domingo, março 17, 2013

A dama dos palcos, dos musicais, de Piaf a Amália




A atriz e cantora Bibi Ferreira, 90 anos,  apresenta  neste domingo, às 19h, no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80) o espetáculo “Bibi — Histórias e Canções”. A turnê iniciou por Porto Alegre, com show neste sábado à noite no mesmo local. O espetáculo  conta com um repertório eclético dos 72 anos de carreira, passeando por compositores e intérpretes de Noel Rosa a Chico Buarque, de Edith Piaf a Amália Rodrigues e musicais da Broadway.

O repertório (veja quadro abaixo) é intercalado por histórias que nortearam a vida da grande dama dos palcos brasileiros. “São muitos anos de carreira, mas sempre com um mesmo pensamento: quando estou em cena, dou o meu melhor”, afirma. A atriz e cantora, com 90 anos, estreou nos palcos aos 27 dias de vida, em 1922, em “Manhãs de Sol”, de Oduvaldo Vianna, substituindo uma boneca. A estreia profissional foi em 28 de fevereiro de 1941, em “La Locandiera”, na Companhia de Procópio Ferreira, seu pai.

Acompanhada por orquestra de 21 músicos, regida pelo maestro Flávio Mendes, a artista mostra toda a sua força dramática com um passeio por vários gêneros e estilos como MPB, fado, tango, musica clássica, temas de musicais americanos como “Minha Querida Lady” (adaptação de“My Fair Lady”, 1962) ou incursionar no universo de Edith Piaf do espetáculo “Piaf”,a Vida de uma Estrela da Canção (1983).

A apresentação em Porto Alegre marcou o início da turnê e a escolha não foi por acaso. “Não é à toa que começo a turnê por Porto Alegre. É para marcar meu carinho pelo público gaúcho. Porto Alegre marca minha vida com grandes lembranças e a vida de meu pai também”, destaca. 

Veja aqui no blog uma entrevista que fiz com Bibi no meio da semana, publicada inicialmente no Correio do Povo (edições online e impressa), na qual a dama dos palcos e ela fala sobre o espetáculo e as canções e histórias que norteiam a apresentação.



Pergunta - Bibi, por serem tantas e tão importantes canções e histórias, como foi a escolha do repertório?

Bibi Ferreira - Nesse novo concerto, faço um grande passeio por grande parte da minha história. Pensando lá atrás, não posso esquecer da comédia “Diabinha de Saias”, entre outras tantas que fiz no momento inicial da minha carreira, que me fez conquistar um grande público. Depois vieram as revistas, e fiz muitas. Quando fiz “Escândalos”, nos anos 50, tinha em enorme palco giratório, um numeroso corpo de baile com vários bailarinos internacionais contratados, orquestra, muitas lembranças da Praça Tiradentes no Rio de Janeiro. E depois vieram as comédias musicais, que me acompanham até hoje. E todos os meus concertos sinfônicos, que amo fazer: 'Bibi in Concert 'I, II, o III que tinha o subtítulo Pop, depois veio o numero IV, depois veio o concerto de tangos. Neste espetáculo, canto canções ou faço alguma referência a todas essas passagens da minha carreira.



Pergunta - Qual o sentimento de Bibi Ferreira ao olhar para trás e ver essa carreira tão sólida, respeitável e apaixonante?

Bibi - São muitos anos de carreira, mas sempre com um mesmo pensamento: quando estou em cena, dou o meu melhor. Penso no que o público sente e por isso tenho uma interação tão grande com eles. O aplauso me incentiva, me emociona e me impulsiona. A cada momento quero dar o meu melhor. Embora tenha aparecido em cena no colo da minha madrinha aos 27 dias de nascida, minha estreia oficial acontece em 1922, ao lado do meu pai, o ator Procópio Ferreira. Dia 28 de fevereiro completei 72 anos de carreira. Claro que cresci nesse universo e eu sou resultado de tudo isso que vivi. Pai, mãe, tios, avós, padrinho, madrinha, todos artistas, cantores, atores, artistas de circo, e por aí vai. Sou muito orgulhosa com minha carreira e com os trabalhos que fiz. Meus trabalhos não passaram em branco. Tudo que eu fiz (estou batendo na madeira três vezes) sempre foi sucesso. O público sempre me prestigiou. Graças a Deus.

Pergunta - Os gaúchos te adoram e lotam os teatros toda vez que você vem ao Sul.Como é cantar para o público do Rio Grande do Sul? 

Bibi - Não é a toa que estou começando a turnê por Porto Alegre. É para marcar meu carinho pelo público gaúcho. Sei que minha agenda para viajar é pequena, em função de outros compromissos, e são poucas as cidades que vou poder me apresentar. Não tem como não ir a Porto Alegre, que não só marca minha vida com grandes lembranças, mas a vida de meu pai também. Penso que vamos viver lindos momentos de arte e de muita emoção. Vamos rir bastante também. Será um grande encontro.

Foto: Studio Prime / Divulgação

Roteiro do Show

1 - ABERTURA
2 - MALANDRAGEM
3 - BY A WATERFALL
4 - SCANDALS
5 - MUSICAIS QUE FIZ
6 - MUSICAIS QUE NÃO FIZ
7 - MEDLEY ROMÂNTICO
8 - CUESTA ABAJO / ESTA NOCHE ME EMBORRACHO
9 - BRINDE TRAVIATA
10 - FIGARO
11 - SAMBA DE UMA NOTA SÓ
12 - MINHA PALHOÇA
13 - CONVERSA DE BOTEQUIM
14 - SUITE NORDESTINA
15 - GOTA D'AGUA / BASTA UM DIA
16 - LA VIE EN ROSE
17 - A QUOI ÇA SERT L'AMOUR
18- JE NE REGRETTE / HINO AO AMOR

sexta-feira, março 15, 2013

Marisa Monte é ilusão, mas é de verdade

Marisa Monte cantou 22 músicas num show de luz e projeções

Crédito da foto: Mauro Schaefer


Com show de sucessos, luz, projeções e cenários, cantora abriu turnê no RS, nesta quinta, 14, no Teatro do Sesi


Após 1h40min de show no Teatro do Sesi, com quase todos os sucessos e músicas novas do disco "O Que Você Quer Saber de Verdade" (o oitavo), totalizando 22 canções, declarações de amor por Cássia Eller, Arnaldo Antunes, Titãs e Porto Alegre, projeções em alta resolução de 17 obras de artistas plásticos, um espetáculo de design de luz e cenários, o que dizer da apresentação de Marisa Monte que abriu no Estado a sétima turnê da carreira da cantora "Verdade uma Ilusão"? Que Marisa Monte é uma ilusão, mas é de verdade, emociona e nos faz feliz, como na música que encerrou o show no bis "Seja Feliz", na qual diz para o público "curta a vida", "seja gentil", "seja legal". A cantora se apresenta novamente nesta sexta, às 21h, no Sesi e no domingo, 17, às 19h, será a vez do Teatro Feevale, em Novo Hamburgo, receber o show da turnê de Marisa.



O show teve início às 21h10min, com a execução de Blanco, seguida da faixa-título do mais recente CD "O Que Você Quer Saber de Verdade". As projeções tomaram conta do palco e de parte da plateia e uma fina tela transparente separava Marisa do público. Seguiram Descalço no Parque, Arrepio e Ilusión. A tela subiu, Marisa agradeceu o carinho de sempre do público gaúcho e executou quatro sucessos em sequência: Depois, Amar Alguém, Diariamente e Infinito Particular, com destaque aos arranjos para quarteto de cordas, executadas por Pedro Mibielli, 1º  violino; Glauco Fernandes, violino; Bernardo Fantini,  viola; e Marcus Ribeiro, cello). Mas foi com ECT, a música que ganhou vigor e característica de hino por Cássia Eller, mas de autoria de Marisa, Nando Reis e Carlinhos Brown ("Mas esse cara tem a língua solta / A minha carta, ele musicou / Tava em casa, vitamina pronta /  Ouvi no rádio a minha carta de amor"). A confissão foi: "Eu amava a Cássia Eller. Ela era uma referência como cantora. Ela também era uma daquelas contradições entre a potência de uma voz e atitude no palco e a doçura como pessoa".

O show seguiu seu curso com sucessos como De Mais Ninguém e Beija Eu e ainda Sono Come Tu Mi Vuoi, música de Mina Mazzini, uma cantora de grande sucesso na Itália, que vive desde o final dos anos 70 longe dos holofotes no Norte da Itália, mas que gravou uma música de Marisa em parceria com Arnaldo Antunes, "Ainda Bem", sucesso de novela e tudo o mais, que a cantora executou logo depois de contar a história do seu desejo de gravar a música com Mina, mas a italiana adorou a música e a gravou sozinha, frustando o dueto fonográfico imaginado por Marisa Monte. A cantora apresentou a espinha dorsal da banda, os inseparáveis parceiros Dadi (violão de aço, guitarra, ukulele, violão de nylon, guitarra pignose) e Carlos Trilha (piano, teclados e programação),  além do trio que faz parte da Nação Zumbi: Pupillo (bateria, caxixi, contra-tempo, bumbo, vassourinha, zabumba, pandeirola, pad), Lúcio Maia (guitarras, violão, guitarra slide, sitar) e Dengue (baixo), além do multi-instrumentista Dadi. Ao todo, nove músicos compõem a banda na turnê.

Seguiram outras clássicas como "Velha Infância" e "Gentileza", além de "Eu Sei (Na Mira)" e "Não Vá Embora", com a cantora falando da sua paixão pelos Titãs e por Arnaldo Antunes, outro eterno parceiro de composições. A cantora saiu do palco pela primeira vez, mas voltou acompanhada pelo seu ukulele para o bis. Aí chamou o público e pediu para que deixassem ela dizer uma coisinha: "Deixa eu dizer que te amo / deixa eu gostar de você / isso me acalma / me acolhe a alma / isso me ajuda a viver". E com "Amor I Love You", com o público já ficando junto ao gargarejo, cantando a plenos pulmões, com direito a uma fã fazendo a vez de Arnaldo Antunes a recitar um trecho de "Primo Basílio", de Eça de Queirós. O final foi com "Seja Feliz", com Marisa solta dançando e cantando e agradecendo a enorme equipe de produção que trabalha com ela e principalmente ao público gaúcho. "Tão longa a estrada / Tão longa a sina / Tão curta a vida / Curta a vida". E lá se foram mais de 1,5 mil pessoas curtir a vida após a verdade e a ilusão de Marisa Monte.



quarta-feira, março 13, 2013

A ópera dos dois tijolos





No dia do seu aniversário de 49 anos, o Auditório Araújo Vianna recebeu dois discos inteiros de presente de Ian Anderson e seu Jethro Tull atual: o clássico disco "Thick as a Brick", de 1972 e o insano e temporão, mas não menos rock progressivo ou ópera rock, como queiram, "Thick as a Brick 2", lançado em 2012, 40 anos depois do primeiro. Foram 2h30min de show, com 15 minutos de intervalo de uma execução que deixou embevecida uma plateia de pouco mais de 2,9 mil pessoas no Araújo Vianna, inaugurando a fase internacional de shows da tradicional casa de espetáculos incrustada no coração do bairro BomFim, o Parque da Redenção. 

O multi-instrumentista da banda Jethro Tull, Ian Anderson, iniciou pontualmente às 21h, o primeiro show internacional do reformado Araújo Vianna, nesta terça-feira em Porto Alegre. O show da turnê comemorativa aos 45 anos de carreira da banda e de Anderson foi uma apresentação com muita identificação histórica com o Araújo e sua tradição no rock e rock progressivo.



O show percorreu o lendário álbum "Thick Is a Brick", com Florian Opahle (guitarra), Scott Hammond (bateria), David Goodier (baixo), John O'Hara (teclados) e Ryan O'Donnell (vocal). Anderson cantava alguns trechos das músicas, mas a sua garganta gêmea era o jovem Ryan O´Donnell, que também personificava os momentos cênicos da ópera rock, personificando um empregado que varre o palco ou então um padre. Todo o grupo, porém, fazia evoluções instrumentais, cênicas num show conceitual, reproduzindo a atmosfera insana e criativa de "Thick as a Brick". 

Após um intervalo de 15 minutos, veio a execução integral de "Thick as a Brick 2", com destaque para “Banker Bets, Banker Wins”, com o telão reproduzindo moedas e notas, “Wootton Bassett Town” e a mais longa faixa “A Change Of Horses”. Após mais uma hora de show, foi a vez do próprio Ian Anderson, com o seu personagem no telão apresentar a banda e ela sair de cena para voltar em dois minutos e executar a clássica "Locomotive Breath", com o trem que não pode parar: "I thank God, he stole the handle / And the train, it won't stop going / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down". Era o gran finale de uma noite memorável para o Araújo Vianna, no dia do seu aniversário, e para os gaúchos. 



Set List:

1 Thick As A Brick
Intervalo 
2 From a Pebble Thrown 
3 Pebbles Instrumental 
4 Might Have Beens
5 Upper Sixth Loan Shark 
6 Banker Bets, Banker Wins
7 Swing It Far 
8 Adrift and Dumbfounded 
9 Old School Song 
10 Wootton Bassett Town
11 Power and Spirit 
12 Give Til it Hurts
13 Cosy Corner 
14 Shunt and Shuffle
15 A Change of Horses
16 Confessional 
17 Kismet in Suburbia
18 What-ifs, Maybes and Might-Have-Beens
19 Locomotive Breath


Crédito das fotos: Ricardo Giusti / Correio do Povo

terça-feira, março 12, 2013

Os Fab Four da ópera




Após o sucesso de Amor, de Michael Haneke, outro filme extremamente maduro nos traz a questão de como lidar com a idade madura. O Quarteto. O próprio diretor, por incrível que pareça estreante na régia, o ator Dustin Hoffman está com 75 anos e disse não querer perder a chance de estar por trás das câmeras. Na sua estreia, nos traz um filme sensível, musical e que discute esta relação com o que devem ser os últimos anos da vida, neste caso para músicos que decidem se retirar numa casa especializada para eles, a Beecham House, nos arredores de Londres.

Desde o início, o filme mostra a expectativa dos idosos da casa para um evento anual em benefício da continuidade do lar de músicos. Liderados por Cedric Livingston (Michael Gambon, o Dumbledore de Harry Potter), eles realizam extensas reuniões e ensaios, mas algo parece não estar dando certo. A temática será relativa à Giuseppe Verdi.


Neste último lar de músicos aposentados, as grandes estrelas são os cantores de ópera Cecily Robinson (Pauline Collins), Reginald Paget (Tom Courtenay) e Wilfred Bond (Billy Connolly), apelidados de Cissy, Reggie e Wilf, cada um com suas manias e traumas do passado. Eles protagonizaram a incrível performance e gravação do “Quarteto”, do Rigoletto, de Giuseppe Verdi. Quando a estrela maior, a diva Jean Horton (Maggie Smith), um conflito se estabelece, pois ela teve um romance arrebatador e marcado pela infidelidade com Reggie e os organizadores do evento beneficente querem tentar reuni-los novamente, mas não é a vontade de todos. Será que os quatro fabulosos, Fab Four, utilizando uma metáfora bem inglesa e beatlemaníaca, voltarão a brilhar juntos?



O que o filme nos apresenta são as lembranças de músicos que tiveram grandes feitos e o impasse entre seguir em frente cantando e tocando ou simplesmente aceitar que a vida está mais próxima do fim do que do meio. O próprio diretor Dustin Hoffman disse que “se você chega a ter vivido três quartos de século, há algo ofensivo nisso do ponto de vista da sociedade. Acabou, essa é a atitude. Não tenho certeza de que a cultura tenha acompanhado os indivíduos que, no que me diz respeito, ainda estamos no nosso segundo ato”. Pois é exatamente esta noção de segundo ato, de grandeza na velhice, de que a vida segue e segue a pleno, como na cena em que Wilf flerta ou passa uma cantada na doutora Lucy Cogan, sabendo que não vai ter sucesso, mas mantendo a chama acesa. O filme é baseado na peça homônima de Ronald Hardwood, autor que a adaptou em roteiro para o filme.



O que mais emociona no filme é que a relação com a música está presente o tempo inteiro e Dustin criou um set bastante musical, pois com exceção do quarteto principal e de quatro ou cinco atores os músicos do lar são músicos profissionais com a idade em que são apresentados na casa e apresentam neste evento performances parecidas com as que o notabilizaram nos palcos. Entre árias de “Rigoletto”, de Verdi, como a famosíssima “La Donna e Mobile”, a “Brindisi”, de “La Traviata” e músicas de Schubert, Haydn, Puccini, na estonteante trilha de Dario Marianelli (“Anna Karenina”) e o cenário deslumbrante do casarão Hedsor House, em Taplow, já utilizado para filmes como “A Bússola de Ouro”, a emoção acaba tomando conta do público, pois fica impossível não se sensibilizar com árias de ópera, música clássica e a discussão às vezes séria, outras vezes bem-humorada sobre o que fazer com a idade madura ou com o segundo ato das nossas vidas, como bem definiu Dustin Hoffman.


Crédito de fotos: Diamond Films / Divulgação

quinta-feira, março 07, 2013

Carta de Amor no Oásis de Bethânia




Depois de dois adiamentos, um deles pela grande dor da perda da mãe Dona Canô, Maria Bethânia mostrou para os gaúchos como se escreve uma “Carta de Amor”, o título do seu show a partir do disco “Oásis de Bethânia” lançado no início de 2012. Foram 33 músicas durante 1h35min, com direito a bis de improviso. Para delírio da plateia que quase lotou o Teatro do Sesi, Bethânia adentrou o palco às 21h05min desta quarta-feira, aos acordes de Canções e Momentos, com os seus pés descalços, sua saia rodada e sua voz e pose quase míticas.  Sob a batuta do maestro e pianista Wagner Tiso e diante de um cenário econômico e belo de Bia Lessa, diretora do show, com as luzes que sobem de Tomás Ribas, Bethânia entoou ainda Sangrando e Salmo, esta do mais recente disco.

Aos 66 anos, a cantora está cada vez mais enfeitiçante e seguiu desfilando sucessos, não sem antes pedir desculpas pelos dois adiamentos do show. “É a vida”, disse. Do mano Caetano Veloso, cantou “Não Enche” e depois emendou com “Fogueira” e “Casablanca”, a canção de Roque Ferreira, do disco Oásis de Bethânia, com o piano do mineiro Wagner Tiso e o refrão: Era sonhar / Em preto e branco no cinema / será que Casablanca ainda vai passar? / Acho que vou chorar, numa alusão ao clássico filme de Ingmar Bergman.

Com Calúnia, Negue, Olhos nos Olhos e Fera Ferida, novamente do mano Caetano, Bethania contagiou o público que avistou o Oásis de Bethânia com Barulho, romântica com o piano de Tiso pontuando as frases: “tudo relevo e tolero / mas já falei que eu não quero / que me levante a voz, música sobre as desavenças de um casal. Um dos momentos mais emocionantes do show foi quando Bethânia cantou a música do português Pedro Abrunhosa: Quem me Leva os meus Fantasmas, com uma luz suave azul e os dizeres: “Quem me leva os meus fantasmas? / Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?”

Bethânia saiu pela primeira vez do palco e do piso que lembra um terreiro ou um local de oração ou de celebração à vida, com tiras entrelaçadas artesanalmente, e deixou a banda com um set instrumental das músicas Cais e Maria, Maria, de Milton Nascimento, com o também mineiro Wagner Tiso (piano),  Gabriel Improta (violão e guitarra), Paulo Dafilin (violão e viola), Jorge Helder (baixo), Pantico Rocha (bateria), Marcelo Costa (percussão) e Marcio Mallard (cello). Bethânia voltou ao palco e executou de Em Estado de Poesia, de Chico César a A Nossa Casa, de Arnaldo Antunes, em ritmo de xote.



Com Reconvexo, O Velho Francisco, de Chico Buarque, e Carta de Amor, a cantora mostrou toda a sua força estranha. A música que dá título ao show tem duração de quase oito minutos, um naipe percussivo que contagia, com as luzes baixando ao nível de um terreiro, com a poesia de Bethânia, entremeando a composição de Paulo César Pinheiro e a estrofe predominante: “Não mexe comigo, que eu não ando só”. Com um medley de “Salmo” e “Canções e Momentos”, Bethânia fechou o show, mas o público hipnotizado pediu bis e a baiana trouxe Fernando Pessoa para o palco com Mensagem e a poética sentença repetida pelo poeta que “todas as cartas de amor são ridículas”, pois “afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”. Com as cortinas fechadas, o público pediu e ela voltou para fazer um bis de improviso. Cantou “Explode Coração” com a conivência vocal da plateia, todos a capella, fechando com a clássica de Gonzaguinha, “O Que é, O Que é?. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. Nesta noite, fomos todos aprendizes de uma baiana que enfeitiça, hipnotiza, com a sua voz e a sua poesia, quando mergulhamos no Oásis de Bethânia.

Foto: Mauro Schaefer / Correio do Povo


SET LIST
1 - Canções e Momentos
2 - Sangrando
3 - Salmo
4 - A dona do raio e do vento
5 - Não enche
6 - Fogueira
7 - Casablanca
8 - Na primeira manhã
9 - Calúnia
10 - Negue
11 – Barulho
12 – Olhos nos Olhos
13 - Fera ferida
14 - Quem me leva os meus fantasmas
15 - Cais / Maria, Maria (instrumental)
16 - Festa
17 - Dora
18 - A Lua Branca
19 - Em estado de poesia
20 - Guacira
21 - A nossa casa
22 - Marambaia
23 - A casa é sua
24 - Reconvexo
25 - Viola, meu bem
26 - Minha casa
27 - O Velho Francisco
28 - Carta de amor
29 - Escândalo
30 - Salmo / Canções e momentos

PRIMEIRO BIS:
31 - Mensagem
SEGUNDO BIS
32 – Explode Coração
33 -  O Que é, O Que é?

sexta-feira, março 01, 2013

O mestre e sua "Psicose"




Antes de poder fazer uma crítica isenta, não contaminada pelo fascínio que nutro pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, é necessário dizer que "Hitchcock" é uma história a ser contada. Com erros e acertos, este seria um filme necessário para cinematografia mundial. Disto isto, podemos partir para a análise do filme que ao contar uma parte da história do cineasta, acerta na escolha do ator. Anthony Hopkins se entrega de corpo e alma ao papel, apesar de a caracterização e maquiagem estar um pouquinho equivocada, compondo um Hitchcock mais para risível do que para suspense.  É no riso e em tentar mimetizar o efeito que Hitch exercia sobre as pessoas é que o diretor Sasha Gervasi (roteirista do filme “O Terminal”) centrou o seu trabalho, além de nos colocar dentro do clima do set de toda a concepção de um dos maiores clássicos da filmografia do cineasta, “Psicose”.

O roteiro de John McLaughlin (o mesmo de “Cisne Negro”) para “Hitchcock" é pontuado de diálogos que gostaríamos de ter presenciado, entre Hitch e Janet Leigh (a sempre desconcertante Scarlett Johansson), Anthony Perkins (James D´Arcy) e também com o diretor de classificação de censura americana, Geoffrey Shurlock (Kurtwood Smith) e também com o executivo da Paramount, Barney Balaban (Richard Portnow), mas principalmente sobre a sua cara metade, Alma Reville (uma cada vez melhor Helen Mirren) que teve sua vida (como muitas das mulheres de grandes nomes da arte) um pouco eclipsada pelo culto ao gênio e também uma certa inveja que Hitch tinha de outros diretores e das pessoas do meio artístico.



O filme mostra claramente as obsessões do diretor, sua busca pela loira misteriosa, a persecução a uma história diferente e inquietante. Na construção da narrativa, o diretor pontua as ações de Hitch com algumas conversas imaginárias e sonhos com o próprio Ed Gein (Michael Wincott), o autor do crime que inspirou o livro Psicose, que cai nas mãos de Hitchcock após pesadas críticas da imprensa. Ele próprio havia sofrido críticas pesadas, mesmo após o sucesso de “Intriga Internacional”, que na época era o seu mais recente filme, abrindo aquele famoso buraco, aquela crise do diretor em busca de algo que o inquietasse.

O drama psicológico está bem estabelecido na coesão e dualidade entre a vida pessoal e profissional de Hitch com a esposa Alma Reville, no vício da bebida, na compulsão por comida, no empenho das suas próprias finanças para dar vida ao filme, já que os estúdios duvidaram do potencial de “Psicose”. “Eles sempre querem que eu faça o mesmo filme”, diz Hitch (Hopkins) em um determinado momento do filme a seu agente. A base para o filme está no livro de Stephen Rebello: “Alfred Hitchcock and the Making of Psycho”.



“Psicose” realmente sofreu uma rejeição prévia, mas o gênio se destacava e insistia na história de Norman Bates, o homem que desenterrou a mãe e virou um assassino serial.  A principal reclamação prévia da Censura era quanto à violência, nudez e insinuações  sexuais.  Numa das principais cenas do filme, Hitchcock está furioso com a sua vida pessoal, por achar que Alma o está traindo com um roteirista, Whitfield Cook (Danny Huston), e não está contente com os gritos de Janet Leigh como Marion em “Psicose” na famosa cena do chuveiro. Assim, ele mesmo empunha a faca e ela grita com o que parece ser um medo real. Foi realmente um presente de Sasha Gervasi nos mostrar como poderiam ser os bastidores deste filme que tanto preenche o nosso imaginário.

No elenco, temos outros grandes atores, como Jessica Biel, que vive Vera Miles - outra das obsessões de Hitch que passa para o segundo time das suas atrizes por ter ficado grávida durante uma das suas produções –; Toni Collette, como a secretária de Hitch, Peggy Robertson; Ralph Macchio, o karatê kid faz o papel do roteirista do filme, Joseph Stefano; e Michael Stuhlbarg como o agente de Hitch. Um filme que em certos momentos nos dá aquele clima da série para a tevê, Alfred Hitchcock Presents, com Hitch aparecendo de terno preto no canto escuro da sua própria casa e causando susto na própria mulher Alma, mas que nos brinda com a possibilidade de imaginar como teriam sido os bastidores da vida de Hitch e das filmagens do clássico “Psicose”, inclusive com o momento em que é gerada a trilha para a cena do chuveiro, a montagem do filme e a impressão que a cena causou no público da época.



HITCHCOCK
(HITCHCOCK/ EUA/ 2012/ DRAMA/ 99 MIN/ 12 ANOS)
Direção:SACHA GERVASI
Trilha sonora: DANNY ELFMAN
Roteiro: JOHN J. MCLAUGHLIN
Elenco:
ANTHONY HOPKINS como Alfred Hitchcock
HELEN MIRREN como Alma Reville
SCARLETT JOHANSSON como Janet Leigh
TONI COLLETTE como Peggy Robertson
DANNY HUSTON como Whitfield Cook
JESSICA BIEL como Vera Miles
JAMES D'ARCY como Anthony Perkins
MICHAEL STUHLBARG como Lew Wasserman
RALPH MACCHIO como Joseph Stefano
KURTWOOK SMITH como Geoffrey Shurlock
MICHAEL WINCOTT como Ed Gein
RICHARD PORTNOW como Barney Balaban
WALLACE LANGHAM como Saul Bass

sábado, fevereiro 23, 2013

NOVE FILMES E UM DESTINO





Nove filmes disputam o obscuro objeto do desejo de toda a produção cinematográfica o Oscar de Melhor Filme produzido e exibido em 2012 no mercado norte-americano. Desde que começou esta seleção mais abrangente, passando dos tradicionais cinco para os nove ou dez filmes nunca houve consenso e muitos filmes medianos acabaram entrando na lista e grandes obras cinematográficas foram preteridas desta categoria, a principal, o foco de todas as atenções.

Neste ano, está tão claro como a fotografia de um filme de Wim Wenders que a abrangência da lista de nove filmes desconsiderou alguns filmes que poderiam figurar no status e na nominação de Melhor Filme. O exemplo mais crasso disto foi “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson, alijado da categoria principal e nominado somente em prêmios de atuação, apesar do brilhantismo da obra de PTA como realização e como roteiro. Obras como Hitchcock e Anna Karenina, que ainda não estrearam no Brasil, mereciam melhor sorte e talvez a indicação na categoria principal no lugar dos dispensáveis A Hora Mais Escura e Os Miseráveis.

Para abordar a categoria Melhor Filme e dar início às 24 horas pré-Oscar, vou fazer uma pequena análise, não mais que três ou quatro linhas sobre cada filme indicado e externar a minha opinião crítica sobre os nove filmes e um destino: a estatueta dos sonhos de todo o profissional envolvido com cinema no mundo. Minha torcida é pela ordem para Argo, Django Livre, Indomável Sonhadora e Amor.

ANÁLISE DOS INDICADOS A MELHOR FILME



ARGO – Grande candidato à conquista do Oscar. Ben Affleck conseguiu neste filme dar o tom realista e o ritmo necessários para contar a história de um grupo de agentes da CIA que se faz passar por produtores de cinema, que irão filmar a ficção científica “Argo” para retirarem seis funcionários da embaixada americana que estão impedidos de sair do Irã nos anos 70. Um grande filme, sério, e com uma fotografia que recria muito bem o clima dos anos 70. Favoritaço.




AMOR – Uma das mais contundentes histórias de amor e dor já filmadas. O austríaco Michael Haneke, com a sua capacidade de mergulhar no mais profundo do ser humano, obteve dos seus protagonistas Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant o máximo de dramaticidade. A história por si só nos conduz para os labirintos do amor e da finitude, quando Rose tem dois derrames consecutivos e fica em estado vegetativo. Seria candidato, mas a academia não deve premiar um estrangeiro.


DJANGO LIVRE – Quando o dentista/caçador de recompensas gasta toda a sua verborragia para explicar por que precisa do escravo Django para os irmãos Speck ou quando um atrapalhado esboço de Ku Klux Klan tenta emboscá-los ou ainda quando Django vai buscar a sua Broomhilde, como o herói da ópera de Wagner. Em todos estes contextos, Quentin Tarantino é um gênio do roteiro e os seus filmes são uma aula de cinema. Django (Jamie Foxx) quer sua vingança, Schultz (Christoph Waltz) o ajuda a tentar resgatar Broomhilde do plantador de algodão e entusiasta de lutas de mandingos, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). O banho de sangue que virá, esguichando à maneira thrash, a mira certeira do pistoleiro, os diálogos cheios de alternativas, com um elenco recheado de ótimos atores. Digo tudo isto para dizer que não seria surpresa se Django Livre conquistasse o Oscar de Melhor Filme, mas a Academia precisaria ter coragem, pois o meu prêmio de Diretor seria para Tarantino, mas ele não foi indicado, assim como Paul Thomas Anderson.




INDOMÁVEL SONHADORA – Este filme seria o meu favorito afetivo para a conquista do Oscar, pois pede um coração aberto ao espectador, que se deixe levar pela emoção para acompanhar o universo da pequena Hushpuppy (interpretada pela pequena Quvenzhane Wallis) que extrai reflexões filosóficas acreditando num universo em equilíbrio entre a natureza e os seres vivos – humanos e animais, na mesma Louisiana, sempre receosa de que uma nova tempestade inunde tudo. Um filme que alterna realismo mágico e social e que pega pelo coração. Pode levar prêmio de consolação para roteiro adaptado.


LINCOLN – Quando me acusam de não gostar de Steven Spielberg, eu digo que ele faz um filme que eu gosto e outro que eu não gosto. Este é o que eu não gosto. Mesmo com certo favoritismo a conquistar Melhor Filme junto com Argo, é um bom filme quando o assunto é a política e o direito na questão da aprovação da 13ª emenda da Constituição dos EUA e também quando falamos do gigante em cena, Daniel Day-Lewis, favorito junto com Joaquin Phoenix para o prêmio de ator. Quando falamos de cinema, de narrativa, o filme se torna aborrecido, com uma primeira parte que tenta ser didática e não consegue, mostrando Spielberg tentando algo em uma área na qual não domina, uma narrativa bem calcada no real, mas enfim ainda é um bom filme.





O LADO BOM DA VIDA – Eu escolhi este filme de David O. Russell como o Miss Simpatia do Oscar. Todos o acham bonitinho, mas não vai levar nada de Los Angeles. Trata de uma forma séria e ao mesmo tempo bem-humorada da questão da bipolaridade. Claro que Russell segue a cartilha proposta pelo livro de Matthew Quick. As atuações do quarteto principal, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert de Niro e Jacki Weaver dão o corpus preciso à obra, além das referências literárias e musicais a caras como Ernest Hemingway e Stevie Wonder.




AS AVENTURAS DE PI – Um filme bom. Um diretor bom: Ang Lee. Uma boa história. Dezenas de efeitos visuais e a magia do 3D bem explorado. Com isto, poderia dizer que o filme tem alguma chance de ganhar o Oscar. A narrativa explora aquele desgastado flashback de Piscine Patel contando a sua história a alguém no presente. A aventura é incrível. Sobreviver meses num bote com um tigre. É uma história de amizade e respeito. Acho que tem chance com os prêmios de efeitos, som e desenho de produção.



OS MISERÁVEIS – A despeito da cena inicial quando Jean Valjean (Hugh Jackman) precisa carregar sozinho o mastro com a bandeira da França e o resultado fantástico da voz de Anne Hathaway em “I´ve Dreamed a Dream”, o que o diretor Tom Hooper conseguiu com este filme foi apenas a tentativa de trazer o musical baseado em Victor Hugo para as telas, com alguns lampejos de grande filme e um resultado geral abaixo da média. Pode ganhar o Oscar de Canção Original para “Suddenly”.


A HORA MAIS ESCURA – Este mais recente filme da oscarizada com “Guerra ao Terror”, Kathryn Bigelow, poderia ter sido deixado da nominação a Melhor Filme com toda a certeza. É um filme menor. Para mim se alçaria ao posto de telefilme. Não há a mínima tensão na obra. Apesar das cenas de tortura e de algumas partes da investigação do paradeiro de Bin Laden serem impactantes, as 2h37min acabam sendo um rosário enorme para contar os 10 anos de investigação para chegar ao líder do Al-Qaeda, morto no Paquistão em maio de 2011. Jessica Chastain está irreconhecível, comedida demais, sem as qualidades que a fizeram brilhar em Arvore da Vida e Histórias Cruzadas, como a capacidade expressiva e dramática, por exemplo. Não merece nenhum prêmio. Talvez ganhe o de Roteiro Original para Mark Boal.






ATÉ O FIM




Há quase uma década criei um conto chamado Até o Fim, no qual a narrativa era conduzida por um coveiro que vive a sua vida intensamente até o fim mesmo. Ele mesmo orquestra o seu enterro. Bom, estou abordando o tema subjetivamente, pois o filme Amor, de Michael Haneke é um exercício diante da finitude, diante do amor até o fim. É um exercício minimalista, mas com uma grande carga de dramaticidade e interpretações exuberantes dos protagonistas que encaram o casal francês de professores de música aposentados, com idade acima dos 80 anos, Anne e George (Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant).

Sem querer contar o que se sucede no filme do diretor de Caché e A Fita Branca, mas encaminhando a condução da narrativa, é importante se dizer que o grande sucesso que o filme vem fazendo se deve principalmente ao fato de o filme nos fazer confrontar com um drama que mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, irá atingir todos nós. Após assistir a um concerto de um ex-aluno, o pianista na vida real Alexandre Tharaud, Anne vai para casa e no dia posterior tem um derrame. Com o lado direito paralisado, Anne passa a necessitar de auxílio para a maior parte das atividades cotidianas. Não querendo falar da síndrome de cinema e lágrimas, mas as privações de Anne e o empenho amoroso de George acabam nos deixando com o coração partido, desnorteados, tentando entender o que é o amor diante de um acidente vascular cerebral ou das doenças degenerativas e da própria morte. Ele resiste. Ele pode ser maior do que tudo. Mas somos humanos. 

Neste lado humano do amor, o papel da filha, representado por Isabelle Huppert, e do casal de zeladores do prédio, que ajudam com as compras, e também das enfermeiras fazem o contraponto, de pessoas que não entendem porque Anne não quer ir para um hospital ou um asilo. É uma mulher culta, professora de música, lê e ouve música todos os dias. A degradação e a entrega não fazem parte do seu vocabulário. Haneke sabe disto e nos coloca dentro da perspectiva do apego do casal e de como eles se relacionam com a doença de Anne e com o mundo externo. O que George vai fazer com Anne é uma decisão que só ele pode tomar e que só um filme com tamanho poder de discernimento e grau de realidade pode nos proporcionar. 




Os prêmios recebido por Amor são mais que merecidos, incluindo a Palma de Ouro em Cannes 2012 e mais recentemente o César de Melhor Filme, o Oscar francês. Haneke que já havia mergulhados nas profundezas da alma humana em A Professora de Piano, Violência Gratuita, Cachê e A Fita Branca é um diretor no qual se pode confiar, que sempre vai nos apresentar histórias com um grau de drama e de humanidade acima da média. Filme triste, de lágrimas, mas para que pensemos no que fazer diante da finitude da vida neste plano terreno. 

Crédito de fotos: Imovision / Divulgação

AMOR
(AMOUR/ FRANÇA, ALEMANHA, ÁUSTRIA/ 2012/ 127 MIN/ DRAMA/ 14 ANOS)
Direção e Roteiro: MICHAEL HANEKE
Fotografia: DARIUS KHONDJI
Edição: NADINE MUSE
Elenco:
JEAN-LOUIS TRINTIGNANT
EMMANUELLE RIVA
ISABELLE HUPPERT
ALEXANDRE THARAUD
WILLIAM SHIMELL

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Um Pequeno Pedaço de Universo




O último dos indicados ao Oscar de Melhor Filme a estrear no Brasil é talvez o filme que cause a emoção mais pura no espectador, não tão política como em Argo ou Lincoln ou tão metafísica como em Amor ou tão cinéfila como em Django Livre, mas é certo que “Indomável Sonhadora” pede um coração aberto ao espectador, que ele se deixe levar pela emoção  para acompanhar o universo da pequena Hushpuppy (interpretada por Quvenzhane Wallis, na época com 6 anos e hoje com nove, selecionada entre 3,5 mil crianças). Rodado na Lousiana e utilizando um paralelo com a catástrofe do furacão Katrina que assolou New Orleans e região em 2005, o filme "Indomável Sonhadora" é adaptado da peça "Juicy and Delicious" e alterna um realismo social com realismo mágico ao abordar o universo da menina, que acredita que o mundo natural está em equilíbrio com o universo, que tudo pode ser consertado de alguma forma, que quem vive à margem da sociedade pode ter mais feriados, que não tem entende os códigos dos animais e que tem poder sobre a vida e a morte do pai, Wink (Dwight Henry, também um ator não-profissional, era um padeiro antes de ser selecionado para o filme).

A produção independente recebeu quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (para Benh Zeitlin), Melhor Atriz para a atriz, hoje com 9 anos, a mais jovem a receber indicação ao Oscar) – e Roteiro Adaptado por Benh Zeitlin e Lucy Alibar, autora da peça que originou o filme e já conquistou dezenas de prêmios, dos quais os mais destacados são o Camera D´Or e o prêmio da crítica internacional, o Fipresci, no Festival de Berlim 2012, além do Grande Prêmio do Júri e a Melhor Fotografia de Sundance 2012.  


O diretor estreante Benh Zeitlin, de apenas 30 anos (cujo pai e avô moraram em São Paulo durante algum tempo), conseguiu fazer um filme extremamente autoral e cativante, em que cada momento de narração em off da protagonista encerra em si um tratado filosófico cotidiano e de reflexões possíveis sobre a natureza e as relações humanas, como esta pérola no início da película filmada em super 16mm: “O universo inteiro depende de tudo se encaixando apenas certo. Se um pedaço rompe, o universo inteiro vai ficar rompido”. Hushpuppy acredita que num equilíbrio do universo com a natureza e que as forças da natureza podem quebrar tudo e nisto segue as crendices e o realismo mágico que emana dos moradores da pequena comunidade de Bathtub (Banheira), que por causa de um dique, será inundada caso vier uma grande tormenta.


As reflexões da menina são o processamento de uma educação quase animalizante que recebe do pai Wink, que possui um grave problema cardíaco, mas luta como um animal para não sair da comunidade e para não ser hospitalizado. "Aqui quando um animal está doente, eles o ligam na parede", reflete a menina sobre os hospitais. Eles vivem em trailes velhos, cheio de lixo e bugigangas e comem frango com as mãos, vivem livres, mas Hushpuppy não tem a mãe para lhe mostrar o lado mais doce da vida, mesmo assim sonha acordado e brinca com o que tem: os animais


Quando a tormenta se prenuncia, a maioria das pessoas da comunidade foge e este universo se desequilibra, pois a água invade Bathtub. A casa deles vira um barco.
Talvez o título original do filme “Beasts On The Southern Wild”, algo como Animais no Sul Selvagem, possa explicar a diferença de mundos de Hushpuppy, seu pais e os moradores de Bathtub, que não querem se render à inundação e à civilização. Em uma cena do filme, o pai da menina diz para eles não comerem com modos, mas que “animalizem”.
Realmente, a vida deles é algo próximo do primitivo, pois eles não querem a civilização e as suas histórias beiram o realismo mágico, quando a menina fala do temor dos auroques, um misto de porcos e javalis gigantes: “Animais fortes não têm misericórdia".


Em outra cena, o pai acossado por problemas cardíacos diz: "Eu tenho que dormir, eu tenho que amanhecer forte". Não há como fugir do conceito de filme épico, pois a jornada de Hushpuppy é para tentar salvar o pai ("Todo mundo perde quem o fez, deveria ser assim na natureza) e também para entender o mundo em que vive: “Vejo que sou um pequeno pedaço de um universo, muito, muito grande e isso faz as coisas certas”. Um filme que é emoção e reflexão durante a 1h32min de projeção. Corra para assisti-lo antes do Oscar.

Crédito das foto: Imagem Filmes / Divulgação

sábado, fevereiro 16, 2013

Corações que se abrem e buscam



Para quem ficou impactado com a pungência da finitude e a verdade dos sentimentos em "Amor", de Michael Haneke, prepare-se para mais um baque com o drama proposto pela roteirista e diretora Marion Laine em "De Coração Aberto", que está em pré-estreia nos cinemas da Capital. A densidade do roteiro proposto pela francesa a partir do livro de Mathias Enard (Remonter L´Orénoque) já dá as cartas logo no início da trama, quando os dois cirurgiões cardiovasculares Mila (Juliette Binoche, de A Vida dos Outros) e Javier (Edgar Ramirez, de A Hora Mais Escura) estão em meio a um transplante cardíaco muito sério e tratam tudo com bom humor, uma dose de loucura e de juvenilidade. A vida por um fio contrasta com o apego à vida e a inconsequência do casal, mas Javier ancora sua irreverência no alcoolismo (o tema está presente em outra produção nos cinemas "O Voo").

Os dois desenvolveram um programa de transplantes para o hospital no qual trabalham e curtem um amor louco, sem limites, há 10 anos, até que Javier tem sua jornada de cirurgias reduzida por conta do seu vício, o que poderia prejudicar a instituição e levá-lo a um erro futuro. Ele não quer se tratar do vício. A partir daí, a queda é a palavra que define o filme. Mila descobre uma gravidez no momento indesejada, mas não conta para ele. O casal vive um amor louco, de coração aberto, assim como aqueles que eles operam quase todo o dia. Este amor é  embalado por canções românticas e também melancólicas como "Besame Mucho", de Consuelo Velásquez, na belíssima versão com Tino Rossi.



A desagregação coincide com o sopro de vida da criança que está por nascer, mas Javier e Mila se desconectam e o drama está estabelecido. No desenvolvimento da trama, os instintos mais primitivos, mais animais vêm à tona. A diretora Marion Laine chegou a batizar o filme inicialmente de “Um Macaco no Meu Ombro”, pois ela estudou o comportamento de casais de macacos para compor os personagens. Em determinada cena do filme, Javier amanhece, não por acaso, na jaula de um chimpanzé. Os instintos do casal os levam a comportamentos que beiram o suicídio, principalmente Javier.
Como foi praticamente alijado do quadro de cirurgias, ele passa a maior parte do tempo em casa, começando obras que não termina, com um comportamento que mistura o de alcoólatra com o de um bipolar. Nesta hora, o casal realmente briga muito e mostra o seu lado símio.  No elenco, também estão Hippolyte Girardot (como o cirurgião Marc) e Amandine Dewasmes (como Christelle).

Soluções como o aborto e a fuga para a América do Sul, para as quedas da Iguazu argentina, em Puerto Iguazú, em Misiones, nas Sete Quedas, mas a vida deveria prevalecer, pelo menos para estes dois cardiologistas, especialistas em transplantes do coração. A água tem no filme uma função de renovação, de purificação, uma mensagem simbólica de tentar afastar o mal, o primitivo, e prevalecer o bem, a vida de um novo ser, simbolizando a humanidade em busca de renovação. Neste filme, os corações se abrem, são primitivos, valentes e têm a sua busca. Descubra qual!




DE CORAÇÃO ABERTO

(À COEUR OUVERT/ 2012/ FRANÇA/ 87min/14 ANOS/ DRAMA)

Direção e Roteiro: MARION LAINE
Fotografia: ANTOINE HÉBERLÉ
Edição: LUC BARNIER
Adaptação: REMONTER L´ORÉNOQUE, de MATHIAS ENARD

Elenco:
JULIETTE BINOCHE,
EDGAR RAMIREZ,
HIPPOLYTE GIRARDOT,
AMANDINE DEWASMES,
AURÉLIA PETIT

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Os amantes do círculo bipolar




Como o agradável Juno já havia sido no Oscar 2008 aquele filme simpático com bom roteiro e muitas nominações (quatro), inclusive diretor e filme, o miss simpatia da vez é O Lado Bom da Vida, filme dirigido por David O. Russell (Três Reis e Procurando Encrenca), com roteiro adaptado pelo próprio diretor, a partir do livro homônimo (Silver Linings Playbook no original), de Matthew Quick. A empatia pelo filme rendeu a obra oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem e também as nominações de atuação para Ator e Atriz aos protagonistas Bradley Cooper e Jennifer Lawrence e de Coadjuvantes para Robert de Niro (recuperando um pouco o seu way of act) e Jacki Weaver. Pode não levar nenhuma estatueta, mas será mesmo assim o filme que podemos ver tranquilamente, sem chamarmos de óbvio, meia boca ou sessão de tarde (os clichês dos clichês da crítica)

Para começar a traçar um apanhado crítico do filme, já digo que ele me pegou por motivos um tanto óbvios, como química entre os protagonistas e coadjuvantes, as tão amadas referências pop e cult, os elementos reais e simbólicos e o tema da bipolaridade (como leitura adicional sempre recomendo o livro Temperamento Forte, de Diogo Lara) que sempre é interessante num mundo onde 10% das pessoas são diagnosticados com a, digamos, enfermidade contemporânea. Haveria outros motivos, mas vou ficar nestes. Bom, vamos então à história e ao que eu gostei e não gostei do filme, cujo gênero seria a comédia romântica.



Como todo filme adaptado de livro começa e encerra com uma narração em off exaltando os domingos. O personagem Pat Solatano Jr.  (Bradley Cooper) sempre gostou do dia, pois a sua vida sempre foi marcada pelo futebol americano. O pai Patrizio (Robert de Niro) é um torcedor fanático dos Eagles da Philadelphia, paixão que passou para os filhos Pat e Jake (Shea Wigham). Este extravasar com o futebol se aplica na vida de Pat pai e também de Pat filho. O pai tem Transtorno Obsessivo Compulsivo e foi impedido de frequentar o estádio dos Eagles por uma briga. O filho, por sua vez, era bipolar, mas o seu diagnóstico só se confirmou quando ele quebrou a cara do amante da sua mulher Nikki (Brea Bee), quando eles transaram no chuveiro ao som da música do seu casamento: “My Cherie Amour”, de Stevie Wonder.

Sem ser profundo, o filme trata da reconstrução da vida de Pat, que passa oito meses preso em uma instituição psiquiátrica forense. Quando ele sai, tenta reconstruir a sua vida, mas passa a ter a obsessão em refazer o seu casamento. Aí começa a entrar toda a organicidade e a simpatia do filme, fora as referências. Numa das primeiras cenas do filme, ele acaba de ler Adeus às Armas, de Ernest Hemingway e invade o quarto dos pais injuriado pela morte da personagem Catherine quando tudo indicava que o livro teria um final feliz. Ele quer entender Nikki, que é professora de literatura inglesa.



Tudo muda no filme e nos níveis de atuação quando entra em cena a atriz Jennifer Lawrence, como a desajustada cunhada de seu melhor amigo Ronnie (John Ortiz), irmã de Verônica (a sub-aproveitada Julia Stiles). Desde o primeiro instante, a química dos atores e dos personagens fica evidente e o caminho para a reconstrução de ambos está traçado. Ao som de White Stripes, Led Zeppelin, Frank Sinatra, Bob Dylan & Johnny Cash, o filme vai ganhando corpo e os dois atores dão a intensidade necessária para que o romântico da comédia se estabeleça e o humor seja sustentado pelos coadjuvantes, com a lista engrossada pelo impagável Chris Tucker, como um divertido colega com distúrbios mentais.



Um filme que trata de um tema sério como a bipolaridade, um pouco superficialmente, que traz também a dança entra como elemento agregador, discute o amor em família e que traz o tema do fanatismo e das apostas para o viés cômico. Quando o assunto é dança, emociona o elo da cumplicidade e da construção de um sentimento pela dança (pinta um clima de Dirty Dancing) e principalmente a cena em que eles repetem os passos de Gene Kelly e Donald O´Connor no melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva. Um filme para amantes de filmes, para amantes bipolares ou para quem só queira diversão. Pode não levar nenhuma estatueta contra gigantes como Os Miseráveis, Lincoln, Argo e Django Livre, mas vai agradar ao público, isto lá eu garanto.

Crédito de fotos: Paris Filmes / Divulgação



quinta-feira, janeiro 24, 2013

O bêbado e a alma equilibrista



Crédito: Paris Filmes / Divulgação

Quando o personagem Lancaster Dodd (Philip Seymor Hoffman), o líder de uma seita científica, comportamental e espiritual pergunta a Freddie Quell (Joaquin Phoenix) se ele conhece alguém que viveu toda a sua vida ser tem a necessidade de um mestre, está frutificando a semente jogada na terra árida da vida e dos espectadores pelo realizador Paul Thomas Anderson em “O Mestre” de que a interdependência entre pessoas, pais e filhos, mestres e alunos, chefes e empregados, marido e esposa, irmão mais velho e irmão mais novo, líder espiritual e seguidor e outras ascendências possíveis de uma pessoa sobre a outra parece ser uma das circunstâncias da vida mais normais do que pensamos.

Com dois atores que levam a arte de interpretar ao extremo trabalhando esta oposição entre o mestre e o pupilo desajustado, o filme traça o seu painel sobre a fundação de A Causa, nos anos 50, por Lancaster Dodd (Hoffman), que possui inúmeros seguidores, mas muito ceticismo. Num primeiro momento, o desajustado, o bêbado e sua alma equilibrista, Freddie Quell (Phoenix) são mostrados com fotogramas densos, esculpidos como um entalhe na tela, tanto que a trilha proposta pelo Radiohead, Jonny Greenwood, nos lembra o martelo no formão ou uma engrenagem, a raiz da loucura e do desajuste de Freddie, um marinheiro errante, que tenta mil trabalhos, inclusive a fotografia (neste ínterim o destaque é para o diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr, o mesmo do inebriante “Tetro”). Por ironia, Freddie vai ancorar sua vida tempestuosa no barco onde estão os integrantes de A Causa (há uma proposital semelhança com a fundação da Cientologia por L. Ron Hubbard).

A partir daí, os diálogos entre o mestre e pupilo, o doutor e a cobaia e a evolução de A Causa permeiam o filme e mostram um experimento que se diz científico de Lancaster com Freddie, tentando utilizar seus métodos criados na hora de perguntas específicas e condicionamentos para que a alma equilibrista do ex-marinheiro se encontre e não fique à deriva por oceanos que se abastecem desde vidas passadas. Em uma das cenas mais fortes do filme, da fidelidade de Freddie a Lancaster, quando ele é preso por tomar dinheiro de uma contribuinte de Nova York, Phoenix literalmente quebra a cela da prisão e põe para fora uma raiva que, segundo Lancaster, atravessa séculos. Freddie grita, quase espumando pela boca: “Você mente, você inventa tudo isto, os teus filhos te odeiam” e Lancaster responde com uma pergunta: “Quem gosta de você, Freddie, quem? Somente eu. Só eu”. Em meio ao filme, a Causa aponta para uma ligação deles em vidas passadas.

Freddie também faz experimentos. Por ser bêbado inveterado, ele cria bebidas fortes, que usam desde thiner até antisséptico bucal. Um destes experimentos conquista Lancaster que fica mais criativo e pergunta o que ele põe na bebida: “Segredos!” é a resposta. Com uma atuação mais contida de Amy Adams como a esposa de Lancaster e uma trilha sonora primorosa que inclui "Dancers in Love", de Duke Ellington a “No Other Love”, de Jo Stafford e duas interpretações a capella de Philip Seymor Hoffman, o filme tem uma estética irretocável que investe no cromatismo dos anos 50, com destaque para os tons de amarelo em muitas cenas de Freddie.



O diretor e roteirista Paul Thomas Anderson com “O Mestre” mostra que sabe filmar os desajustados e os homens determinados e as decorrências de suas escolhas, as almas em busca de equilíbrio, senão vejamos três dos seus quatro grandes filmes anteriores a “O Mestre”. Excetuando Magnólia, criado à maneira de um filme-coral, em todos os outros “Boogie Nights”, “Embriagado de Amor” e “Sangue Negro”, são homens em busca de algum tipo de redenção, de um equilíbrio em suas almas, mesmo que à custa do sofrimento dos outros, como é o caso de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis).

 Um grande cineasta, um esteta, um maestro, um mestre em sintonia com as buscas da alma humana, as errâncias das almas equilibristas. Torçamos para que Joaquim Phoenix, Philip Seymor Hoffman e Amy Adams tragam para “O Mestre” pelo menos as três estatuetas Oscar na qual eles concorrem, pois este foi com certeza o filme mais injustiçado entre os indicados ao Oscar, muito mais do que “Intocáveis”, que não foi nominado a filme estrangeiro. Uma obra-prima não bem digerida pela academia hollywoodiana.