sábado, fevereiro 16, 2013

Corações que se abrem e buscam



Para quem ficou impactado com a pungência da finitude e a verdade dos sentimentos em "Amor", de Michael Haneke, prepare-se para mais um baque com o drama proposto pela roteirista e diretora Marion Laine em "De Coração Aberto", que está em pré-estreia nos cinemas da Capital. A densidade do roteiro proposto pela francesa a partir do livro de Mathias Enard (Remonter L´Orénoque) já dá as cartas logo no início da trama, quando os dois cirurgiões cardiovasculares Mila (Juliette Binoche, de A Vida dos Outros) e Javier (Edgar Ramirez, de A Hora Mais Escura) estão em meio a um transplante cardíaco muito sério e tratam tudo com bom humor, uma dose de loucura e de juvenilidade. A vida por um fio contrasta com o apego à vida e a inconsequência do casal, mas Javier ancora sua irreverência no alcoolismo (o tema está presente em outra produção nos cinemas "O Voo").

Os dois desenvolveram um programa de transplantes para o hospital no qual trabalham e curtem um amor louco, sem limites, há 10 anos, até que Javier tem sua jornada de cirurgias reduzida por conta do seu vício, o que poderia prejudicar a instituição e levá-lo a um erro futuro. Ele não quer se tratar do vício. A partir daí, a queda é a palavra que define o filme. Mila descobre uma gravidez no momento indesejada, mas não conta para ele. O casal vive um amor louco, de coração aberto, assim como aqueles que eles operam quase todo o dia. Este amor é  embalado por canções românticas e também melancólicas como "Besame Mucho", de Consuelo Velásquez, na belíssima versão com Tino Rossi.



A desagregação coincide com o sopro de vida da criança que está por nascer, mas Javier e Mila se desconectam e o drama está estabelecido. No desenvolvimento da trama, os instintos mais primitivos, mais animais vêm à tona. A diretora Marion Laine chegou a batizar o filme inicialmente de “Um Macaco no Meu Ombro”, pois ela estudou o comportamento de casais de macacos para compor os personagens. Em determinada cena do filme, Javier amanhece, não por acaso, na jaula de um chimpanzé. Os instintos do casal os levam a comportamentos que beiram o suicídio, principalmente Javier.
Como foi praticamente alijado do quadro de cirurgias, ele passa a maior parte do tempo em casa, começando obras que não termina, com um comportamento que mistura o de alcoólatra com o de um bipolar. Nesta hora, o casal realmente briga muito e mostra o seu lado símio.  No elenco, também estão Hippolyte Girardot (como o cirurgião Marc) e Amandine Dewasmes (como Christelle).

Soluções como o aborto e a fuga para a América do Sul, para as quedas da Iguazu argentina, em Puerto Iguazú, em Misiones, nas Sete Quedas, mas a vida deveria prevalecer, pelo menos para estes dois cardiologistas, especialistas em transplantes do coração. A água tem no filme uma função de renovação, de purificação, uma mensagem simbólica de tentar afastar o mal, o primitivo, e prevalecer o bem, a vida de um novo ser, simbolizando a humanidade em busca de renovação. Neste filme, os corações se abrem, são primitivos, valentes e têm a sua busca. Descubra qual!




DE CORAÇÃO ABERTO

(À COEUR OUVERT/ 2012/ FRANÇA/ 87min/14 ANOS/ DRAMA)

Direção e Roteiro: MARION LAINE
Fotografia: ANTOINE HÉBERLÉ
Edição: LUC BARNIER
Adaptação: REMONTER L´ORÉNOQUE, de MATHIAS ENARD

Elenco:
JULIETTE BINOCHE,
EDGAR RAMIREZ,
HIPPOLYTE GIRARDOT,
AMANDINE DEWASMES,
AURÉLIA PETIT

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Os amantes do círculo bipolar




Como o agradável Juno já havia sido no Oscar 2008 aquele filme simpático com bom roteiro e muitas nominações (quatro), inclusive diretor e filme, o miss simpatia da vez é O Lado Bom da Vida, filme dirigido por David O. Russell (Três Reis e Procurando Encrenca), com roteiro adaptado pelo próprio diretor, a partir do livro homônimo (Silver Linings Playbook no original), de Matthew Quick. A empatia pelo filme rendeu a obra oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem e também as nominações de atuação para Ator e Atriz aos protagonistas Bradley Cooper e Jennifer Lawrence e de Coadjuvantes para Robert de Niro (recuperando um pouco o seu way of act) e Jacki Weaver. Pode não levar nenhuma estatueta, mas será mesmo assim o filme que podemos ver tranquilamente, sem chamarmos de óbvio, meia boca ou sessão de tarde (os clichês dos clichês da crítica)

Para começar a traçar um apanhado crítico do filme, já digo que ele me pegou por motivos um tanto óbvios, como química entre os protagonistas e coadjuvantes, as tão amadas referências pop e cult, os elementos reais e simbólicos e o tema da bipolaridade (como leitura adicional sempre recomendo o livro Temperamento Forte, de Diogo Lara) que sempre é interessante num mundo onde 10% das pessoas são diagnosticados com a, digamos, enfermidade contemporânea. Haveria outros motivos, mas vou ficar nestes. Bom, vamos então à história e ao que eu gostei e não gostei do filme, cujo gênero seria a comédia romântica.



Como todo filme adaptado de livro começa e encerra com uma narração em off exaltando os domingos. O personagem Pat Solatano Jr.  (Bradley Cooper) sempre gostou do dia, pois a sua vida sempre foi marcada pelo futebol americano. O pai Patrizio (Robert de Niro) é um torcedor fanático dos Eagles da Philadelphia, paixão que passou para os filhos Pat e Jake (Shea Wigham). Este extravasar com o futebol se aplica na vida de Pat pai e também de Pat filho. O pai tem Transtorno Obsessivo Compulsivo e foi impedido de frequentar o estádio dos Eagles por uma briga. O filho, por sua vez, era bipolar, mas o seu diagnóstico só se confirmou quando ele quebrou a cara do amante da sua mulher Nikki (Brea Bee), quando eles transaram no chuveiro ao som da música do seu casamento: “My Cherie Amour”, de Stevie Wonder.

Sem ser profundo, o filme trata da reconstrução da vida de Pat, que passa oito meses preso em uma instituição psiquiátrica forense. Quando ele sai, tenta reconstruir a sua vida, mas passa a ter a obsessão em refazer o seu casamento. Aí começa a entrar toda a organicidade e a simpatia do filme, fora as referências. Numa das primeiras cenas do filme, ele acaba de ler Adeus às Armas, de Ernest Hemingway e invade o quarto dos pais injuriado pela morte da personagem Catherine quando tudo indicava que o livro teria um final feliz. Ele quer entender Nikki, que é professora de literatura inglesa.



Tudo muda no filme e nos níveis de atuação quando entra em cena a atriz Jennifer Lawrence, como a desajustada cunhada de seu melhor amigo Ronnie (John Ortiz), irmã de Verônica (a sub-aproveitada Julia Stiles). Desde o primeiro instante, a química dos atores e dos personagens fica evidente e o caminho para a reconstrução de ambos está traçado. Ao som de White Stripes, Led Zeppelin, Frank Sinatra, Bob Dylan & Johnny Cash, o filme vai ganhando corpo e os dois atores dão a intensidade necessária para que o romântico da comédia se estabeleça e o humor seja sustentado pelos coadjuvantes, com a lista engrossada pelo impagável Chris Tucker, como um divertido colega com distúrbios mentais.



Um filme que trata de um tema sério como a bipolaridade, um pouco superficialmente, que traz também a dança entra como elemento agregador, discute o amor em família e que traz o tema do fanatismo e das apostas para o viés cômico. Quando o assunto é dança, emociona o elo da cumplicidade e da construção de um sentimento pela dança (pinta um clima de Dirty Dancing) e principalmente a cena em que eles repetem os passos de Gene Kelly e Donald O´Connor no melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva. Um filme para amantes de filmes, para amantes bipolares ou para quem só queira diversão. Pode não levar nenhuma estatueta contra gigantes como Os Miseráveis, Lincoln, Argo e Django Livre, mas vai agradar ao público, isto lá eu garanto.

Crédito de fotos: Paris Filmes / Divulgação



quinta-feira, janeiro 24, 2013

O bêbado e a alma equilibrista



Crédito: Paris Filmes / Divulgação

Quando o personagem Lancaster Dodd (Philip Seymor Hoffman), o líder de uma seita científica, comportamental e espiritual pergunta a Freddie Quell (Joaquin Phoenix) se ele conhece alguém que viveu toda a sua vida ser tem a necessidade de um mestre, está frutificando a semente jogada na terra árida da vida e dos espectadores pelo realizador Paul Thomas Anderson em “O Mestre” de que a interdependência entre pessoas, pais e filhos, mestres e alunos, chefes e empregados, marido e esposa, irmão mais velho e irmão mais novo, líder espiritual e seguidor e outras ascendências possíveis de uma pessoa sobre a outra parece ser uma das circunstâncias da vida mais normais do que pensamos.

Com dois atores que levam a arte de interpretar ao extremo trabalhando esta oposição entre o mestre e o pupilo desajustado, o filme traça o seu painel sobre a fundação de A Causa, nos anos 50, por Lancaster Dodd (Hoffman), que possui inúmeros seguidores, mas muito ceticismo. Num primeiro momento, o desajustado, o bêbado e sua alma equilibrista, Freddie Quell (Phoenix) são mostrados com fotogramas densos, esculpidos como um entalhe na tela, tanto que a trilha proposta pelo Radiohead, Jonny Greenwood, nos lembra o martelo no formão ou uma engrenagem, a raiz da loucura e do desajuste de Freddie, um marinheiro errante, que tenta mil trabalhos, inclusive a fotografia (neste ínterim o destaque é para o diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr, o mesmo do inebriante “Tetro”). Por ironia, Freddie vai ancorar sua vida tempestuosa no barco onde estão os integrantes de A Causa (há uma proposital semelhança com a fundação da Cientologia por L. Ron Hubbard).

A partir daí, os diálogos entre o mestre e pupilo, o doutor e a cobaia e a evolução de A Causa permeiam o filme e mostram um experimento que se diz científico de Lancaster com Freddie, tentando utilizar seus métodos criados na hora de perguntas específicas e condicionamentos para que a alma equilibrista do ex-marinheiro se encontre e não fique à deriva por oceanos que se abastecem desde vidas passadas. Em uma das cenas mais fortes do filme, da fidelidade de Freddie a Lancaster, quando ele é preso por tomar dinheiro de uma contribuinte de Nova York, Phoenix literalmente quebra a cela da prisão e põe para fora uma raiva que, segundo Lancaster, atravessa séculos. Freddie grita, quase espumando pela boca: “Você mente, você inventa tudo isto, os teus filhos te odeiam” e Lancaster responde com uma pergunta: “Quem gosta de você, Freddie, quem? Somente eu. Só eu”. Em meio ao filme, a Causa aponta para uma ligação deles em vidas passadas.

Freddie também faz experimentos. Por ser bêbado inveterado, ele cria bebidas fortes, que usam desde thiner até antisséptico bucal. Um destes experimentos conquista Lancaster que fica mais criativo e pergunta o que ele põe na bebida: “Segredos!” é a resposta. Com uma atuação mais contida de Amy Adams como a esposa de Lancaster e uma trilha sonora primorosa que inclui "Dancers in Love", de Duke Ellington a “No Other Love”, de Jo Stafford e duas interpretações a capella de Philip Seymor Hoffman, o filme tem uma estética irretocável que investe no cromatismo dos anos 50, com destaque para os tons de amarelo em muitas cenas de Freddie.



O diretor e roteirista Paul Thomas Anderson com “O Mestre” mostra que sabe filmar os desajustados e os homens determinados e as decorrências de suas escolhas, as almas em busca de equilíbrio, senão vejamos três dos seus quatro grandes filmes anteriores a “O Mestre”. Excetuando Magnólia, criado à maneira de um filme-coral, em todos os outros “Boogie Nights”, “Embriagado de Amor” e “Sangue Negro”, são homens em busca de algum tipo de redenção, de um equilíbrio em suas almas, mesmo que à custa do sofrimento dos outros, como é o caso de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis).

 Um grande cineasta, um esteta, um maestro, um mestre em sintonia com as buscas da alma humana, as errâncias das almas equilibristas. Torçamos para que Joaquim Phoenix, Philip Seymor Hoffman e Amy Adams tragam para “O Mestre” pelo menos as três estatuetas Oscar na qual eles concorrem, pois este foi com certeza o filme mais injustiçado entre os indicados ao Oscar, muito mais do que “Intocáveis”, que não foi nominado a filme estrangeiro. Uma obra-prima não bem digerida pela academia hollywoodiana.


domingo, janeiro 20, 2013

Caçada real a Osama com ares de telefilme


Uma caçada que foi real a Osama Bin Laden. Um filme com intenção de ser um docudrama fiel, que resulta apenas em uma produção do cinema com ares de telefilme. Este é “O Homem Mais Procurado do Mundo”, um filme que deve ser assistido como documento histórico, não como cinema. Porém o filme, que tem o título original “Codename: Geronimo”, que era o nome dado ao terrorista na operação, tem o grande mérito de recriar com bastante exatidão as circunstâncias que levaram à invasão da fortaleza de Osama Bin Laden em Abbotabad, nas proximidades da capital Islamabad no Paquistão, na madrugada de 2 de maio de 2011, quase 10 anos após o atentado às torres gêmeas em Nova Iorque, que vitimou mais de 3 mil e abalou as bases da maior potência do mundo. Segundo fontes oficiais à época, foram mortas quatro pessoas, inclusive Osama e um dos seus filhos. 


Baseada na história real, a trama se foca na ação conjunta da CIA em parceria com um grupo de operativos das forças especiais do Exército norte-americano, os SEALs. A prisão de um homem no Paquistão leva ao mensageiro de Osama Bin Laden e a um local que passa a ser monitorado desde agosto de 2010. Em uma operação no Paquistão, dois agentes passam a monitorar a fortaleza, em busca de pistas que levem o governo dos Estados Unidos ao seu maior inimigo: o terrorista Osama Bin-Laden. 


Na mão do diretor de “Turistas”, John Stockwell, a história adquiriu um tom mediano, com os ares de telefilme já mencionados, mistura da séries “24 Horas” e “The Unit”, que utiliza aqueles caracteres digitados na hora para designar o local, o dia e a hora e a mostra do uso da tecnologia para rastreamento e identificação do terrorista. Ao mesmo tempo que o docudrama imprime ao filme uma boa dinâmica — mostrando alguns documentos confidenciais, além da voz e fotos exclusivas de Barack Obama nas semanas que antecederam a autorização ao ataque — quando o cineasta apela ao sentimentalismo do soldado que fica longe de casa 300 dias por ano, a obra descamba para uma pieguice sem fim, com repetição de fórmulas desgastadas e melhor utilizadas em filmes como “Soldado Anônimo”, de Sam Mendes. 



Crédito: Playarte / Divulgação

Soma-se a isto um elenco de segundo time como Cam Gigandet (Stunner), o líder de uma unidade dos SEALs; Anson Mount (Cherry); Freddy Rodriguez (Trench); Kathleen Robertson (Vivian), a agente de contra-inteligência da CIA, que persuade o diretor da CIA, Leon Panetta, a executar a operação. Destaque para a dobradinha de atores da série “Prison Break”, Robert Knepper , como o tenente que comanda a operação, e William Fichtner, como um agente da CIA. É um relato preciso da operação, mas sem alma. Esperamos ansiosamente pela versão de Kathryn Bigelow (do oscarizado “Guerra ao Terror”) com seu “A Hora Mais Escura”, que deve carregar a alma não contida neste filme.

sábado, janeiro 12, 2013

Quando a separação é um dilema




       As comédias românticas possuem estruturas arquetípicas que todos nós conhecemos e quando nos deparamos com a formula de sempre, o efeito é sempre bom, um mais do mesmo que agrada. Porém, quando a estrutura convencional é subvertida ou pervertida, conforme o depoimento da atriz, roteirista e produtora Rashida Jones, aí o resultado pode ser surpreendente, inteligente, refrescante, para usar uma palavra em voga na crítica norte-americana. Estou falando de Celeste e Jesse para Sempre, filme dirigido por Lee Toland Krieger, a partir de roteiro escrito a quatro mãos por Rashida Jones (filha de Quincy Jones) e Will McCormack, também ator e produtor da obra, amigos de longa data. O resultado é uma comédia romantica indie, que lembra muito alguns filmes dos anos 80, tipo A Garota de Rosa Shocking , por causa da trilha que vai Suzanne Kraft a Lily Allen, ou Harry & Sally – Feitos um Para o Outro, por causa do roteiro criativo e dos diálogos inteligentes.
    
     A ideia da dupla de roteiristas era exatamente tratar de um jovem casal, que cresceu junto e que se considera o melhor amigo um do outro, mas que aos 30 anos resolveu se divorciar e não quer perder esta amizade. Uma comédia sobre a desilusão é como Rashida e Will definem. Rashida é Celeste, sócia de uma empresa de mídia e tendências em Los Angeles, e Andy Samberg é Jesse (não confunda com o seu personagem anterior, o Eisenberg do Facebook, em A Rede Social), um artista gráfico meio desligadão que leva a vida na base do surf e do grupo de amigos, que não apressa a vida. Isto incomoda Celeste, que já tem uma vida estabelecida.

  
      O filme inicia do ponto de vista do casal que está há seis meses separado e encaminhando os papéis do divórcio, mas que faz todas as coisas junto. O pequeno ponto de virada inicial do filme é quando o casal de melhores amigos Beth (Ary Grainor) e Tucker (Eric Christian Olsen) resolve dar a real e dizer que é insano eles estarem separados e comportarem-se como almas gêmeas, isto numa cena em que eles imitam um casal com sotaque inglês, mas em outros momentos eles mostram esta cumplicidade extrema como quando eles pegam uma bisnaga de creme, pomada ou maionese e simulam uma masturbação.


      
      Sem querer criar um spoiler ou contar o que vai acontecer no filme, o interessante da discussão suscitada pelo filme é exatamente este rumo à maturidade, este desligamento do amor iniciado entre a infância e adolescência, o querer ser grande, como diria aquele filme protagonizado por Tom Hanks. Os amigos de ambos os aconselham a conhecer outras pessoas e Jesse sai na frente conhecendo uma bailarina chamada Veronica (Rebecca Dayan). Como Celeste quis a separação, esta notícia o deixa arrasada. Numa aula de yoga, ela conhece o analista financeiro Paul (Chris Messina) e tenta acertar no amor. 

      Com coadjuvantes de luxo, como o próprio Will McCormack que é Skillz, um traficante de drogas leves; Elijah Wood, como Scott,  o amigo gay de Celeste, e Emma Roberts, como Riley Banks, uma pop star supostamente descerebrada, o filme discute o ocaso dos relacionamentos e chegada da maturidade verdadeira, mas também a indústria da música, do marketing, como quando um logo de Riley Banks tem uma interpretação sexualizada, entre outros tantos temas desta geração dos 30 anos, mas que se aplica aos quarentões e cinquentões antenados. Uma comédia romântica interessante, com a fórmula que se aproxima mais do real do que do happy ending e que trata de forma leve, e ao mesmo tempo séria, do tema da separação.

Créditos das fotos: Paris Filmes

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE
Realizado por LEE TOLAND KRIEGER
Escrito Por      RASHIDA JONES e WILL MCCORMACK
Musica            SUNNY LEVINE e ZACH COWIE
Fotografia       DAVID LANZENBERG
Montagem       YANA GORSKAYA
Estrelando      RASHIDA JONES, ANDY SAMBERG, CHRIS MESSINA, ARI GRAYNOR, WILL MCCORMACK, EMMA ROBERTS E ELIJAH WOOD

quinta-feira, janeiro 10, 2013

JUSTIÇA ATÉ O FIM




Bem-vindo mais uma vez monsieur Philippe Lioret, que já havia nos brindado com um filme "Bem-Vindo", que mescla drama pessoal com situação política, e que agora nos traz o drama pessoal, jurídico e econômico "Tudo o que Desejamos" que entra em cartaz nesta sexta, no Guion Center, em Porto Alegre. Novamente em parceria com o roteirista Emmanuel Corcol e com o ator Vincent Lindon, Lioret resolveu adaptar o livro "Outras Vidas que nâo a Minha", do aclamado escritor francês Emmanuel Carrère, que esteve na Flip, em Paraty, em 2011. A trama começa trágica, mas caminha para a redenção ou sublimação na vida da personagem Claire (Marie Gillain), uma jovem e idealista juíza de Lyon, na França, que tem por opção aplicar a lei para defender os menos abastados da gana de grandes corporações. No caso abordado no livro e também no filme, Claire vai julgar o caso da mãe de uma amiguinha da sua filha, que tem dívidas com financeiras. O drama financeiro e jurídico passa para o pessoal, quando Claire descobre um glioblastoma, um tumor cerebral agressivo, que se alastra e mata em poucos meses. 

A cruzada contra as financeiras será a última causa da vida de Claire, a justiça levada até o fim e eis que ela é indicada a um juiz veterano Stéphane (Vincent Lindon), que é um especialista no tema, além de ser técnico de rúgbi nas horas vagas. Deste elo entre estes dois personagens, que gravitam paralelamente aos seus respectivos marido e mulher, é que o filme ganha a força da luta por uma causa, das interpretações fortes da juíza que está morrendo e do juiz durão que se enternece pela jovem juíza, mas não sexualmente falando, mas pela luta, pelo idealismo há muito perdido.  Lindon já havia vivido um técnico de natação, que ajuda o menino curdo a atravessar o Canal da Mancha, em busca de familiares em "Bem-Vindo". 

O detalhe que pode passar despercebido num filme tão dramático não é a trilha, mas sim o som do filme. Philippe Lioret antes de ser roteirista e diretor foi engenheiro de som de filmes como "Uma Leitora Bem Particular" e "Romuald e Juliette". A captação de som casa magnificamente com o clima proposto por Lioret deixando o espectador identificado e ao mesmo confrontado com suas próprias mazelas, com suas dívidas, com a iminência da morte e da perda de entes queridos, quando o aflora este sentimento no marido de Claire, Christophe (Yannick Renier), e na mãe da amiga da sua filha, Céline (Armandine Dewasmes). A inclusão na trilha e na história da música ""On Saturday Afternoons in 1963", de Rickie Lee Jones, é mais outro elo interessante da história, pois aproxima os dois protagonistas e quebra as diferenças de geração entre eles. Um belo filme triste, pois a tristeza não é de todo ruim, quando se há uma causa a ganhar, quando se tenta levar a justiça até o fim. 


Foto: Guy Ferrandis

TUDO O QUE DESEJAMOS
(TOUTES NOS ENVIES/FRANÇA/ 2011/ 120 MIN/ 12 ANOS  
Direção: PHILIPPE LIORET
Roteiro: PHILIPPE LIORET, EMMANUEL COURCOL baseado no romance de EMMANUEL CARRÈRE
Fotografia: GILLES HENRY
Edição: ANDRÉA SEDLACKOVA
Música: FLEMMING NORDKROG
Elenco:
VINCENT LINDON (Stéphane),
MARIE GILLAIN (Claire),
AMANDINE DEWASMES (Céline),
YANNICK RENIER (Christophe)

domingo, janeiro 06, 2013

Unidas por um mesmo amor




Tudo o que se diz sobre o cinema argentino é que ele produz mais filmes bons do que ruins. Isto está correto. Enquanto o Brasil busca as bilheterias com comédias sem qualquer sentido, tipo "E aí, Comeu?" ou "Os Penetras", a Argentina tem buscado a bilheteria em temas cômicos, trágicos ou tragicômicos. Não há aí qualquer comparação, pois os grandes filmes brasileiros, no sentido arte e não bilheteria, quase não tem mercado fora dos festivais. Já os filmes argentinos que aqui chegam são sempre acima da média. Mas para que este papo todo, senão para dizer que "Viúvas", de Marcos Carnevale, é um destes filmes. 

A sutileza do diretor em tratar um tema banal, quase cotidiano, mas que tem uma certa mágica. A diretora de documentários Elena (a extraordinária diva argentina Graciela Borges) é avisada no set de filmagem que o marido Augusto sofreu um infarto. Ao chegar ao hospital com a amiga, assistente e durona produtora Esther (a impagável Rita Cortese), uma outra mulher, Adela (a segunda no meu ranking de atrizes argentinas, Valeria Bertucelli, que só perde para a Soledad Villamil), está zelando pelo marido infartado. No leito de morte, Augusto pede o impossível a Elena, que cuide de Adela, "pois ela não tem ninguém". 
  
O tom do filme a partir daí está instaurado. Adela vai tentar se aproximar de Elena, que a rejeita, mas depois acaba cedendo e tentando tratá-la como uma filha. Adela é aquele tipo garota interrompida, fruto de uma geração desesperançada, que faz tudo e nada, e não termina consegue terminar o curso de comunicação e nem manter o emprego como repórter de trânsito de uma rádio de Buenos Aires. Carnevale fotografa muito bem a Buenos Aires, alternando a câmera entre o mundo abastado de Elena e o mundo pobre de Adela, que mora num apartamento que era pago por Augusto no bairro chinês da capital argentina. 


Foto: Imovision

O drama se intensifica quando Adela tenta se suicidar e vai morar com Elena. Mais não posso contar, mas na casa de Elena vemos um personagem sui generis que é a empregada Justina (o debut cinematográfico do hilário Martín Bossi), um homem que trocou de sexo. Ela é fiel ao patrão, pois trabalha desde adolescente com o casal e também muito sincera, não se dobrando diante de Elena. A cara séria de negação quando Elena a manda fazer uma coisa e a fala em guarani quando não quer que a patroa saiba sobre uma conversa com um familiar dão o tom cômico de "Viúvas". 

O filme aborda de forma quase realista o drama de duas mulheres que amaram o mesmo homem e acaba falando de amor e não da traição, porque o amor é maior. Mesmo revoltada e triste com a traição de Augusto, quando perguntada sobre o que lembrava dele, Elena diz: "Ele era um cavalheiro, um homem que me dava segurança, que fazia eu me sentir bem, amada". Isto resume um filme que não julga a traição, mas que trata das consequências da infidelidade e do amor que ultrapassa as barreiras morais e sociais. Não por acaso, o documentário que Elena está concluindo "Chicas", trata de mulheres infelizes no amor. Mais um filme argentino acima da média. Que bom que as nossas distribuidoras, como a Imovision, estão atentas a estes lançamentos.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Alice na Paris das maravilhas



A fórmula para uma boa comédia romântica parece estar sempre pronta, com uma cidade apaixonante, locais que simbolizam o amor e uma história que relacione a cidade com o romance vivido, um monumento, um café, um bar, um rio, qualquer coisa deste tipo. É preciso dizer que existe um recheio necessário, algo intangível, uma coisa meio Nora Ephron, Rob Reiner, Garry Marshall (só para citar alguns nova-iorquinos da boa safra oitenta-noventista),  ou então Woody Allen. Em "Paris-Manhattan”, a cineasta Sophie Lellouche resolveu apelar para o ingrediente Woody Allen.

Alice Ovitz (personagem vivido pela homônima Alice Taglioni) é uma mulher bonita e apaixonada pelo seu trabalho como farmacêutica. O problema é que a paixão pelo trabalho não é proporcional ao seu interesse pelo parceiro ideal, pelo par romântico. Ela já está sendo chamada de solteirona, está ficando para titia, como dizemos aqui no Brasil. O principal refúgio emocional é o cinema de Woody Allen. Alice conversa com Allen (o voz em off do próprio diretor nova-iorquino que faz uma ponta presencial no filme).
Ela gosta tanto dos filmes e dos ensinamentos contidos em filmes como "Manhattan", "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo..." e outros, que chegando ao ponto de transformar a sua farmácia em uma mini-locadora de DVDs, pois prescreve os filmes de Allen para as pessoas que procuram a farmácia para curar os seus problemas.

Nas conversas com Woody Allen, alguns ensinamentos do diretor estão presentes, como um freudiano, de que as duas coisas mais importantes da vida são a escolha da profissão e do sexo ou então: "case e tenha cinco filhos". Por outro lado, Alice ignora os apelos familiares para que se case. Um dia, Victor (Patrick Bruel) aparece em sua vida. Numa das dezenas de festas para a qual é convidada e na qual o pai (Michel Aumont), judeu como Woody Allen,  tenta lhe arranjar um namorado. Victor é especialista em alarmes e é claro que o pai o contrata para instalar um alarme na farmácia de Alice. Ele desenvolveu um alarme diferente, que expele clorofórmio para adormecer o assaltante. Victor é inteligente, irônico e sabe tudo que está passando à sua volta, como descobrir quem trai quem e sua presença masculina a ajudar e ao mesmo tempo incomodar a vida sem sobressaltos de Alice. O seu único defeito para Alice é nunca ter visto um filme de Woody Allen. O seu primeiro é "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo (e Tinha Medo de Perguntar)". Ele se espanta com a cena de Gene Wilder com uma ovelha na cama, mas segue vendo os filmes de Woody.

Crédito: Vinny Filmes

O filme nos apresenta alguns signos interessantes de comédias românticas, como casais apaixonados dançando na rua, crianças correndo nas ruas, nos mercados e na própria farmácia, coadjuvantes que roubam a cena como Michel Aumont, como o pai glutão e judeu de Alice, Marie-Christine Adam como a mãe alcoólatra e também a irmã e o cunhado perfeitos (Marine Delterme e Louis-Do de Lencquesaing) e os clientes da farmácia, que apoiam Alice na sua loucura woodyalleniana.

A magia do filme está na vontade de Alice de estar em Nova Iorque, de viver cenas dos filmes de Allen e ao mesmo tempo estar passando por cenários que hipnotizaram Allen quando ele construiu "Meia-Noite em Paris". É difícil comparar a Torre Eiffel com a Estátua de Liberdade (esta construída originalmente em Paris) ou Central Park com o Jardim de Luxemburgo, Hudson com Sena, mas o certo é que Woody Allen traz Nova Iorque para Alice, mas também um pouco do romantismo inteligente, irônico e perspicaz, que a Big Apple proporciona. Mas se não estivermos em Nova Iorque, nós sempre teremos Paris, como Ricky (Humphrey Bogart) já disse a Ilsa (Ingrid Bergman), que foi tão bem parodiada por Allen em "Sonhos de um Sedutor" ("Play it Again, Sam"). A aparição de Allen no filme é para falar da importância de uma das pessoas envolvidas na história.

O detalhe de produção do filme é que a cineasta Sophie Lellouche sempre foi obcecada por Woody Allen e  que havia dirigido apenas o curta "Dieu, que la nature est bien faite!", em 1999, passou algum tempo tentando encontros marcados ou ocasionais com o diretor de "Meia-Noite em Paris", até que ele concordou em fazer esta ponta no filme. Uma comédia romântica de boa qualidade para começar bem o 2013

sábado, novembro 03, 2012

"Nunca vi uma feira como esta", diz Jeffery Deaver

Deaver está impressionado com a Feira do Livro de Porto Alegre

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

O autor de “O Colecionador de Ossos, o norte-americano Jeffery Deaver, estará neste sábado, dia 3/11/2012, na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre para falar sobre a nova investigação do criminologista Lincoln Rhyme, o livro “A Janela Quebrada” (Record) lançado em 2008 nos Estados Unidos e em 2012 no Brasil. Ele fala sobre este e os demais livros, como “Carte Blanche” (Record), em que traz James Bond de volta à ação, às 18h30 na Sala Leste do Santander Cultural, com mediação do jornalista Carlos André Moreira. Às 20h, ele autografa as duas obras mais recentes no Brasil na Praça de Autógrafos da Feira. Em entrevista a este jornalista e blogueiro, Deaver fala sobre os livros, sobre cinema, séries de tevê e o seu processo de construção de um livro, entre outros assuntos.



Pergunta - Qual será o assunto que irás tratar na mesa-redonda?
 Jeffery Deaver – Vou falar de A Janela Quebrada e também de Carte Blanche, mas vou falar de como escrevo os livros. Quero explicar meus métodos a meus fãs. Eu considero o livro como um produto, como um carro, um avião por exemplo. É preciso ser muito cuidadoso com a qualidade deste produto, porque o leitor vem sempre em primeiro lugar. Quero dar ao leitor algo agradável, instrutivo ou esclarecedor, que valha o tempo e o dinheiro da pessoa. Levo oito meses organizando os capítulos, pensando em personagens, tramas, mortes e viradas, até pensar o final. Faço como um engenheiro. Então sento e escrevo durante dois meses, seja para 150 páginas ou mil.

Pergunta - Além de “O Colecionador de Ossos” que te deu fama, houve algumas outras adaptações para TV e cinema?
Deaver - Quanto mais pessoas conhecerem meu trabalho, melhor. Gostei da adaptação de “O Colecionador de Ossos”. Denzel Washington está muito bem. Angelina Jolie estava se revelando uma grande atriz. Depois, fizeram mais dois telefilmes: “The Devil´s Teardrop”, com Natasha Henstridge, baseado no livro homônimo, e “Dead Silence”, adaptado de “A Maiden´s Grave”, com James Garner. Alguns autores dizem que detestam Hollywood, que destruiu suas obras, mas não devolvem o dinheiro dos direitos autorais para os estúdios. Como escritor, não tenho nada a ver com a versão cinematográfica de um livro meu. A experiência de assistir a um filme é diferente de ler um livro. Faço de tudo para chegar ao máximo de pessoas possível. Gosto também de séries de TV, como Boarwalk Empire, Dexter, Família Soprano. Estou envolvido na produção de uma série: “Murder in Small Town X”. Recebi um e-mail de um estúdio já interessado em adaptar “A Janela Quebrada”.

Frente a frente com este jornalista e blogueiro 

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

Pergunta - Conheces alguns autores brasileiros?
Deaver - Não, não conheço. O problema é não haver traduções para o inglês, o que é uma pena. É a mesma coisa com as literaturas italiana, alemã e escandinava. Dos italianos, recentemente li Andrea Camilleri e o seu detetive Montalbano.

Pergunta - E sobre a Feira do Livro de Porto Alegre?
Deaver - Ela é maravilhosa. Já em feiras e festivais do livro no mundo inteiro, em lugares como Edimburgo, Frankfurt e no Japão e nunca havia tão grande e popular como esta feira. Ela é pelo menos dez vezes maior do que as dos Estados Unidos. A visão é fantástica, aqui na praça ou no Cais do Porto.  E as vistas são fantásticas, tanto aqui da praça, quanto do Cais do Porto. É inspirador.

Pergunta - O Brasil pode ser cenário para um dos seus próximos livros?
Deaver - Claro. Não uma história toda, mas uma parte da trama. Seria em Porto Alegre mesmo, pois um funcionário meu, o Adriano Rocha, é daqui. (Rocha é adestrador dos cães que Deaver leva a competições de Kennel Clubs nos Estados Unidos). O Cais me pareceu um lugar assustador, bom para a morte de algum personagem. O Adriano me disse para beber a cerveja Xingu e a caipirinha, que não tem em nenhum outro lugar.

Pergunta - E sobre os próximos livros?
Deaver - Estou terminando “The Kill Room” que deve ser publicado em junho de 2013. Será outro livro sobre o criminologista Lincoln Rhyme. Recentemente, publiquei “XO”, outra história da personagem Kathryn Dance. Uma Thurman já comprou esta história para filmar. Quero sempre dar aos leitores algo valioso, que rearranje suas percepções. Não consigo fazer isso como Jorge Luis Borges ou Gabriel García Marquez. Eles exploram coisas que levam os leitores com eles, a desfrutarem a obra com prazer.


sexta-feira, outubro 19, 2012

De Pai para Filho desde 1912



Por Luiz Gonzaga (Lopes)

Não haveria como eu não me envolver com este filme Gonzaga – de Pai para Filho, com direção e roteiro de Breno Silveira, que estreia nesta sexta-feira, dia 19 de outubro, nos cinemas. A começar pelo nome, pois como vocês estão sendo resolvi assinar o texto de cima para baixo. Desde que eu me conheço por gente, quando chego em um lugar e digo o meu nome, algum gaiato responde e cadê a sanfona. No início, eu respondia: “deixei em casa” ou “está na carteira” etc. e tal. A questão é que o velho Lula, ou Lua, ou Gonzagão povoa o imaginário brasileiro da segunda metade do século 20, pela história de persistência em popularizar no Rio e São Paulo (Sul, como diz o ator que vive dos 27 aos 50 anos, Chambinho do Acordeon) um estilo totalmente nordestino, o baião.

A despeito das escolhas narrativas de Breno Silveira que opta sempre pelo folhetim ao contar uma história, pela busca do drama, este filme se encaixa no estilo do cineasta, pois o retrato desta entidade da música brasileira é duro e mostra o jovem Gonzaga (Land Vieira e depois Nivaldo Expedito Carvalho) que procurou o sucesso que o tiraria daquela realidade nordestina da cidade pernambucana de Exu, onde amava Nazarena, a Nazinha (Cecília Dassi), filha do coronel Raimundo Delgado, mas apesar de ser correspondido, o pai dela jamais iria permitir o casamento com um garoto “sem eira nem beira”. Ele tinha era a sua sanfona, que também era o amor do pai Januário. Para ser alguém, se alistou no Exército em Fortaleza (CE), mas nunca deu um tiro em ninguém.

A opção pela narrativa a partir do ano de 1981 é acertada, pois foi neste ano em que Gonzaguinha (em uma atuação e uma caracterização magistral do ator gaúcho Julinho Andrade, nenhuma novidade para quem já o viu atuando pelos teatros de Porto Alegre com o Depósito de Teatro e em outras montagens como o Menino Maluquinho) após emplacar a carreira e as capas das principais revistas e jornais do país resolve voltar para acertar os ponteiros com o passado e principalmente com o seu velho pai.



O encontro entre Gonzagão (1912-1989) e seu filho, o cantor e compositor Gonzaguinha (1945-1991) é tenso, mas o pai começa a contar a sua vida ao filho e Gonzaguinha começa a entender os amores, a luta do pai, que acabou afastando-o da família e principalmente da mãe do cantor de MPB, Léa (vivida por Nanda Costa, que será protagonista de Salve Jorge, nova novela das nove da Globo). O recurso do flash back, desgastado em alguns outros filmes brasileiros, nesta cinebiografia acaba tendo um grande efeito, pois quem acompanha os desajustes entre pai e filho, a partir do respeito que Gonzaga tinha por Januário (“Respeita Januário”), a ideia de que Gonzaguinha deveria ser doutor, o acompanhamento da forma como ele compunha as suas músicas, com as letras sempre precisas de Humberto Teixeira, o parceiro que ele conseguiu com persistência pelas ruas da Lapa Carioca, tudo conspira neste filme. Como não se impressionar com: “quando olhei a terra ardendo e a fogueira de São João / eu perguntei a meu Deus do céu / por que tamanha judiação”. Outra letra que também retrata o sentido do popular em Gonzagão é A Vida do Viajante: “Minha vida é andar / Por esse país / Pra ver se um dia / Descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras por onde passei / Andando pelos sertões / E dos amigos que lá deixei”. Uma das cenas do filme em que ele toca na marquise do Cine Pax, no Rio de Janeiro também traduz esta noção do popular, de tocar para o povo e não somente por dinheiro ou fama.



A vida do Rei do Baião teve tons épicos, por que não? Breno Silveira soube condensar os avanços e recuos no roteiro, com o tom exato de dramaticidade necessário a personagens da história da música como estes dois personagens. Um dos destaques do filme é cena que foi real quando Luiz Gonzaga impressionou Ary Barroso em um programa de rádio carioca nos anos 60. A decadência de Luiz Gonzaga e a ascensão de Gonzaguinha são mostradas sem comedimento, com a participação de alguns bons atores coadjuvantes como Silvia Buarque e Luciano Quirino, como os padrinhos de Gonzaguinha, que realmente criaram o menino e jovem Gonzaguinha no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro e também de Roberta Gualda, que vive Helena, a mulher que assume o coração de Gonzagão com a morte de Léa, por tuberculose.

O filme é bom de ver, resgata duas biografias importantíssimas na história da música brasileira e uma época que ao mesmo tempo foi difícil, pois Sem contar a infinidade de músicas que todos nós gostamos de ouvir um dia e que hoje talvez não tenhamos tempo para tal como “Asa Branca”, “Xamêgo”, “Vira e Mexe”, “Paraíba” e “A Vida do Viajante”, cuja turnê em 1981 de Gonzagão e Gonzaguinha foi um enorme sucesso. Uma história a ser contada. Um filme necessário para a cinematografia brasileira. Uma das grandes estréias, senão a maior estreia da semana.


GONZAGA DE PAI PRA FILHO
Elenco: Chambinho do Acordeon, Julio Andrade, Land Vieira, Luciano Quirino, Nanda Costa, Ana Roberta Gualda, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Giancarlo di Tomazzio.
Direção: Breno Silveira
Gênero: Drama
Distribuidora: Downtown Filmes
Duração: 120 min
Sinopse: Um pai e um filho, dois artistas, dois sucessos. Um do sertão nordestino, o outro carioca do Morro de São Carlos; um de direita, o outro de esquerda. Encontros, desencontros e uma trilha sonora que emocionou o Brasil. Esta é a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e de um amor que venceu o medo e o preconceito e resistiu à distância e ao esquecimento.
Site: www.gonzagadepaiparafilho.com.br


quarta-feira, outubro 17, 2012

O "Homem-Massa" visita o Século XXI



Conforme o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o “homem-massa” é um novo bárbaro, que vive na cultura como em estado de natureza, que se ocupa em desocupar-se. Pois o filósofo e atual secretário adjunto da Cultura do Rio Grande do Sul, o filósofo Jéferson Assumção, resolveu transpor ao livro “Homem-Massa – a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada” o resultado de uma pesquisa e posterior dissertação ao Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, na Espanha. A obra editada pela Bestiário e Fundación Ortega-Marañon terá lançamento nesta quarta-feira, 17 de outubro, às 19h, na Pinacoteca (República, 409). Em entrevista a este blogueiro, Jéferson fala sobre a obra, sobre os pontos mais importante da filosofia de Ortega y Gasset e sobre o raciovitalismo. 


1 - Como foi a concepção do livro e qual a ideia básica da obra. Originalmente era uma dissertação para o Diploma de Estudos Avançados (DEA) na Universidade de León, teve algumas adaptações para ter o ritmo de um livro aberto a outros interessados extra-acadêmicos?

O livro resulta de uma pesquisa sobre o conceito de "homem-massa", dos principais da fiosofia do espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), para a Suficiência Investigadora do programa de Doutorado em Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de León, Espanha. Teve alguma adaptação, pequena, para um público mais aberto, mas ainda assim a própria dissertação originalmente segue uma linha, eu diria, um tanto orteguiana, ensaística, menos rígida. Ortega tinha uma forma própria de expor seu pensamento, francamente oposto à linguagem tradicional da filosofia acadêmica. "A clareza é a cortesia do filósofo", ele dizia. E a filosofia, profundo esforço de buscar a superfície, de se manter flutuando no mar do absurdo. Ortega sempre tentou evitar o hermetismo e a mera exibição de "bíceps de feira do tecnicismo acadêmico" - como ele definia. Escreveu na encruzilhada entre filosofia, sociologia, jornalismo e literatura, buscando juntar o que há de mais interessante em cada uma dessas áreas, numa exposição elegante, desportiva, de suas ideias - a maioria publicada em jornais espanhóis e latino-americanos das primeiras décadas do século XX. Ele se incomodava muito com o idealismo e o racionalismo, mas não sentia suficiência em um pensamento meramente vitalista. Por isso seu filosofar é "Raciovitalista". E seus textos coerentes com esta intersecção entre razão (filosofia e sociologia) e vida (jornalismo e literatura). Eu tentei seguir esta forma de exposição, obviamente que com resultados bem menos interessantes que os do filósofo espanhol. Para o livro, escrevi uma Introdução e um Posfácio, nos quais coloco mais frontalmente minhas opiniões sobre o tema e proponho uma forma de abordagem atual para ele. No “corpo do livro”, limito-me a expor o que Ortega pensava, coisas que, hoje em dia talvez soem um pouco anacrônicas e até mesmo preconceituosas a respeito da relação massa e minoria, por exemplo. Mas que, para um pesquisador sobre o tema, é mais importante que tenha um certo nível de objetividade e distanciamento.


Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação

Quais os pontos mais importantes da filosofia de Ortega y Gasset e com o que você concorda ou não?

Concordo com sua visão de cultura como “esforço natatório”, gosto muito de sua estética, de sua ética da gratuidade, de sua exigência de criatividade antiqueixosa contra o coitadismo, da maneira como ele considera o homem-massa paciente, mas também agente (ou seja, responsável em certa medida) por sua condição de massa, devido às suas escolhas etc. Acho que a ideia de coimplicação eu-circunstância, ou seja, de que o ser humano não é apenas o sujeito encapsulado em si mesmo, mas também não é apenas circunstância (corpo, psiquismo, língua, pátria etc) mas um amálgama desses dois, de que recebeu gratuitamente uma vida, mas que esta não lhe foi dada pronta e sim por fazer. Que ele tem que fazê-la criativamente, com esforço diário de dar sentido a essa flecha já lançada, que está forçado a esta liberdade (o que ele disse antes mesmo de Sartre). Que pode escolher massificar-se na heteronomia, vivendo as leis do outro, ou, o que seria mais nobre, conforme Ortega, tentar viver de maneira mais autônoma, elegendo o seu programa de vida e sendo responsável ele. Mesmo a mais pobre das pessoas, para Ortega, é portadora dessa vocação inicial do ser humano, dessa chama de humanidade. Claro que as circunstâncias pesam e muitas vezes desanimam, diminuem a alma, o ímpeto. Mas isso não pode resultar em angústia. Ortega chamava isso de o “caráter desportivo da moral”, avesso à asfixia da angústia existencialista e ao queixume de autores materialistas ou religiosos, que ele também evitava. A ideia de que a vida humana individual é a realidade radical, mas que nós somos um ser-com-os-outros, milhões de eus-circunstâncias geradores de um perspectivismo universalmente distribuído inversa à fragmentação relativista, é portadora de uma ideia de humanidade muito rica. Acho tudo isso ainda muito válido para fundamentar uma ideia de sociedade que não desmoralize seus integrantes, que leve em consideração que as pessoas não são apenas circunstâncias, não são apenas zoe, mas biós, duas palavras para designar “vida” em grego, o primeiro mais ligado à biologia e o segundo, cheio de narrativa pessoal, de razão narrativa, como dizia Ortega, à biografia de cada um. Ortega era muito bélico em relação às instâncias que achatavam o ser humano, principalmente o estado ortopédico, da revolução bolchevique, e o mercado de massas, que ele via nascer com a emergência dos Estados Unidos. O homem-massa do início do século XX tinha duas capitais, Moscou e Nova Iorque, ambas cidades representavam simbolicamente grandes centros geradores de heteronomia. E de homens-massa.

3 - Quais as questões do conceito de homem-massa de Ortega y Gasset que devem ser trabalhados nos dias de hoje e quais as soluções para a sociedade que podem ser postas a partir da problematização orteguiana

Bom, eu não posso ser considerado um orteguiano clássico, mesmo tendo feito minha dissertação e a tese de doutorado sobre temas de Ortega e escrito alguns artigos sobre questões orteguianas. Não acho que as soluções por ele apontadas para o problema da heteronomia e da rebelião das massas sejam as mais adequadas. Por exemplo, uma volta das minorias ao seu papel de educador das massas, de pedagogo social, por meio de uma reforma radical da educação, reintroduzindo nela o que falta de vital e retirando o que sobra de razão físico-matemática, geradora dos bárbaros especialistas: aquele que sabe tudo sobre quase nada e balbucia sobre o resto, como um bárbaro. Este, segundo Ortega, é capaz de fazer uma cirurgia muito complexa e ao mesmo tempo ter uma visão infantil sobre como a sociedade se estrutura. Mas ele achava, em sua época, em plena fé na indústria cultural e nas impressoras rotativas, que as minorias intelectuais poderiam, pela exemplaridade, reinvertebrar a sociedade massificada. Era um outro tempo e ele pensava que a “saudável” tensão massa-minoria havia se rompido e disso resultou a rebelião das massas do início do século XX, ou seja, a emergência de um tipo de pessoas que se aproveitou dos benefícios dos avanços técnicos do século XIX e início do XX para massificar-se, desresponsabilizar-se, para colher os frutos da cultura como se esses fossem produtos da natureza.

Crédito: Eduardo Seidl / Divulgação

4 - Um dos capítulos de A Rebelião das Massas que mais me atenho e gosto é "A Época do Senhorzinho Satisfeito" que fala exatamente do homem vulgar, que impõe a sua barbárie e o seu primitivismo. O filósofo falava da história europeia, mas de certo modo a indústria cultural tornou a nos dar muitos homens vulgares na música, na literatura. Qual a sua análise à luz de Ortega y Gasset?

Ele dizia que o homem-massa é um bárbaro que ascendeu pelo alçapão da história e que vive na cultura como em estado de natureza. Fala, mas não sabe de onde vieram as palavras, liga o interruptor e surge a luz, liga o carro e ele parte, como se isso tudo não viesse do acúmulo da cultura, de um passado construído com esforço individual e coletivo. O homem-massa é o mocinho satisfeito pela técnica, que despreza a cultura. Este é o mais contundente diagnóstico orteguiano. Agora, massa não coincide com classe social. Não se trata, em Ortega, de um conceito sociológico e sim filosófico. O rico, o pobre, o classe média podem ser, por escolha de sua vontade e de acordo com o esforço que faz para dar sentido à sua vida um homem-massa ou o que ele chamava de um homem-autêntico. Esse diagnóstico segue vigente, talvez mais vigente hoje do que nos anos 30 do século passado. No entanto, hoje vivemos uma mudança nas condições técnicas que foram fundamentais para a emergência do homem-massa. Sobre isso, escrevi um posfácio chamado “Cultura digital e desmassificação”. Se o diagnóstico de Ortega está certo, ou seja, de que a técnica daquele período engendrou o homem-massa, podemos nos perguntar se as novas tecnologias e o uso cultural delas, a cultura digital, oa ambientes pós-massivos, a cultura colaborativa em rede, a diminuição da centralidade do mediador, das indústrias culturais tradicionais, a desmaterialização dos suportes da arte, do conhecimento e da informação, em que em vez da mão única e do monólogo dos meios de entretenimento temos hoje a muldidirecionaridade dos fluxos de informação, podemos estar gerando um ambiente mais favorável à desmassificação? Tudo depende do uso dessas tecnologias para gerar mais autonomia ou mais heteronomia: consumo, principalmente. Eu acho que hoje, momento em que vivemos ao mesmo tempo as camadas pré-industrial, industrial e pós-industrial, temos também homens solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa. Por homens-massa customizado chamo aqueles que a indústria atual faz parecer que suas escolhas são autônomas e que sua produção não é mais em série. São nichos possibilitados pelos avanços técnicos de produção sob demanda de menor custo que dão a impressão de individualidade e pessoalidade nesses produtos. O símbolo maior disso é uma marca de refrigerente colocar nome de pessoas na lata, para consumo de homens-massa customizados. Mas a cultura digital vem dando condições, pelo menos tecnológicas, para se driblar esse uniderecionamento dos desejos, fazendo com que tenhamos mais condições para sair do que Ortega chamava de a crise dos desejos do século XX e a substituição de valores por preços. Vejo com otimismo a possibilidade de apropriação cidadã, autônoma, dessas tecnologias, gerando uma diminuição da dependência do sujeito ao Estado ortopédico ou ao mercado de consumo. Há um terceiro elemento, emergente com a cultura digital: o Comum. Mas isso Ortega jamais poderia imaginar que poderia vir a acontecer como fato social tal como hoje.


5 - Como secretário-adjunto de Estado da Cultura e também ex-coordenador-geral do Plano Nacional do Livro e da Leitura, queria uma opinião sobre como se inseriria o pensamento de Ortega y Gasset e o tua tese de Doutorado nas questões ligadas ao livro e leitura e a um maior acesso à cultura?
Em minha tese “A Ilustração Vital; O Racionalismo de Ortega y Gasset como via para o desenvolvimento de uma sociedade leitora”, ainda inédito, utilizo o conceito de leitor-massa e o contraponho ao de “leitor vital”, ou seja, um tipo de leitura utilitária e pragmática, com respeito a fins mais de ordem técnica, para inserção no mercado ou de simples resposta consumista aos produtos que o mercado inculca como “os melhores livros” etc. Precismos buscar desenvolver leitores vitais, leitores culturais, cuja relação com a leitura ultrapasse o funcional e se torne um hábito cultural que se leva para a vida. Ler porque necessitamos dar sentido a nós mesmos e ao mundo à nossa volta, com mais autonomia do que receber as respostas de fora. Como dizia Paulo Freire, muito orteguianamente: aprender a dizer a própria palavra.



quinta-feira, outubro 04, 2012

A Lua Castelhana de Maria da Graça



A escritora Maria da Graça Rodrigues lança o seu segundo livro “Lua Castelhana” (Editora Movimento), na noite desta quinta-feira, às 19h, no Mezanino da Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80, 2º piso). Dois anos depois da obra de estreia, “Helena de Uruguaiana”, a autora uruguaianense nos traz um romance estruturado em 51 capítulos curtos, contando uma história que se desenrola entre 1950 e 2010 entre as cidades de Bella Unión, Punta del Diablo e Punta Del Este, no Uruguai;  Uruguaiana e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

O personagem principal do romance é um jogador de futebol, Juan Rios Ortega, nascido em Bella Unión, mas residente em Uruguaiana. Quando tranfere-se para jogar num grande clube de Porto Alegre, inicia um romance com a jornalista Ana Lúcia Silva, que entrevista um político brasileiro exilado no Uruguai e tempos depois é sequestrada. Em entrevista a este blogueiro, Maria da Graça fala do processo de criação do livro, da história e dos escritores de Uruguaiana, entre outros assuntos.

P - Como foi concebido o Lua Castelhana?
R - Há muito venho colecionando plots para romances.  Só recentemente consegui condições e tempo necessários para mergulhar na feitura de minhas obras de ficção. Muitos se originaram de impressões fortes que me acompanham desde a infância, como é o caso do Lua Castelhana, pleno de lembranças de minha primeira ida ao Uruguai quando tinha em torno de seis anos de idade.

P - Quais as características da escritura dos autores de Uruguaiana?
R - Eu diria que o ponto em comum é o gosto por escrever,  pois cada um tem seu estilo e temática própria. Há uma lista enorme de grandes talentos da literatura nascidos em Uruguaiana. Dando apenas alguns exemplos: Alceu Wamosy e Gonçalves Vianna já falecidos. Tabajara Ruas e Vera Molina na prosa,  Luiz de Miranda, Nei Duclós, Colmar Duarte na poesia e Cícero Galeno Lopes que além de grande contista, agora estreou com sucesso na poesia. 

P -  As temáticas que envolvem o futebol e o sequestro ligado a temas políticos eram do teu universo de vivência ou foram recolhidos ao longo do tempo?
R - Política e futebol são assuntos apaixonantes, não tem como ficar alheio a eles. Mas meu romance aborda o drama humano de um jogador de futebol e não o esporte em si. Quanto a política, sou de uma geração de brasileiros que testemunhou os anos de chumbo. As sequelas deixadas por duas décadas de privação de liberdade e pela barbárie decorrente do arbítrio e do abuso de poder é justamente o foco do meu romance. 

P - Qual a importância das oficinas literárias e dos cursos teóricos como graduação e Pós na área de letras para o desenvolvimento do escritor?
R - Acho que uma boa base teórica pode, sim, colaborar no  desenvolvimento do escritor, mas com limitações. O estilo, a maneira de criar e o que dizer aos seus leitores, isto nenhuma oficina ou curso poderá ensiná-lo. Ele fará estas descobertas sozinho, no simples exercício de sua escrita.