Críticas de literatura (textos) e cinema (telona) e também de teatro e música, quando necessário. Artes visuais somente para fruição. Alguma entrevista mais especial também terá vez.
domingo, janeiro 20, 2013
Caçada real a Osama com ares de telefilme
Uma caçada que foi real a Osama Bin Laden. Um filme com intenção de ser um docudrama fiel, que resulta apenas em uma produção do cinema com ares de telefilme. Este é “O Homem Mais Procurado do Mundo”, um filme que deve ser assistido como documento histórico, não como cinema. Porém o filme, que tem o título original “Codename: Geronimo”, que era o nome dado ao terrorista na operação, tem o grande mérito de recriar com bastante exatidão as circunstâncias que levaram à invasão da fortaleza de Osama Bin Laden em Abbotabad, nas proximidades da capital Islamabad no Paquistão, na madrugada de 2 de maio de 2011, quase 10 anos após o atentado às torres gêmeas em Nova Iorque, que vitimou mais de 3 mil e abalou as bases da maior potência do mundo. Segundo fontes oficiais à época, foram mortas quatro pessoas, inclusive Osama e um dos seus filhos.
Baseada na história real, a trama se foca na ação conjunta da CIA em parceria com um grupo de operativos das forças especiais do Exército norte-americano, os SEALs. A prisão de um homem no Paquistão leva ao mensageiro de Osama Bin Laden e a um local que passa a ser monitorado desde agosto de 2010. Em uma operação no Paquistão, dois agentes passam a monitorar a fortaleza, em busca de pistas que levem o governo dos Estados Unidos ao seu maior inimigo: o terrorista Osama Bin-Laden.
Na mão do diretor de “Turistas”, John Stockwell, a história adquiriu um tom mediano, com os ares de telefilme já mencionados, mistura da séries “24 Horas” e “The Unit”, que utiliza aqueles caracteres digitados na hora para designar o local, o dia e a hora e a mostra do uso da tecnologia para rastreamento e identificação do terrorista. Ao mesmo tempo que o docudrama imprime ao filme uma boa dinâmica — mostrando alguns documentos confidenciais, além da voz e fotos exclusivas de Barack Obama nas semanas que antecederam a autorização ao ataque — quando o cineasta apela ao sentimentalismo do soldado que fica longe de casa 300 dias por ano, a obra descamba para uma pieguice sem fim, com repetição de fórmulas desgastadas e melhor utilizadas em filmes como “Soldado Anônimo”, de Sam Mendes.
Crédito: Playarte / Divulgação
Soma-se a isto um elenco de segundo time como Cam Gigandet (Stunner), o líder de uma unidade dos SEALs; Anson Mount (Cherry); Freddy Rodriguez (Trench); Kathleen Robertson (Vivian), a agente de contra-inteligência da CIA, que persuade o diretor da CIA, Leon Panetta, a executar a operação. Destaque para a dobradinha de atores da série “Prison Break”, Robert Knepper , como o tenente que comanda a operação, e William Fichtner, como um agente da CIA. É um relato preciso da operação, mas sem alma. Esperamos ansiosamente pela versão de Kathryn Bigelow (do oscarizado “Guerra ao Terror”) com seu “A Hora Mais Escura”, que deve carregar a alma não contida neste filme.
sábado, janeiro 12, 2013
Quando a separação é um dilema
As comédias românticas possuem estruturas
arquetípicas que todos nós conhecemos e quando nos deparamos com a formula de
sempre, o efeito é sempre bom, um mais do mesmo que agrada. Porém, quando a
estrutura convencional é subvertida ou pervertida, conforme o depoimento da
atriz, roteirista e produtora Rashida Jones, aí o resultado pode ser
surpreendente, inteligente, refrescante, para usar uma palavra em voga na
crítica norte-americana. Estou falando de Celeste e Jesse para Sempre, filme
dirigido por Lee Toland Krieger, a partir de roteiro escrito a quatro mãos por
Rashida Jones (filha de Quincy Jones) e Will McCormack, também ator e produtor
da obra, amigos de longa data. O resultado é uma comédia romantica indie, que
lembra muito alguns filmes dos anos 80, tipo A Garota de Rosa Shocking , por
causa da trilha que vai Suzanne Kraft a Lily Allen, ou Harry & Sally –
Feitos um Para o Outro, por causa do roteiro criativo e dos diálogos
inteligentes.
A ideia da dupla de roteiristas era exatamente
tratar de um jovem casal, que cresceu junto e que se considera o melhor amigo
um do outro, mas que aos 30 anos resolveu se divorciar e não quer perder esta
amizade. Uma comédia sobre a desilusão é como Rashida e Will definem. Rashida é
Celeste, sócia de uma empresa de mídia e tendências em Los Angeles, e Andy
Samberg é Jesse (não confunda com o seu personagem anterior, o Eisenberg do
Facebook, em A Rede Social), um artista gráfico meio desligadão que leva a vida
na base do surf e do grupo de amigos, que não apressa a vida. Isto incomoda
Celeste, que já tem uma vida estabelecida.
O filme inicia do ponto de vista do casal que está
há seis meses separado e encaminhando os papéis do divórcio, mas que faz todas
as coisas junto. O pequeno ponto de virada inicial do filme é quando o casal de
melhores amigos Beth (Ary Grainor) e Tucker (Eric Christian Olsen) resolve dar
a real e dizer que é insano eles estarem separados e comportarem-se como almas
gêmeas, isto numa cena em que eles imitam um casal com sotaque inglês, mas em outros
momentos eles mostram esta cumplicidade extrema como quando eles pegam uma
bisnaga de creme, pomada ou maionese e simulam uma masturbação.
Sem querer criar um spoiler ou contar o que vai
acontecer no filme, o interessante da discussão suscitada pelo filme é
exatamente este rumo à maturidade, este desligamento do amor iniciado entre a
infância e adolescência, o querer ser grande, como diria aquele filme
protagonizado por Tom Hanks. Os amigos de ambos os aconselham a conhecer outras
pessoas e Jesse sai na frente conhecendo uma bailarina chamada Veronica
(Rebecca Dayan). Como Celeste quis a separação, esta notícia o deixa arrasada.
Numa aula de yoga, ela conhece o analista financeiro Paul (Chris Messina) e
tenta acertar no amor.
Com coadjuvantes de luxo, como o próprio Will McCormack
que é Skillz, um traficante de drogas leves; Elijah Wood, como Scott, o amigo gay de Celeste, e Emma Roberts, como Riley
Banks, uma pop star supostamente descerebrada, o filme discute o ocaso dos
relacionamentos e chegada da maturidade verdadeira, mas também a indústria da música,
do marketing, como quando um logo de Riley Banks tem uma interpretação
sexualizada, entre outros tantos temas desta geração dos 30 anos, mas que se
aplica aos quarentões e cinquentões antenados. Uma comédia romântica
interessante, com a fórmula que se aproxima mais do real do que do happy ending
e que trata de forma leve, e ao mesmo tempo séria, do tema da separação.
Créditos das fotos: Paris Filmes
CELESTE E JESSE PARA SEMPRE
Realizado por LEE TOLAND KRIEGER
Escrito Por RASHIDA JONES e WILL
MCCORMACK
Musica
SUNNY
LEVINE e ZACH COWIE
Fotografia DAVID LANZENBERG
Montagem YANA GORSKAYA
Estrelando RASHIDA
JONES, ANDY SAMBERG, CHRIS MESSINA, ARI GRAYNOR, WILL MCCORMACK, EMMA
ROBERTS E ELIJAH WOOD
quinta-feira, janeiro 10, 2013
JUSTIÇA ATÉ O FIM
Bem-vindo mais uma vez monsieur Philippe Lioret, que já havia nos brindado com um filme "Bem-Vindo", que mescla drama pessoal com situação política, e que agora nos traz o drama pessoal, jurídico e econômico "Tudo o que Desejamos" que entra em cartaz nesta sexta, no Guion Center, em Porto Alegre. Novamente em parceria com o roteirista Emmanuel Corcol e com o ator Vincent Lindon, Lioret resolveu adaptar o livro "Outras Vidas que nâo a Minha", do aclamado escritor francês Emmanuel Carrère, que esteve na Flip, em Paraty, em 2011. A trama começa trágica, mas caminha para a redenção ou sublimação na vida da personagem Claire (Marie Gillain), uma jovem e idealista juíza de Lyon, na França, que tem por opção aplicar a lei para defender os menos abastados da gana de grandes corporações. No caso abordado no livro e também no filme, Claire vai julgar o caso da mãe de uma amiguinha da sua filha, que tem dívidas com financeiras. O drama financeiro e jurídico passa para o pessoal, quando Claire descobre um glioblastoma, um tumor cerebral agressivo, que se alastra e mata em poucos meses.
A cruzada contra as financeiras será a última causa da vida de Claire, a justiça levada até o fim e eis que ela é indicada a um juiz veterano Stéphane (Vincent Lindon), que é um especialista no tema, além de ser técnico de rúgbi nas horas vagas. Deste elo entre estes dois personagens, que gravitam paralelamente aos seus respectivos marido e mulher, é que o filme ganha a força da luta por uma causa, das interpretações fortes da juíza que está morrendo e do juiz durão que se enternece pela jovem juíza, mas não sexualmente falando, mas pela luta, pelo idealismo há muito perdido. Lindon já havia vivido um técnico de natação, que ajuda o menino curdo a atravessar o Canal da Mancha, em busca de familiares em "Bem-Vindo".
O detalhe que pode passar despercebido num filme tão dramático não é a trilha, mas sim o som do filme. Philippe Lioret antes de ser roteirista e diretor foi engenheiro de som de filmes como "Uma Leitora Bem Particular" e "Romuald e Juliette". A captação de som casa magnificamente com o clima proposto por Lioret deixando o espectador identificado e ao mesmo confrontado com suas próprias mazelas, com suas dívidas, com a iminência da morte e da perda de entes queridos, quando o aflora este sentimento no marido de Claire, Christophe (Yannick Renier), e na mãe da amiga da sua filha, Céline (Armandine Dewasmes). A inclusão na trilha e na história da música ""On Saturday Afternoons in 1963", de Rickie Lee Jones, é mais outro elo interessante da história, pois aproxima os dois protagonistas e quebra as diferenças de geração entre eles. Um belo filme triste, pois a tristeza não é de todo ruim, quando se há uma causa a ganhar, quando se tenta levar a justiça até o fim.
Foto: Guy Ferrandis
TUDO O QUE DESEJAMOS
(TOUTES NOS ENVIES/FRANÇA/ 2011/ 120 MIN/ 12 ANOS
Direção: PHILIPPE LIORET
Roteiro: PHILIPPE LIORET, EMMANUEL COURCOL baseado no romance de EMMANUEL CARRÈRE
Fotografia: GILLES HENRY
Edição: ANDRÉA SEDLACKOVA
Música: FLEMMING NORDKROG
Elenco:
VINCENT LINDON (Stéphane),
MARIE GILLAIN (Claire),
AMANDINE DEWASMES (Céline),
YANNICK RENIER (Christophe)
domingo, janeiro 06, 2013
Unidas por um mesmo amor
Tudo o que se diz sobre o cinema argentino é que ele produz mais filmes bons do que ruins. Isto está correto. Enquanto o Brasil busca as bilheterias com comédias sem qualquer sentido, tipo "E aí, Comeu?" ou "Os Penetras", a Argentina tem buscado a bilheteria em temas cômicos, trágicos ou tragicômicos. Não há aí qualquer comparação, pois os grandes filmes brasileiros, no sentido arte e não bilheteria, quase não tem mercado fora dos festivais. Já os filmes argentinos que aqui chegam são sempre acima da média. Mas para que este papo todo, senão para dizer que "Viúvas", de Marcos Carnevale, é um destes filmes.
A sutileza do diretor em tratar um tema banal, quase cotidiano, mas que tem uma certa mágica. A diretora de documentários Elena (a extraordinária diva argentina Graciela Borges) é avisada no set de filmagem que o marido Augusto sofreu um infarto. Ao chegar ao hospital com a amiga, assistente e durona produtora Esther (a impagável Rita Cortese), uma outra mulher, Adela (a segunda no meu ranking de atrizes argentinas, Valeria Bertucelli, que só perde para a Soledad Villamil), está zelando pelo marido infartado. No leito de morte, Augusto pede o impossível a Elena, que cuide de Adela, "pois ela não tem ninguém".
O tom do filme a partir daí está instaurado. Adela vai tentar se aproximar de Elena, que a rejeita, mas depois acaba cedendo e tentando tratá-la como uma filha. Adela é aquele tipo garota interrompida, fruto de uma geração desesperançada, que faz tudo e nada, e não termina consegue terminar o curso de comunicação e nem manter o emprego como repórter de trânsito de uma rádio de Buenos Aires. Carnevale fotografa muito bem a Buenos Aires, alternando a câmera entre o mundo abastado de Elena e o mundo pobre de Adela, que mora num apartamento que era pago por Augusto no bairro chinês da capital argentina.
Foto: Imovision
O drama se intensifica quando Adela tenta se suicidar e vai morar com Elena. Mais não posso contar, mas na casa de Elena vemos um personagem sui generis que é a empregada Justina (o debut cinematográfico do hilário Martín Bossi), um homem que trocou de sexo. Ela é fiel ao patrão, pois trabalha desde adolescente com o casal e também muito sincera, não se dobrando diante de Elena. A cara séria de negação quando Elena a manda fazer uma coisa e a fala em guarani quando não quer que a patroa saiba sobre uma conversa com um familiar dão o tom cômico de "Viúvas".
O filme aborda de forma quase realista o drama de duas mulheres que amaram o mesmo homem e acaba falando de amor e não da traição, porque o amor é maior. Mesmo revoltada e triste com a traição de Augusto, quando perguntada sobre o que lembrava dele, Elena diz: "Ele era um cavalheiro, um homem que me dava segurança, que fazia eu me sentir bem, amada". Isto resume um filme que não julga a traição, mas que trata das consequências da infidelidade e do amor que ultrapassa as barreiras morais e sociais. Não por acaso, o documentário que Elena está concluindo "Chicas", trata de mulheres infelizes no amor. Mais um filme argentino acima da média. Que bom que as nossas distribuidoras, como a Imovision, estão atentas a estes lançamentos.
quinta-feira, janeiro 03, 2013
Alice na Paris das maravilhas
A fórmula para uma boa comédia romântica parece estar sempre pronta, com uma cidade apaixonante, locais que simbolizam o amor e uma história que relacione a cidade com o romance vivido, um monumento, um café, um bar, um rio, qualquer coisa deste tipo. É preciso dizer que existe um recheio necessário, algo intangível, uma coisa meio Nora Ephron, Rob Reiner, Garry Marshall (só para citar alguns nova-iorquinos da boa safra oitenta-noventista), ou então Woody Allen. Em "Paris-Manhattan”, a cineasta Sophie Lellouche resolveu apelar para o ingrediente Woody Allen.
Alice Ovitz (personagem vivido pela homônima Alice Taglioni) é uma mulher bonita e apaixonada pelo seu trabalho como farmacêutica. O problema é que a paixão pelo trabalho não é proporcional ao seu interesse pelo parceiro ideal, pelo par romântico. Ela já está sendo chamada de solteirona, está ficando para titia, como dizemos aqui no Brasil. O principal refúgio emocional é o cinema de Woody Allen. Alice conversa com Allen (o voz em off do próprio diretor nova-iorquino que faz uma ponta presencial no filme).
Ela gosta tanto dos filmes e dos ensinamentos contidos em filmes como "Manhattan", "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo..." e outros, que chegando ao ponto de transformar a sua farmácia em uma mini-locadora de DVDs, pois prescreve os filmes de Allen para as pessoas que procuram a farmácia para curar os seus problemas.
Nas conversas com Woody Allen, alguns ensinamentos do diretor estão presentes, como um freudiano, de que as duas coisas mais importantes da vida são a escolha da profissão e do sexo ou então: "case e tenha cinco filhos". Por outro lado, Alice ignora os apelos familiares para que se case. Um dia, Victor (Patrick Bruel) aparece em sua vida. Numa das dezenas de festas para a qual é convidada e na qual o pai (Michel Aumont), judeu como Woody Allen, tenta lhe arranjar um namorado. Victor é especialista em alarmes e é claro que o pai o contrata para instalar um alarme na farmácia de Alice. Ele desenvolveu um alarme diferente, que expele clorofórmio para adormecer o assaltante. Victor é inteligente, irônico e sabe tudo que está passando à sua volta, como descobrir quem trai quem e sua presença masculina a ajudar e ao mesmo tempo incomodar a vida sem sobressaltos de Alice. O seu único defeito para Alice é nunca ter visto um filme de Woody Allen. O seu primeiro é "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo (e Tinha Medo de Perguntar)". Ele se espanta com a cena de Gene Wilder com uma ovelha na cama, mas segue vendo os filmes de Woody.
Crédito: Vinny Filmes
O filme nos apresenta alguns signos interessantes de comédias românticas, como casais apaixonados dançando na rua, crianças correndo nas ruas, nos mercados e na própria farmácia, coadjuvantes que roubam a cena como Michel Aumont, como o pai glutão e judeu de Alice, Marie-Christine Adam como a mãe alcoólatra e também a irmã e o cunhado perfeitos (Marine Delterme e Louis-Do de Lencquesaing) e os clientes da farmácia, que apoiam Alice na sua loucura woodyalleniana.
A magia do filme está na vontade de Alice de estar em Nova Iorque, de viver cenas dos filmes de Allen e ao mesmo tempo estar passando por cenários que hipnotizaram Allen quando ele construiu "Meia-Noite em Paris". É difícil comparar a Torre Eiffel com a Estátua de Liberdade (esta construída originalmente em Paris) ou Central Park com o Jardim de Luxemburgo, Hudson com Sena, mas o certo é que Woody Allen traz Nova Iorque para Alice, mas também um pouco do romantismo inteligente, irônico e perspicaz, que a Big Apple proporciona. Mas se não estivermos em Nova Iorque, nós sempre teremos Paris, como Ricky (Humphrey Bogart) já disse a Ilsa (Ingrid Bergman), que foi tão bem parodiada por Allen em "Sonhos de um Sedutor" ("Play it Again, Sam"). A aparição de Allen no filme é para falar da importância de uma das pessoas envolvidas na história.
O detalhe de produção do filme é que a cineasta Sophie Lellouche sempre foi obcecada por Woody Allen e que havia dirigido apenas o curta "Dieu, que la nature est bien faite!", em 1999, passou algum tempo tentando encontros marcados ou ocasionais com o diretor de "Meia-Noite em Paris", até que ele concordou em fazer esta ponta no filme. Uma comédia romântica de boa qualidade para começar bem o 2013
sábado, novembro 03, 2012
"Nunca vi uma feira como esta", diz Jeffery Deaver
| Deaver está impressionado com a Feira do Livro de Porto Alegre |
Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação
O autor de “O Colecionador de Ossos, o norte-americano Jeffery Deaver, estará neste sábado, dia 3/11/2012, na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre para falar sobre a nova investigação do criminologista Lincoln Rhyme, o livro “A Janela Quebrada” (Record) lançado em 2008 nos Estados Unidos e em 2012 no Brasil. Ele fala sobre este e os demais livros, como “Carte Blanche” (Record), em que traz James Bond de volta à ação, às 18h30 na Sala Leste do Santander Cultural, com mediação do jornalista Carlos André Moreira. Às 20h, ele autografa as duas obras mais recentes no Brasil na Praça de Autógrafos da Feira. Em entrevista a este jornalista e blogueiro, Deaver fala sobre os livros, sobre cinema, séries de tevê e o seu processo de construção de um livro, entre outros assuntos.
Pergunta - Qual será o
assunto que irás tratar na mesa-redonda?
Jeffery Deaver – Vou falar de A Janela
Quebrada e também de Carte Blanche, mas vou falar de como escrevo os livros.
Quero explicar meus métodos a meus fãs. Eu considero o livro como um produto,
como um carro, um avião por exemplo. É preciso ser muito cuidadoso com a
qualidade deste produto, porque o leitor vem sempre em primeiro lugar. Quero
dar ao leitor algo agradável, instrutivo ou esclarecedor, que valha o tempo e o
dinheiro da pessoa. Levo oito meses organizando os capítulos, pensando em personagens,
tramas, mortes e viradas, até pensar o final. Faço como um engenheiro. Então
sento e escrevo durante dois meses, seja para 150 páginas ou mil.
Pergunta - Além de “O Colecionador
de Ossos” que te deu fama, houve algumas outras adaptações para TV e cinema?
Deaver - Quanto mais pessoas
conhecerem meu trabalho, melhor. Gostei da adaptação de “O Colecionador de
Ossos”. Denzel Washington está muito bem. Angelina Jolie estava se revelando
uma grande atriz. Depois, fizeram mais dois telefilmes: “The Devil´s Teardrop”,
com Natasha Henstridge, baseado no livro homônimo, e “Dead Silence”, adaptado
de “A Maiden´s Grave”, com James Garner. Alguns autores dizem que detestam Hollywood,
que destruiu suas obras, mas não devolvem o dinheiro dos direitos autorais para
os estúdios. Como escritor, não tenho nada a ver com a versão cinematográfica
de um livro meu. A experiência de assistir a um filme é diferente de ler um
livro. Faço de tudo para chegar ao máximo de pessoas possível. Gosto também de
séries de TV, como Boarwalk Empire, Dexter, Família Soprano. Estou envolvido na
produção de uma série: “Murder in Small Town X”. Recebi um e-mail de um estúdio
já interessado em adaptar “A Janela Quebrada”.
| Frente a frente com este jornalista e blogueiro |
Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação
Pergunta - Conheces alguns autores
brasileiros?
Deaver - Não, não conheço. O
problema é não haver traduções para o inglês, o que é uma pena. É a mesma coisa
com as literaturas italiana, alemã e escandinava. Dos italianos, recentemente
li Andrea Camilleri e o seu detetive Montalbano.
Pergunta - E sobre a Feira do Livro
de Porto Alegre?
Deaver - Ela é maravilhosa.
Já em feiras e festivais do livro no mundo inteiro, em lugares como Edimburgo, Frankfurt
e no Japão e nunca havia tão grande e popular como esta feira. Ela é pelo menos
dez vezes maior do que as dos Estados Unidos. A visão é fantástica, aqui na
praça ou no Cais do Porto. E as vistas
são fantásticas, tanto aqui da praça, quanto do Cais do Porto. É inspirador.
Pergunta - O Brasil pode ser
cenário para um dos seus próximos livros?
Deaver - Claro. Não uma
história toda, mas uma parte da trama. Seria em Porto Alegre mesmo, pois
um funcionário meu, o Adriano Rocha, é daqui. (Rocha é adestrador dos cães que
Deaver leva a competições de Kennel Clubs nos Estados Unidos). O Cais me
pareceu um lugar assustador, bom para a morte de algum personagem. O Adriano me
disse para beber a cerveja Xingu e a caipirinha, que não tem em nenhum outro
lugar.
Pergunta - E sobre os próximos livros?
Deaver - Estou terminando “The Kill
Room” que deve ser publicado em junho de 2013. Será outro livro sobre o
criminologista Lincoln Rhyme. Recentemente, publiquei “XO”, outra história da
personagem Kathryn Dance. Uma Thurman já comprou esta história para filmar.
Quero sempre dar aos leitores algo valioso, que rearranje suas percepções. Não
consigo fazer isso como Jorge Luis Borges ou Gabriel García Marquez. Eles
exploram coisas que levam os leitores com eles, a desfrutarem a obra com
prazer.
sexta-feira, outubro 19, 2012
De Pai para Filho desde 1912
Por Luiz Gonzaga (Lopes)
Não haveria como eu não me envolver com este filme Gonzaga –
de Pai para Filho, com direção e roteiro de Breno Silveira, que estreia nesta
sexta-feira, dia 19 de outubro, nos cinemas. A começar pelo nome, pois como vocês
estão sendo resolvi assinar o texto de cima para baixo. Desde que eu me conheço
por gente, quando chego em um lugar e digo o meu nome, algum gaiato responde e
cadê a sanfona. No início, eu respondia: “deixei em casa” ou “está na carteira”
etc. e tal. A questão é que o velho Lula, ou Lua, ou Gonzagão povoa o imaginário
brasileiro da segunda metade do século 20, pela história de persistência em
popularizar no Rio e São Paulo (Sul, como diz o ator que vive dos 27 aos 50
anos, Chambinho do Acordeon) um estilo totalmente nordestino, o baião.
A despeito das escolhas narrativas de Breno Silveira que
opta sempre pelo folhetim ao contar uma história, pela busca do drama, este
filme se encaixa no estilo do cineasta, pois o retrato desta entidade da música
brasileira é duro e mostra o jovem Gonzaga (Land Vieira e depois Nivaldo
Expedito Carvalho) que procurou o sucesso que o tiraria daquela realidade
nordestina da cidade pernambucana de Exu, onde amava Nazarena, a Nazinha (Cecília
Dassi), filha do coronel Raimundo Delgado, mas apesar de ser correspondido, o
pai dela jamais iria permitir o casamento com um garoto “sem eira nem beira”. Ele
tinha era a sua sanfona, que também era o amor do pai Januário. Para ser alguém,
se alistou no Exército em Fortaleza (CE), mas nunca deu um tiro em ninguém.
A opção pela narrativa a partir do ano de 1981 é acertada,
pois foi neste ano em
que Gonzaguinha (em uma atuação e uma caracterização
magistral do ator gaúcho Julinho Andrade, nenhuma novidade para quem já o viu
atuando pelos teatros de Porto Alegre com o Depósito de Teatro e em outras
montagens como o Menino Maluquinho) após emplacar a carreira e as capas das
principais revistas e jornais do país resolve voltar para acertar os ponteiros
com o passado e principalmente com o seu velho pai.
O encontro entre Gonzagão (1912-1989) e seu filho, o cantor
e compositor Gonzaguinha (1945-1991) é tenso, mas o pai começa a contar a sua
vida ao filho e Gonzaguinha começa a entender os amores, a luta do pai, que
acabou afastando-o da família e principalmente da mãe do cantor de MPB, Léa
(vivida por Nanda Costa, que será protagonista de Salve Jorge, nova novela das
nove da Globo). O recurso do flash back, desgastado em alguns outros filmes
brasileiros, nesta cinebiografia acaba tendo um grande efeito, pois quem
acompanha os desajustes entre pai e filho, a partir do respeito que Gonzaga tinha
por Januário (“Respeita Januário”), a ideia de que Gonzaguinha deveria ser
doutor, o acompanhamento da forma como ele compunha as suas músicas, com as
letras sempre precisas de Humberto Teixeira, o parceiro que ele conseguiu com
persistência pelas ruas da Lapa Carioca, tudo conspira neste filme. Como não se
impressionar com: “quando olhei a terra ardendo e a fogueira de São João / eu
perguntei a meu Deus do céu / por que tamanha judiação”. Outra letra que também
retrata o sentido do popular em Gonzagão é A Vida do Viajante: “Minha vida é
andar / Por esse país / Pra ver se um dia / Descanso feliz / Guardando as
recordações / Das terras por onde passei / Andando pelos sertões / E dos amigos
que lá deixei”. Uma das cenas do filme em que ele toca na marquise do Cine Pax,
no Rio de Janeiro também traduz esta noção do popular, de tocar para o povo e não
somente por dinheiro ou fama.
A vida do Rei do Baião teve tons épicos, por que não? Breno
Silveira soube condensar os avanços e recuos no roteiro, com o tom exato de
dramaticidade necessário a personagens da história da música como estes dois
personagens. Um dos destaques do filme é cena que foi real quando Luiz Gonzaga
impressionou Ary Barroso em um programa de rádio carioca nos anos 60. A decadência de Luiz
Gonzaga e a ascensão de Gonzaguinha são mostradas sem comedimento, com a
participação de alguns bons atores coadjuvantes como Silvia Buarque e Luciano
Quirino, como os padrinhos de Gonzaguinha, que realmente criaram o menino e
jovem Gonzaguinha no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro e também de Roberta
Gualda, que vive Helena, a mulher que assume o coração de Gonzagão com a morte
de Léa, por tuberculose.
O filme é bom de ver, resgata duas biografias importantíssimas
na história da música brasileira e uma época que ao mesmo tempo foi difícil,
pois Sem contar a infinidade de músicas que todos nós gostamos de ouvir um dia
e que hoje talvez não tenhamos tempo para tal como “Asa Branca”, “Xamêgo”, “Vira
e Mexe”, “Paraíba” e “A Vida do Viajante”, cuja turnê em 1981 de Gonzagão e
Gonzaguinha foi um enorme sucesso. Uma história a ser contada. Um filme necessário
para a cinematografia brasileira. Uma das grandes estréias, senão a maior
estreia da semana.
GONZAGA DE PAI PRA FILHO
Elenco: Chambinho do Acordeon, Julio Andrade, Land Vieira,
Luciano Quirino, Nanda Costa, Ana Roberta Gualda, Claudio Jaborandy, Cyria
Coentro, Giancarlo di Tomazzio.
Direção: Breno Silveira
Gênero: Drama
Distribuidora: Downtown Filmes
Duração: 120 min
Sinopse: Um pai e um filho, dois artistas, dois sucessos. Um
do sertão nordestino, o outro carioca do Morro de São Carlos; um de direita, o
outro de esquerda. Encontros, desencontros e uma trilha sonora que emocionou o
Brasil. Esta é a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e de um amor que
venceu o medo e o preconceito e resistiu à distância e ao esquecimento.
Site: www.gonzagadepaiparafilho.com.br
quarta-feira, outubro 17, 2012
O "Homem-Massa" visita o Século XXI
Conforme o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o “homem-massa” é um novo bárbaro, que vive na cultura como em estado de natureza, que se ocupa em desocupar-se. Pois o filósofo e atual secretário adjunto da Cultura do Rio Grande do Sul, o filósofo Jéferson Assumção, resolveu transpor ao livro “Homem-Massa – a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada” o resultado de uma pesquisa e posterior dissertação ao Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, na Espanha. A obra editada pela Bestiário e Fundación Ortega-Marañon terá lançamento nesta quarta-feira, 17 de outubro, às 19h, na Pinacoteca (República, 409). Em entrevista a este blogueiro, Jéferson fala sobre a obra, sobre os pontos mais importante da filosofia de Ortega y Gasset e sobre o raciovitalismo.
1 - Como foi a concepção do livro e qual a ideia básica da obra. Originalmente era uma dissertação para o Diploma de Estudos Avançados (DEA) na Universidade de León, teve algumas adaptações para ter o ritmo de um livro aberto a outros interessados extra-acadêmicos?
O livro resulta de uma pesquisa sobre o conceito de "homem-massa", dos principais da fiosofia do espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), para a Suficiência Investigadora do programa de Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, Espanha. Teve alguma adaptação, pequena, para um público mais aberto, mas ainda assim a própria dissertação originalmente segue uma linha, eu diria, um tanto orteguiana, ensaística, menos rígida. Ortega tinha uma forma própria de expor seu pensamento, francamente oposto à linguagem tradicional da filosofia acadêmica. "A clareza é a cortesia do filósofo", ele dizia. E a filosofia, profundo esforço de buscar a superfície, de se manter flutuando no mar do absurdo. Ortega sempre tentou evitar o hermetismo e a mera exibição de "bíceps de feira do tecnicismo acadêmico" - como ele definia. Escreveu na encruzilhada entre filosofia, sociologia, jornalismo e literatura, buscando juntar o que há de mais interessante em cada uma dessas áreas, numa exposição elegante, desportiva, de suas ideias - a maioria publicada em jornais espanhóis e latino-americanos das primeiras décadas do século XX. Ele se incomodava muito com o idealismo e o racionalismo, mas não sentia suficiência em um pensamento meramente vitalista. Por isso seu filosofar é "Raciovitalista". E seus textos coerentes com esta intersecção entre razão (filosofia e sociologia) e vida (jornalismo e literatura). Eu tentei seguir esta forma de exposição, obviamente que com resultados bem menos interessantes que os do filósofo espanhol. Para o livro, escrevi uma Introdução e um Posfácio, nos quais coloco mais frontalmente minhas opiniões sobre o tema e proponho uma forma de abordagem atual para ele. No “corpo do livro”, limito-me a expor o que Ortega pensava, coisas que, hoje em dia talvez soem um pouco anacrônicas e até mesmo preconceituosas a respeito da relação massa e minoria, por exemplo. Mas que, para um pesquisador sobre o tema, é mais importante que tenha um certo nível de objetividade e distanciamento.
Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação
Quais os pontos mais importantes da filosofia de Ortega y Gasset e com o que você concorda ou não?
Concordo com sua visão de cultura como “esforço natatório”, gosto muito de sua estética, de sua ética da gratuidade, de sua exigência de criatividade antiqueixosa contra o coitadismo, da maneira como ele considera o homem-massa paciente, mas também agente (ou seja, responsável em certa medida) por sua condição de massa, devido às suas escolhas etc. Acho que a ideia de coimplicação eu-circunstância, ou seja, de que o ser humano não é apenas o sujeito encapsulado em si mesmo, mas também não é apenas circunstância (corpo, psiquismo, língua, pátria etc) mas um amálgama desses dois, de que recebeu gratuitamente uma vida, mas que esta não lhe foi dada pronta e sim por fazer. Que ele tem que fazê-la criativamente, com esforço diário de dar sentido a essa flecha já lançada, que está forçado a esta liberdade (o que ele disse antes mesmo de Sartre). Que pode escolher massificar-se na heteronomia, vivendo as leis do outro, ou, o que seria mais nobre, conforme Ortega, tentar viver de maneira mais autônoma, elegendo o seu programa de vida e sendo responsável ele. Mesmo a mais pobre das pessoas, para Ortega, é portadora dessa vocação inicial do ser humano, dessa chama de humanidade. Claro que as circunstâncias pesam e muitas vezes desanimam, diminuem a alma, o ímpeto. Mas isso não pode resultar em angústia. Ortega chamava isso de o “caráter desportivo da moral”, avesso à asfixia da angústia existencialista e ao queixume de autores materialistas ou religiosos, que ele também evitava. A ideia de que a vida humana individual é a realidade radical, mas que nós somos um ser-com-os-outros, milhões de eus-circunstâncias geradores de um perspectivismo universalmente distribuído inversa à fragmentação relativista, é portadora de uma ideia de humanidade muito rica. Acho tudo isso ainda muito válido para fundamentar uma ideia de sociedade que não desmoralize seus integrantes, que leve em consideração que as pessoas não são apenas circunstâncias, não são apenas zoe, mas biós, duas palavras para designar “vida” em grego, o primeiro mais ligado à biologia e o segundo, cheio de narrativa pessoal, de razão narrativa, como dizia Ortega, à biografia de cada um. Ortega era muito bélico em relação às instâncias que achatavam o ser humano, principalmente o estado ortopédico, da revolução bolchevique, e o mercado de massas, que ele via nascer com a emergência dos Estados Unidos. O homem-massa do início do século XX tinha duas capitais, Moscou e Nova Iorque, ambas cidades representavam simbolicamente grandes centros geradores de heteronomia. E de homens-massa.
3 - Quais as questões do conceito de homem-massa de Ortega y Gasset que devem ser trabalhados nos dias de hoje e quais as soluções para a sociedade que podem ser postas a partir da problematização orteguiana
Bom, eu não posso ser considerado um orteguiano clássico, mesmo tendo feito minha dissertação e a tese de doutorado sobre temas de Ortega e escrito alguns artigos sobre questões orteguianas. Não acho que as soluções por ele apontadas para o problema da heteronomia e da rebelião das massas sejam as mais adequadas. Por exemplo, uma volta das minorias ao seu papel de educador das massas, de pedagogo social, por meio de uma reforma radical da educação, reintroduzindo nela o que falta de vital e retirando o que sobra de razão físico-matemática, geradora dos bárbaros especialistas: aquele que sabe tudo sobre quase nada e balbucia sobre o resto, como um bárbaro. Este, segundo Ortega, é capaz de fazer uma cirurgia muito complexa e ao mesmo tempo ter uma visão infantil sobre como a sociedade se estrutura. Mas ele achava, em sua época, em plena fé na indústria cultural e nas impressoras rotativas, que as minorias intelectuais poderiam, pela exemplaridade, reinvertebrar a sociedade massificada. Era um outro tempo e ele pensava que a “saudável” tensão massa-minoria havia se rompido e disso resultou a rebelião das massas do início do século XX, ou seja, a emergência de um tipo de pessoas que se aproveitou dos benefícios dos avanços técnicos do século XIX e início do XX para massificar-se, desresponsabilizar-se, para colher os frutos da cultura como se esses fossem produtos da natureza.
Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação
4 - Um dos capítulos de A Rebelião das Massas que mais me atenho e gosto é "A Época do Senhorzinho Satisfeito" que fala exatamente do homem vulgar, que impõe a sua barbárie e o seu primitivismo. O filósofo falava da história europeia, mas de certo modo a indústria cultural tornou a nos dar muitos homens vulgares na música, na literatura. Qual a sua análise à luz de Ortega y Gasset?
Ele dizia que o homem-massa é um bárbaro que ascendeu pelo alçapão da história e que vive na cultura como em estado de natureza. Fala, mas não sabe de onde vieram as palavras, liga o interruptor e surge a luz, liga o carro e ele parte, como se isso tudo não viesse do acúmulo da cultura, de um passado construído com esforço individual e coletivo. O homem-massa é o mocinho satisfeito pela técnica, que despreza a cultura. Este é o mais contundente diagnóstico orteguiano. Agora, massa não coincide com classe social. Não se trata, em Ortega, de um conceito sociológico e sim filosófico. O rico, o pobre, o classe média podem ser, por escolha de sua vontade e de acordo com o esforço que faz para dar sentido à sua vida um homem-massa ou o que ele chamava de um homem-autêntico. Esse diagnóstico segue vigente, talvez mais vigente hoje do que nos anos 30 do século passado. No entanto, hoje vivemos uma mudança nas condições técnicas que foram fundamentais para a emergência do homem-massa. Sobre isso, escrevi um posfácio chamado “Cultura digital e desmassificação”. Se o diagnóstico de Ortega está certo, ou seja, de que a técnica daquele período engendrou o homem-massa, podemos nos perguntar se as novas tecnologias e o uso cultural delas, a cultura digital, oa ambientes pós-massivos, a cultura colaborativa em rede, a diminuição da centralidade do mediador, das indústrias culturais tradicionais, a desmaterialização dos suportes da arte, do conhecimento e da informação, em que em vez da mão única e do monólogo dos meios de entretenimento temos hoje a muldidirecionaridade dos fluxos de informação, podemos estar gerando um ambiente mais favorável à desmassificação? Tudo depende do uso dessas tecnologias para gerar mais autonomia ou mais heteronomia: consumo, principalmente. Eu acho que hoje, momento em que vivemos ao mesmo tempo as camadas pré-industrial, industrial e pós-industrial, temos também homens solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa. Por homens-massa customizado chamo aqueles que a indústria atual faz parecer que suas escolhas são autônomas e que sua produção não é mais em série. São nichos possibilitados pelos avanços técnicos de produção sob demanda de menor custo que dão a impressão de individualidade e pessoalidade nesses produtos. O símbolo maior disso é uma marca de refrigerente colocar nome de pessoas na lata, para consumo de homens-massa customizados. Mas a cultura digital vem dando condições, pelo menos tecnológicas, para se driblar esse uniderecionamento dos desejos, fazendo com que tenhamos mais condições para sair do que Ortega chamava de a crise dos desejos do século XX e a substituição de valores por preços. Vejo com otimismo a possibilidade de apropriação cidadã, autônoma, dessas tecnologias, gerando uma diminuição da dependência do sujeito ao Estado ortopédico ou ao mercado de consumo. Há um terceiro elemento, emergente com a cultura digital: o Comum. Mas isso Ortega jamais poderia imaginar que poderia vir a acontecer como fato social tal como hoje.
5 - Como secretário-adjunto de Estado da Cultura e também ex-coordenador-geral do Plano Nacional do Livro e da Leitura, queria uma opinião sobre como se inseriria o pensamento de Ortega y Gasset e o tua tese de Doutorado nas questões ligadas ao livro e leitura e a um maior acesso à cultura?
Em minha tese “A Ilustração Vital; O Racionalismo de Ortega y Gasset como via para o desenvolvimento de uma sociedade leitora”, ainda inédito, utilizo o conceito de leitor-massa e o contraponho ao de “leitor vital”, ou seja, um tipo de leitura utilitária e pragmática, com respeito a fins mais de ordem técnica, para inserção no mercado ou de simples resposta consumista aos produtos que o mercado inculca como “os melhores livros” etc. Precismos buscar desenvolver leitores vitais, leitores culturais, cuja relação com a leitura ultrapasse o funcional e se torne um hábito cultural que se leva para a vida. Ler porque necessitamos dar sentido a nós mesmos e ao mundo à nossa volta, com mais autonomia do que receber as respostas de fora. Como dizia Paulo Freire, muito orteguianamente: aprender a dizer a própria palavra.
quinta-feira, outubro 04, 2012
A Lua Castelhana de Maria da Graça
A escritora Maria da Graça Rodrigues lança o seu segundo livro “Lua Castelhana” (Editora Movimento), na noite desta quinta-feira, às 19h, no Mezanino da Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80, 2º piso). Dois anos depois da obra de estreia, “Helena de Uruguaiana”, a autora uruguaianense nos traz um romance estruturado em 51 capítulos curtos, contando uma história que se desenrola entre 1950 e 2010 entre as cidades de Bella Unión, Punta del Diablo e Punta Del Este, no Uruguai; Uruguaiana e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O personagem principal do romance é um jogador de futebol, Juan Rios Ortega, nascido em Bella Unión, mas residente em Uruguaiana. Quando tranfere-se para jogar num grande clube de Porto Alegre, inicia um romance com a jornalista Ana Lúcia Silva, que entrevista um político brasileiro exilado no Uruguai e tempos depois é sequestrada. Em entrevista a este blogueiro, Maria da Graça fala do processo de criação do livro, da história e dos escritores de Uruguaiana, entre outros assuntos.
P - Como foi concebido o Lua Castelhana?
R - Há muito venho colecionando plots para romances. Só recentemente consegui condições e tempo necessários para mergulhar na feitura de minhas obras de ficção. Muitos se originaram de impressões fortes que me acompanham desde a infância, como é o caso do Lua Castelhana, pleno de lembranças de minha primeira ida ao Uruguai quando tinha em torno de seis anos de idade.
P - Quais as características da escritura dos autores de Uruguaiana?
R - Eu diria que o ponto em comum é o gosto por escrever, pois cada um tem seu estilo e temática própria. Há uma lista enorme de grandes talentos da literatura nascidos em Uruguaiana. Dando apenas alguns exemplos: Alceu Wamosy e Gonçalves Vianna já falecidos. Tabajara Ruas e Vera Molina na prosa, Luiz de Miranda, Nei Duclós, Colmar Duarte na poesia e Cícero Galeno Lopes que além de grande contista, agora estreou com sucesso na poesia.
P - As temáticas que envolvem o futebol e o sequestro ligado a temas políticos eram do teu universo de vivência ou foram recolhidos ao longo do tempo?
R - Política e futebol são assuntos apaixonantes, não tem como ficar alheio a eles. Mas meu romance aborda o drama humano de um jogador de futebol e não o esporte em si. Quanto a política, sou de uma geração de brasileiros que testemunhou os anos de chumbo. As sequelas deixadas por duas décadas de privação de liberdade e pela barbárie decorrente do arbítrio e do abuso de poder é justamente o foco do meu romance.
P - Qual a importância das oficinas literárias e dos cursos teóricos como graduação e Pós na área de letras para o desenvolvimento do escritor?
R - Acho que uma boa base teórica pode, sim, colaborar no desenvolvimento do escritor, mas com limitações. O estilo, a maneira de criar e o que dizer aos seus leitores, isto nenhuma oficina ou curso poderá ensiná-lo. Ele fará estas descobertas sozinho, no simples exercício de sua escrita.

sexta-feira, agosto 24, 2012
O rock não tem idade neste musical
| Alec Baldwin e Russel Brand administram o Bourbon Room no musical 'Rock of Ages'
Crédito: Warner Bros. Pictures / Divulgação |
Os dois buscam o sonho musical em Hollywood e nada melhor do que encontrá-lo no Bourbon Room, local onde trabalham como garçons, administrado por um cinquentão, Dennis Dupree (Alec Baldwin), que ainda crê no rock and roll em pleno ano de 1987, auxiliado pelo fiel escudeiro Lonny (Russel Brand). O Bourbon vai sediar o último show da banda Arsenal, liderada pelo mito do rock Stacee Jaxx (inspirado no problemático Axl Rose), que vai se lançar em carreira solo.
O clima de romance rock e de alcançar o sonho entre Sherrie e Drew ganha tons de êxtase e bater de pezinhos com os clássicos dos anos 80, interpretados pelo próprios atores/cantores, como "Rock of Ages", do Def Leppard; "Paradise City", Guns N'' Roses, "Wanter Dead or Alive", Bon Jovi; "I Love Rock and Roll", Joan Jett, e "I Wanna Rock", do Twisted Sister, além da clássica "Don''t Stop Believin'', do Journey.
Uma elegia ao rock. Imperdível.
Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo.
sexta-feira, agosto 17, 2012
As voltas que os mundos podem dar
Os filmes coral, no qual diversos personagens aparecem e se conectam em algum ponto do filme são na maioria das vezes daqueles que nos motivam a ir ao cinema e pensar sobre o fato de uma palavra ou ação em um lugar poder desencadear uma tragédia em outra cidade ou país. Robert Altman ("Short Cuts"), Paul Thomas Anderson ("Magnólia") e "Alejandro Gonzáles Iñàrritu ("Babel") são destes exemplos bem-sucedidos. No terceiro grande passo da sua carreira hollywoodiana, Fernando Meirelles ("Ensaio Sobre a Cegueira" e "Jardineiro Fiel") resolveu encarar a estrutura coral e contar nove histórias que se entrelaçam, com personagens que se conectam ou se deslocam por cidades como Viena, Paris, Londres, Bratislava, Denver e Phoenix.
Foto: Paris Filmes / Divulgação
A estrutura de construção coletiva da história no roteiro de Peter Morgan ("A Rainha"), com cortes para pequenas histórias parte de duas irmãs eslovacas, uma que irá se prostituir e a outra que irá se apaixonar pelo guarda-costas de mafioso russo. A conexão com esta história será o primeiro cliente da prostituta eslovaca, Mirka, em Viena, que seria Michael Daly (Jude Law), mas uma chantagem de dois vendedores (Moritz Bleibtreu e Peter Morgan) para fechar um contrato acaba deslocando a história para a culpa de uma possível traição à esposa Rose (Rachel Weisz), editora de revista de moda.
Em Londres, vira trama de dupla traição, pois Rose trai Michael com o fotógrafo Rui (o brasileiro Juliano Cazarré), descoberto pela namorada dele, Laura (a brasileira Maria Flor). Ao tentar retornar para o Brasil, Laura conhece no avião o pai alcóolatra (Anthony Hopkins) que busca a filha desaparecida. Após nevasca em Denver, Laura conhece um estuprador recém-colocado em liberdade (Ben Foster). São tantos os personagens e ações interconectadas desta "vida em trânsito", como definiu Morgan, que ficamos estarrecidos, buscando o sentido deste mundo globalizado, multicultural e ao mesmo tempo tão solitário.
(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)
segunda-feira, agosto 13, 2012
Intocável que nos toca
Nos milhares de filmes aos quais já assisti, sempre pode haver aqueles casos raros, não incomuns, de obras que tangenciem de alguma forma a realidade, mas que sejam construídas de um jeito que nos faça rir e chorar ao mesmo tempo, acreditar na vida e ter a consciência das nossas limitações e da finitude neste intervalo entre nascer e morrer que é a vida. Deixando os preâmbulos realistas ou niilistas, queria começar dizendo que Intocáveis, filme dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, que recebeu nove prêmios César, é outro destes filmes que nos arrebatam do começo ao fim. Os irmãos Weinstein, produtores garimpeiros de jóias raras tanto do cinema americano quanto do europeu ou asiático, chegam a apresentar cinco razões para se ver o filme, endereçado principalmente aos norte-americanos. Vale lembrar que esta tragicomédia está sendo até agora a maior bilheteria de um filme estrangeiro em 2012 nos Estados Unidos.
Desde que temos a sequencia inicial do filme, já é possível acompanhar o pensamento dos Weinstein o filme leva às lágrimas de alegria. O jovem negro, de origem senegalesa, morador dos arredores de Paris, Driss (Omar Sy), se inscreve para cuidar de um aristocrata francês tetraplégico, Philippe (François Cluzet), mas o seu único objetivo é conseguir uma nova assinatura de recusa para acionar novamente o seguro desemprego. A franqueza, o humor, o jeito truculento e principalmente a não necessidade de compaixão, de pena que Driss demonstram acabam cativando Philippe, que o contrata. Vale lembrar que o filme é baseado na história real contada pelo milionário Philippe Pozzo di Borgo, “O Segundo Suspiro. Os dois ainda vivem e tem uma forte relação de amizade.
A intensidade desta relação, os choques culturais evidentes e a gratidão que um irá sentir pelo outro por esta convivência passam a cativar o espectador. O bom humor de Driss contagia gradativamente as pessoas que cuidam de Philippe na mansão da família em Paris. Enquanto tenta entender um universo permeado por quadros de Salvador Dalí e Goya, por músicas de Vivaldi, Berlioz e Bach, Driss acaba cuidando de Philippe nos cuidados com o seu corpo, mas principalmente no destravar emocional. Enquanto tenta resolver pequenos conflitos na sua família no subúrbio, Driss também tenta mostrar ao novo amigo rico que as piadas sobre deficientes podem aliviar o ambiente, que o humor pode ser redentor e que um amor verdadeiro, palpável, pode ser tão bom quanto aquele rebuscado e epistolar com uma desconhecida.
A descoberta de como é viver sem movimentos do pescoço para baixo também causam um choque em Driss, que inicialmente se nega a limpar o novo patrão e amigo, mas que acaba sendo mais que um acompanhante e sim alguém que pode mostrar um mundo cheio de verdades, de movimento, de intensidade, proporcionar voos a Philippe, que perdeu os movimentos justamente por causa de um voo de parapente. Mesmo rindo de obras de arte contemporânea e ridicularizando o preço excessivo de alguns respingos numa tela ou criticando as quatro horas de uma ópera, após rir no início de uma ária, Driss é perspicaz e quer aprender a pintar, quer dar os seus respingos na vida e na arte.
Um filme realmente tocante, que nos dá uma alegria imensa, com a paradoxalidade de uma relação de duas pessoas tão distantes, mas que também nos faz chorar bastante pelos pequenos e grandes dramas do jovem pobre e do tetraplégico rico, aprender que enquanto houver vida, há esperança. Este filme é esperançoso, é intocável no seu toque sutil no subjetivo de cada um. Um dos melhores filmes franceses dos últimos cinco anos. Corram aos cinemas quando estrear. Não percam.
Nas curvas da estrada da vida
Uma frase no para-choque
traseiro de um caminhão serve para ilustrar o quão dramática pode ser a vida
dos personagens de “À Beira do Caminho”, filme dirigido por Breno Silveira (“2
Filhos de Francisco”), inspirado em temas de músicas do rei Roberto Carlos. A
frase é: “Espere pelo melhor, prepare-se para o pior, aceite o que vier”.
Silveira é um confesso cineasta do emocional, de conduzir o público ao drama,
ao difícil enredar dos laços afetivos.
Nesse filme, em que o argumento de Lea
Penteado é todo costurado com músicas de Roberto Carlos, o silêncio e a emoção
são os primeiros a aflorar, apesar da dureza apresentada no paradoxo do
personagem principal, o caminhoneiro João (o sempre excelente João Miguel), que
tem um drama pessoal. Ele sente-se culpado por um acidente que mudou o rumo de
sua vida e, ao mesmo tempo, a torna amarga e sem laços afetivos, vendo na
perspectiva solitária da estrada a sua fuga perfeita. João deixa para trás sua
família, sua cidade, sua história. O silêncio é quebrado pelo som de um único
CD com canções de Roberto Carlos, que chamuscam lapsos de suas lembranças.
A virada da história é
quando João depara com um caroneiro, o menino Duda (Vinicius Nascimento),
determinado a encontrar o pai, pois a mãe morreu, mas que acaba ajudando João a
se confrontar com o passado. Duda acredita, enquanto João é a imagem da
desesperança. O contato com o menino faz João amolecer o coração e se
reencontrar com pessoas do passado, como a ex-namorada Rosa (Dira Paes). João
decide ajudar o seu novo amigo a encontrar o pai (Angelo Antonio), que está em
São Paulo, para onde ele deve levar um carregamento de melões.
O primor da trilha com
músicas de Roberto Carlos — como “A Distância”, que inicia o filme, e “O
Portão”, quando ele está voltando para a casa da mãe (Denise Weinberg), onde
perdeu Helena (Ludmila Rosa) e deixou uma filha —, concatenada com a fotografia
das longas estradas do Nordeste e Sudeste brasileiros, na qual o caminhão, o
poente e o silêncio dialogam, compõem a dose exata a preparar o espectador para
a emoção vindoura. Méritos mil ao roteiro redondo de Patrícia Andrade, à trilha
de Berna Ceppas e à fotografia de Lula Carvalho.
(Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo)
Tudo sobre minha mãe à italiana
A relação edipiana do
professor de Literatura em Milão Bruno Michelucci (Valerio Mastrandea) com a
belíssima mãe Anna (Micaela Ramazotti), a partir da música “La Prima Cosa
Bella”, que a mãe cantava para ele e a irmã Valeria (Claudia Pandolfi) quando
crianças, é o mote deste drama, com roteiro e direção do italiano Paolo Virzi,
em cartaz na Capital. As reminiscências de Bruno sobre os anos 70, dourados e
sofridos, partem da vida atual depressiva, longe da família e do passado, mas a
doença terminal da mãe (Stefania Sandrelli) faz com que se choque com o passado
pela visita da irmã Valeria à sua universidade, pedindo que ele visite a mãe.
A produção de 2010,
escolhida para representar a Itália no Oscar 2011, se inicia quando Bruno
(Giacomo Bibbiani), ainda criança, em 1971, presencia a vitória da mãe no
concurso Miss Mamma, no verão, em uma praia da pequena Livorno. Com a
popularidade, a mãe passou a receber mais assédio e a despertar os ciúmes do
marido, Mario (Sergio Abelli). Ela é colocada para fora de casa por Mario e,
para sustentar os filhos, acaba virando amante dos seus chefes.
Apesar da doença terminal
de Anna, Bruno ainda tem tempo de conviver com a mãe, sentir esta perda
iminente e resolver a fixação pela mãe. Antes de morrer, Anna quer casar-se com
o zelador do prédio, que guarda acervo de fotos de Anna e dos filhos. Nos
avanços e recuos do tempo, alguns segredos e a relação materno-filial intensa
descrita por Bruno: “Do amor de uma mãe como a nossa, feliz ou infelizmente,
não há escapatória”. Tudo ganha corpo com a trilha composta por músicas ao
melhor estilo festival de San Remo, como a faixa-título com Nicola Di Bari;
“L’Eternitá” e até “Born to be Alive”, de Patrick Hernandez.
(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)
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