sexta-feira, agosto 24, 2012

O rock não tem idade neste musical

Alec Baldwin e Russel Brand administram o Bourbon Room no musical 'Rock of Ages'<br /><b>Crédito: </b> warner bros. pictures / divulgação cp
Alec Baldwin e Russel Brand administram o Bourbon Room no musical 'Rock of Ages'
Crédito: Warner Bros. Pictures / Divulgação
Estreia hoje nos cinemas "Rock of Ages: O Filme", um musical para provar que o rock não tem idade e que a chama dele está acesa, mesmo que o pop, o rap, o axé e o sertanejo universitário tenham invadido o mercado há muito tempo. Estrelado por Tom Cruise, Alec Baldwin, Russel Brand, Paul Giamatti e Catherine Zeta-Jones, essa adaptação para as telas do sucesso da Broadway, com direção de Adam Shankman, parte de um enredo linear e trivial (base de boa parte dos musicais) sobre a garota interiorana de Tulsa, Sherrie (Julianne Hough) e de um garoto de Los Angeles, Drew (Diego Boneta), que se conhecem no Sunset Strip, quando roubam a mala dela com discos de vinil de uma vida inteira.

Os dois buscam o sonho musical em Hollywood e nada melhor do que encontrá-lo no Bourbon Room, local onde trabalham como garçons, administrado por um cinquentão, Dennis Dupree (Alec Baldwin), que ainda crê no rock and roll em pleno ano de 1987, auxiliado pelo fiel escudeiro Lonny (Russel Brand). O Bourbon vai sediar o último show da banda Arsenal, liderada pelo mito do rock Stacee Jaxx (inspirado no problemático Axl Rose), que vai se lançar em carreira solo.

O clima de romance rock e de alcançar o sonho entre Sherrie e Drew ganha tons de êxtase e bater de pezinhos com os clássicos dos anos 80, interpretados pelo próprios atores/cantores, como "Rock of Ages", do Def Leppard; "Paradise City", Guns N'' Roses, "Wanter Dead or Alive", Bon Jovi; "I Love Rock and Roll", Joan Jett, e "I Wanna Rock", do Twisted Sister, além da clássica "Don''t Stop Believin'', do Journey.

Uma elegia ao rock. Imperdível.

Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo. 

sexta-feira, agosto 17, 2012

As voltas que os mundos podem dar


Os filmes coral, no qual diversos personagens aparecem e se conectam em algum ponto do filme são na maioria das vezes daqueles que nos motivam a ir ao cinema e pensar sobre o fato de uma palavra ou ação em um lugar poder desencadear uma tragédia em outra cidade ou país. Robert Altman ("Short Cuts"), Paul Thomas Anderson ("Magnólia") e "Alejandro Gonzáles Iñàrritu ("Babel") são destes exemplos bem-sucedidos. No terceiro grande passo da sua carreira hollywoodiana, Fernando Meirelles ("Ensaio Sobre a Cegueira" e "Jardineiro Fiel") resolveu encarar a estrutura coral e contar nove histórias que se entrelaçam, com personagens que se conectam ou se deslocam por cidades como Viena, Paris, Londres, Bratislava, Denver e Phoenix.

Foto: Paris Filmes / Divulgação

A estrutura de construção coletiva da história no roteiro de Peter Morgan ("A Rainha"), com cortes para pequenas histórias parte de duas irmãs eslovacas, uma que irá se prostituir e a outra que irá se apaixonar pelo guarda-costas de mafioso russo. A conexão com esta história será o primeiro cliente da prostituta eslovaca, Mirka, em Viena, que seria Michael Daly (Jude Law), mas uma chantagem de dois vendedores (Moritz Bleibtreu e Peter Morgan) para fechar um contrato acaba deslocando a história para a culpa de uma possível traição à esposa Rose (Rachel Weisz), editora de revista de moda. 

Em Londres, vira trama de dupla traição, pois Rose trai Michael com o fotógrafo Rui (o brasileiro Juliano Cazarré), descoberto pela namorada dele, Laura (a brasileira Maria Flor). Ao tentar retornar para o Brasil, Laura conhece no avião o pai alcóolatra (Anthony Hopkins) que busca a filha desaparecida. Após nevasca em Denver, Laura conhece um estuprador recém-colocado em liberdade (Ben Foster). São tantos os personagens e ações interconectadas desta "vida em trânsito", como definiu Morgan, que ficamos estarrecidos, buscando o sentido deste mundo globalizado, multicultural e ao mesmo tempo tão solitário.

(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)

segunda-feira, agosto 13, 2012

Intocável que nos toca




Nos milhares de filmes aos quais já assisti, sempre pode haver aqueles casos raros, não incomuns, de obras que tangenciem de alguma forma a realidade, mas que sejam construídas de um jeito que nos faça rir e chorar ao mesmo tempo, acreditar na vida e ter a consciência das nossas limitações e da finitude neste intervalo entre nascer e morrer que é a vida. Deixando os preâmbulos realistas ou niilistas, queria começar dizendo que Intocáveis, filme dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, que recebeu nove prêmios César, é outro destes filmes que nos arrebatam do começo ao fim. Os irmãos Weinstein, produtores garimpeiros de jóias raras tanto do cinema americano quanto do europeu ou asiático, chegam a apresentar cinco razões para se ver o filme, endereçado principalmente aos norte-americanos. Vale lembrar que esta tragicomédia está sendo até agora a maior bilheteria de um filme estrangeiro em 2012 nos Estados Unidos.

Desde que temos a sequencia inicial do filme, já é possível acompanhar o pensamento dos Weinstein o filme leva às lágrimas de alegria. O jovem negro, de origem senegalesa, morador dos arredores de Paris, Driss (Omar Sy), se inscreve para cuidar de um aristocrata francês tetraplégico, Philippe (François Cluzet), mas o seu único objetivo é conseguir uma nova assinatura de recusa para acionar novamente o seguro desemprego. A franqueza, o humor, o jeito truculento e principalmente a não necessidade de compaixão, de pena que Driss demonstram acabam cativando Philippe, que o contrata. Vale lembrar que o filme é baseado na história real contada pelo milionário Philippe Pozzo di Borgo, “O Segundo Suspiro. Os dois ainda vivem e tem uma forte relação de amizade.

A intensidade desta relação, os choques culturais evidentes e a gratidão que um irá sentir pelo outro por esta convivência passam a cativar o espectador. O bom humor de Driss contagia gradativamente as pessoas que cuidam de Philippe na mansão da família em Paris. Enquanto tenta entender um universo permeado por quadros de Salvador Dalí e Goya, por músicas de Vivaldi, Berlioz e Bach, Driss acaba cuidando de Philippe nos cuidados com o seu corpo, mas principalmente no destravar emocional. Enquanto tenta resolver pequenos conflitos na sua família no subúrbio, Driss também tenta mostrar ao novo amigo rico que as piadas sobre deficientes podem aliviar o ambiente, que o humor pode ser redentor e que um amor verdadeiro, palpável, pode ser tão bom quanto aquele rebuscado e epistolar com uma desconhecida.

A descoberta de como é viver sem movimentos do pescoço para baixo também causam um choque em Driss, que inicialmente se nega a limpar o novo patrão e amigo, mas que acaba sendo mais que um acompanhante e sim alguém que pode mostrar um mundo cheio de verdades, de movimento, de intensidade, proporcionar voos a Philippe, que perdeu os movimentos justamente por causa de um voo de parapente. Mesmo rindo de obras de arte contemporânea e ridicularizando o preço excessivo de alguns respingos numa tela ou criticando as quatro horas de uma ópera, após rir no início de uma ária, Driss é perspicaz e quer aprender a pintar, quer dar os seus respingos na vida e na arte.

Um filme realmente tocante, que nos dá uma alegria imensa, com a paradoxalidade de uma relação de duas pessoas tão distantes, mas que também nos faz chorar bastante pelos pequenos e grandes dramas do jovem pobre e do tetraplégico rico, aprender que enquanto houver vida, há esperança. Este filme é esperançoso, é intocável no seu toque sutil no subjetivo de cada um. Um dos melhores filmes franceses dos últimos cinco anos. Corram aos cinemas quando estrear. Não percam.



Nas curvas da estrada da vida


Uma frase no para-choque traseiro de um caminhão serve para ilustrar o quão dramática pode ser a vida dos personagens de “À Beira do Caminho”, filme dirigido por Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”), inspirado em temas de músicas do rei Roberto Carlos. A frase é: “Espere pelo melhor, prepare-se para o pior, aceite o que vier”. Silveira é um confesso cineasta do emocional, de conduzir o público ao drama, ao difícil enredar dos laços afetivos. 

Nesse filme, em que o argumento de Lea Penteado é todo costurado com músicas de Roberto Carlos, o silêncio e a emoção são os primeiros a aflorar, apesar da dureza apresentada no paradoxo do personagem principal, o caminhoneiro João (o sempre excelente João Miguel), que tem um drama pessoal. Ele sente-se culpado por um acidente que mudou o rumo de sua vida e, ao mesmo tempo, a torna amarga e sem laços afetivos, vendo na perspectiva solitária da estrada a sua fuga perfeita. João deixa para trás sua família, sua cidade, sua história. O silêncio é quebrado pelo som de um único CD com canções de Roberto Carlos, que chamuscam lapsos de suas lembranças.



A virada da história é quando João depara com um caroneiro, o menino Duda (Vinicius Nascimento), determinado a encontrar o pai, pois a mãe morreu, mas que acaba ajudando João a se confrontar com o passado. Duda acredita, enquanto João é a imagem da desesperança. O contato com o menino faz João amolecer o coração e se reencontrar com pessoas do passado, como a ex-namorada Rosa (Dira Paes). João decide ajudar o seu novo amigo a encontrar o pai (Angelo Antonio), que está em São Paulo, para onde ele deve levar um carregamento de melões.

O primor da trilha com músicas de Roberto Carlos — como “A Distância”, que inicia o filme, e “O Portão”, quando ele está voltando para a casa da mãe (Denise Weinberg), onde perdeu Helena (Ludmila Rosa) e deixou uma filha —, concatenada com a fotografia das longas estradas do Nordeste e Sudeste brasileiros, na qual o caminhão, o poente e o silêncio dialogam, compõem a dose exata a preparar o espectador para a emoção vindoura. Méritos mil ao roteiro redondo de Patrícia Andrade, à trilha de Berna Ceppas e à fotografia de Lula Carvalho. 

(Texto publicado originalmente no jornal Correio do Povo)

Tudo sobre minha mãe à italiana


A relação edipiana do professor de Literatura em Milão Bruno Michelucci (Valerio Mastrandea) com a belíssima mãe Anna (Micaela Ramazotti), a partir da música “La Prima Cosa Bella”, que a mãe cantava para ele e a irmã Valeria (Claudia Pandolfi) quando crianças, é o mote deste drama, com roteiro e direção do italiano Paolo Virzi, em cartaz na Capital. As reminiscências de Bruno sobre os anos 70, dourados e sofridos, partem da vida atual depressiva, longe da família e do passado, mas a doença terminal da mãe (Stefania Sandrelli) faz com que se choque com o passado pela visita da irmã Valeria à sua universidade, pedindo que ele visite a mãe.

A produção de 2010, escolhida para representar a Itália no Oscar 2011, se inicia quando Bruno (Giacomo Bibbiani), ainda criança, em 1971, presencia a vitória da mãe no concurso Miss Mamma, no verão, em uma praia da pequena Livorno. Com a popularidade, a mãe passou a receber mais assédio e a despertar os ciúmes do marido, Mario (Sergio Abelli). Ela é colocada para fora de casa por Mario e, para sustentar os filhos, acaba virando amante dos seus chefes.

Apesar da doença terminal de Anna, Bruno ainda tem tempo de conviver com a mãe, sentir esta perda iminente e resolver a fixação pela mãe. Antes de morrer, Anna quer casar-se com o zelador do prédio, que guarda acervo de fotos de Anna e dos filhos. Nos avanços e recuos do tempo, alguns segredos e a relação materno-filial intensa descrita por Bruno: “Do amor de uma mãe como a nossa, feliz ou infelizmente, não há escapatória”. Tudo ganha corpo com a trilha composta por músicas ao melhor estilo festival de San Remo, como a faixa-título com Nicola Di Bari; “L’Eternitá” e até “Born to be Alive”, de Patrick Hernandez. 

(Texto publicado originalmente no Correio do Povo)

quarta-feira, julho 25, 2012

Como Nascem os Heróis

Um herói está para o nosso mundo ocidental como um bonsai ou uma raiz de ginseng está para a cultura oriental. É raro de se ver, é imprescindível e nos dá esperança de que algo seja válido nesta existência. Os heróis nascem do nosso desejo de acreditar que eles são falíveis, tem defeitos, porém no final sempre irão prevalecer. Quanto ao nascimento de Batman, podemos falar do nascimento histórico, aquele cujas informações nos chegam mentalmente, que foi criado por Bob Kane nos final dos anos 30 e que depois teve histórias desenvolvidas por outros roteiristas e desenhistas como Frank Miller criador do Cavaleiro das Trevas, mas o nascimento do herói Batman se dá no subjetivo na emoção que ele me causou na primeira vez com a qual me deparei com ele na série dos anos 60, ao qual assistia nos anos 70, protagonizada por Adam West. Lá estava incubado o herói que nascia em Batman e tudo o que viria depois faria com que o Batman fosse crescendo cada vez mais como o herói necessário no imaginário dos jovens da minha idade, hoje entre os 40 e 50 anos. O herói nascia no seu público.

Toda esta introdução é necessária para dar a noção de como um herói preenche um imaginário, o inconsciente e o subjetivo das nossas vidas. Ao final da cabine de imprensa de "Batman - o Cavaleiro das Trevas Ressurge", respondi uma perguntas algumas vezes e não me cansei de responder afirmativamente. "Tu chorou?". Sim, é claro, pois os heróis verdadeiros nos emocionam e o Batman, o Cavaleiro das Trevas, concebido na cineversão em  trilogia de Christopher Nolan me seduz desde os acordes atordoantes e estrondosos concebidos por Hans Zimmer, o imenso repertório dramático de um elenco composto por veteranos como Michael Caine, Morgan Freeman, sem contar o protagonista Christian Bale, com sua armadura, seus veículos possantes e indestrutíveis, o vilão, a própria encarnação do mal pelo excelente Tom Hardy e o elenco feminino encabeçado pela "gata" Anne Hathaway e a não menos sedutora Marion Cotillard. O filme é ação, mas é também drama e engenhosidade.

Desta vez, Batman está fora de ação há oito anos, desde que Harvey Dent (o Duas Caras) morreu como herói e ele teve que ser o culpado. Bruce Wayne (Christian Bale) também está recluso, decadente, manco de uma perna, amargando a perda do seu grande amor e vendo a sua Wayne Enterprises ir de mal a pior. O comissário Gordon (Gary Oldman) não tem coragem de dizer a verdade aos cidadãos de Gotham City e a polícia da cidade o quer somente como o policial herói, mas não na ativa, pois os tempos agora são de paz graças a Lei Dent, que tirou os criminosos das ruas e lota os presídios. Nas palavras de Gordon ao final de "Batman - o Cavaleiro das Trevas": Batman é o herói que Gotham merece, mas não aquele de que ela precisa no momento". Neste filme, Batman é o herói que todos precisam. "Ele deve existir", diz Gordon.

Novos personagens surgem e dão a dinâmica necessária aos terríveis acontecimentos que estão para estourar em Gotham. Selina Kyle (Anne Hathaway) rouba colares e bate carteiras, além de ser ágil e boa nos golpes com as elásticas pernas. A Mulher Gato acaba agindo para quem pague mais. E um dos vilões da história, o sócio de Bruce, Dagget (Ben Mendelsohn), acaba precisando de um favor da sedutora ladra. O mal em pessoa, Bane (Tom Hardy), um homem treinado pelo próprio Ra´s Al Ghul (Ralph Fiennes) está vindo. Uma tempestade se abaterá sobre toda a Gotham, conforme anuncia a própria Selina Kyle. "Quando a tempestade se aproximar, vocês vão se perguntar como puderam viver com toda esta opulência". As trevas irão dominar e o mal prevalecerá em Gotham?

Batman vai se mostrar fraco e também irá ressurgir, como todo o herói que se preze. O filme é um prato cheio para quem gosta de drama, quando Alfred (Michael Caine) diz que não quer enterrar mais um Wayne e decide se afastar de Bruce, quando ele pretende voltar à ativa ("Você é a coisa mais preciosa para mim") ou  quando a figura dos órfãos representada pelo policial Blake (Joseph Gordon Hewitt) emerge, fazendo surgir um novo personagem, um policial destemido que irá ajudar Gordon e Batman a salvar Gotham quando a cidade fica sitiada e o terror se instala. Lucius Fox (Morgan Freeman) vai reativar o arsenal de ação de Batman. Miranda Tate (Marion Cotillard) vai seduzi-lo e tentar com que ele siga com o projeto Ficha Limpa, de energia sustentável pela Fundação Wayne. As verdades virão à tona neste clima de terror para 12 milhões de pessoas. 

O filme respeita as tramas e as histórias oriundas dos quadrinhos e dá um acabamento perfeito para a trilogia, trazendo de volta alguns personagens de Batman Begins e de Batman - o Cavaleiro das Trevas, como o Espantalho, agora um juiz a favor do mal. Apesar de ser a conclusão desta épica trilogia sobre o Cavaleiros das Trevas, iniciada com "Batman Begins" e sequenciada com maestria com "Batman - o Cavaleiro das Trevas", o filme de Christopher Nolan que assina o roteiro junto com o irmão Jonathan, a partir de enredo dele e de David S. Goyer, é o menos sombrio deles, pois tem mais cenas diurnas do que noturnas, mas também não deixa de ser o mais desconcertante deles. Poderia discorrer horas sobre o filme, mas dá para elencar uma série de cenas, uma delas é da boa briga de socos, como nos velhos tempos, entre Batman e Bane, enquanto policiais e vilões se enfrentam, e o discurso sobre a importância do medo da morte para mover o homem, no caso o herói, até o seu objetivo que é salvar a sua cidade. Wayne/Batman ainda não deu tudo para a sua cidade e neste confronto com Bane e os demais vilões, a trilogia se encerra com chave de ouro.

Palmas para Nolan, para a Warner, para Hans Zimmer, para os roteiristas, para os atores (especialmente para o excepcional Coringa de Heath Ledger do segundo filme) e principalmente para aqueles que deixaram nascer dentro deles os heróis tão necessários num mundo tão niilista, onde um lunático com armas pode entrar dentro de um cinema e matar a sangue frio e deixar dezenas de feridos. Que nasçam mais heróis como Batman. Que nasçam mais cineastas como Christopher Nolan. Que o cinema vença sempre e continue emocionando a todos.

      

sábado, junho 30, 2012

Inocente simulacro de guerra



 Surpresas agradáveis. Este ano de 2012 está se revelando pródigo nestes filmes para os quais vamos sem muitas pretensões e acabamos embarcando nas suas histórias e saímos da sala de cinema leves e agradecidos. A Guerra dos Botões é um destes filmes. Adaptação do romance homônimo escrito pelo francês Louis Pergaud, em 1912, já teve outras três adaptações, a mais famosa delas foi em 1962, dirigida pelo francês Yves Robert e a mais recente uma produção irlandesa de 1994, guiada por John Roberts. Dirigido por Yann Samuel (Amor ou Consequência), esta produção francesa trata do que podemos chamar um simulacro de guerra, isto é, as pequenas guerras entre duas aldeias vizinhas do sul da França e principalmente dos grupos de crianças que levam o nome das aldeias, os Longevernes, liderados por Lebrac (Vincent Bres), e os Velrans, comandados por Azteca (Theo Bertrand).



 Os simulacros, conforme o conceito de Jean Baudrillard, podem ser simulações, experiências ou códigos que podem ser mais reais do que a realidade, hiper-reais. No filme, a guerra entre os Velrans e os Longevernes parece mais real do que a real que é a guerra civil em Argel no início dos anos 60, na qual os soldados franceses perdem suas vidas, representados en passant no filme por Tintim, irmão de Lanterna (Salomé Lemire), a menina que se veste de menino e que é boa nas lutas e no estilingue. As batalhas entre as pequenas gangues, como chamamos hoje, começam com uma fruta atirado de um estilingue, espadas de madeira, armadilhas e a punição aos derrotados ou capturados pelos inimigos é tirar todos os botões das camisas, o que fará com que eles apanhem dos pais.


 A narrativa se ancora dentro do ponto de vista e da essencialidade de Lebrac para a história, pois ele é o incontestável líder dos Longevernes, mas ainda carrega consigo a responsabilidade de trabalhar para o sustento da casa e a aprovação da mãe (Mathilde Seigner), que conta com ele, já que o pai desapareceu. Ele também é ídolo das duas irmãs caçulas. Na escola, a guerra é interior, pois o garoto é inteligente, mas usa toda a sua astúcia para maquinar novos confrontos com o bando da aldeia rival. Enquanto isso, aprende quem foi Louis Pasteur, citações de grandes pensadores e os conceitos de liberdade e independência com o professor Merlin. Ele nutre o sonho de um dia ser o ministro das Crianças e tem uma paixão por Lanterna, que é recíproca.


  Os momentos engraçados do filme são puxados pelo elenco adulto, pois os professores Merlin (Eric Elmosino), de Longevernes, e Labru (Alain Chabat), de Velran, quando se encontram acabam se ofendendo e rolando pelo chão, protagonizando brigas muito mais toscas do que os meninos. Num clima realmente de guerra, onde ninguém morre, mas se conquista território, e temos códigos e até uma bandeira feita de retalhos de vestido, eles terão que superar os seus dramas pessoais, lutar por uma vida melhor, fazer escolhas como Lebrac, que pode tentar uma bolsa numa escola melhor, mas precisa deixar a mãe sozinha com suas duas irmãs. No quesito estudo, Merlin é uma espécie de professor John Keating (Robin Willians) de Sociedade dos Poetas Mortos, que tenta estimular os alunos a serem mais do que a aldeia no passado já foi líder dos Longevernes. A atuação de Fred Testot como o padre Simon, seja projetando filmes na igreja e obstruindo a lente quando há um beijo na tela ou apitando jogos de futebol e roubando a favor dos Longevernes também assegura muitas risadas da plateia, bem como a senha que deve ser repetida pelos integrantes do grupo, que é sempre as três primeiras letras de uma especialidade ou coisa que o líder gostava ou gosta, ficando quilométrica quando repetida.



Com pequenas vitórias como apontar um traidor no bando adversário ou descobrir que os inimigos cometeram erros de ortografia em pichações ou falar palavras das quais o outro não sabe o que é, como Culhão Murcho ou Coça Saco, o filme é todo bem tramado aproveitando atos inocentes, porém marcantes, das crianças.  A guerra inocente travada pelos grupos das duas aldeias dá ao filme o caráter surpreendente e lembra grandes filmes com protagonismo de crianças, como “Conta Comigo”, “Adeus, Meninos" e até o mais recente francês “O Pequeno Nicolau”. Outra surpresa agradável que vem da França, país com uma produção competente, que não nega a herança de nomes como Abel Gance, George Méliès, Robert Bresson, François Truffaut e Jean-Luc Godard.


A Guerra dos Botões (La Guerre des Boutons)

Direção: Yann Samuell
Roteiro: Yann Samuell, adaptação do livro homônimo de Louis Pergaud
Elenco: Eric Elmosnino, Mathilde Seigner, Alain Chabat, Fred Testot, Vincent Bres, Salomé Lemire, Théo Bertrand e Tristan Vichard.
Duração: 1h49 min
País: França
Ano: 2011
Distribuição: Imovision




Crédito de foto: Imovision / Divulgação

domingo, junho 24, 2012

Cineasta infinito na Cidade Eterna



Antes de começar a discorrer sobre o deleite que foi assistir ao mais recente filme escrito e dirigido por Woody Allen, Para Roma com Amor, quero deixar bem claro que não é possível se estabelecer comparações com o filme anterior, Meia-Noite em Paris. Até porque acho impossível traçar comparativos entre Roma e Paris, que são duas cidades estarrecedoramente belas e apaixonantes, cada uma à sua maneira. Feita essa primeira consideração, vou me ater naquilo que Woody Allen fez aos nos remeter à visão do cineasta sobre Roma, quando pretende contar quatro histórias sobre romanos, italianos do interior que vão a Roma e
americanos na Cidade Eterna. Neste filme, Woody Allen foca nas questões de Roma e a comédia em torno do seu caos, da sua história, dos seus cidadãos.

São quatro histórias abordadas na tentativa de fazer a sua visão do Decameron, texto de Giovanni Bocaccio de 1350, as questões ligadas à sexualidade e à traição nos tempos romanos atuais. Já na introdução, este caos, esta desordem em meio à beleza milenar, aparece na condução do início da história por um guarda de trânsito que apresenta as histórias que serão contadas. Ele está ali junto ao Arco de Tito para organizar o trânsito e quando há um acidente, ele simplesmente grita um palavrão e a confusão está feita. Assim, os personagens vão aparecendo um a um com as suas respectivas histórias. A primeira é a de americana Hailey (Alisson Pill) que carrega um mapa e pede informações a Michelangelo sobre a Fontana Di Trevi. Ele se oferece para acompanhá-la e logo os dois já estão aos beijos, aproveitando o romantismo que é quase um clichê da Cidade Eterna.





O humor inteligente de Allen se oferece para o filme quando o próprio diretor - apelidado por mim aqui de cineasta infinito por ter inteligência, sacadas e humor inesgotáveis, apesar de parecer repetir sempre a mesma neurótica piada - entra em cena com o seu personagem, o diretor de óperas aposentado Jerry, que ouve uma mensagem sobre turbulência no avião da Alitalia que está chegando em Roma e demonstra todo o seu medo de avião (situação já descrita por Luis Fernando Verissimo na crônica "Emergência").





Roma e as histórias que capturam a alma da cidade e do seu povo aparecem com uma crítica a sociedade do espetáculo, apontada por Guy Debord, quando o personagem com uma vida ordinária, Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni) vira famoso da noite para o dia. Sátira à imbecilidade e à fugacidade da fama fácil no mundo televisivo, o personagem de Benigni no começo se incomoda com o fato de os jornalistas lhe pedirem sua opinião sobre tudo e para dizer se gosta de dormir de frente ou de bruços ou o que comeu no café da manhã? Allen acertou e errou na escolha do ator, porque Benigni é um dos caras mais engraçados da Itália e ao mesmo tempo é considerado muito sem graça pelo público e crítica brasileiro por seus erros em filmes como Johnny Stechino e acertos em obras como O Pequeno Diabo e A Vida é Bela, este um pouco mais odiado pelos brasileiros por causa da vitória na disputa com Central do Brasil pelo Oscar de Filme Estrangeiro em 1999.




Bom, mas o filme segue e acompanha um casal que chega do interior, de Pernodone, na sempre cheia Stazione Termini, Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) que vão tentar a vida em Roma. Neste núcleo, Woody Allen observa muito bem outra característica comum aos italianos, que é a confusão ao dar informações. Milly simplesmente se perde pelas dobradas destra e sinistra e pontos de referência não-turísticos, enquanto Antonio recebe a visita de uma prostituta com "tutto pago", Anna (a sempre desconcertante Penélope Cruz, parceira de Allen em Vicky Cristina Barcelona). Esta história rende piadas um pouco previsíveis, mas o estilo comédia de erros ligada à traição acaba convencendo.





Representando a linha do fantástico e sensual, está a história do casal formado pelo estudante de arquitetura Jack (Jesse Eisenberg) e Sally (Greta Gerwig). Contando a onipresença do arquiteto John Foy (Alec Baldwin), Jack terá que resistir aos encantos da sedutora atriz Monica (Ellen Page), reeditando a parceria que deu certo em Juno com Eisenberg. O fantástico da história é que Foy saca que Monica quer seduzir Jack e desvenda os segredos de sedução da moça. Caem as máscaras, mas é impossível resistir aos encantos de Monica ("o nome exala sensualidade", comenta John Foy). Vários cenários engrandecem este romance, pois começa no bairro boêmio do Trastevere e segue por visitas ao Coliseu, o Fórum e as Termas de Caracala numa noite chuvosa (a mesma chuva que emociona em "Meia-Noite em Paris").





Por fim é importante comentar de quanto há de eterno na graça e ironias de Woody Allen quando faz piadas com o dinheiro, como quando está tentando convencer o pai de Michelangelo, Giancarlo (Fabio Armiliato) a ser cantor de ópera, pois ele tem um bom desempenho no chuveiro. Ele queria montar "Pagliacci", a ópera de Ruggero Leoncavallo, com Giancarlo, um cantor de chuveiro, que não aceita de modo nenhum o convite, com a família dizendo que ele canta por prazer não por dinheiro. Jerry, o personagem de Allen, responde: "dinheiro dá prazer, quando a gente acaricia as cédulas, elas são verdes, macias e onduladas". Importante ressaltar o timing cômico de Judy Davis que vive Phillys, a esposa psiquiatra de Jerry, que faz uma análise psicológica maravilhosa do fato de a aposentadoria de Jerry estar ligada à morte e ele querer que o agente funerário cante dentro de uma caixa (só não conto mais para não estragar a surpresa).





O filme é agradável, com aquele humor inteligente de Woody Allen que reedita em parte aquelas comédias de costumes e de erros de Allen nos anos 70 e 80, que tem algumas piadas sem graça e imperfeições, mas nada que prejudique o conjunto. A destacar também a trilha que privilegia a música "Nel blu dipinto di blu (Volare)", executada por Domenico Modugno e San Remo Orchestra na Piazza Di Spagna, além de trechos de óperas de Leoncavallo, Verdi e Puccini (como a clássica Nessun Dorma, de Turandot); e também a inclusão no elenco de expressivos atores italianos como a diva dos anos 70 e 80, Ornela Mutti (de Flash Gordon e Crônica de um Amor Louco), como uma atriz famosa, Pia Fusari, além de Francesco de Vito (o Pedro, de A Paixão de Cristo), Donatella Finnochiaro e Ricardo Scarmaccio, ambos de As Idades do Amor e Luca Calvani, de Quando em Roma.



Créditos: Paris Filmes / Divulgação



terça-feira, junho 19, 2012

Acompanhando em Nova York


Uma das coisas que mais gosto em Hollywood é quando um ator consegue manter-se em alto nível de atuação e não cede aos apelos de filmes de ação ou campeões de bilheteria para manter alguma de suas mansões na Califórnia. O caso de Kevin Kline é este. O ator mostra toda a sua boa forma ao viver o excêntrico H.H. (Êitch, Êitch), Henry Harrison, um dramaturgo bon vivant que acaba virando o mentor do jovem professor de literatura Louis Ives (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) , que vive à maneira do início do século XX, lendo O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald e contente por ter a sua vida conduzida por um narrador imaginário, apesar de ser solitário e sem jeito com as mulheres. O filme em questão é Os Acompanhantes (Extra Man).




Por um incidente na escola em que leciona, Louis é obrigado a se mudar para Nova York e lá é sabatinado por Henry pelo aluguel de um quarto. "Como você é o único dos candidatos que falava inglês, o quarto é seu", afirma HH. O dramaturgo que se mostra excêntrico demais, mas acaba conduzindo o jovem para lugares e ambientes que só a Big Apple pode proporcionar, principalmente mansões e mostras de arte. Com uma cultura erudita, Henry é um acompanhante de mulheres ricas. Assim, Louis se empolga com esta nova vida e também com o seu novo trabalho, no marketing de uma revista ambiental chamada Terra, onde conhece a sua colega vegana e ativista política Mary Powell (Katie Holmes). 






Crédito da foto: Vinny Filmes / Divulgação 

Louis está em busca de algo, ser um escritor, se vestir de mulher, enquanto Harrison, com uma atuação ao nível das melhores de Kline, leia-se "Será que Ele é" e "De Lovely", tem "um estranho poder sobre as pessoas", na definição do próprio Louis. Virar um acompanhante e conviver com Harrison, que mascara a sua decadência e tem ciúmes e interesses nas viúvas ricas as quais acompanha, como Vivian Cudlip (Marian Seldes), passa a ser a nova vida de Louis, que ainda tenta conquistar Mary com convites para almoço, ele adora carne e ela é vegana. "Queria tanto ser vegano, mas adoro queijo", diz ele.

Como toda a boa comédia, esta dirigida a quatro mãos por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, a partir de livro de Jonathan Ames, precisaria de coadjuvantes de luxo, atores que inundam a tela com aparições curtas, mas intensas. Este é o caso de John C. Reilly que vive Gershon, um vizinho de HH, que realiza consertos na casa do dramaturgo, não fala mais com ele e aparece no apartamento de surpresa.  Gershon esconde um segredo, usa uma barba longa e anda de bicicleta.

O riso é garantido quando Kevin Kline põe toda a sua organicidade para dançar em casa e às vezes cair duro com dores no ciático ou para pintar falsas meias ou ainda para esfregar uma cachorrinha Yorkshire pelo corpo e passar as suas pulgas para ela. Uma comédia inteligente, perspicaz, com atores versáteis e orgânicos e que acompanha a vida de personagens interessantes que só Nova York poderia produzir.



Ficha técnica:
Filme: Os Acompanhantes
(The Extra Man)
Elenco: Kevin Kline, Paul Dano, John C. Reilly, Marian Seldes, Celia Weston, Patti D'Arbanville, Dan Hedaya, Jason Butler Harner, Alex Burns, Katie Holmes.
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Gênero: Comédia
Duração: 108 min.
Distribuidora: Vinny Filmes

segunda-feira, maio 28, 2012

Presente ao Passado


A sensibilidade é uma característica essencial presente nos filmes. A despeito da crescente digitalização, a exposição dos filmes fotográficos ou cinematográficos à maior ou menor luz é caracterizada pela sensibilidade da película. Assim como o tema da sensibilidade da película neste mundo digitalizado, o passado está sempre pedindo para ser lembrado no presente. Esta pode ser matéria da memória ou da história, até do inconsciente, mas é importante revisitar os fatos da história, principalmente os traumáticos.

O cineasta alemão Robert Thalheim resolveu usar a sensibilidade fílmica e de realizador para colocar nas telas uma das possíveis abordagens sobre o massacre de 1,5 milhão de judeus nos três campos de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia. Em À Espera de Turistas (Am Ende Kommen Touristen) A abordagem do diretor é do ponto de vista do presente. Um jovem alemão, Sven (Alexander Fehling, de Bastardos Inglórios) resolve prestar serviço comunitário no Albergue da Juventude local em vez do serviço militar. Ele vai cumprir todo o tipo de serviço, ajudar nas atividades pedagógicas, ser guia, mas uma das suas funções será cuidar, atender, ser o motorista de um dos sobreviventes do massacre, o Stanislaw Krzeminski (Ryszard Ronczewski).

Nesta relação entre Sven e Krzeminski está o segredo do argumento de Thalheim. No início, Sven conduz o judeu polonês para testemunhos sobre o campo de concentração e não se envolve com nada. Ele ainda não entende o que se passa neste local onde tantas coisas terríveis aconteceram. É apenas um jovem prestando serviço comunitário. Com o passar do tempo, as impertinências de Krzeminski passam a incomodá-lo. No carro, o dobrar à esquerda ou direita, o acendedor de cigarros ou a fita cassete com músicas de Schubert, alemão e não polonês como Chopin, são as exigências do velho sobrevivente.

Mas Sven passa a se envolver, tanto com Krzeminski quanto com Ania (Barbara Wysocka) , uma jovem guia local que lhe aluga um quarto. Ela nunca saiu de lá, mas tem a chance de uma bolsa de estudos na Bélgica. Em alguns pontos, o confronto entre o presente e do passado é maior. O primeiro grande embate quando a empresa química alemã, maior empregadora local, chama o judeu para dar o seu testemunho a estagiários. A diretora da empresa não assiste ao depoimento e diz ao polonês que todos são muito gratos pela presença. Mais tarde, ela explica a Sven, que é difícil para a geração dela se confrontar com o passado, após interromper um discurso de Herr Krzeminski.

O ancião não quer sair de lá, mesmo que a família tente o convencer a deixar o traumático local. Ele tem uma fixação em consertar malas. As malas são um dos principais símbolos dos judeus mortos no local, são os objetos que mais impressionam os estudantes que visitam o Museu do Holocausto. Neste confronto do presente e do passado, com a sensibilidade de não julgar, de não vilanizar e de tentar resolver um pouco a traumática equação que ainda atormenta alemães, poloneses e o resto do mundo, mais de 60 anos depois, é que esta produção de 2007 que tem estreia nos cinemas gaúchos nesta semana (no Instituto NT) tem todos os méritos possíveis, talvez  
por isso tenha sido selecionada para a mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes e o ator Alexander Fehling tenha ganho o prêmio de Melhor Ator no Festival de Munique. Sendo assim, considerem o filme uma espécie de presente do tempo presente ao passado.


 “À ESPERA DE TURISTAS”

Am Ende Kommen Touristen, Alemanha, 2007, 85 minutos

DIREÇÃO: Robert Thalheim

GÊNERO: Drama

ELENCO: Alexander Fehling, Ryszard Ronczewski, Barbara Wysocka, Piotr Rogucki, Rainer Sellien, Lena Stolze, Lutz Blochberger, Willy Rachow


domingo, março 11, 2012

Sexo: tocata e fuga


O surpreendente filme “Shame”, do diretor inglês Steve McQueen (“Hunger”) consegue nos transmitir toda a densidade da compulsão sexual como válvula de escape de um problema de consciência insolúvel. Dei o título de tocata e fuga a este filme não por acaso, pois uma das primeira s e mais marcantes músicas do filme é “Prelude & Fugue”, de Johann Sebastian Bach, executada por Glenn Gould. O filme flerta com o estado de arte para nos contar, por vezes de maneira crua, quase pornografia extrema, o drama deste homem David (Michael Fassbender) e de sua compulsão.

 
A trilha sonora, aliás, deixa de ser coadjuvante na história, para marcar o peso e a suavidade de alguns momentos. A assinatura é de Harry Escott (de Menina Má.Com e tem como um dos seus pontos altos a interpretação lânguida de Carey Mulligan no papel de Sissy, a irmã cantora e desajustada de David, para “New York, New York” num clube de jazz nova-iorquino. A trilha tem ainda as clássicas "My Favorite Things", de John Coltrane, e "Let´s Get Lost", de Chet Baker.


Desde o início sabemos que David, apesar de bem-sucedido na sua carreira profissional, não se adapta a uma vida considerada normal, com relacionamentos estáveis. O sexo para ele é a tocata e fuga. O computador do trabalho está com vírus após tanta pornografia, seu notebook está aberto com webcams e prostitutas entram e saem de sua casa, como alguém da família. O que não sabemos é os porquês da sua vida chegar até esse ponto, já que ele é um cara boa pinta, consegue a mulher que quer na hora que escolher.


Todo o acesso dele à pornografia é tratado por McQueen com doses de ultrarrealismo. A câmera é fixa, as pessoas passam na frente dela, as imagens de Nova York são obras de arte, o tom é soturno, pesado e ao mesmo tempo lírico. A virada do personagem é quando a irmã Sissy chega a sua casa. Ela vai ficar uns dias e eles tem uma relação forte, que parece ser mais do que a fraterna, mas não está explícita. Ela já tentou cometer o suicídio várias vezes. As consciências deles são dois contêineres. Carregam o peso dos seus mundos.


David se descontrola, tenta estabelecer uma relação duradoura, varrer a pornografia, o lado sexaholic para baixo do tapete, mas não consegue. A irmã o perturba. Na primeira noite em NY, Sissy canta “New York, New York” e emociona David, mas ela transa com o chefe dele. Descontrolado, David corre pelas ruas da Big Apple no meio da madrugada, em uma das belas cenas do filme, quando a cidade mais cosmopolita do mundo é acompanhada por uma câmera que segue o atleta madrugador.



David desce ao submundo. Sissy sente que está fazendo mal ao irmão e se deprime. O filme acompanha os desajustes e a relação conturbada, possivelmente incestuosa (a resposta está no filme) entre os dois. O filme não dá resposta, cria jogos e se torna numa das surpresas agradáveis do cinema em 2012, pela sensibilidade estética a uma Nova York que encanta e oprime e um tratamento realista a um tema que tanto aflige nos dias de hoje, de internet, a compulsão sexual e também a relação de tensão sexual entre irmãos. “Shame”. Guardem este nome e compareçam ao cinema com a mente aberta, sem malícia, sem tietagem com Fassbender ou Carey Mulligan.


Crédito da foto: Paris Filmes / Divulgação

sábado, fevereiro 11, 2012

Dama de Ferro, filme de bronze

Uma das melhores atrizes em atividade no cinema mundial interpretando uma das personagens mais ricas e controversas da política internacional, isto é, Meryl Streep vivendo Margaret Thatcher no cinema. Certeza de um grande filme, não é mesmo? Não mesmo. O que temos na obra dirigida por Phillida Lloyd, A Dama de Ferro, é uma grande personagem vivida por uma excelente atriz, com infinitos recursos cênicos, mas o filme passa longe de ser grande. A narrativa adota um esquema burocrático e com aqueles flashbacks que truncam a narrativa, procedimento que Clint Eastwood já tinha adotado em J. Edgar sobre o poderoso líder e fundador do FBI, J. Edgar Hoover. Naquele filme também o que empolga é a brilhante atuação de Leonardo DiCaprio, mas a trama não decola.



Mas vamos ao filme. A diretora situa Margaret Thatcher já nos anos 2000 apresentando sinais de demência e vigiada para não sair de casa sozinha. A primeira cena mostra uma senhora idosa na fila de um pequeno mercado, contando as moedas para comprar a leite. Esta senhora que caminha por dificuldade pelas ruas de Londres foi a primeira mulher a se tornar primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, ganhando o apelido de dama de ferro por ter um estilo firme, agressivo e por vezes cruel no exercício do mandato.

O plot de Phyllida Lloyd, a partir do roteiro de Abi Morgan, é a tentativa de desligamento do marido Denis (o sempre eficiente Jim Broadbent), morto recentemente. A simbologia do luto está ligada ao fato de ela tentar se desfazer das suas roupas e sapatos. Os sintomas da demência estão associados ao fato de que Margaret ainda conversa com Denis, que sempre aparece alegre para ela, e repete frases que disse em vida para ela “ser firme” e não se intimidar com os homens.

Nas conversas imaginárias com Denis, o seu passado aparece desde o tempo em que assistia aos comícios de seu pai, prefeito na pequena Grantham, até o momento em que vai para Oxford e se candidata ao Parlamento pelo Partido Conservador. Em alguns momentos, a diretora assume a porção feminista do filme, pois Maggie Thatcher precisa enfrentar a zombaria dos homens, como na cena em que ela debate pela primeira vez no Parlamento inglês.    

O viés político de Thatcher aparece bem pouco, ou menos do que deveria. Os grandes momentos são a guerra das Malvinas e também as políticas de austeridade, com cortes nos gastos públicos, medida bastante impopular nos anos 80.  A diretora Phillida Lloyd já tinha dito em entrevista que evitou um posicionamento político, mas seria impossível fazer um filme como “Pollock” sem exaltar a obra de Jackson Pollock no nascituro da Action Painting, apesar de o filme de 2000 com direção e atuação de Ed Harris também ter desperdiçado muita tinta ao tentar abordar a carreira de Pollock 


Mas Meryl Streep é o que faz a roda girar. Com uma maquiagem mais regular e eficiente (assinada por Mark Coulier, indicado ao Oscar), ao contrário de J. Edgar, de Eastwood, que inclui um envelhecimento perfeito e o capricho no laquê do famoso penteado e uma prótese dentária, que auxilia no acento britânico perfeito e na impostação similar a voz da Thatcher real, Streep tem todas as credenciais para receber o seu terceiro Oscar, numa disputa acirrada que terá com Viola Davis, de Histórias Cruzadas, pela estatueta. Streep faz a Dama de Ferro virar realidade para os mortais não-ingleses, que conviveram pouco com a emblemática figura, mas o filme derrapa neste imbróglio narrativo com flash backs truncados e com pouca alma lírica e a resolução do filme (não posso contar por aqui) deixa a desejar, trabalhando demais no plano íntimo e  pouco no plano público, apesar de expor de forma apenas rasa o que a perda de poder faz com uma pessoa.

Filme mediano para a grandeza da personagem histórica.

Crédito: Paris Filmes / Divulgação 




sábado, fevereiro 04, 2012

As lições do silêncio

Enfim, o cinema se voltou para a sua própria história, para a sua base, para os primeiros pilares da sua construção audiovisual. Não é à toa que “O Artista” tem dez indicações ao Oscar, recebeu três Globos de Ouro, incluindo filme e diretor, foi o melhor filme do Critics Choice Awards, entre outras láureas. O filme de Michel Hazanavicius nos apresenta as lições do silêncio, do tempo em que ver e fazer um filme era um acontecimento, não que não o seja atualmente.

Desde o início a história nos arrebata, pois começamos a assistir a um filme mudo que mostra um astro do cinema mudo em ação, George Valentin (ator cheio de recursos cênicos). Ele observa por trás da tela o filme no qual ele é o protagonista e a orquestra executa a trilha ao vivo (aí abro parênteses para a trilha de Ludovic Bource, que é um acontecimento, dando a cada cena o ritmo e tom cômico dramático necessário).  George Valentin é o ator que está no topo e quer aparecer mais do que todos nos créditos, nos aplausos pós-filme. Está no auge. O ano é 1927.

Nos filmes, ele sempre aparece com seu treinadíssimo cachorro (Uggie), que rola e se finge de morto, mas tem outras habilidades em cena. Num dia, quando está saindo de mais uma estréia, cercado pelos fãs e fotógrafos, George esbarra em Peppy Miller (Berenice Bejo), uma aspirante a figurante de cinema em Hollywoodland. O esbarrão e o beijo que ela lhe dá na face viram notícia e ela acaba virando figurante de um filme de George. Um natural clima rola, pois George não vive mais uma paixão por sua esposa (atuação discreta de Penelope Ann Miller).  Até aí seguimos no ritmo do filme mudo, com pouco conflito, o ator de obras silenciosas segue sorrindo, fazendo caretas e mexendo com a boca.

O produtor (John Goodman) do Kinograph Studios é que apresenta o conflito, quando mostra um filme falado para George, “Romeu e Julieta”, com Constance Grey, uma ex-parceira de obras mudas. George ri e diz que não acredita neste tipo de filme.  O produtor lhe diz que este é o futuro. A partir deste ponto, a queda  está declarada e o filme ganha a sua intensidade dramática e passa a emocionar a cada minuto. Com uma trilha precisa, o drama de George e a ascensão de Peppy com filmes falados, os personagens ganham corpo e o som aparece pela primeira vez no próprio filme de Hazanavicius num pesadelo de George, que ouve risadas dos demais artistas e o barulho dos objetos no seu camarim.

Deste momento em diante, o filme nos apresenta um rosário de referências que passam por Cantando na Chuva e A Felicidade não se Compra, e mostra o fim de uma era tão necessária ao cinema, dos filmes mudos, e o início da falada, que foi agregada nas últimas décadas pelas eras technicolor, digital, de efeitos especiais e mais recentemente 3D. A derrocada de George é a troca do velho  pelo novo, do vinil e da fita cassete pelo CD e MP3, da tevê pelo vídeo, DVD e blu-ray,  do livro pelo ebook, do cinema mudo pelo cinema falado. O filme fala de amor, de gratidão, de fidelidade em relação a George, representada pelo cão que o salva da morte, do chofer Clifton, que não quer abandonar o patrão, e de Peppy, que quer cuidar de George enquanto ele destrói  o pouco que restou da sua vida e carreira. Um filme para os amantes da mais pura sétima  arte e que vai merecer todos os prêmios que vier a ganhar ainda nas próximas semanas. Que se façam mais filmes mudos, pois a história do cinema acabou de ganhar mais um capítulo com o Artista.    

Fotos: Miramax

domingo, janeiro 22, 2012

Mulheres no poder


O diretor romeno Radu Mihaileanu já provou no filme O Concerto que tem uma capacidade acima do comum de entender as necessidades e demandas de alguns grupos, fazendo com que as canções sejam o elo de ligação entre estes personagens. Foi assim que os antigos membros da orquestra Bolshoi conseguiram viajar sem autorização do governo russo para se apresentar no Teatro de Châtelet em Paris. A música é o elo de ligação entre as protagonistas mulheres de A Fonte das Mulheres. Com os lamentos, com as cantorias cheias de percussividade, as mulheres do filme falam das suas tragédias e alegrias, quando nascem filhos ou quando os filhos morrem antes de nascer porque as mulheres são obrigadas a buscar água para a pequena aldeia localizada entre o norte da África e o Oriente Médio. É a tradição, dizem os homens e o xeque do local, pois a água é para o serviço de casa. Está no Corão, diz o líder religioso.

Leila (Leila Bekhti) é a estrangeira, veio de longe para casar com Sami. Ela não é aceita pela sogra Fátima (Hiam Abbass), pela cunhada e por muitas das mulheres da aldeia. Ela aprendeu a ler e escrever e não aceita esta sina de as mulheres, mesmo sendo mais frágeis, andarem quilômetros com dois baldes pendurados numa vara de madeira para trazerem água aos maridos, aos homens, que não têm nem trabalho, não há colheita, e nem guerras, pois o tempo é de paz. Ajudada pela líder feminina da aldeia, Velho Fuzil (uma interpretação primorosa de Biyouna), Leila sugere que as mulheres façam greve de amor ou greve de sexo, caso os maridos não concordem em eles mesmos irem buscar a água. A referência é básica no texto “Lisístrata – a Greve do Sexo”, do grego Aristófanes. “É o nosso único poder sobre os homens”, diz Leila para tentar convencer as amedrontadas mulheres.

Assim, ela adquire inimizades, principalmente entre o público masculino da aldeia. Leila briga, invoca o Corão, não cede, quer o caminho mais difícil. O filme teria tudo para cair no piegas, mas não. Ele se aprofunda nos dramas, se solidifica no amor de Leila e Sami (Saleh Bakri), que é ameaçado pela chegada de um jornalista que ama Leila. O jornalista Soufiane (Malek Akhmiss) também é considerado a salvação para abrir o verbo e contar ao país inteiro a história das mulheres, que acabam apanhando em casa e sendo submetidas a certas humilhações em público. Sami tem outra tarefa. Ele é o único professor da aldeia, tem que educar, mas não pode fugir muito das tradições. Ele apoia Leila incondicionalmente. A sogra porém quer que o filho a repudie, o que seria uma vergonha para os pais dela e a condenaria a ser solteira para sempre naquela cultura machista.

As mulheres que lideram a greve pedem atenção aos homens, mas são chamadas de feiticeiras. Para não descambar para a pieguice, os lamentos, os cantares são o antídoto ideal. Quando elas cantam, tudo se assenta, os homens fazem vistas grossas, mas acabam recebendo a mensagem de que os seus corações secaram como a terra da aldeia. Entre o trágico e o cômico, elas avançam algumas jardas, mas a força política e religiosa dos homens é grande. Na verdade, a briga seria pela água na aldeia, pois a seca é personagem insistente e no filme a mensagem é de que a luta continua, companheiro, pelos direitos, pela igualdade, pelo amor. Amor que move a personagem Loubna/Esmeralda (Hafsia Herzi, a Samira, de “L´Apollonide – os Amores da Casa de Tolerância”). Com ajuda de Leila, ela manda e recebe cartas de um amor fora da aldeia.

Um filme com uma dúzia de lições, que não se rende à pieguice, que mostra que o amor pode vencer e que a luta pelos direitos não pode ser em vão. O filme também nos presenteia com uma visão imparcial e modernista da cultura árabe, dos muçulmanos, do islamismo, além de uma paisagem fora de série, das locações no Marrocos. Assina a produção do filme (que é belga, francesa e italiana) o francês Luc Besson. Um filme belo e com uma temática bastante profunda, visceral neste mundo multiétnico, mostrando a mão firme do diretor romeno, sempre preocupada com as questões do mundo atual.


Crédito da foto: Paris Filmes / Divulgação

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Menino ou menina?


Menino ou menina?

A pergunta do título desta crítica poderia ser feita a qualquer mãe ou pai que anuncia a gravidez do casal ou pelo casal ao médico que faz a ecografia que determina o sexo da criança. A determinação do sexo de uma criança é uma das coisas mais importantes para a maioria dos pais, para outros não. A proposta da diretora francesa Céline Sciamma (Lírios D´Água) em Tomboy é primeiro tornar natural e num primeiro momento irrevelante esta pergunta. Com este naturalismo, desprovido de efeitos cinematográficos como trilha sonora, luzes, explosões, a cineasta que criou o roteiro e dirigiu o filme acerta a mão e nos oferece um singelo retrato da sexualidade a ser determinada entre a infância e adolescência.

Mesmo que eu esteja tecendo este comentário, é importante que o espectador vá para a sala de cinema despido de qualquer ideia pré-concebida de sexualidade e vá esperando um cinema com teor dramático, no qual as coisas acontecem no seu tempo, isto é, o ritmo se determina pela ação natural dos personagens. Lembra um pouco Entre os Muros da Escola, filme dirigido por Laurent Catent, sobre uma escola pública francesa.

O que não pareceria natural no filme acaba sendo. Laure (Zoé Héran) é a filha mais velha de um casal francês que está se mudando de bairro. Ela se veste como menino, corta os cabelos curtos, mas em nenhum momento isto é um problema dentro de um lar bastante amoroso. Após chegar ao bairro novo ajudando o pai (Mathieu Demy) a dirigir o carro da família – aí também já é explorado um subtexto necessário que é o apego do pai e filha, a vontade do pai de ter um filho homem, o que acaba acontecendo com o terceiro filho que acaba nascendo (são duas meninas, Laure e a mais nova Jeanne, de seis anos, com uma excelente interpretação de Mallon Lévanna, apesar de adultizada demais) – Laure olha pela janela o que serão os novos amigos e ao conhecer a primeira amiga, Lisa (Jeanne Disson), responde instintivamente que o seu nome é Mickäel. Aí o conflito começa a ser estabelecido.

Na primeira brincadeira, Mickäel/Laure mostra as suas habilidades de menino, força, velocidade, esperteza e com ajuda de Lisa passa a ser melhor aceito pelo grupo. Então, Laure segue tranquila sendo Mickäel para os amigos e Laure com jeito masculino em casa. Como estão em férias escolares, o conflito não é estabelecido no âmbito dos novos amigos, mas as aulas irão começar e o segredo não poderá mais ser guardado. Quando Lisa vem bater a porta do apartamento de Laure, perguntando por Mickäel, a irmã Jeanne adentra o segredo e vira cúmplice. Lisa rouba um beijo de Mickäel e algo  desperta entre eles.

Quando a mãe (Sophie Cattani) descobre que ele está se fazendo passar por um menino vem a primeira lição do filme e uma das frases para serem guardadas. A mãe obriga Laure a colocar um vestido azul e a ir na casa de Lisa e de um menino no qual Mickäel deu uma surra. Parece uma agressão ao natural de Laure que é ser Mickäel, mas não é como diz a mãe: “Não estou aqui para lhe dar uma lição ou para fazer maldade com você, quero ver uma solução para isto, você tem a solução?”.

Com estas sutilezas e naturalismos, trilha sonora utilizada somente do aparelho de som de Lisa, de um piano de brinquedo de Jeanne e no início e final do filme, Celine Sciamma cria um filme real, que aborda com a maior normalidade possível sobre o tema, com atores tão orgânicos que parecem não-atores, enfim, nos deixa sair contentes e despidos de preconceitos da sala de cinema.


Foto: Pandora / Divulgação


domingo, janeiro 15, 2012

Uma comédia para degustar


Num dos primeiros diálogos entre os protagonistas de Românticos Anônimos, produção franco-belga dirigida por Jean-Pierre Améris, Jean-René (Benoît Poelvoorde) diz a Angélique (Isabelle Carré) se ela ama o chocolate e o que o maior problema dos chocolateiros e das pessoas em geral é confundir chocolate com doce. Ela retribui falando do amargor que é um dos elementos necessários a um bom chocolate. Somente ao falar de chocolate, eles mostram verdadeiramente o a sua alma, o seu amor, mas amargam na vida o fato de serem “emotivos” (o título original do filme é Les Emotifs Anonymes), de serem tímidos, de suarem, gaguejarem, terem autoestima baixa, entre outras coisas A brincadeira dos emotivos anônimos já começa logo no início do filme quando Angélique está no grupo de Emotivos Anônimos (como os Alcoólicos) e começa a falar das dificuldades que teve em ser bem-sucedida como chocolateira, quando era avaliada ou quando olhavam para ela para a julgarem. Cada um do grupo tem um problema, uma não sabe dizer não, o outro tem autoestima baixa etc.

Quando Angélique vai solicitar emprego numa fábrica de chocolates à beira da falência, dirigida por Jean-René, é que tudo se mistura, como no chocolate. Os medos de cada um são tratados por Améris com humor, mas com seriedade. Jean-René realmente sua frio e troca de camisas quando está para ter intimidade com uma mulher. No consultório do psicólogo, ele admite que ama as mulheres, mas não quer intimidade. Já Angélique não consegue dizer ao patrão que ela é chocolateira, não representante comercial, mas ele percebe que ela entende e ama os chocolates. A receita da contracenação perfeita é a de um grande chocolate. Isabelle Carré e Benoît Poelvoorde estão extremamente convincentes como os tímidos emotivos medrosos apavorados aspirantes a um namoro.

Os risos se multiplicam nesta comédia curta, apenas 1h20min de duração. O primeiro jantar entre os dois é uma aula de cinema cômico, quando Jean-René e Angélique não conseguem entabular uma conversação normal. Ela até faz uma lista de assuntos possíveis, ele responde com monossílabos. O medo é paralisante. Eles não conseguem responder ao garçom. Quem já não conheceu uma pessoa assim? Mas é no chocolate como pano de fundo e na trama em torno da história de amor entre emotivos é que Améris ganha a luta com o espectador por nocaute.

Quando eles desenvolvem uma nova linha de chocolates para tentar salvar a empresa ou quando degustam chocolates da Mercier - fábrica que Angélique trabalhou, mas se apresentava como uma eremita com medo de ser reconhecida – parece que sentimos cada nuance do sabor e as sensações que o chocolate causa. Neste ponto, o filme se assemelha ao filme do dinamarquês Lasse Hälstrom: Chocolate, com Juliette Binoche, Johnny Depp, Lena Olin e Judi Dench. Tanto neste como naquele, o chocolate consegue ser o elemento redentor. Neste filme a redenção é do amor quase impossível de dois emotivos. Naquele filme, a aceitação de Vianne (Binoche) pela pequena cidade da França rural e o chocolate como apimentador de relações e proporcionando realmente o prazer de degustar e viver.

O romantismo achocolatado nos envolve a todos e a sensação ao sair do cinema é que realmente alguns problemas crônicos podem ser resolvidos pela paixão, neste caso pelo chocolate ou por outra pessoa. A respeito de comédias românticas - e aí cito Nora Ephron, Rob Reiner e Garry Marshall, este um pouco decadente após Idas e Vindas do Amor e Noite de Ano Novo – enfatizo que elas são necessárias para suavizar o mundo, assim como musicais e filmes infantis, pois ação, policial e terror estão presentes no nosso cotidiano fora das telas. Isto tudo faz de Românticos Anônimos um filme delicioso, para degustar, docemente necessário para desamargar a vida.

Crédito da foto: Imovision / Divulgação

sexta-feira, setembro 10, 2010

Entrevista com Goran Bregovic


O show de Goran Bregovic e sua Weddings and Funerals Orchestra foi um dos cinco melhores do ano, incluindo Metallica, Aerosmith, Amelita Baltar e Simple Minds.

Publico aqui entrevista que fiz com Goran Bregovic no site e na edição impressa do Correio do Povo. O crédito da foto é de Fabiano Amaral


"Fiquei surpreso pois o público
conhecia a minha música"
O bósnio Goran Bregovic, que abre o 17º Porto Alegre em Cena na quarta, lembra com carinho do show de 2001 no Em Cena, em entrevista exclusiva ao CP

Nada melhor do que alguém que foi a sensação de uma das edições do festival (na 8ª edição em 2001), para abrir o 17º Porto Alegre em Cena, que para além da diversidade proposta por Luciano Alabarse e seus curadores, traz grandes grupos ou diretores que se destacaram em edições anteriores da mostra. Uma reafirmação do novo, misturado ao já consagrado, como é o caso dos espetáculos de Sankai Juku (2ª vez): “Tobari”; do diretor lituano Eimuntas Nekrosius (4ª vez) com “O Idiota”; Bob Wilson (2ª vez) com “Happy Days”; além de habituais diretores do Mercosul como o argentino Eduardo Pavlovsky e nacionais como Celso Frateschi e Enrique Diaz.

Goran Bregovic e sua Weddings and Funerals Orchestra (Orquestra de Casamentos e Funerais) abrem o festival, nesta quarta, às 21h no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 100). O show divulga o seu mais recente CD “Alkohol”, lançado no fim de 2008, e será realizado também na quinta, às 21h, no Bourbon Country. Não há mais ingressos para as duas noites (detalhes no www.poaemcena.com.br ).

O músico e compositor bósnio toca uma mistura entre ritmos tradicionais da música da Sérvia, as populares músicas ciganas para casamentos e funerais, recheadas de arranjos modernos e pop.
O projeto "Alkohol" é composto de dois discos. O primeiro "Sljivovica" foi lançado no fim de 2008 e tem 14 faixas — 13 normais e uma bônus — com destaque para “Jeremija” — onde ele brada antes do início da música o título do disco: Alkohol — “Venzinadiko”, “Gas Gas” e “Na Zandjem Sedistu Moga Auta” (“No Banco de Trás do Meu Carro". O segundo "Champanhe" está sendo produzido e deve ser lançado em 2011.

Bregovic e sua banda formada por mais 18 músicos, entre seis metais ciganos, duas vozes femininas búlgaras, seis vozes masculinas e quarteto de cordas, deve tocar durante 2h30min e recuperar sucessos executados em 2001, como “Mesecina”, “Kalashnikov”, “Ausencia”, “Te Kuravle” e “Ya Ya (Ringe Ringe Raja)”.

Nascido em 22 de março de 1950, em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, Bregovic tornou-se famoso como líder da banda Bijelo Dugme e como compositor de trilhas sonoras para cinema (destacando-se os trabalhos para filmes de Emir Kusturica como “Underground - Mentiras de Guerra” e “Arizona Dream”, além de “Borat”, de “Sascha Baron Cohen” e “Rainha Margot”, de Patrice Chéreau.

Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Povo, Bregovic fala com carinho do show de 2001, da mensagem do disco "Alkohol", dos novos projetos e de World Music.


Correio do Povo - Os seus discos e as suas músicas, trilhas de filmes ou de espetáculos, sempre carregam mensagens contra a guerra e outros temas. Qual a mensagem do disco "Alkohol", de 2009?
Goran Bregovic - O meu álbum “Alkohol” não tem nenhuma mensagem especial, mas como explico no encarte do CD: "Minha mãe se divorciou do meu pai porque, como a maior parte de oficiais, ele bebeu demasiado sljivovica (conhaque típico da Bósnia à base de ameixa) . Depois que ela o abandonou, ele sofreu o tratamento para deixar de beber. Nos 15 anos seguintes, ele não bebeu. Minha mãe morreu da leucemia e a segunda esposa do meu pai disse-me que durante a doença de minha mãe ela o tinha seguido secretamente algumas vezes. Noite após noite meu pai sentava até o amanhecer embaixo das janelas da sala onde minha mãe morria no 3º andar do hospital militar na Divisão para fumar. Então ele voltou à sua aldeia na fronteira húngara e plantou um vinhedo que produzia mil litros por ano. Ele sobreviveu a mãe a vinte anos e bebeu este mil litros mais ou menos sozinhos. Dedico 'Alkohol' aos meus pais".

CP - Você tem alguma lembrança do seu primeiro show em Porto Alegre em 2001?
Goran - Eu me lembro que fiquei surpreso ao ver que havia um grande público para o meu concerto e que eles pareciam conhecer a minha música.
CP - Quais são os seus atuais projetos na música, discos, trilhas para cinema e teatro?
Goran - Acabo de terminar um novo projeto, uma peça para minha grande orquestra e uma atriz intitulou “Margot, as Memórias da Rainha Infeliz”. Ele teve uma première em Paris, na Basilique Saint Denis, em junho deste ano. Estou trabalhando agora na segunda parte do meu álbum “Alkohol”. A primeira parte "Sljivovica" saiu no ano passado e estou editando agora a segunda parte: "Champanhe". E há projetos sempre diferentes – possivelmente uma nova ópera (Goran é autor de óperas como "Karmen de Bregovic") que estão cozinhando lentamente em fogo brando.

CP - Por que a música do Leste Europeu ficou fora do boom da World Music nos anos 80 e agora onde ela estaria inserida?
Goran - É bom que o mundo ficou curioso e tem o interesse em uma cultura musical que é muito pequena em comparação com as grandes como Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. Eu agradeço a esta curiosidade que fez com que a minha música fosse conhecida em todo o mundo.

CP - Como você define a sua música?
Goran - Sou um compositor contemporâneo que escreve a música com uma estrutura sólida e que não é tediosa – o que é bastante excepcional atualmente. Conservei uma faixa hedonista dos meu temperamento de rock´n´roll. Se escrevo coisas simples de instrumentos infantis ou mais complicados do coro e orquestra, eu sempre tenho divertimento.

CP - Você tem participados de movimentos contra as guerras ou eventos musicais e causas similares?
Goran - Eu estou muito velho agora e demasiado distante dos tempos quando – fora de vaidade – imaginei que a arte podia modificar a ordem de coisas. Mas sou ainda demasiado jovem para perder a esperança!


Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo

quinta-feira, junho 24, 2010

Um dia sem Globo


Por diversas razões, vou participar deste movimento Um Dia sem Globo. Gosto das informações veiculadas pelos repórteres da Globo. Eles têm uma boa cobertura, mas se consideram donos da verdade em algumas questões. Neste caso com Dunga foi assim. Foi um massacre. O Dunga errou, mas o motivo que o levou a este destempero foi os ardis daquela que quer ser sempre exclusiva. Direitos iguais. A Era Dunga estabeleceu direitos parcos, mas iguais para os jornalistas. Se ele está certo ou errado, o tempo dirá. Vou ver o jogo do Brasil pela Band (Cala Neto!), Band Sports ou ESPN Brasil, que dá um show de cobertura, de informações sobre as seleções, estatísticas e conhecimento do histórico e das potencialidades de cada uma das equipes. Tomara que dê uma baixada significativa de audiência na Vênus Platinada para que ela sinta que também estava errada nesta querela com o Dunga.

terça-feira, maio 11, 2010

Que os anjos digam Amém ao Armazém!!!


Estou escrevendo ainda sob o impacto de assistir ao espetáculo Inveja dos Anjos, da Armazém Companhia de Teatro, dentro da programação do Palco Giratório na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Na hierarquia dos anjos proposta por Rainer Maria Rilke no texto de apresentação, posso me lembrar dos seres alados de Wim Wenders para dizer como este processo construído pela companhia com seus dramaturgos Paulo Moraes e Maurício Arruda Mendonça nos faz acessar a zonas remotas do sentimento e da reminiscência.

Um trio de amigos recordando. Um trilho de trem que viaja ao alto, traz e leva pessoas e consigo os sentimentos. Um escritor, Tomás (Ricardo Martins) que quer queimar todas as suas anotações com títulos tão criativos quanto vagos: Vestígios de Afeto é um exemplo. Os personagens desta estrutura onírica, quase fabular, nos fazem recordar da Alice Através do Espelho, o texto de Lewis Carroll (o grupo prefere a dramaturgia própria, mas já montou este texto). O escritor tem uma filha, Natália (Verônica Rocha) e agora não quer queimar nem os escritos e nem tampouco consegue negar o rebento.

Uma garçonete, Cecilia (Patrícia Selonk) não conseguiu mais amar. Um mágico fugiu de sua vida, usando o seu principal recurso, o ilusionismo de entrar no trem da existência e sumir num rastro de liberdade. Uma filha, Luiza (Simone Mazzer), que viu a mãe, Branca (Simone Vianna), matar o pai e agora implora para que a sua matriz se vá, enquanto ainda faz milhares de bolos para ela, matando a sua sanha de loucura e fome. A mãe dança com o paletó do pai morto. O carteiro, Eleazar (Marcelo Guerra), que lê e seleciona as correspondências que devem ser entregues, adiando algumas que trazem notícias inesperadas. São tantas as imagens e situações que quase nos engasgamos todos. O personagem mágico de Rocco (Thales Coutinho) parece dar o tom da narrativa, pois tudo parece um passe de ilusão. Rocco e Cecília protagonizam os momentos de maior afeto, tensão, recuerdos e também, por que não, de regozijo na intimidade, como quando ela diz que pensou em 100 maneiras de dizer que não o queria mais, botando-as para fora quando ele retorna, após 15 anos.

O diretor Paulo Moraes explica que o mote era o esfacelamento da memória e que os atores desenvolveram as suas situações, escrevendo e atuando a partir de um tema. O tema é fragmentar a memória para recordar que a existência é vã e também tão linda quanto as brincadeiras de Natália ou as mágicas de Rocco, ou o fogo que consome os livros de Tomás. A fumaça do afeto.

Os anjos devem estar dizendo: “Amém ao Armazém!”, pois o anjo existe para nos guardar e nos lembrar um pouco a nossa humanidade de asas quebradas, como as da estátua do centro da cidade onde todos os personagens moram, que como todas as cidades da nossa recordação estão decadentes. Amém também a cenografia de Carla Berri e Paulo Moraes, que mostram a decadência das paredes descascadas e o trilho que desloca o nosso ponto de visão, criando geometrias novas. Amém a Maneco Quinderé o homem que dá a acuidade luminescente à locomotiva, que cria momentos de rara poesia com sua luz sobre trilhos e outras invenções como a luz vermelha tal qual um carrossel. A trilha sonora de Ricco Viana compõe este panorama onírico, incluindo de Radiohead a Beatles, buscando o foco íntimo, pré-emotivo e preciso do espectador. Por tudo isso, não tenho inveja dos anjos. Só tenho louvores a eles e ao Armazém que nos vende sonhos, narrativas tocantes e o acesso ao mais íntimo que há em nossas viagens para dentro da alma recordante, alegre por voltar, por ir e retornar pelos trilhos da vida.

domingo, maio 02, 2010

Entrevista com Eugenio Barba


Coloco aqui no blog a entrevista com o fundador do Odin Teatret, o diretor Eugenio Barba, publicada no site do Correio do Povo agora há pouco.

"Porto Alegre poderia virar pólo de teatro", diz Eugenio Barba

Diretor do Odin Teatret é a principal atração do Palco Giratório Sesc

Porto Alegre poderia virar pólo de teatro, diz Eugenio Barba
Crédito: Luiz Gonzaga Lopes/Especial CP
A programação do 5º Festival Palco Giratório Sesc/Porto Alegre trouxe à Capital neste final de semana o italiano radicado na Dinamarca, Eugenio Barba, 73 anos, uma das principais referências vivas da antropologia teatral. Barba foi também fundador da companhia Odin Teatret, em 1964.

Ele protagonizou uma conferência com três horas de duração, diante de um Teatro do Sesc lotado, sábado à noite, abrindo o 5º Palco Giratório. Barba abordou diversos assuntos, entre eles suas ligações com o Brasil e Porto Alegre, com o falecido Luiz Otávio Burnier, fundador do grupo Lume, de Campinas, e Irion Nolasco, no Rio Grande do Sul.
A conferência também abordou o legado do Odin Teatret, o método de trabalho do grupo situado em Holstebro, na Dinamarca, e até uma demonstração de trabalho de Julia Varley, sob a direção de Barba.

O festival segue até 31 de maio, em Porto Alegre, com 38 espetáculos de 35 grupos de 11 estados brasileiros, além de participação da França. A atividade é promovida pelo Arte Sesc – Cultura por toda parte. Mais no site www.sesc-rs.com.br/palcogiratorio. Acompanhe a seguir uma entrevista feita com Eugenio Barba:

Correio do Povo - Existe alguma pesquisa nova em antropolgia teatral?
Eugenio Barba - A antropologia teatral é como uma referência que hoje não pode ser considerada uma pesquisa. É um estudo comparativo, compreendendo direfentes estilos e gêneros estéticos. Hoje, existem os mesmos princípios para a técnica de todos os atores. O nosso trabalho teve influência na presença física, material do ator. Trata do equilíbrio, tensão, de uma maneira paradoxal de pensar. Como Hamlet. Ele pensa e pensa que o outro ator faz isso.

Não temos mais que pesquisar. Este foi nosso território durante 20 anos. Estudos comparativos. Só o que utilizamos não é pesquisa estética, mas tinha a ver com resultados artísticos, mas tudo que se percebe no sentido pré-expressivo, não no sentido cronológico. É uma maneira de pensar, transformando a presença do ator em expressão artística. Existem pesquisas novas na Europa sobre antropologia do espetáculo, compreendendo tipos diferentes de espetacularidade, que interessa sobretudo aos acadêmicos.

CP - Qual a sua visão do teatro de grupo em Porto Alegre?
Barba - Todos os meus amigos brasileiros sempre me disseram que Porto Alegre era muito ativa em nível de grupos. Agora chegando aqui e vendo o interesse dos grupos pela experiência fora do comum do Odin, constatei que existe um ambiente muito particular para o teatro de grupo, talvez resultado do trabalho de grupos dos anos 80 e 90, que criaram uma história. Os professores universitários também têm responsabilidade por este interessen crescente entre os jovens.

Me pergunto por que Porto Alegre não pode virar um pólo de teatro de grupo? Romper o isolamento, a maneira de pensar. Há uma possibilidade de abrir ou dar meios para desenvolver a partir do que já existe com todas as novas formas. Os grupos já têm história, identidade e possibilidade de incrementar e fortalecer o seu trabalho. Precisa de uma contínua confrontação.

CP - A realização de um grande festival de teatro de grupo seria um dos caminhos?
Barba - Sim, porque não existe no mundo todo um festival internacional que abranja só teatros de grupo. No Brasil, tem uma experiência próxima da ideal que é o Festival de Teatro de Grupo Latino-Americano, do Teatro Oco, de Salvador. Antes existia nos anos 70 o festival de Santarcangelo Di Romagna, na Itália, idealizado pelo diretor Roberto Bacci, que tinha uma energia extraordinária. Durante muitos anos, foi o festival que tinha realmente a marca do teatro de grupo.

CP - Como é Eugenio Barba quando não está pensando o teatro?
Barba - Quando não estou trabalhando, eu sou reservado. Não frequento pessoas, casas. Vivo solitário com minha família. Tenho muito pouco contato social, até porque vivo isolado em Holstebro. O que me acompanha sempre são os livros, a leitura.

CP - O que o senhor trouxe para ler no Brasil?
Barba - Estou lendo uma biografia do pintor Paul Cézanne. Gosto muito de ler biografias. Para me acostumar de novo com o português, também estou lendo um livro de um jornalista brasileiro, Paulo Markun, "Cabeza de Vaca".

CP - O Brasil está presente de alguma forma no novo espetáculo do Odin?
Barba - Sim, no novo espetáculo o título "A Vida Crônica", vem de um poema do brasileiro Paulo Leminski. É a história de uma jovem colombiana que chega em uma cidade europeia à procura do pai desaparecido. Ele era um criminoso, torturador, narco-comerciante, um pobre imigrante que tentou a vida na Europa e desapareceu, uma coisa muito comum na Europa. Este é o ponto de saída da história, com todos os choques entre uma jovem latino-americana e o mundo europeu com seus preconceitos.

Fonte: Luiz Gonzaga Lopes/Correio do Povo