duas irmãs eslovacas, uma que irá se prostituir e a outra que irá se apaixonar pelo guarda-costas de mafioso russo. A conexão com esta história será o primeiro cliente da prostituta eslovaca, Mirka, em Viena, que seria Michael Daly (Jude Law), mas uma chantagem de dois vendedores (Moritz Bleibtreu e Peter Morgan) para fechar um contrato acaba deslocando a história para a culpa de uma possível traição à esposa Rose (Rachel Weisz), editora de revista de moda. 

Em Londres, vira trama de dupla traição, pois Rose trai Michael com o fotógrafo Rui (o brasileiro Juliano Cazarré), descoberto pela namorada dele, Laura (a brasileira Maria Flor). Ao tentar retornar para o Brasil, Laura conhece no avião o pai alcóolatra (Anthony Hopkins) que busca a filha desaparecida. Após nevasca em Denver, Laura conhece um estuprador recém-colocado em liberdade (Ben Foster). São tantos os personagens e ações interconectadas desta "vida em trânsito", como definiu Morgan, que ficamos estarrecidos, buscando o sentido deste mundo globalizado, multicultural e ao mesmo tempo tão solitário.

(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)

segunda-feira, agosto 13, 2012

Intocável que nos toca




Nos milhares de filmes aos quais já assisti, sempre pode haver aqueles casos raros, não incomuns, de obras que tangenciem de alguma forma a realidade, mas que sejam construídas de um jeito que nos faça rir e chorar ao mesmo tempo, acreditar na vida e ter a consciência das nossas limitações e da finitude neste intervalo entre nascer e morrer que é a vida. Deixando os preâmbulos realistas ou niilistas, queria começar dizendo que Intocáveis, filme dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, que recebeu nove prêmios César, é outro destes filmes que nos arrebatam do começo ao fim. Os irmãos Weinstein, produtores garimpeiros de jóias raras tanto do cinema americano quanto do europeu ou asiático, chegam a apresentar cinco razões para se ver o filme, endereçado principalmente aos norte-americanos. Vale lembrar que esta tragicomédia está sendo até agora a maior bilheteria de um filme estrangeiro em 2012 nos Estados Unidos.

Desde que temos a sequencia inicial do filme, já é possível acompanhar o pensamento dos Weinstein o filme leva às lágrimas de alegria. O jovem negro, de origem senegalesa, morador dos arredores de Paris, Driss (Omar Sy), se inscreve para cuidar de um aristocrata francês tetraplégico, Philippe (François Cluzet), mas o seu único objetivo é conseguir uma nova assinatura de recusa para acionar novamente o seguro desemprego. A franqueza, o humor, o jeito truculento e principalmente a não necessidade de compaixão, de pena que Driss demonstram acabam cativando Philippe, que o contrata. Vale lembrar que o filme é baseado na história real contada pelo milionário Philippe Pozzo di Borgo, “O Segundo Suspiro. Os dois ainda vivem e tem uma forte relação de amizade.

A intensidade desta relação, os choques culturais evidentes e a gratidão que um irá sentir pelo outro por esta convivência passam a cativar o espectador. O bom humor de Driss contagia gradativamente as pessoas que cuidam de Philippe na mansão da família em Paris. Enquanto tenta entender um universo permeado por quadros de Salvador Dalí e Goya, por músicas de Vivaldi, Berlioz e Bach, Driss acaba cuidando de Philippe nos cuidados com o seu corpo, mas principalmente no destravar emocional. Enquanto tenta resolver pequenos conflitos na sua família no subúrbio, Driss também tenta mostrar ao novo amigo rico que as piadas sobre deficientes podem aliviar o ambiente, que o humor pode ser redentor e que um amor verdadeiro, palpável, pode ser tão bom quanto aquele rebuscado e epistolar com uma desconhecida.

A descoberta de como é viver sem movimentos do pescoço para baixo também causam um choque em Driss, que inicialmente se nega a limpar o novo patrão e amigo, mas que acaba sendo mais que um acompanhante e sim alguém que pode mostrar um mundo cheio de verdades, de movimento, de intensidade, proporcionar voos a Philippe, que perdeu os movimentos justamente por causa de um voo de parapente. Mesmo rindo de obras de arte contemporânea e ridicularizando o preço excessivo de alguns respingos numa tela ou criticando as quatro horas de uma ópera, após rir no início de uma ária, Driss é perspicaz e quer aprender a pintar, quer dar os seus respingos na vida e na arte.

Um filme realmente tocante, que nos dá uma alegria imensa, com a paradoxalidade de uma relação de duas pessoas tão distantes, mas que também nos faz chorar bastante pelos pequenos e grandes dramas do jovem pobre e do tetraplégico rico, aprender que enquanto houver vida, há esperança. Este filme é esperançoso, é intocável no seu toque sutil no subjetivo de cada um. Um dos melhores filmes franceses dos últimos cinco anos. Corram aos cinemas quando estrear. Não percam.



Nas curvas da estrada da vida


Uma frase no para-choque traseiro de um caminhão serve para ilustrar o quão dramática pode ser a vida dos personagens de “À Beira do Caminho”, filme dirigido por Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”), inspirado em temas de músicas do rei Roberto Carlos. A frase é: “Espere pelo melhor, prepare-se para o pior, aceite o que vier”. Silveira é um confesso cineasta do emocional, de conduzir o público ao drama, ao difícil enredar dos laços afetivos. 

Nesse filme, em que o argumento de Lea Penteado é todo costurado com músicas de Roberto Carlos, o silêncio e a emoção são os primeiros a aflorar, apesar da dureza apresentada no paradoxo do personagem principal, o caminhoneiro João (o sempre excelente João Miguel), que tem um drama pessoal. Ele sente-se culpado por um acidente que mudou o rumo de sua vida e, ao mesmo tempo, a torna amarga e sem laços afetivos, vendo na perspectiva solitária da estrada a sua fuga perfeita. João deixa para trás sua família, sua cidade, sua história. O silêncio é quebrado pelo som de um único CD com canções de Roberto Carlos, que chamuscam lapsos de suas lembranças.



A virada da história é quando João depara com um caroneiro, o menino Duda (Vinicius Nascimento), determinado a encontrar o pai, pois a mãe morreu, mas que acaba ajudando João a se confrontar com o passado. Duda acredita, enquanto João é a imagem da desesperança. O contato com o menino faz João amolecer o coração e se reencontrar com pessoas do passado, como a ex-namorada Rosa (Dira Paes). João decide ajudar o seu novo amigo a encontrar o pai (Angelo Antonio), que está em São Paulo, para onde ele deve levar um carregamento de melões.

O primor da trilha com músicas de Roberto Carlos — como “A Distância”, que inicia o filme, e “O Portão”, quando ele está voltando para a casa da mãe (Denise Weinberg), onde perdeu Helena (Ludmila Rosa) e deixou uma filha —, concatenada com a fotografia das longas estradas do Nordeste e Sudeste brasileiros, na qual o caminhão, o poente e o silêncio dialogam, compõem a dose exata a preparar o espectador para a emoção vindoura. Méritos mil ao roteiro redondo de Patrícia Andrade, à trilha de Berna Ceppas e à fotografia de Lula Carvalho. 

(Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo)

Tudo sobre minha mãe à italiana


A relação edipiana do professor de Literatura em Milão Bruno Michelucci (Valerio Mastrandea) com a belíssima mãe Anna (Micaela Ramazotti), a partir da música “La Prima Cosa Bella”, que a mãe cantava para ele e a irmã Valeria (Claudia Pandolfi) quando crianças, é o mote deste drama, com roteiro e direção do italiano Paolo Virzi, em cartaz na Capital. As reminiscências de Bruno sobre os anos 70, dourados e sofridos, partem da vida atual depressiva, longe da família e do passado, mas a doença terminal da mãe (Stefania Sandrelli) faz com que se choque com o passado pela visita da irmã Valeria à sua universidade, pedindo que ele visite a mãe.

A produção de 2010, escolhida para representar a Itália no Oscar 2011, se inicia quando Bruno (Giacomo Bibbiani), ainda criança, em 1971, presencia a vitória da mãe no concurso Miss Mamma, no verão, em uma praia da pequena Livorno. Com a popularidade, a mãe passou a receber mais assédio e a despertar os ciúmes do marido, Mario (Sergio Abelli). Ela é colocada para fora de casa por Mario e, para sustentar os filhos, acaba virando amante dos seus chefes.

Apesar da doença terminal de Anna, Bruno ainda tem tempo de conviver com a mãe, sentir esta perda iminente e resolver a fixação pela mãe. Antes de morrer, Anna quer casar-se com o zelador do prédio, que guarda acervo de fotos de Anna e dos filhos. Nos avanços e recuos do tempo, alguns segredos e a relação materno-filial intensa descrita por Bruno: “Do amor de uma mãe como a nossa, feliz ou infelizmente, não há escapatória”. Tudo ganha corpo com a trilha composta por músicas ao melhor estilo festival de San Remo, como a faixa-título com Nicola Di Bari; “L’Eternitá” e até “Born to be Alive”, de Patrick Hernandez. 

(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)

quarta-feira, julho 25, 2012

Como Nascem os Heróis

Um herói está para o nosso mundo ocidental como um bonsai ou uma raiz de ginseng está para a cultura oriental. É raro de se ver, é imprescindível e nos dá esperança de que algo seja válido nesta existência. Os heróis nascem do nosso desejo de acreditar que eles são falíveis, tem defeitos, porém no final sempre irão prevalecer. Quanto ao nascimento de Batman, podemos falar do nascimento histórico, aquele cujas informações nos chegam mentalmente, que foi criado por Bob Kane nos final dos anos 30 e que depois teve histórias desenvolvidas por outros roteiristas e desenhistas como Frank Miller criador do Cavaleiro das Trevas, mas o nascimento do herói Batman se dá no subjetivo na emoção que ele me causou na primeira vez com a qual me deparei com ele na série dos anos 60, ao qual assistia nos anos 70, protagonizada por Adam West. Lá estava incubado o herói que nascia em Batman e tudo o que viria depois faria com que o Batman fosse crescendo cada vez mais como o herói necessário no imaginário dos jovens da minha idade, hoje entre os 40 e 50 anos. O herói nascia no seu público.

Toda esta introdução é necessária para dar a noção de como um herói preenche um imaginário, o inconsciente e o subjetivo das nossas vidas. Ao final da cabine de imprensa de "Batman - o Cavaleiro das Trevas Ressurge", respondi uma perguntas algumas vezes e não me cansei de responder afirmativamente. "Tu chorou?". Sim, é claro, pois os heróis verdadeiros nos emocionam e o Batman, o Cavaleiro das Trevas, concebido na cineversão em  trilogia de Christopher Nolan me seduz desde os acordes atordoantes e estrondosos concebidos por Hans Zimmer, o imenso repertório dramático de um elenco composto por veteranos como Michael Caine, Morgan Freeman, sem contar o protagonista Christian Bale, com sua armadura, seus veículos possantes e indestrutíveis, o vilão, a própria encarnação do mal pelo excelente Tom Hardy e o elenco feminino encabeçado pela "gata" Anne Hathaway e a não menos sedutora Marion Cotillard. O filme é ação, mas é também drama e engenhosidade.

Desta vez, Batman está fora de ação há oito anos, desde que Harvey Dent (o Duas Caras) morreu como herói e ele teve que ser o culpado. Bruce Wayne (Christian Bale) também está recluso, decadente, manco de uma perna, amargando a perda do seu grande amor e vendo a sua Wayne Enterprises ir de mal a pior. O comissário Gordon (Gary Oldman) não tem coragem de dizer a verdade aos cidadãos de Gotham City e a polícia da cidade o quer somente como o policial herói, mas não na ativa, pois os tempos agora são de paz graças a Lei Dent, que tirou os criminosos das ruas e lota os presídios. Nas palavras de Gordon ao final de "Batman - o Cavaleiro das Trevas": Batman é o herói que Gotham merece, mas não aquele de que ela precisa no momento". Neste filme, Batman é o herói que todos precisam. "Ele deve existir", diz Gordon.

Novos personagens surgem e dão a dinâmica necessária aos terríveis acontecimentos que estão para estourar em Gotham. Selina Kyle (Anne Hathaway) rouba colares e bate carteiras, além de ser ágil e boa nos golpes com as elásticas pernas. A Mulher Gato acaba agindo para quem pague mais. E um dos vilões da história, o sócio de Bruce, Dagget (Ben Mendelsohn), acaba precisando de um favor da sedutora ladra. O mal em pessoa, Bane (Tom Hardy), um homem treinado pelo próprio Ra´s Al Ghul (Ralph Fiennes) está vindo. Uma tempestade se abaterá sobre toda a Gotham, conforme anuncia a própria Selina Kyle. "Quando a tempestade se aproximar, vocês vão se perguntar como puderam viver com toda esta opulência". As trevas irão dominar e o mal prevalecerá em Gotham?

Batman vai se mostrar fraco e também irá ressurgir, como todo o herói que se preze. O filme é um prato cheio para quem gosta de drama, quando Alfred (Michael Caine) diz que não quer enterrar mais um Wayne e decide se afastar de Bruce, quando ele pretende voltar à ativa ("Você é a coisa mais preciosa para mim") ou  quando a figura dos órfãos representada pelo policial Blake (Joseph Gordon Hewitt) emerge, fazendo surgir um novo personagem, um policial destemido que irá ajudar Gordon e Batman a salvar Gotham quando a cidade fica sitiada e o terror se instala. Lucius Fox (Morgan Freeman) vai reativar o arsenal de ação de Batman. Miranda Tate (Marion Cotillard) vai seduzi-lo e tentar com que ele siga com o projeto Ficha Limpa, de energia sustentável pela Fundação Wayne. As verdades virão à tona neste clima de terror para 12 milhões de pessoas. 

O filme respeita as tramas e as histórias oriundas dos quadrinhos e dá um acabamento perfeito para a trilogia, trazendo de volta alguns personagens de Batman Begins e de Batman - o Cavaleiro das Trevas, como o Espantalho, agora um juiz a favor do mal. Apesar de ser a conclusão desta épica trilogia sobre o Cavaleiros das Trevas, iniciada com "Batman Begins" e sequenciada com maestria com "Batman - o Cavaleiro das Trevas", o filme de Christopher Nolan que assina o roteiro junto com o irmão Jonathan, a partir de enredo dele e de David S. Goyer, é o menos sombrio deles, pois tem mais cenas diurnas do que noturnas, mas também não deixa de ser o mais desconcertante deles. Poderia discorrer horas sobre o filme, mas dá para elencar uma série de cenas, uma delas é da boa briga de socos, como nos velhos tempos, entre Batman e Bane, enquanto policiais e vilões se enfrentam, e o discurso sobre a importância do medo da morte para mover o homem, no caso o herói, até o seu objetivo que é salvar a sua cidade. Wayne/Batman ainda não deu tudo para a sua cidade e neste confronto com Bane e os demais vilões, a trilogia se encerra com chave de ouro.

Palmas para Nolan, para a Warner, para Hans Zimmer, para os roteiristas, para os atores (especialmente para o excepcional Coringa de Heath Ledger do segundo filme) e principalmente para aqueles que deixaram nascer dentro deles os heróis tão necessários num mundo tão niilista, onde um lunático com armas pode entrar dentro de um cinema e matar a sangue frio e deixar dezenas de feridos. Que nasçam mais heróis como Batman. Que nasçam mais cineastas como Christopher Nolan. Que o cinema vença sempre e continue emocionando a todos.

      

sábado, junho 30, 2012

Inocente simulacro de guerra



 Surpresas agradáveis. Este ano de 2012 está se revelando pródigo nestes filmes para os quais vamos sem muitas pretensões e acabamos embarcando nas suas histórias e saímos da sala de cinema leves e agradecidos. A Guerra dos Botões é um destes filmes. Adaptação do romance homônimo escrito pelo francês Louis Pergaud, em 1912, já teve outras três adaptações, a mais famosa delas foi em 1962, dirigida pelo francês Yves Robert e a mais recente uma produção irlandesa de 1994, guiada por John Roberts. Dirigido por Yann Samuel (Amor ou Consequência), esta produção francesa trata do que podemos chamar um simulacro de guerra, isto é, as pequenas guerras entre duas aldeias vizinhas do sul da França e principalmente dos grupos de crianças que levam o nome das aldeias, os Longevernes, liderados por Lebrac (Vincent Bres), e os Velrans, comandados por Azteca (Theo Bertrand).



 Os simulacros, conforme o conceito de Jean Baudrillard, podem ser simulações, experiências ou códigos que podem ser mais reais do que a realidade, hiper-reais. No filme, a guerra entre os Velrans e os Longevernes parece mais real do que a real que é a guerra civil em Argel no início dos anos 60, na qual os soldados franceses perdem suas vidas, representados en passant no filme por Tintim, irmão de Lanterna (Salomé Lemire), a menina que se veste de menino e que é boa nas lutas e no estilingue. As batalhas entre as pequenas gangues, como chamamos hoje, começam com uma fruta atirado de um estilingue, espadas de madeira, armadilhas e a punição aos derrotados ou capturados pelos inimigos é tirar todos os botões das camisas, o que fará com que eles apanhem dos pais.


 A narrativa se ancora dentro do ponto de vista e da essencialidade de Lebrac para a história, pois ele é o incontestável líder dos Longevernes, mas ainda carrega consigo a responsabilidade de trabalhar para o sustento da casa e a aprovação da mãe (Mathilde Seigner), que conta com ele, já que o pai desapareceu. Ele também é ídolo das duas irmãs caçulas. Na escola, a guerra é interior, pois o garoto é inteligente, mas usa toda a sua astúcia para maquinar novos confrontos com o bando da aldeia rival. Enquanto isso, aprende quem foi Louis Pasteur, citações de grandes pensadores e os conceitos de liberdade e independência com o professor Merlin. Ele nutre o sonho de um dia ser o ministro das Crianças e tem uma paixão por Lanterna, que é recíproca.


  Os momentos engraçados do filme são puxados pelo elenco adulto, pois os professores Merlin (Eric Elmosino), de Longevernes, e Labru (Alain Chabat), de Velran, quando se encontram acabam se ofendendo e rolando pelo chão, protagonizando brigas muito mais toscas do que os meninos. Num clima realmente de guerra, onde ninguém morre, mas se conquista território, e temos códigos e até uma bandeira feita de retalhos de vestido, eles terão que superar os seus dramas pessoais, lutar por uma vida melhor, fazer escolhas como Lebrac, que pode tentar uma bolsa numa escola melhor, mas precisa deixar a mãe sozinha com suas duas irmãs. No quesito estudo, Merlin é uma espécie de professor John Keating (Robin Willians) de Sociedade dos Poetas Mortos, que tenta estimular os alunos a serem mais do que a aldeia no passado já foi líder dos Longevernes. A atuação de Fred Testot como o padre Simon, seja projetando filmes na igreja e obstruindo a lente quando há um beijo na tela ou apitando jogos de futebol e roubando a favor dos Longevernes também assegura muitas risadas da plateia, bem como a senha que deve ser repetida pelos integrantes do grupo, que é sempre as três primeiras letras de uma especialidade ou coisa que o líder gostava ou gosta, ficando quilométrica quando repetida.



Com pequenas vitórias como apontar um traidor no bando adversário ou descobrir que os inimigos cometeram erros de ortografia em pichações ou falar palavras das quais o outro não sabe o que é, como Culhão Murcho ou Coça Saco, o filme é todo bem tramado aproveitando atos inocentes, porém marcantes, das crianças.  A guerra inocente travada pelos grupos das duas aldeias dá ao filme o caráter surpreendente e lembra grandes filmes com protagonismo de crianças, como “Conta Comigo”, “Adeus, Meninos" e até o mais recente francês “O Pequeno Nicolau”. Outra surpresa agradável que vem da França, país com uma produção competente, que não nega a herança de nomes como Abel Gance, George Méliès, Robert Bresson, François Truffaut e Jean-Luc Godard.


A Guerra dos Botões (La Guerre des Boutons)

Direção: Yann Samuell
Roteiro: Yann Samuell, adaptação do livro homônimo de Louis Pergaud
Elenco: Eric Elmosnino, Mathilde Seigner, Alain Chabat, Fred Testot, Vincent Bres, Salomé Lemire, Théo Bertrand e Tristan Vichard.
Duração: 1h49 min
País: França
Ano: 2011
Distribuição: Imovision




Crédito de foto: Imovision / Divulgação

domingo, junho 24, 2012

Cineasta infinito na Cidade Eterna



Antes de começar a discorrer sobre o deleite que foi assistir ao mais recente filme escrito e dirigido por Woody Allen, Para Roma com Amor, quero deixar bem claro que não é possível se estabelecer comparações com o filme anterior, Meia-Noite em Paris. Até porque acho impossível traçar comparativos entre Roma e Paris, que são duas cidades estarrecedoramente belas e apaixonantes, cada uma à sua maneira. Feita essa primeira consideração, vou me ater naquilo que Woody Allen fez aos nos remeter à visão do cineasta sobre Roma, quando pretende contar quatro histórias sobre romanos, italianos do interior que vão a Roma e
americanos na Cidade Eterna. Neste filme, Woody Allen foca nas questões de Roma e a comédia em torno do seu caos, da sua história, dos seus cidadãos.

São quatro histórias abordadas na tentativa de fazer a sua visão do Decameron, texto de Giovanni Bocaccio de 1350, as questões ligadas à sexualidade e à traição nos tempos romanos atuais. Já na introdução, este caos, esta desordem em meio à beleza milenar, aparece na condução do início da história por um guarda de trânsito que apresenta as histórias que serão contadas. Ele está ali junto ao Arco de Tito para organizar o trânsito e quando há um acidente, ele simplesmente grita um palavrão e a confusão está feita. Assim, os personagens vão aparecendo um a um com as suas respectivas histórias. A primeira é a de americana Hailey (Alisson Pill) que carrega um mapa e pede informações a Michelangelo sobre a Fontana Di Trevi. Ele se oferece para acompanhá-la e logo os dois já estão aos beijos, aproveitando o romantismo que é quase um clichê da Cidade Eterna.





O humor inteligente de Allen se oferece para o filme quando o próprio diretor - apelidado por mim aqui de cineasta infinito por ter inteligência, sacadas e humor inesgotáveis, apesar de parecer repetir sempre a mesma neurótica piada - entra em cena com o seu personagem, o diretor de óperas aposentado Jerry, que ouve uma mensagem sobre turbulência no avião da Alitalia que está chegando em Roma e demonstra todo o seu medo de avião (situação já descrita por Luis Fernando Verissimo na crônica "Emergência").





Roma e as histórias que capturam a alma da cidade e do seu povo aparecem com uma crítica a sociedade do espetáculo, apontada por Guy Debord, quando o personagem com uma vida ordinária, Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni) vira famoso da noite para o dia. Sátira à imbecilidade e à fugacidade da fama fácil no mundo televisivo, o personagem de Benigni no começo se incomoda com o fato de os jornalistas lhe pedirem sua opinião sobre tudo e para dizer se gosta de dormir de frente ou de bruços ou o que comeu no café da manhã? Allen acertou e errou na escolha do ator, porque Benigni é um dos caras mais engraçados da Itália e ao mesmo tempo é considerado muito sem graça pelo público e crítica brasileiro por seus erros em filmes como Johnny Stechino e acertos em obras como O Pequeno Diabo e A Vida é Bela, este um pouco mais odiado pelos brasileiros por causa da vitória na disputa com Central do Brasil pelo Oscar de Filme Estrangeiro em 1999.




Bom, mas o filme segue e acompanha um casal que chega do interior, de Pernodone, na sempre cheia Stazione Termini, Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) que vão tentar a vida em Roma. Neste núcleo, Woody Allen observa muito bem outra característica comum aos italianos, que é a confusão ao dar informações. Milly simplesmente se perde pelas dobradas destra e sinistra e pontos de referência não-turísticos, enquanto Antonio recebe a visita de uma prostituta com "tutto pago", Anna (a sempre desconcertante Penélope Cruz, parceira de Allen em Vicky Cristina Barcelona). Esta história rende piadas um pouco previsíveis, mas o estilo comédia de erros ligada à traição acaba convencendo.





Representando a linha do fantástico e sensual, está a história do casal formado pelo estudante de arquitetura Jack (Jesse Eisenberg) e Sally (Greta Gerwig). Contando a onipresença do arquiteto John Foy (Alec Baldwin), Jack terá que resistir aos encantos da sedutora atriz Monica (Ellen Page), reeditando a parceria que deu certo em Juno com Eisenberg. O fantástico da história é que Foy saca que Monica quer seduzir Jack e desvenda os segredos de sedução da moça. Caem as máscaras, mas é impossível resistir aos encantos de Monica ("o nome exala sensualidade", comenta John Foy). Vários cenários engrandecem este romance, pois começa no bairro boêmio do Trastevere e segue por visitas ao Coliseu, o Fórum e as Termas de Caracala numa noite chuvosa (a mesma chuva que emociona em "Meia-Noite em Paris").





Por fim é importante comentar de quanto há de eterno na graça e ironias de Woody Allen quando faz piadas com o dinheiro, como quando está tentando convencer o pai de Michelangelo, Giancarlo (Fabio Armiliato) a ser cantor de ópera, pois ele tem um bom desempenho no chuveiro. Ele queria montar "Pagliacci", a ópera de Ruggero Leoncavallo, com Giancarlo, um cantor de chuveiro, que não aceita de modo nenhum o convite, com a família dizendo que ele canta por prazer não por dinheiro. Jerry, o personagem de Allen, responde: "dinheiro dá prazer, quando a gente acaricia as cédulas, elas são verdes, macias e onduladas". Importante ressaltar o timing cômico de Judy Davis que vive Phillys, a esposa psiquiatra de Jerry, que faz uma análise psicológica maravilhosa do fato de a aposentadoria de Jerry estar ligada à morte e ele querer que o agente funerário cante dentro de uma caixa (só não conto mais para não estragar a surpresa).





O filme é agradável, com aquele humor inteligente de Woody Allen que reedita em parte aquelas comédias de costumes e de erros de Allen nos anos 70 e 80, que tem algumas piadas sem graça e imperfeições, mas nada que prejudique o conjunto. A destacar também a trilha que privilegia a música "Nel blu dipinto di blu (Volare)", executada por Domenico Modugno e San Remo Orchestra na Piazza Di Spagna, além de trechos de óperas de Leoncavallo, Verdi e Puccini (como a clássica Nessun Dorma, de Turandot); e também a inclusão no elenco de expressivos atores italianos como a diva dos anos 70 e 80, Ornela Mutti (de Flash Gordon e Crônica de um Amor Louco), como uma atriz famosa, Pia Fusari, além de Francesco de Vito (o Pedro, de A Paixão de Cristo), Donatella Finnochiaro e Ricardo Scarmaccio, ambos de As Idades do Amor e Luca Calvani, de Quando em Roma.



Créditos: Paris Filmes / Divulgação



terça-feira, junho 19, 2012

Acompanhando em Nova York


Uma das coisas que mais gosto em Hollywood é quando um ator consegue manter-se em alto nível de atuação e não cede aos apelos de filmes de ação ou campeões de bilheteria para manter alguma de suas mansões na Califórnia. O caso de Kevin Kline é este. O ator mostra toda a sua boa forma ao viver o excêntrico H.H. (Êitch, Êitch), Henry Harrison, um dramaturgo bon vivant que acaba virando o mentor do jovem professor de literatura Louis Ives (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) , que vive à maneira do início do século XX, lendo O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald e contente por ter a sua vida conduzida por um narrador imaginário, apesar de ser solitário e sem jeito com as mulheres. O filme em questão é Os Acompanhantes (Extra Man).




Por um incidente na escola em que leciona, Louis é obrigado a se mudar para Nova York e lá é sabatinado por Henry pelo aluguel de um quarto. "Como você é o único dos candidatos que falava inglês, o quarto é seu", afirma HH. O dramaturgo que se mostra excêntrico demais, mas acaba conduzindo o jovem para lugares e ambientes que só a Big Apple pode proporcionar, principalmente mansões e mostras de arte. Com uma cultura erudita, Henry é um acompanhante de mulheres ricas. Assim, Louis se empolga com esta nova vida e também com o seu novo trabalho, no marketing de uma revista ambiental chamada Terra, onde conhece a sua colega vegana e ativista política Mary Powell (Katie Holmes). 






Crédito da foto: Vinny Filmes / Divulgação 

Louis está em busca de algo, ser um escritor, se vestir de mulher, enquanto Harrison, com uma atuação ao nível das melhores de Kline, leia-se "Será que Ele é" e "De Lovely", tem "um estranho poder sobre as pessoas", na definição do próprio Louis. Virar um acompanhante e conviver com Harrison, que mascara a sua decadência e tem ciúmes e interesses nas viúvas ricas as quais acompanha, como Vivian Cudlip (Marian Seldes), passa a ser a nova vida de Louis, que ainda tenta conquistar Mary com convites para almoço, ele adora carne e ela é vegana. "Queria tanto ser vegano, mas adoro queijo", diz ele.

Como toda a boa comédia, esta dirigida a quatro mãos por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, a partir de livro de Jonathan Ames, precisaria de coadjuvantes de luxo, atores que inundam a tela com aparições curtas, mas intensas. Este é o caso de John C. Reilly que vive Gershon, um vizinho de HH, que realiza consertos na casa do dramaturgo, não fala mais com ele e aparece no apartamento de surpresa.  Gershon esconde um segredo, usa uma barba longa e anda de bicicleta.

O riso é garantido quando Kevin Kline põe toda a sua organicidade para dançar em casa e às vezes cair duro com dores no ciático ou para pintar falsas meias ou ainda para esfregar uma cachorrinha Yorkshire pelo corpo e passar as suas pulgas para ela. Uma comédia inteligente, perspicaz, com atores versáteis e orgânicos e que acompanha a vida de personagens interessantes que só Nova York poderia produzir.



Ficha técnica:
Filme: Os Acompanhantes
(The Extra Man)
Elenco: Kevin Kline, Paul Dano, John C. Reilly, Marian Seldes, Celia Weston, Patti D'Arbanville, Dan Hedaya, Jason Butler Harner, Alex Burns, Katie Holmes.
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Gênero: Comédia
Duração: 108 min.
Distribuidora: Vinny Filmes