quinta-feira, março 20, 2014

A voz e as canções de protesto em três línguas de Joan Baez

Crédito da foto: Fabiano do Amaral / Correio do Povo
Em um mês onde muitos brasileiros querem lembrar para esquecer ou revisar os anos 1960, por causa do golpe de 1964, uma das principais vozes do ativismo político pela música daqueles anos mágicos nos Estados Unidos e Europa e de chumbo no Brasil, fez um show emocionante, irrepreensível e recheado de canções de protesto em inglês, espanhol e português durante 1h23min, na noite desta quarta-feira, dia 19 de março, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre.

Após um curto show de abertura da gaúcha Vanessa Longoni, que apresentou músicas dos seus dois CDs, Ouro de Oslo e Canção para Voar, a musa da contracultura com 55 anos de carreira, Joan Baez, de 73 anos, subiu ao palco às 21h15min, com o seu violão, a sua voz, o seu carisma, acompanhada dos músicos Dirk Powell (acordeon, violões, banjo e piano) e Gabriel Harris (percussão). Um pouco atrapalhada e contando com o apoio da assistente, técnica afinação de violão e também vocalista Grace Stumberg, Joan leu em português o tema da primeira música God is God, de autoria de Steve Earle, música que abre o mais recente disco da cantora, compositora e instrumentista, “Day After Tomorrow”, de 2008. “Eu acredito em profecias e milagres. Há um só Deus. Deus é Deus”, disse.

Logo após disparou a primeira do ex-namorado da década de 60, Bob Dylan, “Farewell Angelina”, seguindo também com a clássica balada folk “Lily of the West”, seguida da hispano “La Llorona” e da música de Woody Guthrie, “Deportees”, que fala de emigrantes mexicanos que morrem no avião quando são deportados dos Estados Unidos de volta ao México. Na sexta  música, novamente o espectro de Dylan acompanhou Joan com a execução de It´s All Over Now Baby Blue, (que ganhou no Brasil uma linda versão chamada Negro Amor, de Péricles Cavalcanti e Caetano Veloso, gravada por nomes como Gal Costa, Zé Ramalho e Engenheiros do Hawaii).

Depois de apresentar os dois músicos que a acompanham, Joan Baez começou a conquistar ainda mais o público cantando “O Cangaceiro”, do filme homônimo de 1953. “Olé, mulher rendeira, olé mulher renda, tu me ensina a fazer renda e eu te ensino a namorar”, emendando com a marchinha “Acorda Maria Bonita”, seguindo “levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé”. Com o público em alta rotação, Joan passou a um clima mais intimista com a música de autoria de Dirk Powell, que assumiu o piano Person para um arranjo simplesmente emocionante de “Just The Way You Are”, seguida pela faixa-título do último disco, “Day After Tomorrow”.

Puxando  a filas das músicas de protesto, Joan cantou “Swing Lot, Sweet Chariot”, que ela cantou na Marcha por Trabalho e Liberdade em Washington, em 1963, no célebre discurso do sonho de liberdade e igualdade de raças de Martin Luther King. Claro que com um papel na mão, lendo a música em português, Joan emendou com “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...”, diante do coro fervoroso de quase 3 mil vozes. Até o fim da primeira parte do show, antes do bis, Joan cantou “House of the Rising Sun”, “Joe Hill”, a folk Give me Cornbread When I´m Hungry, brincando com os hábitos dos gaúchos e brasileiros no seu português enrolado, de comer churrasco e tomar cachaça quando se está com fome e sede e também a marchinha Té Manhã, de Ademilde Fonseca, música que ela disse que canta há 55 anos e que está sempre tentando melhorar. A primeira parte do show terminou com Gracias a La Vida, da chilena Violeta Parra, eternizada por Mercedes Sosa. O bis foi emocionante com Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, de 1973, e Imagine, de John Lennon, duas músicas de resistência e protesto contra a ditadura, as guerras e outras injustiças do mundo. “Pai, afasta de mim este cálice” e “And the world will live as one” (e o mundo viverá como um só).  Uma noite para ficar na memória pela viagem no tempo nas canções e na história do mundo nos últimos 55 anos. Viva Joan Baez.  






domingo, fevereiro 09, 2014

UMA BUSCA FAMILIAR QUE EMOCIONA


Judi Dench e Steve Coogan em história inspirada em fato real<br /><b>Crédito: </b> Paris Filmes / Divulgação / CP
Judi Dench e Steve Coogan em história inspirada em fato real
Crédito: Paris Filmes / Divulgação 
De tempos em tempos, o britânico Stephen Frears nos brinda com um filme calcado em uma história de enlevo. “Philomena” é baseado na realidade de Philomena Lee, que, 50 anos depois, busca seu filho adotado por um casal norte-americano, auxiliada pelo jornalista Martin Sixsmith. No filme que segue em pré-estreia nos cinemas, o ator Steve Coogan interpreta Martin e escreveu o roteiro com Jeff Pope a partir de “A Criança Perdida de Philomena Lee”, de Martin Sixmith. 

Apesar de ser um filme agradável, com toques cômicos, Frears cutuca o período obscuro da Igreja Católica na Irlanda. Em 1952, Philomena Lee (Sophie Kennedy Clark) é uma jovem que tem filho em um convento. Lá, ela assina um papel liberando Anthony para adoção. Ele é adotado por casal americano e some. Cinquenta anos depois, Philomena (Judi Dench) começa a busca pelo filho, com a ajuda de Martin Sixsmith, jornalista desempregado e que resolve fazer matérias de interesse humano.

O grande tempero do filme - que recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo Filme e Atriz - está nesta relação que se estabelece entre Philomena, que tem um temperamento dócil e que não está acostumada com o luxo e a comida de graça nos hotéis, e Martin, um jornalista experiente, com um desdém pela religião, e com temperamento forte e muito cinismo. Pode-se dizer que Philomena passa a adoçar Martin, e ele, por sua vez, reconhece a fé e a crença da mãe em rever novamente o filho. 

Nesta jornada, os dois descobrem alguns furos na história que as freiras contaram. A busca de Philomena mostra nova atuação extremamente orgânica de Judi Dench que, aliada ao envolvimento total e intenso de Steve Coogan no projeto, faz deste um filme emocionante e sensível.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

SOLIDÃO A DOIS


No aniversário de São Paulo, dia 25 de janeiro, boa parte das matérias tratava da cidade como a capital da solidão, do infindável número de pessoas que vivem sozinhas. O mundo caminha cada vez mais para o isolamento. E Spike Jonze (“Adaptação” e “Onde Vivem os Monstros”) viu neste mote, aliado ao veloz avanço das novas tecnologias, uma boa história para contar, criando o roteiro e dirigindo a história de "Ela", sobre de alguém, que teve um trauma amoroso, e que se relaciona melancolicamente com as emoções reais e liricamente com as emoções fabricadas, como no emprego que tem de redator no cartas escritas à mão.com. Theodore Twombly (o sempre magistral para estes papeis sorumbáticos e melancólicos, Joaquim Phoenix) se apaixona pelo sistema operacional do seu computador, um novo equipamento com inteligência artificial e que parece ter emoções, suspira, tem livre arbítrio e é curioso por tudo, evolui a cada conversa (grande interpretação somente com a voz, como dublagens de desenhos animados, de Scarlett Johansson). O filme tem pré-estreias neste fim de semana e estreia nos cinemas no dia 14 de fevereiro.

Curiosamente, na hora de escolher a voz do seu sistema operacional, Theodore, quer uma voz feminina, pois as relações não reais atuais eram chats de sexo. Samantha é tudo o que um homem pode querer numa mulher, é inteligente, resolve os problemas de organização, lê um livro em centésimos de segundo e tem emoções que parecem reais, inclusive gemidos de orgasmo (que na voz de Scarlett Johansson se amplifica por mil).

As relações naturais passam distante dele, mas ele coloca o seu amor na escrita de cartas de bodas de 50 anos. O curioso é que a tecnologia permite ditar as cartas à mão. O reconhecimento de voz trazendo o passado, das cartas escritas à mão, escrever à mão, é escrever com o coração. Com uma trilha de Arcade Fire (When You Know You´re Gonna Die) e até a música criada por Samantha ao piano, The Moon Song (na verdade escrita por Spike Jonze e Karen O. e interpretada por Scarlett) e a recriação de uma cidade futurista, a Los Angeles dos sonhos, que é cinza, com prédios altos, um misto de Nova York e Shanghai, que inclui uma multitude de efeitos visuais, contrastando com as roupas em cores quentes de Theodore (vermelha e amarela), um homem sombrio que já foi alegre, por isso o pedido de calor ou o calor humano colocado nas cartas, como na das bodas de 50 anos de Chris e Loretta, quando ele escreve por ela para Chris: “Lembro do dia que me apaixonei por você.  Deitada nua ao seu lado naquele pequeno apartamento. Então percebi que eu era parte de algo maior. Como os nossos pais, Como os nossos avós. Antes eu vivia a minha vida como se soubesse de tudo. De repente, eu vi uma luz que me despertou. Esta luz era você”.:  .

Spike Jonze vai ao âmago da questão da solidão, do amor e do livre arbítrio, das escolhas humanas e de máquinas que se assemelham a humanos (alguma referência com HAL 9000 de 2001 – Uma Odisseia no Espaço pode ser vista no filme). Ele tenta quebrar a melancolia de Theodore (a escolha do nome não é por acaso, significa presente ou dádiva de Deus). Deus deu ao homem o livre arbítrio, a escolha de poder amar e de poder romper com este amor (que volta em flash backs) e também pode dar a uma máquina, a um sistema operacional o direito de escolher quem amar e a quem servir. As discussões são múltiplas e o texto tem sacadas absolutamente originais, como o fato de Samantha se questionar se os seus sentimentos são reais ou são apenas programação.





Enquanto escreve cartas à mão com um amor irrestrito, o protagonista amarga a dor da separação de Catherine (Rooney Mara) e se apega a uma amizade desde sempre, Amy (a sempre versátil Amy Adams, um recurso sempre interessante em filmes usar o nome do ator para o seu papel, como Adèle em Azul é a Cor Mais Quente). Ele tenta amar novamente, mas o encontro às escuras com uma mulher (a bela Olivia Wilde) cheia de manias e desespero por uma segunda ligação o fazer refletir sobre o vazio que pode estar no mundo sem Catherine e também sem Samantha. Um grande filme, um texto original, uma reflexão sobre a solidão a dois, sobre as escolhas, sobre o amor e os avanços da tecnologia e o isolamento que este mundo atual nos propõe. O filme é o Theodore para todos, um Presente de Deus, seja lá ele quem for ou como se manifeste. 

Que ele ganhe algum Oscar das cinco indicações, que seja o de Roteiro Original (prêmio Writers Guild Award na categoria), ou ainda para Filme (chance menor), Design de Produção (K.K. Barrett e Gene Sardena), Trilha Sonora Original (William Butler e Owen Pallett) e Melhor Canção Original ("The Moon Song"), grandes chances nestas duas últimas. Na torcida, para que este belo filme seja reconhecido pela Academia no dia 2 de março e que possamos ver Spike Jonze filmando a cada dois anos, no mínimo. 

quarta-feira, janeiro 01, 2014

O azul é quente e o paraíso é perdido

 


A minha relação dos dez melhores filmes estrangeiros de 2013 tem o naturalismo fílmico e uma abordagem sem julgamentos da condição de quem ama iguais, tem uma homenagem ao cinema de Murnau, tem a metaficção, a narrativa sem protagonistas, a vida de dois artistas franceses, uma família amarga e sincera, o amor diante de uma doença terminal, tem uma Poliana nem tão moça assim e a continuação de uma saga que segue o tempo normal dos seus personagens, Jesse e Celina, além dos trambiques de um Portugal pós-Troika ou, como queiram, dos arrochos do Mercado Comum Europeu, Dez filmes de tirar o fôlego, que renovaram a dramaturgia cinematográfica, que modificaram a forma ou a mantiveram e foram fundo no conteúdo. Obras para ficar na memória.

Aí vai a lista dos 10 mais (onze, pois há um empate na nona colocação) do cinema internacional em 2013:


1 - AZUL É A COR MAIS QUENTE

O filme de Abdellatif Kechiche tem tudo o que um grande filme precisa e muito mais. É realista ou naturalista, como queiram, conta uma grande história baseada em uma história em quadrinhos, apresenta o mundo lésbico de forma mais profunda, sem julgar. Na verdade, o amor lésbico é o amor. A vida de Adèle é uma vida comum, daquelas de um adolescente que lê A Vida de Marianne, de Marivaux. A história é plausível, filmada de forma a câmera interferir o menos possível (lembram de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet). E o diretor resolveu interferir o menos possível pois a Clementine, da HQ de Julie Maroh, virou Adèle pois a protagonista é Adèle para seguir a espontaneidade em relação ao nome da atriz Adèle Exarchopoulos, sendo que o título original do filme passou a ser La Vie D´Adèle, A Vida de Adèle e não Azul é a Cor Mais Quente, o título da HQ. A relação de Adèle com Emma (Léa Seydoux) é espontânea. Adèle fala enquanto mastiga e se instiga com o cabelo azul da artista plástica, que é maior de idade. Emma tem o cabelo azul, a relação resolvida com a sexualidade, bem como a maturidade dos pais com a homossexualidade dela. Na vida de Adèle, nada é tão simples. Os pais dela pensam que ser artista é um passatempo e não um trabalho. Adèle é curiosa e vive uma intensa história de amor com Emma, destas que vêm e vão, que são suscetíveis à traição, o romantismo do século 19 atravessando a rua do século 21  As três horas de filme e a cena de sexo de sete minutos só corroboram para todo o naturalismo. O filme não é longo, as pessoas é que às vezes são curtas para o tempo. Bom, o filme é sobre o amor, a transcendência, os costumes, a arte e como é encarada nos dias de hoje uma relação homossexual. Não há julgamento, há só uma bela história, muito cinema e bastante reflexão sobre o tema a posteriori. Merecidamente o melhor filme de 2013, prenunciado pela vitória em Cannes e depois pelos nossos olhos amorosos e condescendentes.
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2 - TABU

Tabu é primeiramente uma homenagem ao cinema e a um dos diretores mais expressivos dos primeiros 40 anos da Sétima Arte, o alemão Friedrich Wilhelm Murnau. O diretor Miguel Gomes cria o seu Tabu, referenciando ao título do filme de Murnau, de 1931 e também ao nome da protagonista Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira), outro filme do cineasta alemão, o diretor português inicia a trama com um homem que se suicida ao se jogar aos crocodilos, não sem antes ver refletida a imagem de uma mulher na água, permanecendo no ar a ideia romântica e épica. Invertendo a lógica do Tabu, de 1931, a primeira parte é o “Paraíso Perdido”, a Lisboa atual com vidas quase sem sentido de Pilar (Teresa Madruga), a vizinha Aurora (Laura Soveral) e a sua empregada africana Santa (Isabel Cardoso), rodado todo em preto e banco. Para chegar à segunda parte, “Paraíso”, a transição é a morte de Aurora , O personagem Ventura (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta), que teve um caso com Aurora nos anos 1960 em Moçambique remonta a história da bela Aurora, uma mulher de fibra, uma caçadora, que não tinha medo de crocodilos e que trai o marido (o brasileiro Ivo Müller. O detalhe de toda a narrativa é que a história é contada por Ventura na atualidade e só ele delineia a trama, deixando os personagens da época agirem sem fala, com o mexer de bocas, e apenas com os sons ambientes. Isto cria um efeito maravilhoso, que mixa o cinema mudo com as histórias de Jacques Tati. Um belo filme, pessimista, lírico, épico e uma aula de cinema desconstruído desde o contemporâneo até o mais ancestral, o cinema mudo de Murnau e outros cineastas anteriores.




3 – AMOR

Uma das mais contundentes histórias de amor e dor já filmadas. O austríaco Michael Haneke, com a sua capacidade de mergulhar no mais profundo do ser humano, obteve dos seus protagonistas Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant o máximo de dramaticidade. A história por si só nos conduz para os labirintos do amor e da finitude, quando Rose tem dois derrames consecutivos e fica em estado vegetativo.

Aqui a crítica que fiz logo após assistir ao filme:

Há quase uma década criei um conto chamado Até o Fim, no qual a narrativa era conduzida por um coveiro que vive a sua vida intensamente até o fim mesmo. Ele mesmo orquestra o seu enterro. Bom, estou abordando o tema subjetivamente, pois o filme Amor, de Michael Haneke é um exercício diante da finitude, diante do amor até o fim. É um exercício minimalista, mas com uma grande carga de dramaticidade e interpretações exuberantes dos protagonistas que encaram o casal francês de professores de música aposentados, com idade acima dos 80 anos, Anne e George (Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant).

Sem querer contar o que se sucede no filme do diretor de Caché e A Fita Branca, mas encaminhando a condução da narrativa, é importante se dizer que o grande sucesso que o filme vem fazendo se deve principalmente ao fato de o filme nos fazer confrontar com um drama que mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, irá atingir todos nós. Após assistir a um concerto de um ex-aluno, o pianista na vida real Alexandre Tharaud, Anne vai para casa e no dia posterior tem um derrame. Com o lado direito paralisado, Anne passa a necessitar de auxílio para a maior parte das atividades cotidianas. Não querendo falar da síndrome de cinema e lágrimas, mas as privações de Anne e o empenho amoroso de George acabam nos deixando com o coração partido, desnorteados, tentando entender o que é o amor diante de um acidente vascular cerebral ou das doenças degenerativas e da própria morte. Ele resiste. Ele pode ser maior do que tudo. Mas somos humanos. 


Neste lado humano do amor, o papel da filha, representado por Isabelle Huppert, e do casal de zeladores do prédio, que ajudam com as compras, e também das enfermeiras fazem o contraponto, de pessoas que não entendem porque Anne não quer ir para um hospital ou um asilo. É uma mulher culta, professora de música, lê e ouve música todos os dias. A degradação e a entrega não fazem parte do seu vocabulário. Haneke sabe disto e nos coloca dentro da perspectiva do apego do casal e de como eles se relacionam com a doença de Anne e com o mundo externo. O que George vai fazer com Anne é uma decisão que só ele pode tomar e que só um filme com tamanho poder de discernimento e grau de realidade pode nos proporcionar. 
Os prêmios recebidos por Amor são mais que merecidos, incluindo a Palma de Ouro em Cannes 2012 e mais recentemente o César de Melhor Filme, o Oscar francês. Haneke que já havia mergulhados nas profundezas da alma humana em A Professora de Piano, Violência Gratuita, Cachê e A Fita Branca é um diretor no qual se pode confiar, que sempre vai nos apresentar histórias com um grau de drama e de humanidade acima da média. Filme triste, de lágrimas, mas para que pensemos no que fazer diante da finitude da vida neste plano terreno. 


4 - AS QUATRO VOLTAS
Publico a crítica do filme escrita em maio:

Antes de começar a entabular esta crítica, preciso dar um aviso, prestar um serviço de utilidade ao público. Se você é daqueles espectadores que está acostumado com as linguagens convencionais de narrativa cinematográfica, aquele esquemão básico de roteiro do Syd Field, com apresentação, confrontação e resolução, dois pontos de virada, anticlímax e clímax, com ação sustentada pelos diálogos e uma trama bastante visível para que você possa entender ou desvendar o filme, então nem se dirija ao cinema para ver o filme com coprodução da Itália, Alemanha e Suíça: "As Quatro Voltas", vencedor do prêmio Melhor Filme Europeu da Quinzena dos Realizadores de Festival de Cannes em 2010.
Filme que remete a algumas obras de Jacques Tati pela ausência de diálogos e a utilização do som direto e também o cinema contemplativo de Andrey Tarkovskiy, em filmes como "O Sacrifício", este segundo longa do italiano de Milão, Michelangelo Frammartino (o primeiro é "Il Dono", cuja tradução seria O Dono, agora ele já rodou o documentário Alberi), trata dos ciclos de vida, do tempo e da natureza e como o homem se insere nestes ciclos. O local é uma pequena aldeia com características medievais nas montanhas da Caulonia, na Calábria, no sul da Itália. Os ciclos são apresentados exatamente em quatro voltas que envolvem um homem (pastor de cabras), uma cabra, uma árvore e a fabricação do carvão, pois o sustento da região é carboneiro e também o carvão serve para aquecer as casas no frio calabrês. É uma espécie de eterno retorno de Nietzche com as formas de vida e subsistência da região. As quatro voltas são a humana, a animal, a vegetal e finalmente a mineral.

A poesia visual e a beleza narrativa de "As Quatro Voltas" é o que mais incomoda ao espectador que não se informou sobre o filme antes de entrar na sala. O primeiro quarto de narrativa da 1h28min do filme acompanha um homem (Giuseppe Fudda) que pastoreia as suas cabras e está muito doente. O tempo passa e os dias são exatamente iguais, os sons da pequena vila são dos cachorros, do vento nas árvores, uma voz ao longe, do balido das cabras e dos sinos de localização que elas carregam. O pastor acredita que o melhor remédio para a sua doença está na poeira acumulada no chão da igreja, que ele coleta junto a uma funcionária da igreja e mistura com água antes de dormir para beber. A poeira provavelmente vem das cinzas do carvão, o eterno retorno na mesma aldeia.

No dia em que ele perde o pó coletado, bate o desespero e ele recorre à igreja à noite, mas ninguém atende. Ele dorme preocupado e não levanta de manhã, quando um acidente faz com que as cabras se soltem e invadam a casa onde mora (uma cena na melhor linha de "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, que era com ovelha numa sala). O ciclo do pastor está findando e o de uma cabritinha está começando desde o seu parto, o carinho da mãe até as brincadeiras e o acaso agindo para que ela se perca. No meio disto tudo, a comunidade segue suas tradições da encenação da Paixão de Cristo e os carboneiros que aparecem no início do filme são os centuriões (Bruno Timpano e Nazareno Timpano). Não há diálogos, só vozes distantes e a câmera contemplando as ações, inclusive o balido desesperado da cabritinha quando ela se perde e alcança abrigo numa árvore frondosa, um pinheiro. A volta dela também se finda e o que se vê é uma tela escura e as batidas com pás da feitura do carvão, um sinal de morte, mas de renascimento para o bem coletivo da aldeia.

 A árvore frondosa enfrenta as quatros estações, o inverno e a neve, mas não se mantém diante de uma tradição calabresa de colocar no centro da aldeia um tronco altíssimo, a "Pita" (a árvore finalizando o seu ciclo) com ramos e balões no seu topo. Após a festividade que também pode ser associada à religiosidade (característica intrínseca a qualquer comuna italiana), á arvore vira lenha e vai alimentar a fabricação do carvão, que vai virar fumaça e irá para o ar da comunidade, num ciclo sem fim.

A poesia do filme reside em entender estes ciclos e se utilizar apenas da câmera contemplativa, sem a interferência do roteiro para apresentar os possíveis ciclos da vida numa comunidade onde os tempos modernos não chegaram, a vida segue sempre a mesma sina. De alguma forma é um eterno retorno à italiana (a visão deste outro pintor visual, casualmente também Michelangelo sobre a teoria de Nietzsche) ou então a doutrina dos ciclos (descrita por Jorge Luis Borges), como queiram, pois para quem acredita, quando um ciclo se finda ou uma volta é dada, outra se inicia, em espiral ou em círculos. Uma obra de exceção, que não é para todos. Público de blockbuster, mantenha-se distante ou saia nos primeiros 15 minutos, como várias pessoas o fizeram na sessão em que eu fui.



5 – ÁLBUM DE FAMÍLIA

O filme de John Wells, baseado na peça de Tracy Letts, sobre a amarga família que vive no Condado de Osage, em Oklahoma, foi mais uma das grandes surpresas cinematográficas de fim de ano. Muitas pessoas reclamam do cinema que é teatral, mas a dramaturgia e o conflito são o quesito mais essencial do cinema. Não adianta muita forma sem conteúdo. A história da família de Beverly e Violet Weston, encarnada pelos monstros Sam Shepard (participação curta e essencial) e Meryl Streep, da qual não temos mais nada a dizer, tamanha a sua entrega para os papeis. A relação de Violet com as filhas e com a família é conturbada e o suicídio de Beverly traz todas as verdades à tona e os podres falados em voz alta à mesa, num embate forte entre Violet e a filha Bárbara, a que mais a enfrenta e que também é amarga, como todos na família, vivida pela também grande atriz e agora mais madura cenicamente falando, Julia Roberts. Um grande filme sobre os podres familiares e como fazer para conviver com eles.




6 - VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA

Cineasta totalmente autoral, o francês Alain Resnais nos proporcionou pelos menos duas pérolas da ficção poética como "Hiroshima, Mon Amour" e "O Ano Passado em Marienbad", além do difícil filme duplo ou espelho como  "Smoking/No Smoking" e do excelente musical "Amores Parisienses". Aos 90 anos e casado com a atriz Sabine Azéma, Resnais está longe da senilidade e segue o caminho inventivo que acompanha os cineastas autorais franceses. Em "Vocês Ainda Não Viram Nada" que estreia nos cinemas neste final de semana, o ponto de partida é o último desejo de um diretor na hora da sua morte. Baseado no livro "Eurídice", de Jean Anouilh, este drama dramatúrgico - é assim redudantemente que o batizo - tem como início o assistente (o ator polonês Andrzej Seweryn) do diretor e dramaturgo Antoine d´Anthac (Denys Podalydès, da Comédie Française), ligando para cada um dos atores que já interpretaram a peça Eurídice, do próprio d´Anthac. Ele liga, diz alô e pergunta se a pessoa é Sabine Azéma, comunica que lamentavelmente o senhor Antoine d´Anthac faleceu e que ela é esperada na suntuosa casa dele no alto de uma montanha em Peillon. Assim também recebem as ligações em telefones celulares ou convencionais, os atores Pierre Arditi, Mathieu Amalric, Michel Piccoli, Lambert Wilson, Anne Consigny, Hippolyte Girardot, Jean-Noel Brouté, Anny Duperey, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc e Michel Vuillermoz.
Assim como os mesmos planos cinematográficos repetidos a cada ligação do assistente do dramaturgo e o consequente atender ao telefone de perfil, a chegada à mansão em Peillon é feita ao melhor estilo Resnais, com a câmera no mesmo ponto, centralizando o abrir da porta, com o vento forte lá fora e a porta se abrindo, com o assistente apresentando a casa a cada um dos atores, que ali vivem eles mesmo como atores que interpretaram a Eurídice do dramaturgo falecido. Cada um dos atores destaca o gosto e o colecionismo de Antoine pelas casas exóticas. Após a chegada de todos e os respectivos cumprimentos de pessoas que não se viam há tempos, o assistente dispõe todos os atores defronte a um telão, que é recoberto por um quadro que reproduz a visão externa da casa onde eles estão. No telão, Antoine d´Anthac enfatiza que recebeu de um grupo iniciante a Compagnie de La Colombe (Companhia da Pomba, traduzindo do francês) uma versão em vídeo da montagem de Eurídice e que se eles estão assistindo à montagem neste momento é porque ele já está morto e pede que eles aprovem ou não a montagem.



O que acontece a partir daí é a mágica da metalinguagem e da interação tela/palco/vida. O telão reproduz o drama de Eurídice (baseado na lenda grega do Orfeu), que está dividida entre o amor de três homens, um deles é Orfeu, que tem uma relação intensa com a música e que deixa o pai na estação para fugir com Eurídice para um hotel em Marseille. Os atores como Sabine Azéma/Anne Consigny e Pierre Arditi/Lambert Wilson, que viveram Eurídice e Orfeu nas montagens de d´Anthac assistem inicialmente à montagem do grupo iniciante, balbuciando os textos e depois interagindo com o telão, até trazerem a trama para a casa em Peillon. Nos três atos da história, a dramaticidade do texto transita entre a casa e o telão e entramos dentro de uma experiência metalinguística incomparável. Revivendo os papéis interpretados na tela pelos jovens atores, os veteranos mexem com o seu passado, com o seu fazer teatral e também com a própria identidade de atores vivendo eles mesmos interpretando uma peça que também tem uma correlata no telão. Resnais cria o seu universo teatral e a partir daí acompanhamos um teatro onde a vida, o palco e a tela perdem suas fronteiras.

As interpretações de outros gigantes do teatro e do cinema francês como Michel Piccoli, Hippolyte Girardot, Mathieu Amalric e Anny Duperey, pontuadas pela trilha densa e precisa de Marc Snow e pela fotografia que privilegia as mudanças de luz e os interiores dos cenários, dão ao filme uma intensidade que não precisa ser marcada pelo ritmo veloz, mas sim pelo metrônomo de uma montagem teatral. A reviravolta existente no final é impossível de ser contada, pois atrapalharia a surpresa apontada por Resnais, mas posso adiantar que é dramática, como o próprio Resnais, como o personagem de Antoine d´Anthac e como o filme requer, pois estamos diante da nata da atuação na França, cujos prêmios de atuação todos somados chegariam a duas ou três centenas de troféus. Um filme para se deixar levar, para sonhar, para interpretar, para ver e rever, para transpor as fronteiras e os limites entre a vida, o teatro e o cinema. Imperdível como qualquer filme de Alain Resnais.


7 - FRANCES HA

Um belo filme de Noah Baumbach. Uma Poliana moderna vivida por Greta Gervig. Uma mulher que tem sua vida pela metade, cujos amores, a amizade e a carreira estão sempre no quase. A identificação é quase que total com aqueles que estão sempre querendo acertar na carreira, no amor e na vida, mas sempre ficam pelo meio do caminho. Bela obra cinematográfica em preto e branco e com a trilha encabeçada por Modern Love.



8 – ANTES DA MEIA-NOITE

Jesse e Celina estão de volta, desta vez com mais de 40 anos, com duas filhas passando as férias na Grécia e discutindo a relação como qualquer casal. Bela trilogia construída por Richard Linklater, com roteiro dele e dos atores Julie Delpy e Ethan Hawke. Um grande filme e um grande projeto, que segue o tempo real da idade dos atores e do que o tempo faz com um casal.





9 – RENOIR / CAMILLE CLAUDEL 1915

Dois belos filmes sobre o universo de dois artistas franceses. O primeiro mostra a relação de Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet) com uma das suas modelos de nus (Christa Teret) e o despertar do filho Jean Renoir para o cinema. O filme trata das sutilezas do pensamento e da pintura do grande Renoir numa segura câmera de Gilles Bourdos. O segundo aborda os últimos de anos da escultora Camille Claudel (Juliette Binoche) em um sanatório e a esquizofrenia em relação a Rodin e a vontade de sair de lá, externada em cartas e conversa com o irmão Paul Claudel e a aspereza da loucura, filmada em um chiaroscuro atordoante por Bruno Dumont.  


10 – AMÉRICA

Aqui uma crítica sobre o filme do português João Nuno Pinto, escrita no início do ano:

A NAU DOS ENCALHADOS

O cinema português está mais prolífico que nunca e sobrevive além do seu incansável ícone Manoel de Oliveira, de 104 anos. Quando estive em Portugal entre novembro e dezembro de 2012, eram cerca de 10 lançamentos de filmes genuinamente portugueses, como "Operação Outono" e "Deste Lado da Ressurreição ainda inéditos no Brasil e "Aristides de Sousa Mendes - o Cônsul de Bordéus", este exibido em première na 9ª Seleção de Filmes Bourbon, realizada pela Panda Filmes, em novembro de 2012. Novamente, a Panda Filmes nos coloca em contato com produção portuguesa, co-produzida com Espanha, Brasil e Rússia. "América", dirigido por João Nuno Pinto, é um filme de náufragos, pessoas sempre à deriva, que vivem de pequenos golpes, principalmente no que tange ao acolhimento das centenas de imigrantes que desembarcam na nova América que é Portugal, um caldeirão de culturas e uma das portas entradas mais tranquilas da Europa rica na atualidade, já que França, Espanha, Itália e Alemanha apertaram um pouco o cerco aos imigrandes. O diretor João Nuno Pinto o define como um filme de "encalhados". A obra é baseada no conto "Criação do Mundo", da autora portuguesa Luísa Costa Gomes, co-roteirista do filme junto com João Nuno Pinto e Melanie Dimantas.
Com uma poética visual bastante própria e uma trilha sonora que gira entre o lírico e a tensão, "América" nos coloca na periferia de uma pequena cidade litorânea portuguesa, com a narrativa seguindo a voz em off de Liza (Chulpan Khamatova, de "Adeus, Lênin", melhor atriz da 11ª Semana de Cine Iberoamericano de Villaverde, Espanha, uma jovem imigrante russa, casada com um português, Vítor (Fernando Luís, ator carismático e que empresta uma grande organicidade ao papel), de quem tem um filho, Mauro (Manuel Custódia). Vítor é um trambiqueiro, como chamamos aqui no Brasil. A sua sina é enganar velhinhas e quando muito tirar 200 euros de algo ligado a previdência e a um dinheiro que está para chegar. Mauro, de uma hora para outra, resolve não falar e se comunica com olhares e com brincadeiras. Liza cuida da casa e da avó de Vítor, que se recusa a comer, mas que demonstra um carinho enorme por Liza, chamada de Popova por Vítor.

A primeira virada do filme se dá quando a espanhola Fernanda (María Barranco), ex-mulher de Vítor, reaparece propondo um negócio de falsificação de passaportes para os imigrantes ilegais russos, ucranianos, angolanos, brasileiros, entre outos. A partir daí, Liza perde o controle sobre a casa e o local passa a ser ponto de passagem para inúmeros imigrantes de várias raças e nacionalidades. Todos náufragos ou encalhados à procura de uma terra realmente firme. Com Fernanda, aparecem dois tipos especialmente estranhos, o espanhol Tolentino (Fernando Maestre) e o brasileiro Matias (Cassiano Carneiro, que atuou em filmes e novelas no Brasil como "Mandacaru"). Os dois dão o tom de humor necessário a um filme de erros. Enquanto Tolentino é o próprio tragicômico espanhol, parecendo egresso de um filme de Almodóvar, Matias dá a brasilidade e aquele humor ácido. Uma das principais piadas do filme é quando eles estão organizando a fila para encaminhar os passaportes falsificados e Matias pergunta: "Quem é africano? Então vai para o fim da fila. E quem é brasileiro? Vai para trás dos africanos". Outra piada que funciona é quando alguém pergunta o nome daquele artista famoso de Hollywood e alguém responde: "É o Denzel Washington" e ouve: "Não, é o King Kong".

A trama está cheia de viradas e acompanhamos Liza tentando fugir daquela realidade de encalhados, sem nunca obter sucesso, enquanto a situação fica cada vez mais crítica. Todos dependem do artista do grupo, o velho Melo (o veterano Raul Solnado, que faleceu no período de pós-produção do filme em agosto de 2009 e a quem a obra é dedicada) e também do cérebro dos golpes que é Paulo Armando (Dinarte Branco), que tem ideias para golpes virtuais, mas é um incompreendido. Para piorar, Liza se envolve com um ortopedista ucraniano Andrei (Mikahil Evlanov) e Vítor tem uma recaída com Fernanda. O filme ainda nos reserva cenas belíssimas da cidade litorânea (a locação é na Cova do Vapor, localizada no distrito de Setúbal, próximo de Lisboa, na junção entre o rio Tejo e o Oceano Atlântico), dos labirintos de ruelas onde Liza e Vítor moram, a força da chuva no outono/inverno português e algumas cenas meio Fellinianas, como um barco que encalha no teto da casa que é o centro da trama. A fotografia foi vencedora do festival Indie Lisboa, em Portugal. Além disto, a máfia russa também aparece, pois na vida real ela existe e está disseminada por toda a Europa, após o fim da União Soviética.

Um filme belo, bem-humorado e tenso ao mesmo tempo, que nos leva a pensar numa tragédia iminente, pois os fios que ligam os personagens a uma vida normal são muito frágeis. A mão do diretor está sempre presente, provando que João Nuno Pinto, que havia dirigido somente o curta "Skype Me" (2008) merece toda a nossa atenção daqui por diante, por mostra uma trama com tensão constante, belas imagens, bons atores e com uma narrativa que nunca perde o pique e o foco. Pinto recebeu dois prêmios de Melhor Diretor pelo filme no 15º Festival Sofia de Cinema Independente 2011, na Bulgária e no 5º Festival Cineport, no mês de setembro de 2012, em João Pessoa (PB).
  
Uma bela e simbolista obra sobre as consequências do Mercado Comum Europeu na Europa atual, o revolto mar financeiro deixa muitos náufragos pelo caminho. .

terça-feira, dezembro 31, 2013

DO METAL AO CELTA, DO ROCK AO PROGRESSIVO



Crédito: Ricardo Giusti

Dos shows escolhidos para a lista dos dez melhores internacionais em Porto Alegre no ano de 2013, apenas dois não tem tanto a ver com a idade deste que vos fala, o Alice in Chains e o Chris Cornell que são de uma geração posterior, muitos também são de uma geração anterior, como é o caso do Yes, do Jethro Tull e do Elton John, mas todos foram shows grandiosos, sem exceção, alguns inéditos em Porto Alegre como o do Black Sabbath e a maioria inédito para mim. Foram shows que ultrapassaram a expectativa, alguns reproduzindo álbuns como foi o caso do Yes e do Jethro Tull, outros pontuando festivais, como o filho do homem, Ravi Coltrane, alguns surpreendentes como o UFO, com a energia de sempre, o Alice in Chains, cuja desconfiança em relação ao vocalista William DuVall em relação ao eterno Laine Staley era enorme.  Eu ainda teria o 11º colocado para inserir que foi o de Alicia Keys e outros shows internacionais bacanas, que já vieram outras vezes à Capital, como Fito Paez e Soledad Villamil. Então vamos aos 10 mais:


1 - BLACK SABBATH

O show de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Tommy Cufletos em outubro nos deu a dimensão do que é peso aliado a clássicos do metal em outubro na Fiergs. Noite inesquecível ao som de Paranoid, Iron Man, Children of the Grave, Black Sabbath, N.I.B. e mais recentes como End of the Beggining, Age of Reason e God is Dead. Duas horas de coração pulsando ao som do baixo e da bateria de Butler e Cufletos, viajando nos solos do canhoto Iommi e embarcando nas asas e nas corridas lentas e desajeitadas de Ozzy.


2 - YES

Três discos reproduzidos na íntegra. Um rock progressivo comemorando os seus 45 anos de carreira. O seminal Yes tocou em maio no Araújo Vianna durante mais de três horas e com três integrantes da formação clássica - Steve Howe (guitarra), Chris Squire (baixo) e Alan White (bateria). Os álbuns executados com efeitos de vídeo e luz foram “The Yes Album”, de 1971, “Close to the Edge”, de 1972, e “Going for the One”, de 1977, com o tecladista Geoff Downes e Jon Davson nos vocais. A abertura foi da banda gaúcha Apocalypse. Memorável ver ao vivo os longos sets de músicas como Close to the Edge e Siberian Kathru, além de Awaken e Starship Trooper.

3 - ELTON JOHN

O show de Elton John em março no Zequinha foi uma ode à competência deste exímio pianista e entertainer. evisto. Pude ver ao vivo no show de 40º aniversário de Rocket Man, ele tocar e cantar músicas como “Bennie and the Jets”, “Tiny dancer” e “Candle In The Wind”. “Rocket Man”, "Your Song" e insuflar a galera com dois petardos rock após mais de duas horas de show: I´m Still Standing e Crocodile Rock. Ninguém precisava mais nada. Show acima da expectativa.

Crédito: Chico Izidro

4 - ACCEPT

Este show talvez não tenha sido o quarto melhor internacional do ano, mas para mim foi e também para o meu amigo e colega Chico Izidro que escreveu sobre o show para o site do Correio do Povo. Ele falou de voltar à adolescência e realmente os dois remanescentes da formação original, o guitarrista Wolf Hoffmann e o baixista Peter Baltes colocaram os fãs em transe junto com o guitarrista Herman Frank, o batera Stefan Schwartzmann e o vocalista Mark Tornillo. Músicas novas como Stalingrad e Hellfire, nem tão recentes como  Teutonic Terror e as clássicas Fast as a Shark e a introdução de música alemã de bandinha, Restless and Wild, Princess of Dawn, Breaker, Metal Heart, Losers and Winners, Up to the Limit e a primal e gutural Balls to the Wall. Show para deixar rindo à toa.

5 - UFO

A volta ao passado foi a tônica deixando o pequeno Teatro do CIEE incendiado com a banda britânica UFO em sua turnê Seven Deadly. Com três membros de sua formação mais clássica - Phil Mogg (vocal), Paul Raymond (guitarra e teclados) e Andy Parker (bateria), além do guitar hero Vinnie Moore, a banda mostrou canções do novo disco "Seven Deadly", o 20º da carreira, além de clássicos dos 44 anos de serviços prestados ao rock, como "Doctor Doctor", "Rock Bottom", "Lights Out", "Shoot, Shoot" e "C´Mon Everybody". Um deleite musical que foi partilhado com veias do rock como Paulo Moreira, Dante, Cagê Lisboa, Roger Lerina, entre outros.

. Crédito: Ricardo Giusti

6 - JETHRO TULL

Sobre o show do Jethro Tull, eu reproduzo a matéria ambiental do show que fiz para o Correio do Povo em 12 de março de 2013:

ROCK PROGRESSIVO DO JETHRO TULL INAUGURA
SHOWS INTERNACIONAIS NO ARAÚJO VIANNA

Ian Anderson e grupo de instrumentistas realizaram show conceitual para 3 mil pessoas

No dia do seu aniversário de 49 anos, o Auditório Araújo Vianna recebeu dois discos inteiros de presente de Ian Anderson e seu Jethro Tull atual: o clássico disco "Thick as a Brick", de 1972 e o insano e temporão, mas não menos rock progressivo ou ópera rock, como queiram, "Thick as a Brick 2", lançado em 2012, 40 anos depois do primeiro. Foram 2h30min de show, com 15 minutos de intervalo de uma execução que deixou embevecida uma plateia de pouco mais de 2,9 mil pessoas no Araújo Vianna, inaugurando a fase internacional de shows da tradicional casa de espetáculos incrustada no coração do bairro BomFim, o Parque da Redenção.

O multi-instrumentista da banda Jethro Tull, Ian Anderson, iniciou pontualmente às 21h, o primeiro show internacional do reformado Araújo Vianna, nesta terça-feira em Porto Alegre. O show da turnê comemorativa aos 45 anos de carreira da banda e de Anderson foi uma apresentação com muita identificação histórica com o Araújo e sua tradição no rock e rock progressivo.

O show percorreu o lendário álbum "Thick Is a Brick", com Florian Opahle (guitarra), Scott Hammond (bateria), David Goodier (baixo), John O'Hara (teclados) e Ryan O'Donnell (vocal). Anderson cantava alguns trechos das músicas, mas a sua garganta gêmea era o jovem Ryan O´Donnell, que também personificava os momentos cênicos da ópera rock, personificando um empregado que varre o palco ou então um padre. Todo o grupo, porém, fazia evoluções instrumentais, cênicas num show conceitual, reproduzindo a atmosfera insana e criativa de "Thick as a Brick".

Após um intervalo de 15 minutos, veio a execução integral de "Thick as a Brick 2", com destaque para “Banker Bets, Banker Wins”, com o telão reproduzindo moedas e notas, “Wootton Bassett Town” e a mais longa faixa “A Change Of Horses”. Após mais uma hora de show, foi a vez do próprio Ian Anderson, com o seu personagem no telão apresentar a banda e ela sair de cena para voltar em dois minutos e executar a clássica "Locomotive Breath", com o trem que não pode parar: "I thank God, he stole the handle / And the train, it won't stop going / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down / No way to slow down". Era o gran finale de uma noite memorável para o Araújo Vianna, no dia do seu aniversário, e para os gaúchos.


7 - RAVI COLTRANE

O show que fechou o 3º Canoas Jazz em novembro foi indescritível. Como diria o mestre dos mestres do jazz, Paulo Moreira, o público deixou Canoas flutuando, com o filho do homem, Ravi Coltrane. Com um quarteto formado ainda pelos competentíssimos músicos David Virelles (piano); Hans Glawichnig (baixo acústico) e Johnathan Blake (bateria), este tocando a bateria mais horizontal que se tem notícias, sem pratos no alto, o saxofonista Ravi mostrou uma técnica apurada para conduzir o sax tenor e o sax soprano. Em muitos momentos, o pai baixou, como em "For Turiya" e  "Giant Steps", além de tocar "Segment", de Charlie Parker. Uma overdose do melhor jazz moderno combinado com os estilos do bebop e do fusion.

  Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

8 - ALICE IN CHAINS

Sobre o show dos grunges, também reproduzo matéria minha para o Correio do Povo:

ALICE IN CHAINS DESFILA HITS EM SHOW NA CAPITAL

Banda de Seattle tocou para 3 mil pessoas

Esperar muito tempo para ver uma banda tem as suas compensações. A sua banda preferida toca a primeira música do show às 21h58min, "Them Bones" e você já canta a plenos pulmões e pula incansavelmente. Foram mais de 25 anos de espera para que Porto Alegre presenciasse um show do Alice in Chains, no rescaldo do vento que soprou no Rock in Rio, que trouxe também Alicia Keys e Gogol Bordello. Na noite dessa terça, no Pepsi on Stage, a banda de Seattle tocou durante 1h30min, para mais de 3 mil fãs que, como descrito anteriormente, cantaram todas as músicas, pularam, sentiram o peso do grunge e de elementos do heavy metal e do hard rock, além de disputar palhetas e baquetas ao final da apresentação.

Após a pesada abertura da banda Di Angelis, o Alice in Chains irrompeu no palco às 21h58min com "Them Bones". Mas isto já falamos. Era claro que seria um show de hits, mas também de músicas do disco novo "The Devil Put Dinosaurs Here", o que apareceu na terceira música, a consistente "Hollow", com a cozinha batida de coração da batera de Sean Kinney e do baixo de Mike Inez. Em "Check My Brain", o vocalista Wiliam Duvall reedita os melhores e mais rasgados registros vocais de Layne Staley, morto em 2002.

Após um "obrigado" e um "Porto Alegreeeee" em português, foi a vez de a banda dar a sequência de hits que esquenta qualquer show, ainda mais um tão aguardado. Com a guitarra incendiária de Jerry Cantrell e o telão de LED reproduzindo imagens de um coração até sequências psicodélicas, se seguiram clássicas como "Man in the Box", "Nutshell" e "No Excuses". Público ganho, cantando junto, meio que hipnotizado pela energia do Alice ao vivo. Depois, outras pérolas como "We Die Young", "Down in a Hole" e a pesadíssima "Acid Bubble", encerrando a parte do show, ainda sem bis, com "It Ain´t Like That". Na volta para o bis, já com o canto em coro de "Alice in Chains, Alice in Chains", a banda emendou as duas mais pedidas da noite: "Would?" e "Rooster". Uma noite muito especial de mergulho no tempo para nós, público, e para eles, pois DuVall disse que a banda voltaria, agradecendo com grande emoção o carinho do público, enquanto Cantrell bateu as mãos no peito, como querendo dizer que o coração da banda se encantou com o público gaúcho.


Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

9 - LOREENA MCKENNITT

O show de Loreena McKennitt em outubro no Sesi também recebeu cobertura do Correio do Povo e neste texto eu falo de quão bom foi este show:

GAÚCHOS SE EMOCIONAM COM A JORNADA CELTA DE LOREENA MCKENNITT

Show da cantora e multi-instrumentista canadense ocorreu no Sesi

O primeiro show de Loreena McKennitt no Brasil (ela começou a turnê nacional por Porto Alegre) foi de muita emoção, inspiração e de uma aula de música e cultura celta. A apresentação da cantora e multi-instrumentista canadense com mais de 14 milhões de álbuns vendidos pelo mundo foi realizada na noite deste domingo no Teatro do Sesi. Com quase meia hora de atraso, o show foi realizado em dois atos, com duração total de 2h30min, diante de um Sesi lotado de pessoas que esperaram 28 anos para o contato com a apresentação ao vivo da canadense, que tem raízes escocesas e irlandesas.

Quando Loreena surgiu no palco, o público não conseguia conter a emoção. A primeira música executada por Loreena tocando harpa foi "She Mover Through the Fair", mas foi com a segunda canção, já ao acordeon, a clássica "The Mummer´s Dance", do álbum "The Book of Secrets" (1997), que ela pôs o público para embarcar na emoção de uma jornada pela música celta.

Neste primeiro ato do show, com o apoio de uma banda mais do que competente, aí vai um destaque para o naipe de violino e cello, com Hugh Marsh e Caroline Levelle, esta com seus cabelos ao melhor estilo de Cate Blanchett como o elfo Galadriel, em O Senhor dos Aneis e o Hobbit, Loreena executou outras grandes músicas dos seus quase 30 anos de carreira, como "Bonny Portmore", "Marco Polo" e "Penelope´s Song.

Antes de executar uma peça musical sobre a emigração irlandesa para o Canadá, "The Emigration Tunes", Loreena chamou a tradutora para falar das agruras do povo que chegou à região de Quebec em navios, se oferecendo para ser o lastro que equilibrava a embarcação durante a viagem, padecendo com fome, febre tifoide e cólera. O primeiro ato foi encerrado com as clássicas "The Bonny Swans" e "Caravanserai", música que funde sons e ritmos ocidentais e orientais, antes da qual explicou que conheceu na Turquia algumas edificações quase intactas destes estalagens que eram entrepostos para mercadores viajantes entre Oriente e Ocidente.

Após o intervalo, o segundo teve o primeiro ponto alto quando Loreena apresentou a mística "Santiago" sobre Santiago de Compostela. Nesta música, ela autorizou o público a tirar fotos, com flashes mesmo, pois recordava uma festa nesta região com muitos fogos de artifício. Depois, pediu para que as pessoas guardassem suas câmeras, celulares e tablets. O show foi seguindo em alto nível de emoção até as três músicas do disco que a alçou ao estrelato, "The Visit" (1991): "The Lady of Shalott", "All Souls Night" e "The Old Ways", esta última do segundo ato, com destaque para o guitarrista Brian Hughes; o baterista e percussionista Rick Lazar; Ben Grossman no hurdy gurdy; Ian Harper nas pipes e Dudley Phillips no baixo acústico.

Após palmas entusiasmadas e agradecimentos emocionados de ambas as partes, de Loreena ao público e vice-versa, a canadense voltou duas vezes para o bis para executar "Dante´s Prayer" e "Huron Beltane Fire Dance". Uma noite de muita emoção e música celta da mais alta qualidade. Loreena agora segue a turnê brasileira, que prevê apresentações nesta terça, no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, e na quarta e quinta no Credicard Hall, em São Paulo.

Crédito: Luiz Gonzaga Lopes

10 - CHRIS CORNELL

Também sobre o show de Chris Cornell no dia 17 de junho no Bourbon Country, eu preparei uma matéria que resume por que ele ficou em 10º lugar na minha lista:

CHRIS CORNELL ENCANTA FÃS EM SHOW ACÚSTICO

Cantor tocou durante quase duas horas em Porto Alegre

Na noite em que as vozes se levantaram por todo o Brasil para protestar contra a Copa das Confederações e outros desmandos, uma das principais vozes do grunge de Seattle, Chris Cornell, que foi vocalista de bandas como Soundgarden, Audioslave e do projeto Temple of the Dog, fez um show acústico que parecia mais um "Peça e Ofereça", da Caiçara, tamanha a escuta do músico de Seattle aos seus fãs que lotaram a plateia do Teatro do Bourbon Country na noite dessa segunda-feira, deixando espaços no mezanino e nas galerias. Foram 22 músicas durante uma horas e 50 minutos na agitada noite dessa segunda-feira.

Na terceira apresentação do show acústico, Chris Cornell, entrou no palco com 35 minutos de atraso (21h35min) com seus violões e a sua voz vibrante para atender a pedidos de fãs e contar algumas histórias interessantes da sua carreira de quase 30 anos de estrada. O músico iniciou a apresentação com três músicas da carreira solo: "Scar on the Sky", "As Hope and Promise Fade" e "Ground Zero", esta última pelo nome dedicada ao Marco Zero no local onde foram derrubadas as Torres Gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001.

Após tocar a música em homenagem ao amigo Andrew Wood, da banda Mother Love of Bone, morto por overdose de heroína em 1990, chamada "Say Hello to Heaven", Cornell usou o seu bom humor para explicar que a música "Finally Forever", do disco solo "Carry On" foi escrita para o seu próprio casamento e depois foi utilizada em um comercial de basquete da NBA, o que foi estranho para ele.

No estilo "Peça e Ofereça", quando estava dedilhando os acordes de uma outra música, ao pedido de "Call me a Dog", do Temple of the Dog, feito por uma fã, mudou o tom e cantou a música pedida, fiel como um cão aos seus fãs. Assim tocou outras canções das três bandas pelas quais passou, como "Hunger Strike", "Seasons", "I Am the Highway", "Fell on Black Days", "Doesn´t Remind Me", "Be Yourself" e "Wide Awake", esta com aquela guturalidade e alcance rasgado que Cornell, Eddie Vedder e Kurt Cobain nos legaram.

Na hora de um dos pedidos, diante de tantas vozes, o homem do norte dos Estados Unidos fez uma homenagem ao Sul. "Eu ouvi Hotel Califórnia" e tocou a música dos Eagles numa versão lânguida e pungente, num dos poucos covers da noite, pois quando alguém gritou "Billie Jean", de Michael Jackson, a reação foi mais negativa do que positiva. O show foi encerrado com "Blow Up the Outside World", cheia de efeitos, distorções e ecos, deixando o palco vazio para quase cinco minutos de aplausos esperançosos pela volta de Cornell. Mais um daqueles shows que os fãs não acreditam estar perto do seu ídolo pela primeira vez.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Da Dama de Bob ao Cavalo de Patrícia

Nos próximos dias, vou divulgar aqui no blog textostelona, as listas dos cinco melhores de 2013 em várias áreas e categorias. 

Vou começar pelas cinco melhores peças de teatro de 2013, às quais assisti e que não precisam necessariamente ser as melhores, pois algumas que poderiam melhores, eu não assisti, como é o caso de Medeia Vozes, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. 

Então vamos às cinco melhores do meu ano, que passam por nomes como Bob Wilson, Kike Barbosa, Romeo Castellucci, Miguel Falabella e Patrícia Fagundes:

Crédito: Divulgação


1 - A Dama do Mar 


O espetáculo dirigido por Bob Wilson com atores brasileiros, com o texto de Ibsen, desconstruído por Susan Sontag. O esmero e a precisão técnica de som e luz de Wilson com interpretações primorosas de Lígia Cortez como Ellida e atores como Hélio Cícero, Ondina Castilho, Bete Coelho e Luiz Damasceno dourando o elenco. Um espetáculo que acentua o texto, as pausas, o silêncio e a dureza do cais insano de Ibsen. A estética é irretocável e a densidade dramatúrgica é rica. O ciclorama com tons de luz em azul e púrpura, muitas vezes o verde e o amarelo, as marcas de Bob, com a sonoplastia cortando abruptamente ou desenhando as cenas de Ellida com Arnholm, Dr. Wangel e o Estrangeiro. Espetáculo que alegra os olhos, os sentidos e a noção que temos da extensão do drama de Ellida em nossas vidas, do determinismo da vida com Wangel ou a liberdade de seguir com o estrangeiro, o triângulo norueguês que pode ocorrer no Brasil ou na África do Sul, universal ao extremo.

Crédito: Klaus Lefebvre

2 - Sobre o Conceito da Face no Filho de Deus  


Três cenas viscerais em 60 minutos, mas parecem horas, tamanha à repetição e o peso de casa gesto da encenação de Romeo Castellucci para a Societas Raffaello Sanzio apresentada no 20º Porto Alegre em Cena. Um velho se esvai em fezes em sofá e móveis totalmente brancos e o filho cuida com uma bondade e angústia. A segunda cena mostra crianças jogando granadas na figura de Jesus Cristo, são minutos que viram horas e finalmente a imagem gigante de Cristo é destruída. O naturalismo das cenas e o simbolismo contido em cada uma delas nos induz a pensamentos mil, alguns relacionados à dificuldade de se atribuir um poder muito grande à figura do Salvador, de Cristo, esta é uma reprodução do quadro do pintor italiano do século XV, Antonello de Messina. É um jogo teatral, mas é um jogo pesado, que questiona o Deus que deixa um pai sofrer e que coloca nas crianças a possibilidade de vingar, de renovar e de questionar filosófica ou ativamente os desígnios de Deus, do cristianismo e da vida como ela é. Tudo isto aliado a uma sonoplastia pesada, dos sons de granada. Um petardo, um soco na nossa cara cristã.


Crédito: Vilmar Carvalho


3 - Pequenas Violências - Silenciosas e Cotidianas  


O dramaturgo e diretor Kike Barbosa entrelaça cinco histórias de vidas pequenas e violentas, o possível terrorista, a mulher e o seu cachorro, o homossexual, o desempregado bêbado e a mulher que ama ou deixa, todos unidos por um mesmo prédio e um atropelamento e por outras pequenas violências cotidianas. Tudo isto na penumbra, com lanternas coloridas e o deslocamento pelo escuro, ilusões de ótica e uma trilha atordoantemente bem feita por Paulo Arenhart. As atuações estão todas coesas pelo quinteto formado por Cassiano Ranzolin (postura), Liane Venturella (versatilidade), Janaína Pellizon (presença), Rafael Guerra (limites) e Rodrigo Melo (mergulho). Deve ganhar novas temporadas em 2014 para que o público tenha acesso à doce loucura do dramaturgo Kike e a esta companhia madura e cada vez mais segura, que é a Stravaganza, de Adriane Mottola, que mostrou outra pérola neste ano, a fragmentada e pungente Estremeço.

Crédito: Paula Kossatz

4 - Alô Dolly  


Miguel Falabella costuma ter grandes acertos nestas adaptações de musicais da Broadway. No caso de Alô Dolly não foi diferente. O musical tem a sua força na história, que trabalha com aqueles desencontros e armações derivadas da commedia dell arte ou das comédias de erros e ganha força nos dois protagonistas, o encontro até então inédito nos palcos entre Falabella, como Horário Vandergelder, e Marília Pêra como Dolly Levi. Com cenários, figurinos e músicas extremamente bem arranjadas e também aqueles improvisos falabellianos, o caminho estava aberto para a viúva casamenteira dos anos 1890, no estado de Nova York, que é contratada pelo rico e mal-humorado comerciante de Yonkers para lhe arranjar uma esposa na cidade grande, em Nova York. Ela arma o encontro com Irene Molloy (Alessandra Verney), a dona de uma chapelaria, mas após armações e confusões envolvendo os noivos e os empregados dele, na cidade grande e Dolly vai tentar conquistar o bom partido. Dolly tenta casar Ambrósio Kemper com Ermengarda, a sobrinha de Horácio. Os figurinos de Fause Haten são belos e funcionais. São 29 atores em cena, cinco deles bailarinos, além de uma orquestra com 16 integrantes, sob direção musical de Carlos Bauzys, que dão força às interpretações belas de Marília e dos atores-cantores. Os cenários permitem a melhor movimentação cênicas, assinados por Renato Theobaldo e Roberto Rolnik, permeados com a iluminação top do Brasil, do grande Paulo César Medeiros.


Crédito: Mariano Czarnobai / PMPA


5 - Natalício Cavalo 


Por fim, chegamos à Natalício Cavalo, o segundo capítulo da Trilogia Festiva, da Cia. Rústica, dirigida por Patrícia Fagundes. A investigação de Patrícia adquire uma grande densidade a cada espetáculo, pois percebe-se a companhia toda mergulhada na pesquisa. Ao tratar da morte de um personagem tão forte, picaresco, imbuído do melhor espírito nativo, gaúcho, o grupo tem um acerto em desconstruir a história e apresentar de forma experimental, muito bem musicalizada, pela arte de Arthur de Faria e pela execução dos atores músicos. Rossendo Rodrigues é um Natalício em prosa, vestido com as roupas e as armas da figura mítica, memorializada pela Rústica. Quando pensamos em qualquer um destes atores em cena, lembramos de pelo menos um ou dois outros grandes trabalhos deles: Heinz Limaverde, Lisandro Belloto, Marcelo Mertins, Marina Mendo, Priscilla Colombi. Os figurinos de Daniel Lion estilizam o gaúcho e o personagem é apresentado em todas as suas nuances, amores, golpes, ameaças de morte e a morte propriamente dita. Um espetáculo para se rever, para atestar cada vez mais a competência desta companhia consolidada que é a Rústica.

quinta-feira, setembro 12, 2013

Botando a boca no pornô



O título desta crítica parece querer o duplo sentido natural quando o assunto é sexo, mas não é, como o famoso xampu Denorex. Linda Lovelace foi realmente uma personagem mais do que real, uma mulher simples que pode ser encontrada na rua, sem silicones ou maquiagens fortes, isto no início dos anos 70. Ela revolucionou o cinema pornô estrelando em 1972 o filme “Garganta Profunda”, de Gerard Damiano, mas o depois da película mais famosa da indústria pornô, assistida por mais de 600 milhões de pessoas, é que justifica o título deste texto, pois Linda literalmente botou a boca na indústria pornô e também na violência e abuso cometido contra as mulheres.


Mas vamos falar de cinema, o filme “Lovelace”, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, tem duas opções narrativas intercaladas. A primeira apresenta a ascensão de Linda Lovelace (a também ascendente Amanda Seyfried) de uma jovem mais recatada, controlada pela mãe católica (Sharon Stone) e o pai ex-policial (Robert Patrick) que protagonizou a famosa cena de sexo oral num filme com enredo e mais divertido do que os filmes do gênero na época. A segunda narrativa apresenta por dentro como ela chegou até o estrelato, à custa de apanhar e ser obrigada a fazer o filme e outros favores sexuais a outros homens por dinheiro pelo marido Chuck Traynor (em mais uma boa atuação de Peter Saarsgard).



Ao contrapor o glamour e o drama, ao colocar o espectador dentro da tortura que foi a vida de Linda, o que gerou até o livro “Provação”, Epstein e Friedman acertaram, bem como na escolha do elenco para personificar algumas celebridades da época. James Franco está divertido como o todo-poderoso da Playboy, Hugh Hefner, e Ron Pritchard ficou uma cópia fiel de Sammy Davis Jr. O elenco ainda tem Hank Azaria como o cineasta Gerry Damiano, Chris Noth como o produtor Anthony Romano, além de Juno Temple, Adam Brody, Wes Bentley, Chloë Sevigny e Carmen Electra.


O filme envolve o espectador no drama real de Linda e a sua tentativa desesperada de soltar o verbo contra a indústria e ao abuso sofrido pelas mulheres à época. Uma história bem contada, a ser vista por todo o público que se interessa por histórias reais de ascensão e queda, pois a vida pode ser glamour durante dias, meses e anos, mas na maior parte do tempo ela pode ser drama. Realidade não faz mal a ninguém e o cinema tem entendido cada vez mais que os blockbusters lotam as salas multiplex, mas não perduram na mente das pessoas, que precisam de mais e mais filmes de ação ou comédias bobas, mas dramas consistentes são cada vez mais necessários e que bom que o cinema americano volta e meia resolve abordar algumas biografias interessantes.





FICHA TÉCNICA
LOVELACE
Diretores: ROB EPSTEIN e JEFFREY FRIEDMAN
Gênero: Drama
Produção: Estados Unidos
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 93 min
Elenco: AMANDA SEYFRIED, PETER SARSGAARD, SHARON STONE, JUNO TEMPLE, ADAM BRODY, CHRIS NOTH, CORY HARDRICT, HANK AZARIA, SARAH HYLAND, BOBBY CANNAVALE, ANNA CAMP, BRIAN GATTAS, CARLY CRAIG, CARMEN ELECTRA, LAURA PREPON, AMANDA SETTON, IZABELLA MIKO, SKYLAR ASTIN,
Estreia: 13 de setembro

Distribuição: Paris Filmes