quarta-feira, janeiro 01, 2014

O azul é quente e o paraíso é perdido

 


A minha relação dos dez melhores filmes estrangeiros de 2013 tem o naturalismo fílmico e uma abordagem sem julgamentos da condição de quem ama iguais, tem uma homenagem ao cinema de Murnau, tem a metaficção, a narrativa sem protagonistas, a vida de dois artistas franceses, uma família amarga e sincera, o amor diante de uma doença terminal, tem uma Poliana nem tão moça assim e a continuação de uma saga que segue o tempo normal dos seus personagens, Jesse e Celina, além dos trambiques de um Portugal pós-Troika ou, como queiram, dos arrochos do Mercado Comum Europeu, Dez filmes de tirar o fôlego, que renovaram a dramaturgia cinematográfica, que modificaram a forma ou a mantiveram e foram fundo no conteúdo. Obras para ficar na memória.

Aí vai a lista dos 10 mais (onze, pois há um empate na nona colocação) do cinema internacional em 2013:


1 - AZUL É A COR MAIS QUENTE

O filme de Abdellatif Kechiche tem tudo o que um grande filme precisa e muito mais. É realista ou naturalista, como queiram, conta uma grande história baseada em uma história em quadrinhos, apresenta o mundo lésbico de forma mais profunda, sem julgar. Na verdade, o amor lésbico é o amor. A vida de Adèle é uma vida comum, daquelas de um adolescente que lê A Vida de Marianne, de Marivaux. A história é plausível, filmada de forma a câmera interferir o menos possível (lembram de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet). E o diretor resolveu interferir o menos possível pois a Clementine, da HQ de Julie Maroh, virou Adèle pois a protagonista é Adèle para seguir a espontaneidade em relação ao nome da atriz Adèle Exarchopoulos, sendo que o título original do filme passou a ser La Vie D´Adèle, A Vida de Adèle e não Azul é a Cor Mais Quente, o título da HQ. A relação de Adèle com Emma (Léa Seydoux) é espontânea. Adèle fala enquanto mastiga e se instiga com o cabelo azul da artista plástica, que é maior de idade. Emma tem o cabelo azul, a relação resolvida com a sexualidade, bem como a maturidade dos pais com a homossexualidade dela. Na vida de Adèle, nada é tão simples. Os pais dela pensam que ser artista é um passatempo e não um trabalho. Adèle é curiosa e vive uma intensa história de amor com Emma, destas que vêm e vão, que são suscetíveis à traição, o romantismo do século 19 atravessando a rua do século 21  As três horas de filme e a cena de sexo de sete minutos só corroboram para todo o naturalismo. O filme não é longo, as pessoas é que às vezes são curtas para o tempo. Bom, o filme é sobre o amor, a transcendência, os costumes, a arte e como é encarada nos dias de hoje uma relação homossexual. Não há julgamento, há só uma bela história, muito cinema e bastante reflexão sobre o tema a posteriori. Merecidamente o melhor filme de 2013, prenunciado pela vitória em Cannes e depois pelos nossos olhos amorosos e condescendentes.
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2 - TABU

Tabu é primeiramente uma homenagem ao cinema e a um dos diretores mais expressivos dos primeiros 40 anos da Sétima Arte, o alemão Friedrich Wilhelm Murnau. O diretor Miguel Gomes cria o seu Tabu, referenciando ao título do filme de Murnau, de 1931 e também ao nome da protagonista Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira), outro filme do cineasta alemão, o diretor português inicia a trama com um homem que se suicida ao se jogar aos crocodilos, não sem antes ver refletida a imagem de uma mulher na água, permanecendo no ar a ideia romântica e épica. Invertendo a lógica do Tabu, de 1931, a primeira parte é o “Paraíso Perdido”, a Lisboa atual com vidas quase sem sentido de Pilar (Teresa Madruga), a vizinha Aurora (Laura Soveral) e a sua empregada africana Santa (Isabel Cardoso), rodado todo em preto e banco. Para chegar à segunda parte, “Paraíso”, a transição é a morte de Aurora , O personagem Ventura (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta), que teve um caso com Aurora nos anos 1960 em Moçambique remonta a história da bela Aurora, uma mulher de fibra, uma caçadora, que não tinha medo de crocodilos e que trai o marido (o brasileiro Ivo Müller. O detalhe de toda a narrativa é que a história é contada por Ventura na atualidade e só ele delineia a trama, deixando os personagens da época agirem sem fala, com o mexer de bocas, e apenas com os sons ambientes. Isto cria um efeito maravilhoso, que mixa o cinema mudo com as histórias de Jacques Tati. Um belo filme, pessimista, lírico, épico e uma aula de cinema desconstruído desde o contemporâneo até o mais ancestral, o cinema mudo de Murnau e outros cineastas anteriores.




3 – AMOR

Uma das mais contundentes histórias de amor e dor já filmadas. O austríaco Michael Haneke, com a sua capacidade de mergulhar no mais profundo do ser humano, obteve dos seus protagonistas Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant o máximo de dramaticidade. A história por si só nos conduz para os labirintos do amor e da finitude, quando Rose tem dois derrames consecutivos e fica em estado vegetativo.

Aqui a crítica que fiz logo após assistir ao filme:

Há quase uma década criei um conto chamado Até o Fim, no qual a narrativa era conduzida por um coveiro que vive a sua vida intensamente até o fim mesmo. Ele mesmo orquestra o seu enterro. Bom, estou abordando o tema subjetivamente, pois o filme Amor, de Michael Haneke é um exercício diante da finitude, diante do amor até o fim. É um exercício minimalista, mas com uma grande carga de dramaticidade e interpretações exuberantes dos protagonistas que encaram o casal francês de professores de música aposentados, com idade acima dos 80 anos, Anne e George (Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant).

Sem querer contar o que se sucede no filme do diretor de Caché e A Fita Branca, mas encaminhando a condução da narrativa, é importante se dizer que o grande sucesso que o filme vem fazendo se deve principalmente ao fato de o filme nos fazer confrontar com um drama que mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, irá atingir todos nós. Após assistir a um concerto de um ex-aluno, o pianista na vida real Alexandre Tharaud, Anne vai para casa e no dia posterior tem um derrame. Com o lado direito paralisado, Anne passa a necessitar de auxílio para a maior parte das atividades cotidianas. Não querendo falar da síndrome de cinema e lágrimas, mas as privações de Anne e o empenho amoroso de George acabam nos deixando com o coração partido, desnorteados, tentando entender o que é o amor diante de um acidente vascular cerebral ou das doenças degenerativas e da própria morte. Ele resiste. Ele pode ser maior do que tudo. Mas somos humanos. 


Neste lado humano do amor, o papel da filha, representado por Isabelle Huppert, e do casal de zeladores do prédio, que ajudam com as compras, e também das enfermeiras fazem o contraponto, de pessoas que não entendem porque Anne não quer ir para um hospital ou um asilo. É uma mulher culta, professora de música, lê e ouve música todos os dias. A degradação e a entrega não fazem parte do seu vocabulário. Haneke sabe disto e nos coloca dentro da perspectiva do apego do casal e de como eles se relacionam com a doença de Anne e com o mundo externo. O que George vai fazer com Anne é uma decisão que só ele pode tomar e que só um filme com tamanho poder de discernimento e grau de realidade pode nos proporcionar. 
Os prêmios recebidos por Amor são mais que merecidos, incluindo a Palma de Ouro em Cannes 2012 e mais recentemente o César de Melhor Filme, o Oscar francês. Haneke que já havia mergulhados nas profundezas da alma humana em A Professora de Piano, Violência Gratuita, Cachê e A Fita Branca é um diretor no qual se pode confiar, que sempre vai nos apresentar histórias com um grau de drama e de humanidade acima da média. Filme triste, de lágrimas, mas para que pensemos no que fazer diante da finitude da vida neste plano terreno. 


4 - AS QUATRO VOLTAS
Publico a crítica do filme escrita em maio:

Antes de começar a entabular esta crítica, preciso dar um aviso, prestar um serviço de utilidade ao público. Se você é daqueles espectadores que está acostumado com as linguagens convencionais de narrativa cinematográfica, aquele esquemão básico de roteiro do Syd Field, com apresentação, confrontação e resolução, dois pontos de virada, anticlímax e clímax, com ação sustentada pelos diálogos e uma trama bastante visível para que você possa entender ou desvendar o filme, então nem se dirija ao cinema para ver o filme com coprodução da Itália, Alemanha e Suíça: "As Quatro Voltas", vencedor do prêmio Melhor Filme Europeu da Quinzena dos Realizadores de Festival de Cannes em 2010.
Filme que remete a algumas obras de Jacques Tati pela ausência de diálogos e a utilização do som direto e também o cinema contemplativo de Andrey Tarkovskiy, em filmes como "O Sacrifício", este segundo longa do italiano de Milão, Michelangelo Frammartino (o primeiro é "Il Dono", cuja tradução seria O Dono, agora ele já rodou o documentário Alberi), trata dos ciclos de vida, do tempo e da natureza e como o homem se insere nestes ciclos. O local é uma pequena aldeia com características medievais nas montanhas da Caulonia, na Calábria, no sul da Itália. Os ciclos são apresentados exatamente em quatro voltas que envolvem um homem (pastor de cabras), uma cabra, uma árvore e a fabricação do carvão, pois o sustento da região é carboneiro e também o carvão serve para aquecer as casas no frio calabrês. É uma espécie de eterno retorno de Nietzche com as formas de vida e subsistência da região. As quatro voltas são a humana, a animal, a vegetal e finalmente a mineral.

A poesia visual e a beleza narrativa de "As Quatro Voltas" é o que mais incomoda ao espectador que não se informou sobre o filme antes de entrar na sala. O primeiro quarto de narrativa da 1h28min do filme acompanha um homem (Giuseppe Fudda) que pastoreia as suas cabras e está muito doente. O tempo passa e os dias são exatamente iguais, os sons da pequena vila são dos cachorros, do vento nas árvores, uma voz ao longe, do balido das cabras e dos sinos de localização que elas carregam. O pastor acredita que o melhor remédio para a sua doença está na poeira acumulada no chão da igreja, que ele coleta junto a uma funcionária da igreja e mistura com água antes de dormir para beber. A poeira provavelmente vem das cinzas do carvão, o eterno retorno na mesma aldeia.

No dia em que ele perde o pó coletado, bate o desespero e ele recorre à igreja à noite, mas ninguém atende. Ele dorme preocupado e não levanta de manhã, quando um acidente faz com que as cabras se soltem e invadam a casa onde mora (uma cena na melhor linha de "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, que era com ovelha numa sala). O ciclo do pastor está findando e o de uma cabritinha está começando desde o seu parto, o carinho da mãe até as brincadeiras e o acaso agindo para que ela se perca. No meio disto tudo, a comunidade segue suas tradições da encenação da Paixão de Cristo e os carboneiros que aparecem no início do filme são os centuriões (Bruno Timpano e Nazareno Timpano). Não há diálogos, só vozes distantes e a câmera contemplando as ações, inclusive o balido desesperado da cabritinha quando ela se perde e alcança abrigo numa árvore frondosa, um pinheiro. A volta dela também se finda e o que se vê é uma tela escura e as batidas com pás da feitura do carvão, um sinal de morte, mas de renascimento para o bem coletivo da aldeia.

 A árvore frondosa enfrenta as quatros estações, o inverno e a neve, mas não se mantém diante de uma tradição calabresa de colocar no centro da aldeia um tronco altíssimo, a "Pita" (a árvore finalizando o seu ciclo) com ramos e balões no seu topo. Após a festividade que também pode ser associada à religiosidade (característica intrínseca a qualquer comuna italiana), á arvore vira lenha e vai alimentar a fabricação do carvão, que vai virar fumaça e irá para o ar da comunidade, num ciclo sem fim.

A poesia do filme reside em entender estes ciclos e se utilizar apenas da câmera contemplativa, sem a interferência do roteiro para apresentar os possíveis ciclos da vida numa comunidade onde os tempos modernos não chegaram, a vida segue sempre a mesma sina. De alguma forma é um eterno retorno à italiana (a visão deste outro pintor visual, casualmente também Michelangelo sobre a teoria de Nietzsche) ou então a doutrina dos ciclos (descrita por Jorge Luis Borges), como queiram, pois para quem acredita, quando um ciclo se finda ou uma volta é dada, outra se inicia, em espiral ou em círculos. Uma obra de exceção, que não é para todos. Público de blockbuster, mantenha-se distante ou saia nos primeiros 15 minutos, como várias pessoas o fizeram na sessão em que eu fui.



5 – ÁLBUM DE FAMÍLIA

O filme de John Wells, baseado na peça de Tracy Letts, sobre a amarga família que vive no Condado de Osage, em Oklahoma, foi mais uma das grandes surpresas cinematográficas de fim de ano. Muitas pessoas reclamam do cinema que é teatral, mas a dramaturgia e o conflito são o quesito mais essencial do cinema. Não adianta muita forma sem conteúdo. A história da família de Beverly e Violet Weston, encarnada pelos monstros Sam Shepard (participação curta e essencial) e Meryl Streep, da qual não temos mais nada a dizer, tamanha a sua entrega para os papeis. A relação de Violet com as filhas e com a família é conturbada e o suicídio de Beverly traz todas as verdades à tona e os podres falados em voz alta à mesa, num embate forte entre Violet e a filha Bárbara, a que mais a enfrenta e que também é amarga, como todos na família, vivida pela também grande atriz e agora mais madura cenicamente falando, Julia Roberts. Um grande filme sobre os podres familiares e como fazer para conviver com eles.




6 - VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA

Cineasta totalmente autoral, o francês Alain Resnais nos proporcionou pelos menos duas pérolas da ficção poética como "Hiroshima, Mon Amour" e "O Ano Passado em Marienbad", além do difícil filme duplo ou espelho como  "Smoking/No Smoking" e do excelente musical "Amores Parisienses". Aos 90 anos e casado com a atriz Sabine Azéma, Resnais está longe da senilidade e segue o caminho inventivo que acompanha os cineastas autorais franceses. Em "Vocês Ainda Não Viram Nada" que estreia nos cinemas neste final de semana, o ponto de partida é o último desejo de um diretor na hora da sua morte. Baseado no livro "Eurídice", de Jean Anouilh, este drama dramatúrgico - é assim redudantemente que o batizo - tem como início o assistente (o ator polonês Andrzej Seweryn) do diretor e dramaturgo Antoine d´Anthac (Denys Podalydès, da Comédie Française), ligando para cada um dos atores que já interpretaram a peça Eurídice, do próprio d´Anthac. Ele liga, diz alô e pergunta se a pessoa é Sabine Azéma, comunica que lamentavelmente o senhor Antoine d´Anthac faleceu e que ela é esperada na suntuosa casa dele no alto de uma montanha em Peillon. Assim também recebem as ligações em telefones celulares ou convencionais, os atores Pierre Arditi, Mathieu Amalric, Michel Piccoli, Lambert Wilson, Anne Consigny, Hippolyte Girardot, Jean-Noel Brouté, Anny Duperey, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc e Michel Vuillermoz.
Assim como os mesmos planos cinematográficos repetidos a cada ligação do assistente do dramaturgo e o consequente atender ao telefone de perfil, a chegada à mansão em Peillon é feita ao melhor estilo Resnais, com a câmera no mesmo ponto, centralizando o abrir da porta, com o vento forte lá fora e a porta se abrindo, com o assistente apresentando a casa a cada um dos atores, que ali vivem eles mesmo como atores que interpretaram a Eurídice do dramaturgo falecido. Cada um dos atores destaca o gosto e o colecionismo de Antoine pelas casas exóticas. Após a chegada de todos e os respectivos cumprimentos de pessoas que não se viam há tempos, o assistente dispõe todos os atores defronte a um telão, que é recoberto por um quadro que reproduz a visão externa da casa onde eles estão. No telão, Antoine d´Anthac enfatiza que recebeu de um grupo iniciante a Compagnie de La Colombe (Companhia da Pomba, traduzindo do francês) uma versão em vídeo da montagem de Eurídice e que se eles estão assistindo à montagem neste momento é porque ele já está morto e pede que eles aprovem ou não a montagem.



O que acontece a partir daí é a mágica da metalinguagem e da interação tela/palco/vida. O telão reproduz o drama de Eurídice (baseado na lenda grega do Orfeu), que está dividida entre o amor de três homens, um deles é Orfeu, que tem uma relação intensa com a música e que deixa o pai na estação para fugir com Eurídice para um hotel em Marseille. Os atores como Sabine Azéma/Anne Consigny e Pierre Arditi/Lambert Wilson, que viveram Eurídice e Orfeu nas montagens de d´Anthac assistem inicialmente à montagem do grupo iniciante, balbuciando os textos e depois interagindo com o telão, até trazerem a trama para a casa em Peillon. Nos três atos da história, a dramaticidade do texto transita entre a casa e o telão e entramos dentro de uma experiência metalinguística incomparável. Revivendo os papéis interpretados na tela pelos jovens atores, os veteranos mexem com o seu passado, com o seu fazer teatral e também com a própria identidade de atores vivendo eles mesmos interpretando uma peça que também tem uma correlata no telão. Resnais cria o seu universo teatral e a partir daí acompanhamos um teatro onde a vida, o palco e a tela perdem suas fronteiras.

As interpretações de outros gigantes do teatro e do cinema francês como Michel Piccoli, Hippolyte Girardot, Mathieu Amalric e Anny Duperey, pontuadas pela trilha densa e precisa de Marc Snow e pela fotografia que privilegia as mudanças de luz e os interiores dos cenários, dão ao filme uma intensidade que não precisa ser marcada pelo ritmo veloz, mas sim pelo metrônomo de uma montagem teatral. A reviravolta existente no final é impossível de ser contada, pois atrapalharia a surpresa apontada por Resnais, mas posso adiantar que é dramática, como o próprio Resnais, como o personagem de Antoine d´Anthac e como o filme requer, pois estamos diante da nata da atuação na França, cujos prêmios de atuação todos somados chegariam a duas ou três centenas de troféus. Um filme para se deixar levar, para sonhar, para interpretar, para ver e rever, para transpor as fronteiras e os limites entre a vida, o teatro e o cinema. Imperdível como qualquer filme de Alain Resnais.


7 - FRANCES HA

Um belo filme de Noah Baumbach. Uma Poliana moderna vivida por Greta Gervig. Uma mulher que tem sua vida pela metade, cujos amores, a amizade e a carreira estão sempre no quase. A identificação é quase que total com aqueles que estão sempre querendo acertar na carreira, no amor e na vida, mas sempre ficam pelo meio do caminho. Bela obra cinematográfica em preto e branco e com a trilha encabeçada por Modern Love.



8 – ANTES DA MEIA-NOITE

Jesse e Celina estão de volta, desta vez com mais de 40 anos, com duas filhas passando as férias na Grécia e discutindo a relação como qualquer casal. Bela trilogia construída por Richard Linklater, com roteiro dele e dos atores Julie Delpy e Ethan Hawke. Um grande filme e um grande projeto, que segue o tempo real da idade dos atores e do que o tempo faz com um casal.





9 – RENOIR / CAMILLE CLAUDEL 1915

Dois belos filmes sobre o universo de dois artistas franceses. O primeiro mostra a relação de Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet) com uma das suas modelos de nus (Christa Teret) e o despertar do filho Jean Renoir para o cinema. O filme trata das sutilezas do pensamento e da pintura do grande Renoir numa segura câmera de Gilles Bourdos. O segundo aborda os últimos de anos da escultora Camille Claudel (Juliette Binoche) em um sanatório e a esquizofrenia em relação a Rodin e a vontade de sair de lá, externada em cartas e conversa com o irmão Paul Claudel e a aspereza da loucura, filmada em um chiaroscuro atordoante por Bruno Dumont.  


10 – AMÉRICA

Aqui uma crítica sobre o filme do português João Nuno Pinto, escrita no início do ano:

A NAU DOS ENCALHADOS

O cinema português está mais prolífico que nunca e sobrevive além do seu incansável ícone Manoel de Oliveira, de 104 anos. Quando estive em Portugal entre novembro e dezembro de 2012, eram cerca de 10 lançamentos de filmes genuinamente portugueses, como "Operação Outono" e "Deste Lado da Ressurreição ainda inéditos no Brasil e "Aristides de Sousa Mendes - o Cônsul de Bordéus", este exibido em première na 9ª Seleção de Filmes Bourbon, realizada pela Panda Filmes, em novembro de 2012. Novamente, a Panda Filmes nos coloca em contato com produção portuguesa, co-produzida com Espanha, Brasil e Rússia. "América", dirigido por João Nuno Pinto, é um filme de náufragos, pessoas sempre à deriva, que vivem de pequenos golpes, principalmente no que tange ao acolhimento das centenas de imigrantes que desembarcam na nova América que é Portugal, um caldeirão de culturas e uma das portas entradas mais tranquilas da Europa rica na atualidade, já que França, Espanha, Itália e Alemanha apertaram um pouco o cerco aos imigrandes. O diretor João Nuno Pinto o define como um filme de "encalhados". A obra é baseada no conto "Criação do Mundo", da autora portuguesa Luísa Costa Gomes, co-roteirista do filme junto com João Nuno Pinto e Melanie Dimantas.
Com uma poética visual bastante própria e uma trilha sonora que gira entre o lírico e a tensão, "América" nos coloca na periferia de uma pequena cidade litorânea portuguesa, com a narrativa seguindo a voz em off de Liza (Chulpan Khamatova, de "Adeus, Lênin", melhor atriz da 11ª Semana de Cine Iberoamericano de Villaverde, Espanha, uma jovem imigrante russa, casada com um português, Vítor (Fernando Luís, ator carismático e que empresta uma grande organicidade ao papel), de quem tem um filho, Mauro (Manuel Custódia). Vítor é um trambiqueiro, como chamamos aqui no Brasil. A sua sina é enganar velhinhas e quando muito tirar 200 euros de algo ligado a previdência e a um dinheiro que está para chegar. Mauro, de uma hora para outra, resolve não falar e se comunica com olhares e com brincadeiras. Liza cuida da casa e da avó de Vítor, que se recusa a comer, mas que demonstra um carinho enorme por Liza, chamada de Popova por Vítor.

A primeira virada do filme se dá quando a espanhola Fernanda (María Barranco), ex-mulher de Vítor, reaparece propondo um negócio de falsificação de passaportes para os imigrantes ilegais russos, ucranianos, angolanos, brasileiros, entre outos. A partir daí, Liza perde o controle sobre a casa e o local passa a ser ponto de passagem para inúmeros imigrantes de várias raças e nacionalidades. Todos náufragos ou encalhados à procura de uma terra realmente firme. Com Fernanda, aparecem dois tipos especialmente estranhos, o espanhol Tolentino (Fernando Maestre) e o brasileiro Matias (Cassiano Carneiro, que atuou em filmes e novelas no Brasil como "Mandacaru"). Os dois dão o tom de humor necessário a um filme de erros. Enquanto Tolentino é o próprio tragicômico espanhol, parecendo egresso de um filme de Almodóvar, Matias dá a brasilidade e aquele humor ácido. Uma das principais piadas do filme é quando eles estão organizando a fila para encaminhar os passaportes falsificados e Matias pergunta: "Quem é africano? Então vai para o fim da fila. E quem é brasileiro? Vai para trás dos africanos". Outra piada que funciona é quando alguém pergunta o nome daquele artista famoso de Hollywood e alguém responde: "É o Denzel Washington" e ouve: "Não, é o King Kong".

A trama está cheia de viradas e acompanhamos Liza tentando fugir daquela realidade de encalhados, sem nunca obter sucesso, enquanto a situação fica cada vez mais crítica. Todos dependem do artista do grupo, o velho Melo (o veterano Raul Solnado, que faleceu no período de pós-produção do filme em agosto de 2009 e a quem a obra é dedicada) e também do cérebro dos golpes que é Paulo Armando (Dinarte Branco), que tem ideias para golpes virtuais, mas é um incompreendido. Para piorar, Liza se envolve com um ortopedista ucraniano Andrei (Mikahil Evlanov) e Vítor tem uma recaída com Fernanda. O filme ainda nos reserva cenas belíssimas da cidade litorânea (a locação é na Cova do Vapor, localizada no distrito de Setúbal, próximo de Lisboa, na junção entre o rio Tejo e o Oceano Atlântico), dos labirintos de ruelas onde Liza e Vítor moram, a força da chuva no outono/inverno português e algumas cenas meio Fellinianas, como um barco que encalha no teto da casa que é o centro da trama. A fotografia foi vencedora do festival Indie Lisboa, em Portugal. Além disto, a máfia russa também aparece, pois na vida real ela existe e está disseminada por toda a Europa, após o fim da União Soviética.

Um filme belo, bem-humorado e tenso ao mesmo tempo, que nos leva a pensar numa tragédia iminente, pois os fios que ligam os personagens a uma vida normal são muito frágeis. A mão do diretor está sempre presente, provando que João Nuno Pinto, que havia dirigido somente o curta "Skype Me" (2008) merece toda a nossa atenção daqui por diante, por mostra uma trama com tensão constante, belas imagens, bons atores e com uma narrativa que nunca perde o pique e o foco. Pinto recebeu dois prêmios de Melhor Diretor pelo filme no 15º Festival Sofia de Cinema Independente 2011, na Bulgária e no 5º Festival Cineport, no mês de setembro de 2012, em João Pessoa (PB).
  
Uma bela e simbolista obra sobre as consequências do Mercado Comum Europeu na Europa atual, o revolto mar financeiro deixa muitos náufragos pelo caminho. .

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