terça-feira, dezembro 31, 2013

DO METAL AO CELTA, DO ROCK AO PROGRESSIVO



Crédito: Ricardo Giusti

Dos shows escolhidos para a lista dos dez melhores internacionais em Porto Alegre no ano de 2013, apenas dois não tem tanto a ver com a idade deste que vos fala, o Alice in Chains e o Chris Cornell que são de uma geração posterior, muitos também são de uma geração anterior, como é o caso do Yes, do Jethro Tull e do Elton John, mas todos foram shows grandiosos, sem exceção, alguns inéditos em Porto Alegre como o do Black Sabbath e a maioria inédito para mim. Foram shows que ultrapassaram a expectativa, alguns reproduzindo álbuns como foi o caso do Yes e do Jethro Tull, outros pontuando festivais, como o filho do homem, Ravi Coltrane, alguns surpreendentes como o UFO, com a energia de sempre, o Alice in Chains, cuja desconfiança em relação ao vocalista William DuVall em relação ao eterno Laine Staley era enorme.  Eu ainda teria o 11º colocado para inserir que foi o de Alicia Keys e outros shows internacionais bacanas, que já vieram outras vezes à Capital, como Fito Paez e Soledad Villamil. Então vamos aos 10 mais:


1 - BLACK SABBATH

O show de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Tommy Cufletos em outubro nos deu a dimensão do que é peso aliado a clássicos do metal em outubro na Fiergs. Noite inesquecível ao som de Paranoid, Iron Man, Children of the Grave, Black Sabbath, N.I.B. e mais recentes como End of the Beggining, Age of Reason e God is Dead. Duas horas de coração pulsando ao som do baixo e da bateria de Butler e Cufletos, viajando nos solos do canhoto Iommi e embarcando nas asas e nas corridas lentas e desajeitadas de Ozzy.


2 - YES

Três discos reproduzidos na íntegra. Um rock progressivo comemorando os seus 45 anos de carreira. O seminal Yes tocou em maio no Araújo Vianna durante mais de três horas e com três integrantes da formação clássica - Steve Howe (guitarra), Chris Squire (baixo) e Alan White (bateria). Os álbuns executados com efeitos de vídeo e luz foram “The Yes Album”, de 1971, “Close to the Edge”, de 1972, e “Going for the One”, de 1977, com o tecladista Geoff Downes e Jon Davson nos vocais. A abertura foi da banda gaúcha Apocalypse. Memorável ver ao vivo os longos sets de músicas como Close to the Edge e Siberian Kathru, além de Awaken e Starship Trooper.

3 - ELTON JOHN

O show de Elton John em março no Zequinha foi uma ode à competência deste exímio pianista e entertainer. evisto. Pude ver ao vivo no show de 40º aniversário de Rocket Man, ele tocar e cantar músicas como “Bennie and the Jets”, “Tiny dancer” e “Candle In The Wind”. “Rocket Man”, "Your Song" e insuflar a galera com dois petardos rock após mais de duas horas de show: I´m Still Standing e Crocodile Rock. Ninguém precisava mais nada. Show acima da expectativa.

Crédito: Chico Izidro

4 - ACCEPT

Este show talvez não tenha sido o quarto melhor internacional do ano, mas para mim foi e também para o meu amigo e colega Chico Izidro que escreveu sobre o show para o site do Correio do Povo. Ele falou de voltar à adolescência e realmente os dois remanescentes da formação original, o guitarrista Wolf Hoffmann e o baixista Peter Baltes colocaram os fãs em transe junto com o guitarrista Herman Frank, o batera Stefan Schwartzmann e o vocalista Mark Tornillo. Músicas novas como Stalingrad e Hellfire, nem tão recentes como  Teutonic Terror e as clássicas Fast as a Shark e a introdução de música alemã de bandinha, Restless and Wild, Princess of Dawn, Breaker, Metal Heart, Losers and Winners, Up to the Limit e a primal e gutural Balls to the Wall. Show para deixar rindo à toa.

5 - UFO

A volta ao passado foi a tônica deixando o pequeno Teatro do CIEE incendiado com a banda britânica UFO em sua turnê Seven Deadly. Com três membros de sua formação mais clássica - Phil Mogg (vocal), Paul Raymond (guitarra e teclados) e Andy Parker (bateria), além do guitar hero Vinnie Moore, a banda mostrou canções do novo disco "Seven Deadly", o 20º da carreira, além de clássicos dos 44 anos de serviços prestados ao rock, como "Doctor Doctor", "Rock Bottom", "Lights Out", "Shoot, Shoot" e "C´Mon Everybody". Um deleite musical que foi partilhado com veias do rock como Paulo Moreira, Dante, Cagê Lisboa, Roger Lerina, entre outros.

. Crédito: Ricardo Giusti

6 - JETHRO TULL

Sobre o show do Jethro Tull, eu reproduzo a matéria ambiental do show que fiz para o Correio do Povo em 12 de março de 2013:

ROCK PROGRESSIVO DO JETHRO TULL INAUGURA
SHOWS INTERNACIONAIS NO ARAÚJO VIANNA

Ian Anderson e grupo de instrumentistas realizaram show conceitual para 3 mil pessoas

No dia do seu aniversário de 49 anos, o Auditório Araújo Vianna recebeu dois discos inteiros de presente de Ian Anderson e seu Jethro Tull atual: o clássico disco "Thick as a Brick", de 1972 e o insano e temporão, mas não menos rock progressivo ou ópera rock, como queiram, "Thick as a Brick 2", lançado em 2012, 40 anos depois do primeiro. Foram 2h30min de show, com 15 minutos de intervalo de uma execução que deixou embevecida uma plateia de pouco mais de 2,9 mil pessoas no Araújo Vianna, inaugurando a fase internacional de shows da tradicional casa de espetáculos incrustada no coração do bairro BomFim, o Parque da Redenção.

O multi-instrumentista da banda Jethro Tull, Ian Anderson, iniciou pontualmente às 21h, o primeiro show internacional do reformado Araújo Vianna, nesta terça-feira em Porto Alegre. O show da turnê comemorativa aos 45 anos de carreira da banda e de Anderson foi uma apresentação com muita identificação histórica com o Araújo e sua tradição no rock e rock progressivo.

O show percorreu o lendário álbum "Thick Is a Brick", com Florian Opahle (guitarra), Scott Hammond (bateria), David Goodier (baixo), John O'Hara (teclados) e Ryan O'Donnell (vocal). Anderson cantava alguns trechos das músicas, mas a sua garganta gêmea era o jovem Ryan O´Donnell, que também personificava os momentos cênicos da ópera rock, personificando um empregado que varre o palco ou então um padre. Todo o grupo, porém, fazia evoluções instrumentais, cênicas num show conceitual, reproduzindo a atmosfera insana e criativa de "Thick as a Brick".

Após um intervalo de 15 minutos, veio a execução integral de "Thick as a Brick 2", com destaque para “Banker Bets, Banker Wins”, com o telão reproduzindo moedas e notas, “Wootton Bassett Town” e a mais longa faixa “A Change Of Horses”. Após mais uma hora de show, foi a vez do próprio Ian Anderson, com o seu personagem no telão apresentar a banda e ela sair de cena para voltar em dois minutos e executar a clássica "Locomotive Breath", com o trem que não pode parar: "I thank God, he stole the handle / And the train, it won't stop going / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down". Era o gran finale de uma noite memorável para o Araújo Vianna, no dia do seu aniversário, e para os gaúchos.


7 - RAVI COLTRANE

O show que fechou o 3º Canoas Jazz em novembro foi indescritível. Como diria o mestre dos mestres do jazz, Paulo Moreira, o público deixou Canoas flutuando, com o filho do homem, Ravi Coltrane. Com um quarteto formado ainda pelos competentíssimos músicos David Virelles (piano); Hans Glawichnig (baixo acústico) e Johnathan Blake (bateria), este tocando a bateria mais horizontal que se tem notícias, sem pratos no alto, o saxofonista Ravi mostrou uma técnica apurada para conduzir o sax tenor e o sax soprano. Em muitos momentos, o pai baixou, como em "For Turiya" e  "Giant Steps", além de tocar "Segment", de Charlie Parker. Uma overdose do melhor jazz moderno combinado com os estilos do bebop e do fusion.

  Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

8 - ALICE IN CHAINS

Sobre o show dos grunges, também reproduzo matéria minha para o Correio do Povo:

ALICE IN CHAINS DESFILA HITS EM SHOW NA CAPITAL

Banda de Seattle tocou para 3 mil pessoas

Esperar muito tempo para ver uma banda tem as suas compensações. A sua banda preferida toca a primeira música do show às 21h58min, "Them Bones" e você já canta a plenos pulmões e pula incansavelmente. Foram mais de 25 anos de espera para que Porto Alegre presenciasse um show do Alice in Chains, no rescaldo do vento que soprou no Rock in Rio, que trouxe também Alicia Keys e Gogol Bordello. Na noite dessa terça, no Pepsi on Stage, a banda de Seattle tocou durante 1h30min, para mais de 3 mil fãs que, como descrito anteriormente, cantaram todas as músicas, pularam, sentiram o peso do grunge e de elementos do heavy metal e do hard rock, além de disputar palhetas e baquetas ao final da apresentação.

Após a pesada abertura da banda Di Angelis, o Alice in Chains irrompeu no palco às 21h58min com "Them Bones". Mas isto já falamos. Era claro que seria um show de hits, mas também de músicas do disco novo "The Devil Put Dinosaurs Here", o que apareceu na terceira música, a consistente "Hollow", com a cozinha batida de coração da batera de Sean Kinney e do baixo de Mike Inez. Em "Check My Brain", o vocalista Wiliam Duvall reedita os melhores e mais rasgados registros vocais de Layne Staley, morto em 2002.

Após um "obrigado" e um "Porto Alegreeeee" em português, foi a vez de a banda dar a sequência de hits que esquenta qualquer show, ainda mais um tão aguardado. Com a guitarra incendiária de Jerry Cantrell e o telão de LED reproduzindo imagens de um coração até sequências psicodélicas, se seguiram clássicas como "Man in the Box", "Nutshell" e "No Excuses". Público ganho, cantando junto, meio que hipnotizado pela energia do Alice ao vivo. Depois, outras pérolas como "We Die Young", "Down in a Hole" e a pesadíssima "Acid Bubble", encerrando a parte do show, ainda sem bis, com "It Ain´t Like That". Na volta para o bis, já com o canto em coro de "Alice in Chains, Alice in Chains", a banda emendou as duas mais pedidas da noite: "Would?" e "Rooster". Uma noite muito especial de mergulho no tempo para nós, público, e para eles, pois DuVall disse que a banda voltaria, agradecendo com grande emoção o carinho do público, enquanto Cantrell bateu as mãos no peito, como querendo dizer que o coração da banda se encantou com o público gaúcho.


Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

9 - LOREENA MCKENNITT

O show de Loreena McKennitt em outubro no Sesi também recebeu cobertura do Correio do Povo e neste texto eu falo de quão bom foi este show:

GAÚCHOS SE EMOCIONAM COM A JORNADA CELTA DE LOREENA MCKENNITT

Show da cantora e multi-instrumentista canadense ocorreu no Sesi

O primeiro show de Loreena McKennitt no Brasil (ela começou a turnê nacional por Porto Alegre) foi de muita emoção, inspiração e de uma aula de música e cultura celta. A apresentação da cantora e multi-instrumentista canadense com mais de 14 milhões de álbuns vendidos pelo mundo foi realizada na noite deste domingo no Teatro do Sesi. Com quase meia hora de atraso, o show foi realizado em dois atos, com duração total de 2h30min, diante de um Sesi lotado de pessoas que esperaram 28 anos para o contato com a apresentação ao vivo da canadense, que tem raízes escocesas e irlandesas.

Quando Loreena surgiu no palco, o público não conseguia conter a emoção. A primeira música executada por Loreena tocando harpa foi "She Mover Through the Fair", mas foi com a segunda canção, já ao acordeon, a clássica "The Mummer´s Dance", do álbum "The Book of Secrets" (1997), que ela pôs o público para embarcar na emoção de uma jornada pela música celta.

Neste primeiro ato do show, com o apoio de uma banda mais do que competente, aí vai um destaque para o naipe de violino e cello, com Hugh Marsh e Caroline Levelle, esta com seus cabelos ao melhor estilo de Cate Blanchett como o elfo Galadriel, em O Senhor dos Aneis e o Hobbit, Loreena executou outras grandes músicas dos seus quase 30 anos de carreira, como "Bonny Portmore", "Marco Polo" e "Penelope´s Song.

Antes de executar uma peça musical sobre a emigração irlandesa para o Canadá, "The Emigration Tunes", Loreena chamou a tradutora para falar das agruras do povo que chegou à região de Quebec em navios, se oferecendo para ser o lastro que equilibrava a embarcação durante a viagem, padecendo com fome, febre tifoide e cólera. O primeiro ato foi encerrado com as clássicas "The Bonny Swans" e "Caravanserai", música que funde sons e ritmos ocidentais e orientais, antes da qual explicou que conheceu na Turquia algumas edificações quase intactas destes estalagens que eram entrepostos para mercadores viajantes entre Oriente e Ocidente.

Após o intervalo, o segundo teve o primeiro ponto alto quando Loreena apresentou a mística "Santiago" sobre Santiago de Compostela. Nesta música, ela autorizou o público a tirar fotos, com flashes mesmo, pois recordava uma festa nesta região com muitos fogos de artifício. Depois, pediu para que as pessoas guardassem suas câmeras, celulares e tablets. O show foi seguindo em alto nível de emoção até as três músicas do disco que a alçou ao estrelato, "The Visit" (1991): "The Lady of Shalott", "All Souls Night" e "The Old Ways", esta última do segundo ato, com destaque para o guitarrista Brian Hughes; o baterista e percussionista Rick Lazar; Ben Grossman no hurdy gurdy; Ian Harper nas pipes e Dudley Phillips no baixo acústico.

Após palmas entusiasmadas e agradecimentos emocionados de ambas as partes, de Loreena ao público e vice-versa, a canadense voltou duas vezes para o bis para executar "Dante´s Prayer" e "Huron Beltane Fire Dance". Uma noite de muita emoção e música celta da mais alta qualidade. Loreena agora segue a turnê brasileira, que prevê apresentações nesta terça, no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, e na quarta e quinta no Credicard Hall, em São Paulo.

Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

10 - CHRIS CORNELL

Também sobre o show de Chris Cornell no dia 17 de junho no Bourbon Country, eu preparei uma matéria que resume por que ele ficou em 10º lugar na minha lista:

CHRIS CORNELL ENCANTA FÃS EM SHOW ACÚSTICO

Cantor tocou durante quase duas horas em Porto Alegre

Na noite em que as vozes se levantaram por todo o Brasil para protestar contra a Copa das Confederações e outros desmandos, uma das principais vozes do grunge de Seattle, Chris Cornell, que foi vocalista de bandas como Soundgarden, Audioslave e do projeto Temple of the Dog, fez um show acústico que parecia mais um "Peça e Ofereça", da Caiçara, tamanha a escuta do músico de Seattle aos seus fãs que lotaram a plateia do Teatro do Bourbon Country na noite dessa segunda-feira, deixando espaços no mezanino e nas galerias. Foram 22 músicas durante uma horas e 50 minutos na agitada noite dessa segunda-feira.

Na terceira apresentação do show acústico, Chris Cornell, entrou no palco com 35 minutos de atraso (21h35min) com seus violões e a sua voz vibrante para atender a pedidos de fãs e contar algumas histórias interessantes da sua carreira de quase 30 anos de estrada. O músico iniciou a apresentação com três músicas da carreira solo: "Scar on the Sky", "As Hope and Promise Fade" e "Ground Zero", esta última pelo nome dedicada ao Marco Zero no local onde foram derrubadas as Torres Gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001.

Após tocar a música em homenagem ao amigo Andrew Wood, da banda Mother Love of Bone, morto por overdose de heroína em 1990, chamada "Say Hello to Heaven", Cornell usou o seu bom humor para explicar que a música "Finally Forever", do disco solo "Carry On" foi escrita para o seu próprio casamento e depois foi utilizada em um comercial de basquete da NBA, o que foi estranho para ele.

No estilo "Peça e Ofereça", quando estava dedilhando os acordes de uma outra música, ao pedido de "Call me a Dog", do Temple of the Dog, feito por uma fã, mudou o tom e cantou a música pedida, fiel como um cão aos seus fãs. Assim tocou outras canções das três bandas pelas quais passou, como "Hunger Strike", "Seasons", "I Am the Highway", "Fell on Black Days", "Doesn´t Remind Me", "Be Yourself" e "Wide Awake", esta com aquela guturalidade e alcance rasgado que Cornell, Eddie Vedder e Kurt Cobain nos legaram.

Na hora de um dos pedidos, diante de tantas vozes, o homem do norte dos Estados Unidos fez uma homenagem ao Sul. "Eu ouvi Hotel Califórnia" e tocou a música dos Eagles numa versão lânguida e pungente, num dos poucos covers da noite, pois quando alguém gritou "Billie Jean", de Michael Jackson, a reação foi mais negativa do que positiva. O show foi encerrado com "Blow Up the Outside World", cheia de efeitos, distorções e ecos, deixando o palco vazio para quase cinco minutos de aplausos esperançosos pela volta de Cornell. Mais um daqueles shows que os fãs não acreditam estar perto do seu ídolo pela primeira vez.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Da Dama de Bob ao Cavalo de Patrícia

Nos próximos dias, vou divulgar aqui no blog textostelona, as listas dos cinco melhores de 2013 em várias áreas e categorias. 

Vou começar pelas cinco melhores peças de teatro de 2013, às quais assisti e que não precisam necessariamente ser as melhores, pois algumas que poderiam melhores, eu não assisti, como é o caso de Medeia Vozes, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. 

Então vamos às cinco melhores do meu ano, que passam por nomes como Bob Wilson, Kike Barbosa, Romeo Castellucci, Miguel Falabella e Patrícia Fagundes:

Crédito: Divulgação


1 - A Dama do Mar 


O espetáculo dirigido por Bob Wilson com atores brasileiros, com o texto de Ibsen, desconstruído por Susan Sontag. O esmero e a precisão técnica de som e luz de Wilson com interpretações primorosas de Lígia Cortez como Ellida e atores como Hélio Cícero, Ondina Castilho, Bete Coelho e Luiz Damasceno dourando o elenco. Um espetáculo que acentua o texto, as pausas, o silêncio e a dureza do cais insano de Ibsen. A estética é irretocável e a densidade dramatúrgica é rica. O ciclorama com tons de luz em azul e púrpura, muitas vezes o verde e o amarelo, as marcas de Bob, com a sonoplastia cortando abruptamente ou desenhando as cenas de Ellida com Arnholm, Dr. Wangel e o Estrangeiro. Espetáculo que alegra os olhos, os sentidos e a noção que temos da extensão do drama de Ellida em nossas vidas, do determinismo da vida com Wangel ou a liberdade de seguir com o estrangeiro, o triângulo norueguês que pode ocorrer no Brasil ou na África do Sul, universal ao extremo.

Crédito: Klaus Lefebvre

2 - Sobre o Conceito da Face no Filho de Deus  


Três cenas viscerais em 60 minutos, mas parecem horas, tamanha à repetição e o peso de casa gesto da encenação de Romeo Castellucci para a Societas Raffaello Sanzio apresentada no 20º Porto Alegre em Cena. Um velho se esvai em fezes em sofá e móveis totalmente brancos e o filho cuida com uma bondade e angústia. A segunda cena mostra crianças jogando granadas na figura de Jesus Cristo, são minutos que viram horas e finalmente a imagem gigante de Cristo é destruída. O naturalismo das cenas e o simbolismo contido em cada uma delas nos induz a pensamentos mil, alguns relacionados à dificuldade de se atribuir um poder muito grande à figura do Salvador, de Cristo, esta é uma reprodução do quadro do pintor italiano do século XV, Antonello de Messina. É um jogo teatral, mas é um jogo pesado, que questiona o Deus que deixa um pai sofrer e que coloca nas crianças a possibilidade de vingar, de renovar e de questionar filosófica ou ativamente os desígnios de Deus, do cristianismo e da vida como ela é. Tudo isto aliado a uma sonoplastia pesada, dos sons de granada. Um petardo, um soco na nossa cara cristã.


Crédito: Vilmar Carvalho


3 - Pequenas Violências - Silenciosas e Cotidianas  


O dramaturgo e diretor Kike Barbosa entrelaça cinco histórias de vidas pequenas e violentas, o possível terrorista, a mulher e o seu cachorro, o homossexual, o desempregado bêbado e a mulher que ama ou deixa, todos unidos por um mesmo prédio e um atropelamento e por outras pequenas violências cotidianas. Tudo isto na penumbra, com lanternas coloridas e o deslocamento pelo escuro, ilusões de ótica e uma trilha atordoantemente bem feita por Paulo Arenhart. As atuações estão todas coesas pelo quinteto formado por Cassiano Ranzolin (postura), Liane Venturella (versatilidade), Janaína Pellizon (presença), Rafael Guerra (limites) e Rodrigo Melo (mergulho). Deve ganhar novas temporadas em 2014 para que o público tenha acesso à doce loucura do dramaturgo Kike e a esta companhia madura e cada vez mais segura, que é a Stravaganza, de Adriane Mottola, que mostrou outra pérola neste ano, a fragmentada e pungente Estremeço.

Crédito: Paula Kossatz

4 - Alô Dolly  


Miguel Falabella costuma ter grandes acertos nestas adaptações de musicais da Broadway. No caso de Alô Dolly não foi diferente. O musical tem a sua força na história, que trabalha com aqueles desencontros e armações derivadas da commedia dell arte ou das comédias de erros e ganha força nos dois protagonistas, o encontro até então inédito nos palcos entre Falabella, como Horário Vandergelder, e Marília Pêra como Dolly Levi. Com cenários, figurinos e músicas extremamente bem arranjadas e também aqueles improvisos falabellianos, o caminho estava aberto para a viúva casamenteira dos anos 1890, no estado de Nova York, que é contratada pelo rico e mal-humorado comerciante de Yonkers para lhe arranjar uma esposa na cidade grande, em Nova York. Ela arma o encontro com Irene Molloy (Alessandra Verney), a dona de uma chapelaria, mas após armações e confusões envolvendo os noivos e os empregados dele, na cidade grande e Dolly vai tentar conquistar o bom partido. Dolly tenta casar Ambrósio Kemper com Ermengarda, a sobrinha de Horácio. Os figurinos de Fause Haten são belos e funcionais. São 29 atores em cena, cinco deles bailarinos, além de uma orquestra com 16 integrantes, sob direção musical de Carlos Bauzys, que dão força às interpretações belas de Marília e dos atores-cantores. Os cenários permitem a melhor movimentação cênicas, assinados por Renato Theobaldo e Roberto Rolnik, permeados com a iluminação top do Brasil, do grande Paulo César Medeiros.


Crédito: Mariano Czarnobai / PMPA


5 - Natalício Cavalo 


Por fim, chegamos à Natalício Cavalo, o segundo capítulo da Trilogia Festiva, da Cia. Rústica, dirigida por Patrícia Fagundes. A investigação de Patrícia adquire uma grande densidade a cada espetáculo, pois percebe-se a companhia toda mergulhada na pesquisa. Ao tratar da morte de um personagem tão forte, picaresco, imbuído do melhor espírito nativo, gaúcho, o grupo tem um acerto em desconstruir a história e apresentar de forma experimental, muito bem musicalizada, pela arte de Arthur de Faria e pela execução dos atores músicos. Rossendo Rodrigues é um Natalício em prosa, vestido com as roupas e as armas da figura mítica, memorializada pela Rústica. Quando pensamos em qualquer um destes atores em cena, lembramos de pelo menos um ou dois outros grandes trabalhos deles: Heinz Limaverde, Lisandro Belloto, Marcelo Mertins, Marina Mendo, Priscilla Colombi. Os figurinos de Daniel Lion estilizam o gaúcho e o personagem é apresentado em todas as suas nuances, amores, golpes, ameaças de morte e a morte propriamente dita. Um espetáculo para se rever, para atestar cada vez mais a competência desta companhia consolidada que é a Rústica.

quinta-feira, setembro 12, 2013

Botando a boca no pornô



O título desta crítica parece querer o duplo sentido natural quando o assunto é sexo, mas não é, como o famoso xampu Denorex. Linda Lovelace foi realmente uma personagem mais do que real, uma mulher simples que pode ser encontrada na rua, sem silicones ou maquiagens fortes, isto no início dos anos 70. Ela revolucionou o cinema pornô estrelando em 1972 o filme “Garganta Profunda”, de Gerard Damiano, mas o depois da película mais famosa da indústria pornô, assistida por mais de 600 milhões de pessoas, é que justifica o título deste texto, pois Linda literalmente botou a boca na indústria pornô e também na violência e abuso cometido contra as mulheres.


Mas vamos falar de cinema, o filme “Lovelace”, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, tem duas opções narrativas intercaladas. A primeira apresenta a ascensão de Linda Lovelace (a também ascendente Amanda Seyfried) de uma jovem mais recatada, controlada pela mãe católica (Sharon Stone) e o pai ex-policial (Robert Patrick) que protagonizou a famosa cena de sexo oral num filme com enredo e mais divertido do que os filmes do gênero na época. A segunda narrativa apresenta por dentro como ela chegou até o estrelato, à custa de apanhar e ser obrigada a fazer o filme e outros favores sexuais a outros homens por dinheiro pelo marido Chuck Traynor (em mais uma boa atuação de Peter Saarsgard).



Ao contrapor o glamour e o drama, ao colocar o espectador dentro da tortura que foi a vida de Linda, o que gerou até o livro “Provação”, Epstein e Friedman acertaram, bem como na escolha do elenco para personificar algumas celebridades da época. James Franco está divertido como o todo-poderoso da Playboy, Hugh Hefner, e Ron Pritchard ficou uma cópia fiel de Sammy Davis Jr. O elenco ainda tem Hank Azaria como o cineasta Gerry Damiano, Chris Noth como o produtor Anthony Romano, além de Juno Temple, Adam Brody, Wes Bentley, Chloë Sevigny e Carmen Electra.


O filme envolve o espectador no drama real de Linda e a sua tentativa desesperada de soltar o verbo contra a indústria e ao abuso sofrido pelas mulheres à época. Uma história bem contada, a ser vista por todo o público que se interessa por histórias reais de ascensão e queda, pois a vida pode ser glamour durante dias, meses e anos, mas na maior parte do tempo ela pode ser drama. Realidade não faz mal a ninguém e o cinema tem entendido cada vez mais que os blockbusters lotam as salas multiplex, mas não perduram na mente das pessoas, que precisam de mais e mais filmes de ação ou comédias bobas, mas dramas consistentes são cada vez mais necessários e que bom que o cinema americano volta e meia resolve abordar algumas biografias interessantes.





FICHA TÉCNICA
LOVELACE
Diretores: ROB EPSTEIN e JEFFREY FRIEDMAN
Gênero: Drama
Produção: Estados Unidos
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 93 min
Elenco: AMANDA SEYFRIED, PETER SARSGAARD, SHARON STONE, JUNO TEMPLE, ADAM BRODY, CHRIS NOTH, CORY HARDRICT, HANK AZARIA, SARAH HYLAND, BOBBY CANNAVALE, ANNA CAMP, BRIAN GATTAS, CARLY CRAIG, CARMEN ELECTRA, LAURA PREPON, AMANDA SETTON, IZABELLA MIKO, SKYLAR ASTIN,
Estreia: 13 de setembro

Distribuição: Paris Filmes

quinta-feira, agosto 08, 2013

"Nossa música representa a consciência alterada"


Líder do Jefferson Starship, Paul Kantner, fala sobre os shows no Brasil a partir desta quinta e sobre as quase cinco décadas de estrada e novos projetos pessoais e da banda

O psicodelismo e o clima dos festivais do final dos anos 1960 ainda não passaram para este avião loucamente descontrolado que é o Jefferson Starship (originalmente Jefferson Airplane, quando fundado em 1965). O líder de uma das bandas mais cultuadas da geração Woodstock e a maior banda do psicodelismo que marcou os anos 60, Paul Kantner, 72 anos, do Jefferson Starship, ao responder sobre a representação da música da banda de San Francisco, California (EUA) nos dias de hoje enfatiza que “a nossa música representa a consciência alterada, uma elevação saboreando a luz que brilha através da música e das poesias, próxima de uma natureza religiosa; e também desta energia crescente de San Francisco (cidade californiana natal da banda). 

O Jefferson Starship se apresenta pela primeira vez no Brasil, a partir desta quinta, dia 8, quando toca no Manifesto Bar, em São Paulo, a partir das 21h. As apresentações seguem na sexta em São José dos Campos. Em Porto Alegre, a banda tocaria domingo, às 20h, no Teatro do CIEE (Dom Pedro II, 861), mas a baixa procura de ingressos obrigou os produtores a cancelar a apresentação. A banda toca ainda na próxima semana em Florianópolis (12 de agosto), Rio de Janeiro (14), Salvador (15) e Belo Horizonte (18). Sob a liderança de seu fundador Paul Kantner, o som do grupo hoje se assemelha muito a sua origem, com uma sonoridade que mistura música folclórica, psicodelia e muito rock, diferente da tendência que o grupo seguiu nos anos 80.

O grupo Jefferson Airplane surgiu no meio oeste americano, em 1965 e o sucesso estrondoso de "White Rabbit" acabou associando o Airplane a drogas. O Airplane foi a única banda a participar dos três maiores festivais da época – Monterrey, Woodstock e Altamont. Nos anos 70, após discos como Surrealistic Pillow e Crown of Creation, a banda se desintegrou e em 1973, Kantner mais Grace Slick, Marty Balin e David Freiberg, membros do Airplane, mais o baterista John Barbata, o violinista Papa John Creach, Pete Sears e o jovem guitarrista fenômeno Graig Chaquico, juntaram-se no Jefferson Starship, lançando o primeiro "Dragon Fly".

Depois, vieram grandes discos como "Red Octopus" (1975), que recebeu o Disco de Platina, além de "Spitfire" (1976) e "Earth" (1978). A banda gravou até 1984 com "Nuclear Furniture". Depois, Grace Slick seguiu sob o nome de Starship até 1992, quando Katner formou a Jefferson Starship, que com o passar dos anos voltou a ser só Jefferson Starship.  Em atividade desde então a banda é formada atualmente pelos membros originais Paul Kantner (guitarra), Richard Newman (bateria) e David Freiberg (guitarra e vocal), além de Cathy Richardson (vocal), Jude Gold (baixo) e Chris Smith (teclados). Mais sobre a banda no www.jeffersonstarshipsf.com.





Em entrevista a este blogueiro feita inicialmente para o Correio do Povo, Paul Kantner fala do que representa a música da banda atualmente, do repertório, dos projetos e da ferocidade por conhecer o público e a música brasileira.


Textostelona - O que representa a música do Jefferson Starship no contexto atual?
Paul Kantner - A música representa aventura, exploração, alegria, paixão e imaginação. A nossa música representa uma consciência alterada, uma elevação saboreando a luz que brilha através da música e das poesias, próxima de uma natureza religiosa; e também desta energia crescente de San Francisco, a cidade no limite da civilização ocidental, que aponta muito mais do que um caminho: é a fronteira do que você quiser ser. Eu gosto de chamar San Francisco, das 49 milhas quadradas, que são totalmente rodeados pela realidade. Eu estou continuamente tomado pelo que acontece aqui em nossa cidade, seja na área intelectual, emocional, e com o mistério da música e por que e como isso nos afeta e a maneira como vamos fazer as coisas. É o rock and roll caos.

Textostelona - Como será o repertório deste show no Brasil?
Kantner - Tocamos músicas do Jefferson Airplane, do Jefferson Starship, músicas do próprio repertório da vocalista Cathy Richardson, canções do Quicksilver Messenger Service pelo David (Freiberg). Como sempre, eu sou particularmente apaixonado pela ficção científica na nossa música, entre outras coisas. Faremos canções como "Connection", " The Ballad of You and Me and Pooneil", "Crown of Creation", "She Has Funny Cars", "Lawman", "Greasy Heart", "Hyperdrive", "When the Earth Moves Again", "Volunteers","Miracles", "Count of Me", "Find Your Way Back", "Jane", "Fast Buck Freddie", "Fresh Air" e "Pride of Man" do Quicksilver Messenger Service e muito mais.

Textostelona - Quais as principais mudanças da banda nestas quase cinco décadas, desde o início com o Airplane e agora com o Jefferson Starship?
Kantner - Estamos continuamente no modo da alegoria da Caverna de Platão, em que somos constantemente expostos ao novo e a emoções repletas de luz; um alternativo universo quântico, por assim dizer.

Textostelona - O que podemos falar dos vocais de Cathy Richardson?
Kantner - Cathy é uma extraordinária e cuja performance como cantora cresce a cada dia. Ela traz um nível excitante e emocionante de performance para a banda. Para mim ela é sempre uma verdadeira aventura.



Textostelona - Existe uma música favorita da banda ou que resuma o universo do Jefferson Starship?
Kantner - É como perguntar a um pai qual é o seu filho favorito. Não computa na realidade. Canções diferentes em noites diferentes criam novas e inesperadas dimensões, definitivamente surpreendem a mim mesmo, tempo após tempo.

Textostelona - O que vocês sabem sobre o Brasil e a música brasileira?
Kantner - Nada o suficiente. Tenho a intenção de explorar este país e seu povo e também a música brasileira com uma ferocidade inigualável.

Textostelona - Quais os futuros projetos da banda e de Paul Kantner?
Kantner - Estou trabalhando em vários projetos. O primeiro é uma música sobre Maria Madalena, uma de minhas mulheres favoritas, enquanto ela viaja pela antiga Cartago, durante sua viagens desde a "Terra Santa" e para a Gália. Trabalho na canção, "Pooneil Goes to Mars", de ficção científica que explora o movimento "Ocupa" e onde eu gostaria de começar a ocupar. Vou tirar minhas inspirações particularmente de C.S. Lewis, algumas ideias de "Perelandra" e "Out of the Silent Planet". Também estou trabalhando em coleção de canções sobre a guerra civil (de Steven Foster "The Battle Hymn of the Republic"). Trabalhamos num novo álbum de rock do Jefferson Starship e novo álbum de folk da banda, mais à maneira do "Jefferson´s Tree of Liberty", que deve ser constantemente atualizado com o sangue dos patriotas e dos tiranos. Estou escrevendo dois livros. Um é uma coleção de histórias da nossa história, chamado "Histórias da nave-mãe". Outro é um romance de ficção científica, incluindo uma música, chamada "Ice Age".

Texto e entrevista: Luiz Gonzaga Lopes

Crédito das fotos: Michael Gaiman / Divulgação

sexta-feira, junho 21, 2013

Uma mãe para rir e chorar

Filme "Minha Mãe é Uma Peça", com Paulo Gustavo, estreia nesta sexta em 450 salas do Brasil

Crédito: Paprica Fotografia

A atual fase alvissareira das comédias brasileiras nas telas tem mais um capítulo nesta sexta-feira, quando será lançado em 450 salas do país o filme "Minha Mãe é uma Peça", baseado na peça homônima do humorista Paulo Gustavo, que é protagonista e roteirista da produção dirigida pelo gaúcho André Pellenz. No elenco, estão também Ingrid Guimarães, Herson Capri, Monica Martelli, Marcus Majella, Alexandra Richter, Samantha Schmutz, Sueli Franco, além de Mariana Xavier e o gaúcho de Três de Maio, Rodrigo Pandolfo, que vivem os filhos da simpática, histriônica e que morreria por seus filhos, a carismática Dona Hermínia.

Adaptação da peça homônima que levou mais de um milhão de espectadores aos teatros pelo Brasil. O filme orçado em R$ 5,5 milhões, acompanha as peripécias hilárias de Dona Hermínia, uma mulher de meia idade, aposentada e sozinha, que se vê à procura do que fazer, uma vez que seus filhos estão crescendo e não precisam mais de seus excessivos cuidados e broncas, num cenário que poderia ser Tóquio, Paris, Nova Iorque ou Rio de Janeiro, mas se passa mesmo em Niterói.

Dona Hermínia (Paulo Gustavo), uma mulher de meia idade, aposentada e sozinha, tem como preocupação maior cuidar dos filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo). Mas agora que eles cresceram e não param de confrontá-la, a solução será dar um gelo e sair de casa. Sem um trabalho ou um companheiro, a dona de casa resolve desabafar com a tia idosa (Sueli Franco). Esta personagem exagerada inspirada na mãe de Paulo Gustavo, dona Dea, acaba cativando o público pela identidade mais básica daquela mãe que vive pelos filhos e se esquece de si, acaba sendo rotulada de chata, mas o amor sempre prevalece, numa comédia com pequenos tons de drama. 

A adaptação para o cinema dá vida aos personagens mencionados por Dona Hermínia na peça. Conhecemos sua rival Soraya (Ingrid Guimarães), a atual mulher de seu ex-marido, o seu ex Carlos Alberto (Herson Capri), além da hilária empregada Valdéia (Samantha Schmütz), a irmã Iesa (Alexandra Richter), sua tia Zélia (Suely Franco) e seus filhos Marcelina (Mariana Xavier), Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Garib (Bruno Bebianno).

Crédito: Paprica Fotografia


O filme chega aos cinemas pelo mesmo time que encabeça o programa '220 Volts', do Multishow: dirigido por André Pellenz e produzido por Iafa Britz. O roteiro é do próprio Paulo Gustavo e Fil Braz, com colaboração de Rafael Dragaud. "A peça possui uma temática universal, mães neuróticas, possessivas, amorosas, todo mundo se reconhece na personagem da Dona Hermínia, ou a mãe, a sogra, uma tia. Quando assisti ao espetáculo não tive dúvida de que tinha tudo para virar um filme", lembra a produtora Iafa Britz.


Em entrevista para o Correio do Povo, reproduzida na íntegra por este blogueiro, o roteirista protagonista Paulo Gustavo, e os gaúchos André Pellenz (diretor) e Rodrigo Pandolfo (ator) falam sobre esta comédia cativante que estreia nesta sexta nos cinemas do Brasil.  


Textostelona -  Quem é esta mãe que virou uma peça e um filme?
Paulo Gustavo - A Dona Hermínia é uma mulher de meia idade, o marido a largou por uma mulher mais jovem e ela fica em casa vivendo para os filhos. Ela é sozinha, mas é muito divertida, muito amável e cativante. A personagem é inspirada na minha mãe, dona Dea. Boa parte das histórias que estão no filme são reais, como a morte do meu primo e a ida a boate para me trazer de volta para casa, que no filme se dá com a Marcelina".  

Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

Textostelona - Como foi transpor a peça para o cinema?
André Pellenz - O filme mantém o espírito da personagem do teatro, mas também vai agradar àqueles que não conhecem a história. O público terá oportunidade de conhecer o passado de Dona Hermínia, e finalmente ver os filhos, o ex-marido, e todo o hilário universo que a cerca - além de novos personagens. A Dona Hermínia da peça é diferente. Se você ler a peça é um drama. A gente trouxe Niterói porque as coisas aconteceram lá. Na peça é um monólogo, a voz dos filhos é gravada. A gente não tentou fugir da peça de teatro.


Textostelona - Os filhos dão grande credibilidade à história. Como foi viver um dos filhos, o Juliano?
Rodrigo Pandolfo - Para criar a referência do momento presente com 21 anos e fazer um flash back como adolescentes, rolou um pânico tanto para mim como para a Mariana Xavier. Existiu um medo de ficar estereotipado. Tivemos ajuda da preparadora de elenco Luiza Thiré e conseguimos fazer os personagens adolescentes serem críveis, pois tenho 28 anos e a Mariana, 33. Eu e Mariana já tínhamos trabalhado junto na Cia. de Teatro Escaramucha em 2007 e sempre queríamos trabalhar junto no cinema. O filme é acima de tudo humano, tem personagens consistentes, as histórias exalam verdade, comunicam de forma verídica. A minha inspiração foi o próprio Paulo Gustavo, pois eu sou filho desta mãe, que é inspirada na dona Dea, mas sei que não é uma biografia, são histórias criadas a partir de situações vividas. A minha ideia inicial era que ele fosse careta, depois passei a um gay mais comum, que pudesse causar mais identificação do público com o personagem.  



quinta-feira, junho 20, 2013

Rodrigo Rosp é um fingidor em novo livro



Criado inicialmente para ser um livro de contos, mas que ultrapassa as fronteiras deste gênero, para ser uma espécie de comédia em cenas, uma peça teatral. Este é o livro "Fingidores (comédia em nove cenas"), de Rodrigo Rosp, da Não Editora, que terá lançamento nesta quinta, às 19h, no Cult Bar (Comendador Caminha, 348), no bairro Moinhos de Vento.

Nos contos escritos em estilo de peça teatral, ou seja, nas nove cenas, conduzidas pelo mesmo personagem, Caio é um sujeito neurótico e sabotado por suas inseguranças, que usa da ironia, do cinismo e do humor diante da morte iminente, de um amor por uma mulher mais jovem, no consultório do dentista e até diante do outro lado da vida.  Rosp nasceu em 3 de dezembro de 1975, é pós-graduado em Estudos Linguísticos do Texto na Ufrgs e cursa mestrado em Escrita Criativa na PUCRS. Na orelha, o escritor
Reginaldo Pujol Filho desvenda os “fingimentos” da obra: “o livro se finge de contos, mas a gente abre as primeiras páginas e vê ele disfarçado de teatro. E talvez aí esteja a chave: Fingidores é um texto-ator".

Em entrevista para o Correio do Povo, reproduzida na íntegra aqui no blog textostelona, o autor fala sobre a criação do livro, o personagem principal, os coadjuvantes e sobre a busca da qualidade no texto literário:

Textostelona - Como foi a concepção de 'Fingidores'?
Rodrigo Rosp - Eu criei um conto em 2010 com este personagem, o Caio. Depois, foi escrever outro conto e lá estava um personagem muito parecido. Decidi inicialmente escrever um livro de contos, mas quando eu cursei a disciplina de Teorias do Drama, com Antônio Hohlfeldt, comecei a ver as rubricas brincalhonas de Nelson Rodrigues e decidi fazer a mudança, com marcações que são encenáveis, no estilo de cenas de uma peça teatral.

Textostelona - O personagem Caio tem uma força e uma insegurança próprias de um homem culto que se depara com a meia idade. Explique-nos a criação de Caio.
Rosp - O Caio é um personagem neurótico, irônico, niilista, cético, cínico. Ele tem uma influência forte dos universos de Nelson Rodrigues e Woody Allen. Quando comecei a escrever, o personagem foi se desenvolvendo sozinho. Quanto aos coadjuvantes, alguns acabam aparecendo de um conto (cena) para outro, como a Tati e o Orteman, mas não entrei na paranoia de repeti-los para amarrar as histórias.



Textostelona - Das coisas criativas do livro, a capa e as fotos dos intervalos entre capítulos talvez sejam os mais originais. Como foi a sacada de pessoas assistindo a cenas e suas reações?
Rosp - Isto foi um trabalho em conjunto com o Samir Machado de Machado (capa) e o Guilherme Smee (projeto gráfico). A gente partiu da imagem da servidão voluntária da Escola de Frankfurt e decidimos produzir as fotos. Convidei escritores e disse que ia ser uma foto histórica. Trinta e oito aderiram e fizemos as fotos no GNC Moinhos, com os escritores assistindo e tendo diversas reações. Assim conseguimos brincar com as fotos e interagir com cada uma das cenas.


Textostelona - Um dos personagens coadjuvantes, o Mércio Carrão, é um escritor de sucesso. Qual a tua opinião sobre a busca do sucesso na literatura?
Rosp - Tem uma coisa que eu sempre defendi na Não Editora que é a busca da qualidade do nosso texto, que possa ter várias camadas de leitura, mas sempre tentamos vender este texto de qualidade. Na editora, não temos a visão de que o cara que ama a literatura tem que estar na sarjeta, à margem. Eu defendo que se possa ter mais qualidade nos produtos culturais. No cinema, Quentin Tarantino e Woody Allen conseguem ter qualidade e ser comerciais. Também tem o outro lado daqueles que não se dedicam, gente que tenta ser o Mércio, o escritor de sucesso, mas não consegue.

Crédito da foto: Mari Lopes

quinta-feira, junho 06, 2013

Um Gatsby nem tão grandioso assim




A quarta versão para o cinema de “O Grande Gatsby”, romance de Francis Scott Fitzgerald feita por Baz Luhrman (“Moulin Rouge, um Amor em Vermelho”) faz jus às críticas recebidas na sua estreia norte-americana e também do Festival de Cannes. O filme acerta na estética e peca no drama. É uma aula de estética cinematográfica, auxiliada por planos abertos e aéreos em 3D e nas reproduções das festas luxuosas do excêntrico milionário Jay Gatsby (o cada vez mais camaleônico e orgânico Leonardo Di Caprio), mas não tem a profundidade e a densidade dramatúrgica que o romance necessitava.

A trama acompanha o aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire) e seu deslumbre com a sociedade nova-iorquina, quando deixa o Centro-Oeste americano e chega a Nova Iorque em 1922. Na busca do sonho americano, com menos moral e mais jazz, mais luxo e contrabando. Nick é vizinho de Gatsby, e vive do outro lado da baía da mansão da prima Daisy Buchanan (uma convincente e apaixonante atuação de Carey Mulligan) e seu marido Tom Buchanan (Joel Edgerton). Nick é atraído para este mundo de ilusão e festas luxuosas na casa de Gatsby e se vê em meio ao triângulo amoroso entre Tom, Daisy e Gatsby, que namoraram no passado.



Gatsby construiu um mundo de riqueza e de sonho, mas nada seria se não fosse o sonho de retomar a amada. Narrando a história desde o momento lúdico ao trágico, Nick vai escrevendo um conto de amor impossível. Destaque também para a trilha sonora que atualiza para versões de rap, R&B e eletrônica alguns clássicos do jazz como "Rhapsody in Blue", de George Gershwin ou "Let´s Misbehave", de Cole Porter, em performance de Irving Aaronson and his Commanders, além do grande Jay Z e de Lana Del Rey. Os números do filme impressionam quando o assunto é arte, pois foram 288 mil cristais para o lustre da mansão de Gatsby, 1,4 mil metros de renda e tecidos para os figurinos e quase mil figurantes.

O elenco tem outros bons nomes como Isla Fisher (Mirtie Wilson), Jason Clarke (George Wilson), Elizabeth Debicki (a golfista e socialite Jordan Baker) e a lenda de Bollywood, o ator Amitabh Bachchan (o gângster Meyer Wolfsheim).

terça-feira, junho 04, 2013

Era uma vez no Cerrado


Protagonistas Fabrício Boliveira e Ísis Valverde

Crédito da foto: Europa Filmes

Um conjunto de referências que vai de Sérgio Leone a Shakespeare, mas nem isto é tão importante quanto elogiar o acerto do diretor René Sampaio em escolher uma versão parcial da letra de Faroeste Caboclo, música de Renato Russo, e não a sua íntegra, o que simplificou e deu mais humanidade a um dos melhores filmes brasileiros até então, destes considerados blockbusters. Optando pela narrativa de construção progressiva do personagem desde uma situação de vingança da morte do pai (Flavio Bauraqui) e João (uma grande atuação de Fabrício Boliveira) em Santo Cristo e a vida no presídio até a chance de ir a Brasília visitar o primo Pablo (o sempre bem Cesar Troncoso, de "O Banheiro do Papa"), o filme chegou próximo dos 600 mil espectadores na sua primeira semana em cartaz. Apostando no amor proibido entre Maria Lucia (a cada vez mais convincente e sensual Ísis Valverde) e João (olha o Romeu e Julieta aí), no antagonismo entre os personagens, na abordagem da rebeldia sem causa, das drogas e da vida um pouco sem sentido da juventude de Brasília nos anos 80, além da estratificação social, o filme tem mais acertos do que erros, contando ainda com um elenco bem escolhido com nomes como Antonio Calloni, Flavio Bauraqui e Marcos Paulo, no seu último trabalho para o cinema antes da morte no final de  2012.

O filme conta a saga de João de Santo Cristo desde sua infância no interior da Bahia até sua ascenção quando vai tentar a sorte em Brasília. Ajudado pelo primo Pablo, um peruano, que vende drogas da Bolívia, João vai trabalhar numa carpintaria, mas se envolve com o tráfico de drogas. Um dia, fugindo da polícia, conhece Maria Lúcia, filha de um senador (Marcos Paulo), que estuda arquitetura e vive uma vida meio deslocada em seu meio. A paixão entre os dois é arrebatadora, mas o amor entre eles é impossível (ele negro e pobre, ela branca e filha de senador). Para ascender, João volta a vender drogas e incomoda Jeremias (Felipe Abib), que também deseja Maria Lúcia e é protegido por um policial (o grande Antonio Calloni). Por centrar no amor, na violência e na vingança, Sampaio acaba deixando a parte mais crítica e política da música de lado - "e ouvia as sete horas o noticiário que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar" - aparecendo em alguns flashes pela manifestação da imprensa de jornais e telejornais.

Destaque especial para a bela trilha de Philippe Seabra - guitarrista e vocalista da extinta banda, Plebe Rude, que insere uma música da sua banda Até Quando Esperar e gravou com a banda a música do Legião, Tédio (Com um T bem Grande pra Você), numa cena do filme onde estaria tocando a Aborto Elétrico, banda pré-Legião, formada por Renato Russo, Fê e Flávio Lemos, que depois formaram a Capital Inicial (abordada em Somos Tão Jovens). O acerto de Sampaio foi não usar a música Faroeste Caboclo durante o filme e sim nos créditos finais, após a trágica morte triangular digna de um filme de Sérgio Leone, como Era uma Vez no Oeste.

quinta-feira, maio 16, 2013

Ernani Ssó: o fiel escudeiro de Cervantes




Traduzir não signfica necessariamente trair, segundo o tradutor Paulo Henriques Britto, autor do instigante e esclarecedor “A Tradução Literária” (Civilização Brasileira). Em entrevista aos Cadernos de Tradução da UFSC, Britto diz que “a meta do trabalho do tradutor é, ou deve ser, a meu ver, a transparência”. A programação da 6ª FestiPoa Literária prevê para esta quinta-feira uma mesa com o mais novo tradutor de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes (Penguin/Companhia das Letras), do espanhol ao português, o gaúcho de Bom Jesus Ernani Ssó, de 60 anos. A tradução da obra, com 1.328 páginas, lançada no final de 2012, é quixotesca e prazerosa para Ernani, que sonhava "em poder lê-lo sem ter de consultar o dicionário de três em três linhas". A mesa "Reflexões de um Escudeiro de Cervantes desta quinta-feira, às 18h30min, terá o autor gaúcho Reginaldo Pujol Filho entrevistando Ernani Ssó, no auditório Luís Cosme da CCMQ (Andradas, 736, 4º andar).

A quinta-feira na FestiPoa será de intensa programação de Humor e HQs, das 12h30min às 22h30min, na CCMQ e terá ainda a mesa "Cosas que te Pasan si Estás Vivo", com o cartunista argentino Liniers e os gaúchos Adão Iturrusgarai e Fabio Zimbres, sob mediação de Leo Felipe, às 20h, no auditório Luís Cosme.

Em entrevista a este blogueiro para o Correio do Povo, Ernani Ssó, autor de livros como "O Sempre Lembrado" (1989) e "O Emblema da Sombra" (1996), fala sobre a quixotesca tradução, sobre projetos e a importância da FestiPoa Literária para a literatura gaúcha e brasileira.


Textostelona - A decisão de encarar a hercúlea tradução de Dom Quixote se deu por qual motivo?
Ernani Ssó - Eu amo esse livro. E, como ele é de leitura difícil por causa da linguagem arcaica, sempre sonhei em poder lê-lo sem ter de consultar o dicionário de três em três linhas. Quer dizer, tratei de achar uma editora que me pagasse a tradução pra eu poder ler depois descansadamente.

Textostelona  - Em que aspecto Ernani Ssó foi  fiel escudeiro de Cervantes nesta tradução de Dom Quixote para a Penguin/Companhia das Letras?
Ernani - Em vários aspectos, e todos perigosos. Primeiro: Cervantes é de uma fluência extraordinária, mas se você traduzir literalmente, o texto fica desconexo e arrastado, porque a construção da frase, a pontuação, que funcionam em espanhol, quase nunca funcionam em português. Então tive de achar o ritmo e a voz de Cervantes em português. Segundo: o humor. Cervantes ataca em vários níveis: cenas, jogos de palavras, ditados, descrições irônicas, alusões. Se você não tratar disso tudo, frase a frase, caso a caso, às vezes até tendo de recriar, a graça se perde. Não penso que o tradutor tenha de ser humorista pra enfrentar Cervantes, mas se ele não tiver noção nenhuma de humor, o Quixote vai passar mal, como ficou tristemente demonstrado na tradução mais popular no Brasil, a dos viscondes de Castilho e Azevedo, que só conseguem ser engraçados involuntariamente, com alguns erros bizarros. Pra mim era um ponto de honra que Dom Quixote se mantivesse engraçado em português. Que sentido teria apresentar um dos grandes livros de humor, talvez o maior, sem seu humor? Terceiro: legibilidade. Dom Quixote foi best-seller no seu tempo. Era lido por qualquer pessoa medianamente alfabetizada. Hoje, é um livro difícil inclusive pros espanhóis, porque nesses quatrocentos anos a linguagem mudou muito. Palavras perderam o sentido, ganharam outros, se tornaram pomposas, ou ridículas, ou obscuras. Então, uma das minhas batalhas foi manter o texto com um ar antigo sem que isso atrapalhasse a compreensão do leitor comum. Se um pajem entendia Cervantes há quatrocentos anos, por que um estudante de letras deve ter dificuldade hoje?




Textostelona - Quando falas na compreensão do leitor comum, queres dizer?
Ernani - Entenda-se: quando falo em compreensão, não digo apenas que o leitor não precisa consultar o dicionário a todo momento. Pegue-se a palavra porqueiro ou porcariço, por exemplo. Cervantes não a usa pra fazer graça, porque é ridícula. Ela era neutra naquele tempo. Cervantes apenas informava a profissão de um homem. Hoje essa palavra chama uma atenção indevida na frase. Daí eu preferir um termo mais incolor como guardador de porcos. Há dezenas e dezenas de palavras que hoje seriam compreendidas num clima completamente diferente da intenção original. Não foi nada fácil lidar com elas. A fidelidade ao texto original se refere menos ao sentido direto, ao sentido informativo, digamos, que ao sentido que vem embutido na linguagem, no ritmo, na atmosfera, na sonoridade. Então, é muito menos o que Cervantes ou Shakespeare disse e muito mais como Cervantes ou Shakespeare disse. É preciso achar na língua da tradução o ponto mais próximo desse como disse. Um tradutor não pode ser um burocrata. Ele tem que ter ouvido, astúcia e bom senso, matérias, temo, que dificilmente se ensinam nas aulas de tradução.

Textostelona - No livro A tradução literária, Paulo Henriques Britto aborda duas estratégias a partir da dicotomia estabelecida pelo alemão Friedrich Schleiermacher sobre os métodos de tradução - a domesticação ou a estrangeirização. Qual a tua preferência? 
Ernani - Eu sou pela domesticação, o que, evidentemente, não quer dizer que eu vá botar Sancho Pança ou dom Quixote falando como personagens de Nélson Rodrigues. O território da linguagem é vasto. Quanto mais o tradutor o conhecer, melhor, claro. Diante de uma expressão ou de uma frase mais complicada, eu primeiro trato de compreender e em segundo lugar me pergunto: como nós, brasileiros, dizemos isso? Há uma cena no Quixote em que a mulher de Sancho diz pra ele mandar o filho com muito dinheiro e que ela o mandará “vestido como um palmito”. Houve um tradutor que traduziu isso literalmente. É uma bela estrangeirização, não? Eu modestamente preferi botar o filho do Sancho endomingado.
Detesto traduções em que vemos a língua original sob cada frase. Traduções pro portunhol, como acontece tão seguido aqui no Brasil. Ou essa praga que se vê todo dia em livros ou filmes em inglês: ele deu o seu melhor. Além de não fazer sentido em português, soa muito feio.

Textostelona - Quando e de que forma o Ernani Ssó tradutor dará novamente lugar ao escritor? Há algum novo projeto chegando à luz? 
Ernani - Ano passado saiu, pela Edelbra, No escuro — Sete histórias tenebrosas de bruxa. Agora, em julho, deve sair o segundo volume com mais sete histórias tenebrosas.  Sim, é pra criança e pra adultos que se lembram da infância. Uma mistura complicada de terror e humor. Em fevereiro saiu, pela Artes & Ofícios, Diabos, ogros e princesas. São quatro contos de fadas. Eu sou louco por contos de fadas desde sempre. Enquanto isso, escrevo um romance pra adultos, com outra mistura complicada, sexo e humor. Vamos ver no que dá.



Textostelona - Quais as melhores traduções já feitas do espanhol ao português?
Ernani - Pra falar bem a verdade, gosto de muito poucas, como a de Conversa na Catedral, do Mario Vargas Llosa, feita pela Olga Savary. Há um problema crônico em nossas traduções: o portunhol. Como o espanhol se parece com o português, muita gente pensa que sabe espanhol, daí cai nas armadilhas mais bobas, como Remy Gorga Filho traduzindo “oso” (urso) pra “osso”, que em espanhol é “hueso”, ou Carlos Nejar traduzindo “una oscura pasionaria” (uma escura passiflora, ou flor-da-paixão, ou flor de maracujá) por “um escuro livro da paixão”. Alguém já disse que você lê o Borges em português e é como ver um anúncio de néon apagado. A informação está ali, mas cadê o brilho, a cor? O diabo é que às vezes nem a informação está. Merecíamos mais profissionalismo.

Textostelona - Qual a importância da FestiPoa Literária para a literatura do RS, caro "sempre lembrado" Ernani (referência ao seu clássico livro de 1989, "O Sempre Lembrado")? 
Ernani - Eu, sempre lembrado? Ao contrário, sou o escritor gaúcho menos lembrado. Talvez com razão. Quanto à FestiPoa, a importância começa no nome, que lembra festa, festival. A literatura, como disse Borges, é uma das formas da felicidade. Vamos deixar então a chatice e a solenidade pros chás da academia e outros velórios.


Crédito das fotos: Lúcio Hoppe da Rosa / Divulgação

sexta-feira, maio 10, 2013

.Altair Martins: o anfitrião do banquete literário



Crédito das fotos: Valmir Michelon / Divulgação

Como o rei de Tebas na mitologia grega, chamado de Anfitrião, o escritor gaúcho Altair Martins terá a função de receber e divulgar na 6ª Festa Literária de Porto Alegre os mais de 100 autores de todo o país e demais participantes do evento. O evento será iniciado nesta sexta, às 18h30min, com a Missa para a Igreja do Livro Transformador, com Luiz Ruffato, no Auditório Luís Cosme, da Casa de Cultura Mario Quintana, seguido por mesa com o escritor homenageado Cristovão Tezza, com Altair Martins e Luiz Ruffato, às 19h, no mesmo local. 

Nascido em Porto Alegre no ano de 1975, Altair Martins é romancista e contista, cujo primeiro livro publicado foi o de contos "Como se Moesse Ferro" (WS, 1999), mas desde 1994 ele vem acumulando prêmios por sua obra, sendo o primeiro pelo próprio conto "Como se Moesse Ferro", em 1994, com o 1º lugar no Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Radio France Internationale.  Os seus dois livros mais recentes, o romance "A Parede no Escuro" (Record 2008) e o de contos "Enquanto Água" (Record, 2011) arrebataram os principais prêmios literários de 2008 para cá. O romance levou o Prêmio São Paulo de Literatura, Livro do Ano no  Açorianos de Literatura, além do Destaque Ficção Rede Record e Correio do Povo na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2008. Já a obra de contos foi finalista do Prêmio Jabuti em 2012, vencedora do Livro do Ano do Açorianos e mais recentemente do Prêmio Moacyr Scliar de Literatura, que será entregue segunda-feira, às 14h30min,no Palácio Piratini.          

Nesta entrevista concedida a este blogueiro para o Correio do Povo, Altair Martins fala sobre a função de escritor-anfitrião, que, segundo ele, "é algo tão novo que terei de inventar minha participação", além de abordar o escritor homenageado Cristovão Tezza, as premiações e a importância de eventos do porte da FestiPoa Literária. 

Pergunta  – Das diversas designações e funções que te couberam nesta uma década e meia como escritor atuante, a de anfitrião é algo relativamente novo. Explique-nos como vai ser esta incumbência na FestiPoa Literária.
Altair Martins - Bem, a incumbência do anfitrião é algo tão novo que terei de inventar minha participação. O Fernando Ramos me deixou bem livre para isso. Antes de tudo, penso que o anfitrião tem de ser o escudeiro do homenageado. Por isso, me armei: refiz leituras da obra do Cristovão Tezza. Desde já, estamos a divulgar sua escrita, entre leitores e nos meios de comunicação. Na pré-estreia, por exemplo, uma apresentação dos principais pontos de O espírito da prosa foi mostrada no teatro do SESC. E outras virão no decorrer da programação.

Pergunta – O fato de Cristovão Tezza ser o escritor homenageado, além das indiscutíveis qualidades literárias, parece-nos de suma importância por trazer este dilema entre produção literária e acadêmica, contextualizado pela própria trajetória de Tezza e na obra O Espírito da Prosa. Qual a tua análise desta assertiva?
Altair - Este é um dos pontos de contato entre a minha trajetória e a do Tezza. O escritor-professor (ou seria o contrário?) foi uma das alternativas ao fenômeno do escritor-funcionário público, com uma vantagem: no trabalho, estamos a lidar com a matéria da linguagem, seja prismada na leitura seja na análise crítica e até científica. O aventureiro da palavra acabou dando lugar ao estudioso, e ainda estamos a avaliar os efeitos disso tudo.



Pergunta – A Parede no Escuro e Enquanto Água colheram prêmios significativos no horizonte nacional como o Prêmio São Paulo e o Moacyr Scliar, com universos temáticos, gêneros e formas de narrar distintas. O Altair se reinventa de que forma a cada livro?
Altair - Depois de A Parede no Escuro me senti numa encruzilhada: meu projeto de ser escritor seguiria a trilha aberta pelo romance (os vários narradores entrecruzados) ou eu me reinventaria. Optei pela segunda via. Pretendo (e é bem pretensão) que em cada livro o meus leitores (não são muitos; me leiam por favor) me procurem até reconhecer que estou ali justamente por não estar. Mudar de gênero é sempre um caminho; repensar a própria escrita é outro. Não repito narradores. Não gostaria de repetir livros.

Pergunta – Fale-nos sobre o seu novo projeto. Pelo que sabemos tinha o título de Terra Avulsa e estaria para ser publicado ainda este ano.
Altair - Terra avulsa será defendido no doutorado da UFRGS logo, juntamente com algumas teses sobre o romance contemporâneo, nas quais discuto narrador, espaço, herói, autoria, entre outros temas. O contrato do romance já está assinado. No momento refaço fotos que participam do texto e cuja resolução não serve. O livro passará ainda por algumas revisões. Minha ideia é a de que saia até agosto. Caso contrário, penso em publicá-lo só em 2014. Sou chato e não tenho pressa.

Pergunta – Eventos como o FestiPoa Literária nos fazem exultar pela abrangência e capacidade de debater prementes questões da literatura. Como analisas este tipo de evento?
Altair - A FestiPoa nasceu democraticamente, sob organização desse louco maravilhoso que é o Fernando Ramos, que soube agregar os quixotes do livro gaúcho. No começo, falávamos para nós mesmos. Mas a guerrilha deu efeito: hoje, são convidados nacionais e internacionais, mais de cem, multiplicando atividades que vão da leitura (da formação de leitores), do debate, da apresentação, das oficinas, às performances – uma característica desde a primeira festa. E tudo gratuito, no friozinho de maio, em horário agradável de happy hour (a maioria dos eventos). Serão dez dias maravilhosos.

quinta-feira, maio 09, 2013

"O livro pode transformar as pessoas"

Crédito das fotos: Tomás Rangel / Divulgação

A 6ª Festa Literária de Porto Alegre, Festpoa, está batendo à porta da capital gaúcha. Na sexta-feira, serão iniciados os trabalhos de um dos grandes eventos de literatura da cidade, às 18h30min, no Auditório Luís Cosme, da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736, 4º andar). Fará parte do evento a "Missa para a Igreja do Livro Transformador", com o escritor mineiro de Cataguases radicado em São Paulo, Luiz Ruffato, de 52 anos. O ensinamento do autor, entrevistado por este blogueiro para o Correio do Povo, é: "O livro pode transformar as pessoas".

Ruffato é uma daquelas pessoas cujo destino destino seria de rotina e desesperança, pois veio de família pobre, de pai e mãe semianalfabetos, até que a leitura de um livro (Bábi Iar, de Anatoly Kusnetsov) aos 12 anos transformou a sua vida. O movimento da Igreja do Livro Transformador consiste em depoimentos de escritores e pessoas em geral sobre o livro que transformou suas vidas, em vídeos veiculados pelo youtube e redes sociais. 

Também na sexta, 19h, no Auditório Luís Cosme, Ruffato participa de mesa com o escritor homenageado da FestiPoa Literária, Cristovão Tezza, e com o anfitrião Altair Martins. De 2001 a 2012, o escritor mostrou a preocupação em falar das figuras comuns da classe média baixa e seus destinos numa sociedade cada vez mais excludente, com obras do quilate da premiada "Eles Eram Muitos Cavalos", de 2001, e da série "Inferno Provisório", com cinco livros, o último publicado em 2012: "Domingos sem Deus". Em entrevista a este blogueiro para o Correio do Povo, Ruffato fala de assuntos desde a transformação de uma pessoa pelo livro até sobre a amizade e admiração pelo homenageado Cristovão Tezza. 



Pergunta - Na FestiPoa Literária, a tua primeira atividade será a Missa para a Igreja do Livro Transformador. Esclareça-nos o que é este movimento. 

Luiz Ruffato - Na verdade, toda esta ideia nasceu quase de uma brincadeira. Como participo muito de feiras e eventos literários, sempre conto a minha história, fui operário têxtil, torneiro mecânico, com pai e mãe emianalfabetos, nascido em Cataguases (MG) e o livro que transformou a minha vida aos 12 anos de idade foi "Bábi Iar", do russo, na época ucraniano, Anatoly Kusnetsov, que tratava do massacre de judeus pelos alemães durante a Segunda Guerra. O livro realmente transformou a minha vida e pode transformar as pessoas. Numa mesa em Curitiba, com o Rogério Pereira, do Rascunho, uma pessoa se apresentou, Emanuele, e resolveu fazer disto uma coisa série. Gravei o depoimento em Curitiba, que virou a sede mundial. 

Pergunta - No Brasil, o ambiente para o livro, a leitura e a literatura não é dos melhores?
Ruffato -
 Na verdade, no nosso país a destinação é quase sempre trágica. Algumas pessoas são privilegidas, pois acesso à saúde, educação e leitura são privilégios. Sobre a leitura, a elite sempre deixou claro que era uma exclusividade dela. Não é obrigatório que se goste de ler, mas que pelo menos se tenha o acesso. Na escola, o destino nunca foi o de se tornar um país de leitores. O professores de Português e de Línguas não gostam de literatura. A academia, as universidades, talvez gostem de teoria literária, mas nem sempre de literatura. Quando digo que leio 70 ou 80 livros por ano, as pessoas me olham como um extraterrestre. 

Pergunta - Quando é que foi lapidado o escritor em Luiz Ruffato?
Ruffato -
 A minha decisão de me tornar escritor é evidentemente política. O fato de eu desistir de ser torneiro mecânico com formação no Senai para fazer jornalismo foi considerado estranhíssimo no meu meio. Eu via na literatura brasileira uma temática ligada à globalidade no mundo rural, todas as classes sociais incluídas, os ricos, a burguesia, as classe médias alta e média e também os bandidos, proletariado, favelado estereotipado, mas a classe média baixa não existia na literatura brasileira. Era tão pouca gente escrevendo sobre o tema que mal dava para encher uma Kombi. Era quase uma obrigação minha e os meus oito livros de prosa, de ficção, trataram da classe média baixa, da pessoa comum, desesperançada, produto da saída do meio rural para o industrial da década de 50 do século XX para cá, que é a maioria da população brasileira. 

Pergunta - O que podes dizer do amigo e homenageado da FestiPoa Literária, Cristovão Tezza?
Ruffato - 
Na verdade, a gente é bem amigo. Na feiras e festivais literários, alguns escritores acabam se reunindo por grupos de afinidades. Gosto muito da obra do Tezza. Ele tem uma obra consistente do ponto de vista literário. A minha preocupação é entender a sociedade brasileira como um todo. Os personagens deles diferem dos meus. São personagens de classe média mas são muito bem resolvidos, têm uma visão bastante crítica da sociedade, só que por outro ângulo. Ele tem dois ou três livros absolutamente admiráveis. Cito "O Fantasma da Infância", como exemplo, e também os seus contos. É um dos caras que melhor trabalha com a autorreflexão em sua obra. 

Pergunta - Gostaria que você falasse da sua relação com Porto Alegre?
Ruffato - 
Eu tenho várias ligações. A primeira é evidente. Porto Alegre é a única cidade do país que eu moraria, fora São Paulo. Na cidade, você tem uma preocupação com o cidadão como poucas cidades no país. O transporte público, se não é o melhor, funciona. Tem um rio fantástico (o Guaíba). O índice de leitura é quase o dobro do resto do país. Tenho uma estatística minha que depois do Rio de Janeiro é o lugar que mais estuda e discute a minha obra, além de ter uma literatura exuberante. O livro "Os Ratos", de Dyonelio Machado é uma obra-prima, muito subestimada no Brasil. 

Pergunta - O que o forno de Ruffato prepara para os seus leitores?
Ruffato -
 O meu projeto literário até então foi muito claro, mas com "Domingos sem Deus" éu dei por encerrada esta fase. Estou trabalhando num projeto sob o título de "Flores Artificiais". É um conjunto de histórias, todas sendo ouvidas por um personagem (protagonista) em vários lugares do mundo. As duas únicas relações com o meu trabalho até então são o experimentalismo formal e a questão de pertencimento dos personagens. Eles estão todos deslocados no espaço - uma francesa em Buenos Aires, um inglês na África, um português em Angola e assim por diante.