segunda-feira, agosto 29, 2016

A Arca Francesa




Depois da morte de Andrei Tarkovsky não existe outro cineasta no mundo capaz de causar a sensação que Aleksandr Nicolaievitch Sokurov (que retratou o mestre, diretor de Solaris e Nostalgia, em Melancolia de Moscou) causa ao tratar de temas banais como a relação entre pai, mãe e filho, grandes líderes mundiais ou personagens literários e principalmente criar uma linguagem lírica, que atravessa o tempo para tratar de grandes museus do mundo, a saber o Hermitage, em São Petersburgo, com o inigualável plano-sequência de 2002, com mais de 3 mil figurantes, “Arca Russa” e agora com seu “Francofonia – Louvre sob Ocupação”, que traz toda a saga de dois homens, um alemão e outro francês, para manter intactas, à prova de saque nazista as obras do Louvre e de outros grandes museus da França. Conde Franziskus Wolff-Metternich (Benjamin Utzerath) e Jacques Jaujard (Louis-Do de Lencquesaing) são dois homens resistindo à sina da ocupação nazista na França, no verão de 1940. Por isso, novamente o sentido bíblico de Arca, de dois homens sendo os Noés do século XX e salvando a arte de 6 mil anos antes de Cristo durante a Segunda Guerra Mundial. Por isto, o batismo deste texto como A Arca Francesa.

Como é um artesão da película (seja ela já digital), Sokurov não escolhe o caminho convencional. Desta vez, a narrativa é iniciada por fotos ligadas ao início do século XX, e principalmente pela constatação que dois grandes nomes da literatura russa: Anton Pavlovitch Tchekhov e Liev Tolstoy estão mortos e não respondem a estímulos. Sokurov usa três narradores. Ele mesmo e outros dois com câmera subjetiva e faz um apanhado do início daquele século, com a Primeira Guerra Mundial e outros fatos até chegar à ocupação nazista na França. A metalinguagem do filme é assegurada por um momento em que Sokurov no seu apartamento conversa por skype com um capitão de um navio, Dirk, que leva obras de arte por um mar agitado. Enquanto conversa com este capitão, algumas imagens do filme aparecem no copião. O navio atravessando o mar revolto é o gancho para falar como muitas das obras chegam ao Louvre, nos séculos anteriores. O Louvre é o personagem principal do filme, assim como Metternich e Jaujard. A pergunta do narrador dá a clareza à grandeza deste museu e do museu retratado em Arca Russa: “O que seria da França sem o Louvre e Leningrado sem o Hermitage?”

Jaujard e Metternich pelos atores Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath 

Ao som da música de Gustav Mahler, “Kindertotenlieder”, o narrador onírico, onisciente, o fantasma do Hermitage, agora é Sokurov conversando com seu filme, a fantasma Marianne  (Johanna Korthals Altes) bradando pela liberdade, igualdade, fraternidade como metáfora francófona e Napoleão Bonaparte (Vincent Nemeth) dizendo que o museu é ele, que as obras são ele, que todas elas são resultados de suas campanhas vitoriosas. O drone que faz imagens aéreas de Paris para encontrar o Louvre dá uma sensação de leveza à obra do cineasta russo, que precisa dar toda a dimensão do Louvre, da Segunda Guerra, como no momento em que trata do Cerco de Leningrado, que durou um ano, com corpos espalhados pela cidade, sendo abandonados pela rua, jogados em grandes valas, o importante era resistir e sobreviver. Didaticamente, o cineasta explica como foi erguido o Louvre desde o século XII e com quais intenções até o projeto de Pierre Lescot no século XVI.

O colaboracionismo do fantoche nazista, o Marechal Pétain e o governo de araque de Vichy, que não foi ocupado pelos nazistas, também recebe atenção das lentes e da recuperação de imagens de Sokurov. As mais diversas metáforas ligadas aos quadros, como a "Monalisa", de Da Vinci, a Vitória de Samotrácia, uma escultura assíria de centenas de anos antes de Cristo, a "Jangada da Medusa", de Theodore Gericault, aparecem nesta polifonia sokuroviana, na qual o passado e o presente se misturam, como naquela Arca Russa de 2002. A preocupação do narrador ante à ocupação nazista é “Como se comportará o vencedor diante do centro da cultura mundial?”. Voltando ao passado, o Napoleão fantasma que vaga pelo Louvre se pergunta: “Porque eu fiz a guerra? Pela arte”.

Alexsandr Sokurov e a "Jangada da Medusa", de Gericault


Ao falar de esculturas assírias e da sala egípcia, Sokurov trata das diferenças entre a cultura oriental e a ocidental. Ele se rende aos retratos, tão presentes no Louvre, com closes em alguns dos quadros, fazendo a seguinte pergunta: “Porque os retratos são tão importantes na cultura europeia, considerando que são inexistentes na cultura muçulmana?” Uma obra que nos enche de interesse pelo que ainda não compreendemos da arte e que nos auxilia a enxergar melhor o que está por trás da grandeza do Louvre, que começou a ser projetado no final do século XXII e teve suas portas abertas em 10 de agosto de 1793, poucos anos depois da Revolução Francesa. Para terminar este texto, deixo o meu leitor com o trecho do ensaio “A Proximidade de um Mestre”, do saudoso Leon Cakoff, do livro “Alexsandr Sokúrov” (Mostra/Cosac Naify, 2002), com organização de Álvaro Machado. Neste trecho, ele se refere à Arca Russa, mas poderia estar se referindo a esta Arca Francesa:

“O diretor fala de política no sentido direto da palavra, o que é muito valioso para recompor os delírios e matar as charadas sutilmente construídas nos diálogos sobre os tiranos do século XX que se converteram em personagens dos seus filmes – Hitler em ‘Moloch’; Lênin em ‘Taurus’; e um projeto sobre Hiroito (O Sol): ‘Quanto mais infeliz uma pessoa é, mais poder ela quer’. Divaga sobre a natureza humana e sua resistência permanente contra a barbárie: ‘Há gente que está pronta para morrer, mas que não está pronta para resistir e sobreviver, para entrar na arca...’. Aqui começam todas as metáforas sobre a Arca de Noé que Sokúrov foi transferindo para os sentidos de sua Arca Russa: ‘Minha arca é um símbolo de sobrevivência, sou um partisan do entretenimento com o cinema’ (...). E ele nos oferece uma arca cheia de tesouros e recordações, com mais desafios e armadilhas, num ciclo histórico perpétuo.”

Para aqueles que se deleitaram com as imagens e o conteúdo histórico de ‘Arca Russa’, como foi o meu caso, que fui a São Petersburgo em 2012 para passar 6 horas e meia imerso no Hermitage (lastimando não ter feito uma segunda e uma terceira visita a um dos museus mais significativos do mundo), posso dizer que “Francofonia” é filme obrigatório, por ser uma declaração de amor ao Louvre, à arte e aos homens que ajudaram a salvar suas obras. Quem visita o Louvre hoje não tem como saber que o museu não teria a maior parte das suas quase 400 mil obras, não fosse o empenho de Jaujard e a conivência de Metternich em evitar o saque nazista. Assistam ao filme enquanto está em cartaz nos cinemas brasileiros. Em Porto Alegre, o filme de Sokurov está sendo exibido nos cinemas Guion e Espaço Itaú.  


FRANCOFONIA
Direção: Aleksandr Sokurov
Elenco: Louis-Do de Lencquesaing, Vincent Nemeth, Benjamin Utzerath, Johanna Korthals Altes, Jean-Claude Caër y Andrey Chelpanov
Fotografia: Bruno Delbonnel
Montagem: Hansjörg Weißrich
Música: Murat Kabardokov
Duração: 88 minutos
Ano: 2015
Gênero: Drama / Documentário
Produção: França / Alemanha / Holanda
Distribuição: Imovision

PRINCIPAIS FILMES DE SOKUROV

Melancolia de Moscou – 1987

A Pedra - 1992

Mãe e Filho – 1997

Moloch - 1999

Taurus - 2001

Arca Russa – 2002

Pai e Filho – 2003

O Sol – 2005

Aleksandra - 2007

Fausto – 2011

Francofonia – Louvre sob Ocupação – 2015

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