sábado, fevereiro 23, 2013

NOVE FILMES E UM DESTINO





Nove filmes disputam o obscuro objeto do desejo de toda a produção cinematográfica o Oscar de Melhor Filme produzido e exibido em 2012 no mercado norte-americano. Desde que começou esta seleção mais abrangente, passando dos tradicionais cinco para os nove ou dez filmes nunca houve consenso e muitos filmes medianos acabaram entrando na lista e grandes obras cinematográficas foram preteridas desta categoria, a principal, o foco de todas as atenções.

Neste ano, está tão claro como a fotografia de um filme de Wim Wenders que a abrangência da lista de nove filmes desconsiderou alguns filmes que poderiam figurar no status e na nominação de Melhor Filme. O exemplo mais crasso disto foi “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson, alijado da categoria principal e nominado somente em prêmios de atuação, apesar do brilhantismo da obra de PTA como realização e como roteiro. Obras como Hitchcock e Anna Karenina, que ainda não estrearam no Brasil, mereciam melhor sorte e talvez a indicação na categoria principal no lugar dos dispensáveis A Hora Mais Escura e Os Miseráveis.

Para abordar a categoria Melhor Filme e dar início às 24 horas pré-Oscar, vou fazer uma pequena análise, não mais que três ou quatro linhas sobre cada filme indicado e externar a minha opinião crítica sobre os nove filmes e um destino: a estatueta dos sonhos de todo o profissional envolvido com cinema no mundo. Minha torcida é pela ordem para Argo, Django Livre, Indomável Sonhadora e Amor.

ANÁLISE DOS INDICADOS A MELHOR FILME



ARGO – Grande candidato à conquista do Oscar. Ben Affleck conseguiu neste filme dar o tom realista e o ritmo necessários para contar a história de um grupo de agentes da CIA que se faz passar por produtores de cinema, que irão filmar a ficção científica “Argo” para retirarem seis funcionários da embaixada americana que estão impedidos de sair do Irã nos anos 70. Um grande filme, sério, e com uma fotografia que recria muito bem o clima dos anos 70. Favoritaço.




AMOR – Uma das mais contundentes histórias de amor e dor já filmadas. O austríaco Michael Haneke, com a sua capacidade de mergulhar no mais profundo do ser humano, obteve dos seus protagonistas Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant o máximo de dramaticidade. A história por si só nos conduz para os labirintos do amor e da finitude, quando Rose tem dois derrames consecutivos e fica em estado vegetativo. Seria candidato, mas a academia não deve premiar um estrangeiro.


DJANGO LIVRE – Quando o dentista/caçador de recompensas gasta toda a sua verborragia para explicar por que precisa do escravo Django para os irmãos Speck ou quando um atrapalhado esboço de Ku Klux Klan tenta emboscá-los ou ainda quando Django vai buscar a sua Broomhilde, como o herói da ópera de Wagner. Em todos estes contextos, Quentin Tarantino é um gênio do roteiro e os seus filmes são uma aula de cinema. Django (Jamie Foxx) quer sua vingança, Schultz (Christoph Waltz) o ajuda a tentar resgatar Broomhilde do plantador de algodão e entusiasta de lutas de mandingos, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). O banho de sangue que virá, esguichando à maneira thrash, a mira certeira do pistoleiro, os diálogos cheios de alternativas, com um elenco recheado de ótimos atores. Digo tudo isto para dizer que não seria surpresa se Django Livre conquistasse o Oscar de Melhor Filme, mas a Academia precisaria ter coragem, pois o meu prêmio de Diretor seria para Tarantino, mas ele não foi indicado, assim como Paul Thomas Anderson.




INDOMÁVEL SONHADORA – Este filme seria o meu favorito afetivo para a conquista do Oscar, pois pede um coração aberto ao espectador, que se deixe levar pela emoção para acompanhar o universo da pequena Hushpuppy (interpretada pela pequena Quvenzhane Wallis) que extrai reflexões filosóficas acreditando num universo em equilíbrio entre a natureza e os seres vivos – humanos e animais, na mesma Louisiana, sempre receosa de que uma nova tempestade inunde tudo. Um filme que alterna realismo mágico e social e que pega pelo coração. Pode levar prêmio de consolação para roteiro adaptado.


LINCOLN – Quando me acusam de não gostar de Steven Spielberg, eu digo que ele faz um filme que eu gosto e outro que eu não gosto. Este é o que eu não gosto. Mesmo com certo favoritismo a conquistar Melhor Filme junto com Argo, é um bom filme quando o assunto é a política e o direito na questão da aprovação da 13ª emenda da Constituição dos EUA e também quando falamos do gigante em cena, Daniel Day-Lewis, favorito junto com Joaquin Phoenix para o prêmio de ator. Quando falamos de cinema, de narrativa, o filme se torna aborrecido, com uma primeira parte que tenta ser didática e não consegue, mostrando Spielberg tentando algo em uma área na qual não domina, uma narrativa bem calcada no real, mas enfim ainda é um bom filme.





O LADO BOM DA VIDA – Eu escolhi este filme de David O. Russell como o Miss Simpatia do Oscar. Todos o acham bonitinho, mas não vai levar nada de Los Angeles. Trata de uma forma séria e ao mesmo tempo bem-humorada da questão da bipolaridade. Claro que Russell segue a cartilha proposta pelo livro de Matthew Quick. As atuações do quarteto principal, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert de Niro e Jacki Weaver dão o corpus preciso à obra, além das referências literárias e musicais a caras como Ernest Hemingway e Stevie Wonder.




AS AVENTURAS DE PI – Um filme bom. Um diretor bom: Ang Lee. Uma boa história. Dezenas de efeitos visuais e a magia do 3D bem explorado. Com isto, poderia dizer que o filme tem alguma chance de ganhar o Oscar. A narrativa explora aquele desgastado flashback de Piscine Patel contando a sua história a alguém no presente. A aventura é incrível. Sobreviver meses num bote com um tigre. É uma história de amizade e respeito. Acho que tem chance com os prêmios de efeitos, som e desenho de produção.



OS MISERÁVEIS – A despeito da cena inicial quando Jean Valjean (Hugh Jackman) precisa carregar sozinho o mastro com a bandeira da França e o resultado fantástico da voz de Anne Hathaway em “I´ve Dreamed a Dream”, o que o diretor Tom Hooper conseguiu com este filme foi apenas a tentativa de trazer o musical baseado em Victor Hugo para as telas, com alguns lampejos de grande filme e um resultado geral abaixo da média. Pode ganhar o Oscar de Canção Original para “Suddenly”.


A HORA MAIS ESCURA – Este mais recente filme da oscarizada com “Guerra ao Terror”, Kathryn Bigelow, poderia ter sido deixado da nominação a Melhor Filme com toda a certeza. É um filme menor. Para mim se alçaria ao posto de telefilme. Não há a mínima tensão na obra. Apesar das cenas de tortura e de algumas partes da investigação do paradeiro de Bin Laden serem impactantes, as 2h37min acabam sendo um rosário enorme para contar os 10 anos de investigação para chegar ao líder do Al-Qaeda, morto no Paquistão em maio de 2011. Jessica Chastain está irreconhecível, comedida demais, sem as qualidades que a fizeram brilhar em Arvore da Vida e Histórias Cruzadas, como a capacidade expressiva e dramática, por exemplo. Não merece nenhum prêmio. Talvez ganhe o de Roteiro Original para Mark Boal.






ATÉ O FIM




Há quase uma década criei um conto chamado Até o Fim, no qual a narrativa era conduzida por um coveiro que vive a sua vida intensamente até o fim mesmo. Ele mesmo orquestra o seu enterro. Bom, estou abordando o tema subjetivamente, pois o filme Amor, de Michael Haneke é um exercício diante da finitude, diante do amor até o fim. É um exercício minimalista, mas com uma grande carga de dramaticidade e interpretações exuberantes dos protagonistas que encaram o casal francês de professores de música aposentados, com idade acima dos 80 anos, Anne e George (Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant).

Sem querer contar o que se sucede no filme do diretor de Caché e A Fita Branca, mas encaminhando a condução da narrativa, é importante se dizer que o grande sucesso que o filme vem fazendo se deve principalmente ao fato de o filme nos fazer confrontar com um drama que mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, irá atingir todos nós. Após assistir a um concerto de um ex-aluno, o pianista na vida real Alexandre Tharaud, Anne vai para casa e no dia posterior tem um derrame. Com o lado direito paralisado, Anne passa a necessitar de auxílio para a maior parte das atividades cotidianas. Não querendo falar da síndrome de cinema e lágrimas, mas as privações de Anne e o empenho amoroso de George acabam nos deixando com o coração partido, desnorteados, tentando entender o que é o amor diante de um acidente vascular cerebral ou das doenças degenerativas e da própria morte. Ele resiste. Ele pode ser maior do que tudo. Mas somos humanos. 

Neste lado humano do amor, o papel da filha, representado por Isabelle Huppert, e do casal de zeladores do prédio, que ajudam com as compras, e também das enfermeiras fazem o contraponto, de pessoas que não entendem porque Anne não quer ir para um hospital ou um asilo. É uma mulher culta, professora de música, lê e ouve música todos os dias. A degradação e a entrega não fazem parte do seu vocabulário. Haneke sabe disto e nos coloca dentro da perspectiva do apego do casal e de como eles se relacionam com a doença de Anne e com o mundo externo. O que George vai fazer com Anne é uma decisão que só ele pode tomar e que só um filme com tamanho poder de discernimento e grau de realidade pode nos proporcionar. 




Os prêmios recebido por Amor são mais que merecidos, incluindo a Palma de Ouro em Cannes 2012 e mais recentemente o César de Melhor Filme, o Oscar francês. Haneke que já havia mergulhados nas profundezas da alma humana em A Professora de Piano, Violência Gratuita, Cachê e A Fita Branca é um diretor no qual se pode confiar, que sempre vai nos apresentar histórias com um grau de drama e de humanidade acima da média. Filme triste, de lágrimas, mas para que pensemos no que fazer diante da finitude da vida neste plano terreno. 

Crédito de fotos: Imovision / Divulgação

AMOR
(AMOUR/ FRANÇA, ALEMANHA, ÁUSTRIA/ 2012/ 127 MIN/ DRAMA/ 14 ANOS)
Direção e Roteiro: MICHAEL HANEKE
Fotografia: DARIUS KHONDJI
Edição: NADINE MUSE
Elenco:
JEAN-LOUIS TRINTIGNANT
EMMANUELLE RIVA
ISABELLE HUPPERT
ALEXANDRE THARAUD
WILLIAM SHIMELL

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Um Pequeno Pedaço de Universo




O último dos indicados ao Oscar de Melhor Filme a estrear no Brasil é talvez o filme que cause a emoção mais pura no espectador, não tão política como em Argo ou Lincoln ou tão metafísica como em Amor ou tão cinéfila como em Django Livre, mas é certo que “Indomável Sonhadora” pede um coração aberto ao espectador, que ele se deixe levar pela emoção  para acompanhar o universo da pequena Hushpuppy (interpretada por Quvenzhane Wallis, na época com 6 anos e hoje com nove, selecionada entre 3,5 mil crianças). Rodado na Lousiana e utilizando um paralelo com a catástrofe do furacão Katrina que assolou New Orleans e região em 2005, o filme "Indomável Sonhadora" é adaptado da peça "Juicy and Delicious" e alterna um realismo social com realismo mágico ao abordar o universo da menina, que acredita que o mundo natural está em equilíbrio com o universo, que tudo pode ser consertado de alguma forma, que quem vive à margem da sociedade pode ter mais feriados, que não tem entende os códigos dos animais e que tem poder sobre a vida e a morte do pai, Wink (Dwight Henry, também um ator não-profissional, era um padeiro antes de ser selecionado para o filme).

A produção independente recebeu quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (para Benh Zeitlin), Melhor Atriz para a atriz, hoje com 9 anos, a mais jovem a receber indicação ao Oscar) – e Roteiro Adaptado por Benh Zeitlin e Lucy Alibar, autora da peça que originou o filme e já conquistou dezenas de prêmios, dos quais os mais destacados são o Camera D´Or e o prêmio da crítica internacional, o Fipresci, no Festival de Berlim 2012, além do Grande Prêmio do Júri e a Melhor Fotografia de Sundance 2012.  


O diretor estreante Benh Zeitlin, de apenas 30 anos (cujo pai e avô moraram em São Paulo durante algum tempo), conseguiu fazer um filme extremamente autoral e cativante, em que cada momento de narração em off da protagonista encerra em si um tratado filosófico cotidiano e de reflexões possíveis sobre a natureza e as relações humanas, como esta pérola no início da película filmada em super 16mm: “O universo inteiro depende de tudo se encaixando apenas certo. Se um pedaço rompe, o universo inteiro vai ficar rompido”. Hushpuppy acredita que num equilíbrio do universo com a natureza e que as forças da natureza podem quebrar tudo e nisto segue as crendices e o realismo mágico que emana dos moradores da pequena comunidade de Bathtub (Banheira), que por causa de um dique, será inundada caso vier uma grande tormenta.


As reflexões da menina são o processamento de uma educação quase animalizante que recebe do pai Wink, que possui um grave problema cardíaco, mas luta como um animal para não sair da comunidade e para não ser hospitalizado. "Aqui quando um animal está doente, eles o ligam na parede", reflete a menina sobre os hospitais. Eles vivem em trailes velhos, cheio de lixo e bugigangas e comem frango com as mãos, vivem livres, mas Hushpuppy não tem a mãe para lhe mostrar o lado mais doce da vida, mesmo assim sonha acordado e brinca com o que tem: os animais


Quando a tormenta se prenuncia, a maioria das pessoas da comunidade foge e este universo se desequilibra, pois a água invade Bathtub. A casa deles vira um barco.
Talvez o título original do filme “Beasts On The Southern Wild”, algo como Animais no Sul Selvagem, possa explicar a diferença de mundos de Hushpuppy, seu pais e os moradores de Bathtub, que não querem se render à inundação e à civilização. Em uma cena do filme, o pai da menina diz para eles não comerem com modos, mas que “animalizem”.
Realmente, a vida deles é algo próximo do primitivo, pois eles não querem a civilização e as suas histórias beiram o realismo mágico, quando a menina fala do temor dos auroques, um misto de porcos e javalis gigantes: “Animais fortes não têm misericórdia".


Em outra cena, o pai acossado por problemas cardíacos diz: "Eu tenho que dormir, eu tenho que amanhecer forte". Não há como fugir do conceito de filme épico, pois a jornada de Hushpuppy é para tentar salvar o pai ("Todo mundo perde quem o fez, deveria ser assim na natureza) e também para entender o mundo em que vive: “Vejo que sou um pequeno pedaço de um universo, muito, muito grande e isso faz as coisas certas”. Um filme que é emoção e reflexão durante a 1h32min de projeção. Corra para assisti-lo antes do Oscar.

Crédito das foto: Imagem Filmes / Divulgação

sábado, fevereiro 16, 2013

Corações que se abrem e buscam



Para quem ficou impactado com a pungência da finitude e a verdade dos sentimentos em "Amor", de Michael Haneke, prepare-se para mais um baque com o drama proposto pela roteirista e diretora Marion Laine em "De Coração Aberto", que está em pré-estreia nos cinemas da Capital. A densidade do roteiro proposto pela francesa a partir do livro de Mathias Enard (Remonter L´Orénoque) já dá as cartas logo no início da trama, quando os dois cirurgiões cardiovasculares Mila (Juliette Binoche, de A Vida dos Outros) e Javier (Edgar Ramirez, de A Hora Mais Escura) estão em meio a um transplante cardíaco muito sério e tratam tudo com bom humor, uma dose de loucura e de juvenilidade. A vida por um fio contrasta com o apego à vida e a inconsequência do casal, mas Javier ancora sua irreverência no alcoolismo (o tema está presente em outra produção nos cinemas "O Voo").

Os dois desenvolveram um programa de transplantes para o hospital no qual trabalham e curtem um amor louco, sem limites, há 10 anos, até que Javier tem sua jornada de cirurgias reduzida por conta do seu vício, o que poderia prejudicar a instituição e levá-lo a um erro futuro. Ele não quer se tratar do vício. A partir daí, a queda é a palavra que define o filme. Mila descobre uma gravidez no momento indesejada, mas não conta para ele. O casal vive um amor louco, de coração aberto, assim como aqueles que eles operam quase todo o dia. Este amor é  embalado por canções românticas e também melancólicas como "Besame Mucho", de Consuelo Velásquez, na belíssima versão com Tino Rossi.



A desagregação coincide com o sopro de vida da criança que está por nascer, mas Javier e Mila se desconectam e o drama está estabelecido. No desenvolvimento da trama, os instintos mais primitivos, mais animais vêm à tona. A diretora Marion Laine chegou a batizar o filme inicialmente de “Um Macaco no Meu Ombro”, pois ela estudou o comportamento de casais de macacos para compor os personagens. Em determinada cena do filme, Javier amanhece, não por acaso, na jaula de um chimpanzé. Os instintos do casal os levam a comportamentos que beiram o suicídio, principalmente Javier.
Como foi praticamente alijado do quadro de cirurgias, ele passa a maior parte do tempo em casa, começando obras que não termina, com um comportamento que mistura o de alcoólatra com o de um bipolar. Nesta hora, o casal realmente briga muito e mostra o seu lado símio.  No elenco, também estão Hippolyte Girardot (como o cirurgião Marc) e Amandine Dewasmes (como Christelle).

Soluções como o aborto e a fuga para a América do Sul, para as quedas da Iguazu argentina, em Puerto Iguazú, em Misiones, nas Sete Quedas, mas a vida deveria prevalecer, pelo menos para estes dois cardiologistas, especialistas em transplantes do coração. A água tem no filme uma função de renovação, de purificação, uma mensagem simbólica de tentar afastar o mal, o primitivo, e prevalecer o bem, a vida de um novo ser, simbolizando a humanidade em busca de renovação. Neste filme, os corações se abrem, são primitivos, valentes e têm a sua busca. Descubra qual!




DE CORAÇÃO ABERTO

(À COEUR OUVERT/ 2012/ FRANÇA/ 87min/14 ANOS/ DRAMA)

Direção e Roteiro: MARION LAINE
Fotografia: ANTOINE HÉBERLÉ
Edição: LUC BARNIER
Adaptação: REMONTER L´ORÉNOQUE, de MATHIAS ENARD

Elenco:
JULIETTE BINOCHE,
EDGAR RAMIREZ,
HIPPOLYTE GIRARDOT,
AMANDINE DEWASMES,
AURÉLIA PETIT

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Os amantes do círculo bipolar




Como o agradável Juno já havia sido no Oscar 2008 aquele filme simpático com bom roteiro e muitas nominações (quatro), inclusive diretor e filme, o miss simpatia da vez é O Lado Bom da Vida, filme dirigido por David O. Russell (Três Reis e Procurando Encrenca), com roteiro adaptado pelo próprio diretor, a partir do livro homônimo (Silver Linings Playbook no original), de Matthew Quick. A empatia pelo filme rendeu a obra oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem e também as nominações de atuação para Ator e Atriz aos protagonistas Bradley Cooper e Jennifer Lawrence e de Coadjuvantes para Robert de Niro (recuperando um pouco o seu way of act) e Jacki Weaver. Pode não levar nenhuma estatueta, mas será mesmo assim o filme que podemos ver tranquilamente, sem chamarmos de óbvio, meia boca ou sessão de tarde (os clichês dos clichês da crítica)

Para começar a traçar um apanhado crítico do filme, já digo que ele me pegou por motivos um tanto óbvios, como química entre os protagonistas e coadjuvantes, as tão amadas referências pop e cult, os elementos reais e simbólicos e o tema da bipolaridade (como leitura adicional sempre recomendo o livro Temperamento Forte, de Diogo Lara) que sempre é interessante num mundo onde 10% das pessoas são diagnosticados com a, digamos, enfermidade contemporânea. Haveria outros motivos, mas vou ficar nestes. Bom, vamos então à história e ao que eu gostei e não gostei do filme, cujo gênero seria a comédia romântica.



Como todo filme adaptado de livro começa e encerra com uma narração em off exaltando os domingos. O personagem Pat Solatano Jr.  (Bradley Cooper) sempre gostou do dia, pois a sua vida sempre foi marcada pelo futebol americano. O pai Patrizio (Robert de Niro) é um torcedor fanático dos Eagles da Philadelphia, paixão que passou para os filhos Pat e Jake (Shea Wigham). Este extravasar com o futebol se aplica na vida de Pat pai e também de Pat filho. O pai tem Transtorno Obsessivo Compulsivo e foi impedido de frequentar o estádio dos Eagles por uma briga. O filho, por sua vez, era bipolar, mas o seu diagnóstico só se confirmou quando ele quebrou a cara do amante da sua mulher Nikki (Brea Bee), quando eles transaram no chuveiro ao som da música do seu casamento: “My Cherie Amour”, de Stevie Wonder.

Sem ser profundo, o filme trata da reconstrução da vida de Pat, que passa oito meses preso em uma instituição psiquiátrica forense. Quando ele sai, tenta reconstruir a sua vida, mas passa a ter a obsessão em refazer o seu casamento. Aí começa a entrar toda a organicidade e a simpatia do filme, fora as referências. Numa das primeiras cenas do filme, ele acaba de ler Adeus às Armas, de Ernest Hemingway e invade o quarto dos pais injuriado pela morte da personagem Catherine quando tudo indicava que o livro teria um final feliz. Ele quer entender Nikki, que é professora de literatura inglesa.



Tudo muda no filme e nos níveis de atuação quando entra em cena a atriz Jennifer Lawrence, como a desajustada cunhada de seu melhor amigo Ronnie (John Ortiz), irmã de Verônica (a sub-aproveitada Julia Stiles). Desde o primeiro instante, a química dos atores e dos personagens fica evidente e o caminho para a reconstrução de ambos está traçado. Ao som de White Stripes, Led Zeppelin, Frank Sinatra, Bob Dylan & Johnny Cash, o filme vai ganhando corpo e os dois atores dão a intensidade necessária para que o romântico da comédia se estabeleça e o humor seja sustentado pelos coadjuvantes, com a lista engrossada pelo impagável Chris Tucker, como um divertido colega com distúrbios mentais.



Um filme que trata de um tema sério como a bipolaridade, um pouco superficialmente, que traz também a dança entra como elemento agregador, discute o amor em família e que traz o tema do fanatismo e das apostas para o viés cômico. Quando o assunto é dança, emociona o elo da cumplicidade e da construção de um sentimento pela dança (pinta um clima de Dirty Dancing) e principalmente a cena em que eles repetem os passos de Gene Kelly e Donald O´Connor no melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva. Um filme para amantes de filmes, para amantes bipolares ou para quem só queira diversão. Pode não levar nenhuma estatueta contra gigantes como Os Miseráveis, Lincoln, Argo e Django Livre, mas vai agradar ao público, isto lá eu garanto.

Crédito de fotos: Paris Filmes / Divulgação



quinta-feira, janeiro 24, 2013

O bêbado e a alma equilibrista



Crédito: Paris Filmes / Divulgação

Quando o personagem Lancaster Dodd (Philip Seymor Hoffman), o líder de uma seita científica, comportamental e espiritual pergunta a Freddie Quell (Joaquin Phoenix) se ele conhece alguém que viveu toda a sua vida ser tem a necessidade de um mestre, está frutificando a semente jogada na terra árida da vida e dos espectadores pelo realizador Paul Thomas Anderson em “O Mestre” de que a interdependência entre pessoas, pais e filhos, mestres e alunos, chefes e empregados, marido e esposa, irmão mais velho e irmão mais novo, líder espiritual e seguidor e outras ascendências possíveis de uma pessoa sobre a outra parece ser uma das circunstâncias da vida mais normais do que pensamos.

Com dois atores que levam a arte de interpretar ao extremo trabalhando esta oposição entre o mestre e o pupilo desajustado, o filme traça o seu painel sobre a fundação de A Causa, nos anos 50, por Lancaster Dodd (Hoffman), que possui inúmeros seguidores, mas muito ceticismo. Num primeiro momento, o desajustado, o bêbado e sua alma equilibrista, Freddie Quell (Phoenix) são mostrados com fotogramas densos, esculpidos como um entalhe na tela, tanto que a trilha proposta pelo Radiohead, Jonny Greenwood, nos lembra o martelo no formão ou uma engrenagem, a raiz da loucura e do desajuste de Freddie, um marinheiro errante, que tenta mil trabalhos, inclusive a fotografia (neste ínterim o destaque é para o diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr, o mesmo do inebriante “Tetro”). Por ironia, Freddie vai ancorar sua vida tempestuosa no barco onde estão os integrantes de A Causa (há uma proposital semelhança com a fundação da Cientologia por L. Ron Hubbard).

A partir daí, os diálogos entre o mestre e pupilo, o doutor e a cobaia e a evolução de A Causa permeiam o filme e mostram um experimento que se diz científico de Lancaster com Freddie, tentando utilizar seus métodos criados na hora de perguntas específicas e condicionamentos para que a alma equilibrista do ex-marinheiro se encontre e não fique à deriva por oceanos que se abastecem desde vidas passadas. Em uma das cenas mais fortes do filme, da fidelidade de Freddie a Lancaster, quando ele é preso por tomar dinheiro de uma contribuinte de Nova York, Phoenix literalmente quebra a cela da prisão e põe para fora uma raiva que, segundo Lancaster, atravessa séculos. Freddie grita, quase espumando pela boca: “Você mente, você inventa tudo isto, os teus filhos te odeiam” e Lancaster responde com uma pergunta: “Quem gosta de você, Freddie, quem? Somente eu. Só eu”. Em meio ao filme, a Causa aponta para uma ligação deles em vidas passadas.

Freddie também faz experimentos. Por ser bêbado inveterado, ele cria bebidas fortes, que usam desde thiner até antisséptico bucal. Um destes experimentos conquista Lancaster que fica mais criativo e pergunta o que ele põe na bebida: “Segredos!” é a resposta. Com uma atuação mais contida de Amy Adams como a esposa de Lancaster e uma trilha sonora primorosa que inclui "Dancers in Love", de Duke Ellington a “No Other Love”, de Jo Stafford e duas interpretações a capella de Philip Seymor Hoffman, o filme tem uma estética irretocável que investe no cromatismo dos anos 50, com destaque para os tons de amarelo em muitas cenas de Freddie.



O diretor e roteirista Paul Thomas Anderson com “O Mestre” mostra que sabe filmar os desajustados e os homens determinados e as decorrências de suas escolhas, as almas em busca de equilíbrio, senão vejamos três dos seus quatro grandes filmes anteriores a “O Mestre”. Excetuando Magnólia, criado à maneira de um filme-coral, em todos os outros “Boogie Nights”, “Embriagado de Amor” e “Sangue Negro”, são homens em busca de algum tipo de redenção, de um equilíbrio em suas almas, mesmo que à custa do sofrimento dos outros, como é o caso de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis).

 Um grande cineasta, um esteta, um maestro, um mestre em sintonia com as buscas da alma humana, as errâncias das almas equilibristas. Torçamos para que Joaquim Phoenix, Philip Seymor Hoffman e Amy Adams tragam para “O Mestre” pelo menos as três estatuetas Oscar na qual eles concorrem, pois este foi com certeza o filme mais injustiçado entre os indicados ao Oscar, muito mais do que “Intocáveis”, que não foi nominado a filme estrangeiro. Uma obra-prima não bem digerida pela academia hollywoodiana.


domingo, janeiro 20, 2013

Caçada real a Osama com ares de telefilme


Uma caçada que foi real a Osama Bin Laden. Um filme com intenção de ser um docudrama fiel, que resulta apenas em uma produção do cinema com ares de telefilme. Este é “O Homem Mais Procurado do Mundo”, um filme que deve ser assistido como documento histórico, não como cinema. Porém o filme, que tem o título original “Codename: Geronimo”, que era o nome dado ao terrorista na operação, tem o grande mérito de recriar com bastante exatidão as circunstâncias que levaram à invasão da fortaleza de Osama Bin Laden em Abbotabad, nas proximidades da capital Islamabad no Paquistão, na madrugada de 2 de maio de 2011, quase 10 anos após o atentado às torres gêmeas em Nova Iorque, que vitimou mais de 3 mil e abalou as bases da maior potência do mundo. Segundo fontes oficiais à época, foram mortas quatro pessoas, inclusive Osama e um dos seus filhos. 


Baseada na história real, a trama se foca na ação conjunta da CIA em parceria com um grupo de operativos das forças especiais do Exército norte-americano, os SEALs. A prisão de um homem no Paquistão leva ao mensageiro de Osama Bin Laden e a um local que passa a ser monitorado desde agosto de 2010. Em uma operação no Paquistão, dois agentes passam a monitorar a fortaleza, em busca de pistas que levem o governo dos Estados Unidos ao seu maior inimigo: o terrorista Osama Bin-Laden. 


Na mão do diretor de “Turistas”, John Stockwell, a história adquiriu um tom mediano, com os ares de telefilme já mencionados, mistura da séries “24 Horas” e “The Unit”, que utiliza aqueles caracteres digitados na hora para designar o local, o dia e a hora e a mostra do uso da tecnologia para rastreamento e identificação do terrorista. Ao mesmo tempo que o docudrama imprime ao filme uma boa dinâmica — mostrando alguns documentos confidenciais, além da voz e fotos exclusivas de Barack Obama nas semanas que antecederam a autorização ao ataque — quando o cineasta apela ao sentimentalismo do soldado que fica longe de casa 300 dias por ano, a obra descamba para uma pieguice sem fim, com repetição de fórmulas desgastadas e melhor utilizadas em filmes como “Soldado Anônimo”, de Sam Mendes. 



Crédito: Playarte / Divulgação

Soma-se a isto um elenco de segundo time como Cam Gigandet (Stunner), o líder de uma unidade dos SEALs; Anson Mount (Cherry); Freddy Rodriguez (Trench); Kathleen Robertson (Vivian), a agente de contra-inteligência da CIA, que persuade o diretor da CIA, Leon Panetta, a executar a operação. Destaque para a dobradinha de atores da série “Prison Break”, Robert Knepper , como o tenente que comanda a operação, e William Fichtner, como um agente da CIA. É um relato preciso da operação, mas sem alma. Esperamos ansiosamente pela versão de Kathryn Bigelow (do oscarizado “Guerra ao Terror”) com seu “A Hora Mais Escura”, que deve carregar a alma não contida neste filme.

sábado, janeiro 12, 2013

Quando a separação é um dilema




       As comédias românticas possuem estruturas arquetípicas que todos nós conhecemos e quando nos deparamos com a formula de sempre, o efeito é sempre bom, um mais do mesmo que agrada. Porém, quando a estrutura convencional é subvertida ou pervertida, conforme o depoimento da atriz, roteirista e produtora Rashida Jones, aí o resultado pode ser surpreendente, inteligente, refrescante, para usar uma palavra em voga na crítica norte-americana. Estou falando de Celeste e Jesse para Sempre, filme dirigido por Lee Toland Krieger, a partir de roteiro escrito a quatro mãos por Rashida Jones (filha de Quincy Jones) e Will McCormack, também ator e produtor da obra, amigos de longa data. O resultado é uma comédia romantica indie, que lembra muito alguns filmes dos anos 80, tipo A Garota de Rosa Shocking , por causa da trilha que vai Suzanne Kraft a Lily Allen, ou Harry & Sally – Feitos um Para o Outro, por causa do roteiro criativo e dos diálogos inteligentes.
    
     A ideia da dupla de roteiristas era exatamente tratar de um jovem casal, que cresceu junto e que se considera o melhor amigo um do outro, mas que aos 30 anos resolveu se divorciar e não quer perder esta amizade. Uma comédia sobre a desilusão é como Rashida e Will definem. Rashida é Celeste, sócia de uma empresa de mídia e tendências em Los Angeles, e Andy Samberg é Jesse (não confunda com o seu personagem anterior, o Eisenberg do Facebook, em A Rede Social), um artista gráfico meio desligadão que leva a vida na base do surf e do grupo de amigos, que não apressa a vida. Isto incomoda Celeste, que já tem uma vida estabelecida.

  
      O filme inicia do ponto de vista do casal que está há seis meses separado e encaminhando os papéis do divórcio, mas que faz todas as coisas junto. O pequeno ponto de virada inicial do filme é quando o casal de melhores amigos Beth (Ary Grainor) e Tucker (Eric Christian Olsen) resolve dar a real e dizer que é insano eles estarem separados e comportarem-se como almas gêmeas, isto numa cena em que eles imitam um casal com sotaque inglês, mas em outros momentos eles mostram esta cumplicidade extrema como quando eles pegam uma bisnaga de creme, pomada ou maionese e simulam uma masturbação.


      
      Sem querer criar um spoiler ou contar o que vai acontecer no filme, o interessante da discussão suscitada pelo filme é exatamente este rumo à maturidade, este desligamento do amor iniciado entre a infância e adolescência, o querer ser grande, como diria aquele filme protagonizado por Tom Hanks. Os amigos de ambos os aconselham a conhecer outras pessoas e Jesse sai na frente conhecendo uma bailarina chamada Veronica (Rebecca Dayan). Como Celeste quis a separação, esta notícia o deixa arrasada. Numa aula de yoga, ela conhece o analista financeiro Paul (Chris Messina) e tenta acertar no amor. 

      Com coadjuvantes de luxo, como o próprio Will McCormack que é Skillz, um traficante de drogas leves; Elijah Wood, como Scott,  o amigo gay de Celeste, e Emma Roberts, como Riley Banks, uma pop star supostamente descerebrada, o filme discute o ocaso dos relacionamentos e chegada da maturidade verdadeira, mas também a indústria da música, do marketing, como quando um logo de Riley Banks tem uma interpretação sexualizada, entre outros tantos temas desta geração dos 30 anos, mas que se aplica aos quarentões e cinquentões antenados. Uma comédia romântica interessante, com a fórmula que se aproxima mais do real do que do happy ending e que trata de forma leve, e ao mesmo tempo séria, do tema da separação.

Créditos das fotos: Paris Filmes

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE
Realizado por LEE TOLAND KRIEGER
Escrito Por      RASHIDA JONES e WILL MCCORMACK
Musica            SUNNY LEVINE e ZACH COWIE
Fotografia       DAVID LANZENBERG
Montagem       YANA GORSKAYA
Estrelando      RASHIDA JONES, ANDY SAMBERG, CHRIS MESSINA, ARI GRAYNOR, WILL MCCORMACK, EMMA ROBERTS E ELIJAH WOOD

quinta-feira, janeiro 10, 2013

JUSTIÇA ATÉ O FIM




Bem-vindo mais uma vez monsieur Philippe Lioret, que já havia nos brindado com um filme "Bem-Vindo", que mescla drama pessoal com situação política, e que agora nos traz o drama pessoal, jurídico e econômico "Tudo o que Desejamos" que entra em cartaz nesta sexta, no Guion Center, em Porto Alegre. Novamente em parceria com o roteirista Emmanuel Corcol e com o ator Vincent Lindon, Lioret resolveu adaptar o livro "Outras Vidas que nâo a Minha", do aclamado escritor francês Emmanuel Carrère, que esteve na Flip, em Paraty, em 2011. A trama começa trágica, mas caminha para a redenção ou sublimação na vida da personagem Claire (Marie Gillain), uma jovem e idealista juíza de Lyon, na França, que tem por opção aplicar a lei para defender os menos abastados da gana de grandes corporações. No caso abordado no livro e também no filme, Claire vai julgar o caso da mãe de uma amiguinha da sua filha, que tem dívidas com financeiras. O drama financeiro e jurídico passa para o pessoal, quando Claire descobre um glioblastoma, um tumor cerebral agressivo, que se alastra e mata em poucos meses. 

A cruzada contra as financeiras será a última causa da vida de Claire, a justiça levada até o fim e eis que ela é indicada a um juiz veterano Stéphane (Vincent Lindon), que é um especialista no tema, além de ser técnico de rúgbi nas horas vagas. Deste elo entre estes dois personagens, que gravitam paralelamente aos seus respectivos marido e mulher, é que o filme ganha a força da luta por uma causa, das interpretações fortes da juíza que está morrendo e do juiz durão que se enternece pela jovem juíza, mas não sexualmente falando, mas pela luta, pelo idealismo há muito perdido.  Lindon já havia vivido um técnico de natação, que ajuda o menino curdo a atravessar o Canal da Mancha, em busca de familiares em "Bem-Vindo". 

O detalhe que pode passar despercebido num filme tão dramático não é a trilha, mas sim o som do filme. Philippe Lioret antes de ser roteirista e diretor foi engenheiro de som de filmes como "Uma Leitora Bem Particular" e "Romuald e Juliette". A captação de som casa magnificamente com o clima proposto por Lioret deixando o espectador identificado e ao mesmo confrontado com suas próprias mazelas, com suas dívidas, com a iminência da morte e da perda de entes queridos, quando o aflora este sentimento no marido de Claire, Christophe (Yannick Renier), e na mãe da amiga da sua filha, Céline (Armandine Dewasmes). A inclusão na trilha e na história da música ""On Saturday Afternoons in 1963", de Rickie Lee Jones, é mais outro elo interessante da história, pois aproxima os dois protagonistas e quebra as diferenças de geração entre eles. Um belo filme triste, pois a tristeza não é de todo ruim, quando se há uma causa a ganhar, quando se tenta levar a justiça até o fim. 


Foto: Guy Ferrandis

TUDO O QUE DESEJAMOS
(TOUTES NOS ENVIES/FRANÇA/ 2011/ 120 MIN/ 12 ANOS  
Direção: PHILIPPE LIORET
Roteiro: PHILIPPE LIORET, EMMANUEL COURCOL baseado no romance de EMMANUEL CARRÈRE
Fotografia: GILLES HENRY
Edição: ANDRÉA SEDLACKOVA
Música: FLEMMING NORDKROG
Elenco:
VINCENT LINDON (Stéphane),
MARIE GILLAIN (Claire),
AMANDINE DEWASMES (Céline),
YANNICK RENIER (Christophe)

domingo, janeiro 06, 2013

Unidas por um mesmo amor




Tudo o que se diz sobre o cinema argentino é que ele produz mais filmes bons do que ruins. Isto está correto. Enquanto o Brasil busca as bilheterias com comédias sem qualquer sentido, tipo "E aí, Comeu?" ou "Os Penetras", a Argentina tem buscado a bilheteria em temas cômicos, trágicos ou tragicômicos. Não há aí qualquer comparação, pois os grandes filmes brasileiros, no sentido arte e não bilheteria, quase não tem mercado fora dos festivais. Já os filmes argentinos que aqui chegam são sempre acima da média. Mas para que este papo todo, senão para dizer que "Viúvas", de Marcos Carnevale, é um destes filmes. 

A sutileza do diretor em tratar um tema banal, quase cotidiano, mas que tem uma certa mágica. A diretora de documentários Elena (a extraordinária diva argentina Graciela Borges) é avisada no set de filmagem que o marido Augusto sofreu um infarto. Ao chegar ao hospital com a amiga, assistente e durona produtora Esther (a impagável Rita Cortese), uma outra mulher, Adela (a segunda no meu ranking de atrizes argentinas, Valeria Bertucelli, que só perde para a Soledad Villamil), está zelando pelo marido infartado. No leito de morte, Augusto pede o impossível a Elena, que cuide de Adela, "pois ela não tem ninguém". 
  
O tom do filme a partir daí está instaurado. Adela vai tentar se aproximar de Elena, que a rejeita, mas depois acaba cedendo e tentando tratá-la como uma filha. Adela é aquele tipo garota interrompida, fruto de uma geração desesperançada, que faz tudo e nada, e não termina consegue terminar o curso de comunicação e nem manter o emprego como repórter de trânsito de uma rádio de Buenos Aires. Carnevale fotografa muito bem a Buenos Aires, alternando a câmera entre o mundo abastado de Elena e o mundo pobre de Adela, que mora num apartamento que era pago por Augusto no bairro chinês da capital argentina. 


Foto: Imovision

O drama se intensifica quando Adela tenta se suicidar e vai morar com Elena. Mais não posso contar, mas na casa de Elena vemos um personagem sui generis que é a empregada Justina (o debut cinematográfico do hilário Martín Bossi), um homem que trocou de sexo. Ela é fiel ao patrão, pois trabalha desde adolescente com o casal e também muito sincera, não se dobrando diante de Elena. A cara séria de negação quando Elena a manda fazer uma coisa e a fala em guarani quando não quer que a patroa saiba sobre uma conversa com um familiar dão o tom cômico de "Viúvas". 

O filme aborda de forma quase realista o drama de duas mulheres que amaram o mesmo homem e acaba falando de amor e não da traição, porque o amor é maior. Mesmo revoltada e triste com a traição de Augusto, quando perguntada sobre o que lembrava dele, Elena diz: "Ele era um cavalheiro, um homem que me dava segurança, que fazia eu me sentir bem, amada". Isto resume um filme que não julga a traição, mas que trata das consequências da infidelidade e do amor que ultrapassa as barreiras morais e sociais. Não por acaso, o documentário que Elena está concluindo "Chicas", trata de mulheres infelizes no amor. Mais um filme argentino acima da média. Que bom que as nossas distribuidoras, como a Imovision, estão atentas a estes lançamentos.

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Alice na Paris das maravilhas



A fórmula para uma boa comédia romântica parece estar sempre pronta, com uma cidade apaixonante, locais que simbolizam o amor e uma história que relacione a cidade com o romance vivido, um monumento, um café, um bar, um rio, qualquer coisa deste tipo. É preciso dizer que existe um recheio necessário, algo intangível, uma coisa meio Nora Ephron, Rob Reiner, Garry Marshall (só para citar alguns nova-iorquinos da boa safra oitenta-noventista),  ou então Woody Allen. Em "Paris-Manhattan”, a cineasta Sophie Lellouche resolveu apelar para o ingrediente Woody Allen.

Alice Ovitz (personagem vivido pela homônima Alice Taglioni) é uma mulher bonita e apaixonada pelo seu trabalho como farmacêutica. O problema é que a paixão pelo trabalho não é proporcional ao seu interesse pelo parceiro ideal, pelo par romântico. Ela já está sendo chamada de solteirona, está ficando para titia, como dizemos aqui no Brasil. O principal refúgio emocional é o cinema de Woody Allen. Alice conversa com Allen (o voz em off do próprio diretor nova-iorquino que faz uma ponta presencial no filme).
Ela gosta tanto dos filmes e dos ensinamentos contidos em filmes como "Manhattan", "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo..." e outros, que chegando ao ponto de transformar a sua farmácia em uma mini-locadora de DVDs, pois prescreve os filmes de Allen para as pessoas que procuram a farmácia para curar os seus problemas.

Nas conversas com Woody Allen, alguns ensinamentos do diretor estão presentes, como um freudiano, de que as duas coisas mais importantes da vida são a escolha da profissão e do sexo ou então: "case e tenha cinco filhos". Por outro lado, Alice ignora os apelos familiares para que se case. Um dia, Victor (Patrick Bruel) aparece em sua vida. Numa das dezenas de festas para a qual é convidada e na qual o pai (Michel Aumont), judeu como Woody Allen,  tenta lhe arranjar um namorado. Victor é especialista em alarmes e é claro que o pai o contrata para instalar um alarme na farmácia de Alice. Ele desenvolveu um alarme diferente, que expele clorofórmio para adormecer o assaltante. Victor é inteligente, irônico e sabe tudo que está passando à sua volta, como descobrir quem trai quem e sua presença masculina a ajudar e ao mesmo tempo incomodar a vida sem sobressaltos de Alice. O seu único defeito para Alice é nunca ter visto um filme de Woody Allen. O seu primeiro é "Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo (e Tinha Medo de Perguntar)". Ele se espanta com a cena de Gene Wilder com uma ovelha na cama, mas segue vendo os filmes de Woody.

Crédito: Vinny Filmes

O filme nos apresenta alguns signos interessantes de comédias românticas, como casais apaixonados dançando na rua, crianças correndo nas ruas, nos mercados e na própria farmácia, coadjuvantes que roubam a cena como Michel Aumont, como o pai glutão e judeu de Alice, Marie-Christine Adam como a mãe alcoólatra e também a irmã e o cunhado perfeitos (Marine Delterme e Louis-Do de Lencquesaing) e os clientes da farmácia, que apoiam Alice na sua loucura woodyalleniana.

A magia do filme está na vontade de Alice de estar em Nova Iorque, de viver cenas dos filmes de Allen e ao mesmo tempo estar passando por cenários que hipnotizaram Allen quando ele construiu "Meia-Noite em Paris". É difícil comparar a Torre Eiffel com a Estátua de Liberdade (esta construída originalmente em Paris) ou Central Park com o Jardim de Luxemburgo, Hudson com Sena, mas o certo é que Woody Allen traz Nova Iorque para Alice, mas também um pouco do romantismo inteligente, irônico e perspicaz, que a Big Apple proporciona. Mas se não estivermos em Nova Iorque, nós sempre teremos Paris, como Ricky (Humphrey Bogart) já disse a Ilsa (Ingrid Bergman), que foi tão bem parodiada por Allen em "Sonhos de um Sedutor" ("Play it Again, Sam"). A aparição de Allen no filme é para falar da importância de uma das pessoas envolvidas na história.

O detalhe de produção do filme é que a cineasta Sophie Lellouche sempre foi obcecada por Woody Allen e  que havia dirigido apenas o curta "Dieu, que la nature est bien faite!", em 1999, passou algum tempo tentando encontros marcados ou ocasionais com o diretor de "Meia-Noite em Paris", até que ele concordou em fazer esta ponta no filme. Uma comédia romântica de boa qualidade para começar bem o 2013

sábado, novembro 03, 2012

"Nunca vi uma feira como esta", diz Jeffery Deaver

Deaver está impressionado com a Feira do Livro de Porto Alegre

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

O autor de “O Colecionador de Ossos, o norte-americano Jeffery Deaver, estará neste sábado, dia 3/11/2012, na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre para falar sobre a nova investigação do criminologista Lincoln Rhyme, o livro “A Janela Quebrada” (Record) lançado em 2008 nos Estados Unidos e em 2012 no Brasil. Ele fala sobre este e os demais livros, como “Carte Blanche” (Record), em que traz James Bond de volta à ação, às 18h30 na Sala Leste do Santander Cultural, com mediação do jornalista Carlos André Moreira. Às 20h, ele autografa as duas obras mais recentes no Brasil na Praça de Autógrafos da Feira. Em entrevista a este jornalista e blogueiro, Deaver fala sobre os livros, sobre cinema, séries de tevê e o seu processo de construção de um livro, entre outros assuntos.



Pergunta - Qual será o assunto que irás tratar na mesa-redonda?
 Jeffery Deaver – Vou falar de A Janela Quebrada e também de Carte Blanche, mas vou falar de como escrevo os livros. Quero explicar meus métodos a meus fãs. Eu considero o livro como um produto, como um carro, um avião por exemplo. É preciso ser muito cuidadoso com a qualidade deste produto, porque o leitor vem sempre em primeiro lugar. Quero dar ao leitor algo agradável, instrutivo ou esclarecedor, que valha o tempo e o dinheiro da pessoa. Levo oito meses organizando os capítulos, pensando em personagens, tramas, mortes e viradas, até pensar o final. Faço como um engenheiro. Então sento e escrevo durante dois meses, seja para 150 páginas ou mil.

Pergunta - Além de “O Colecionador de Ossos” que te deu fama, houve algumas outras adaptações para TV e cinema?
Deaver - Quanto mais pessoas conhecerem meu trabalho, melhor. Gostei da adaptação de “O Colecionador de Ossos”. Denzel Washington está muito bem. Angelina Jolie estava se revelando uma grande atriz. Depois, fizeram mais dois telefilmes: “The Devil´s Teardrop”, com Natasha Henstridge, baseado no livro homônimo, e “Dead Silence”, adaptado de “A Maiden´s Grave”, com James Garner. Alguns autores dizem que detestam Hollywood, que destruiu suas obras, mas não devolvem o dinheiro dos direitos autorais para os estúdios. Como escritor, não tenho nada a ver com a versão cinematográfica de um livro meu. A experiência de assistir a um filme é diferente de ler um livro. Faço de tudo para chegar ao máximo de pessoas possível. Gosto também de séries de TV, como Boarwalk Empire, Dexter, Família Soprano. Estou envolvido na produção de uma série: “Murder in Small Town X”. Recebi um e-mail de um estúdio já interessado em adaptar “A Janela Quebrada”.

Frente a frente com este jornalista e blogueiro 

Crédito: Luis Ventura / CRL / Divulgação

Pergunta - Conheces alguns autores brasileiros?
Deaver - Não, não conheço. O problema é não haver traduções para o inglês, o que é uma pena. É a mesma coisa com as literaturas italiana, alemã e escandinava. Dos italianos, recentemente li Andrea Camilleri e o seu detetive Montalbano.

Pergunta - E sobre a Feira do Livro de Porto Alegre?
Deaver - Ela é maravilhosa. Já em feiras e festivais do livro no mundo inteiro, em lugares como Edimburgo, Frankfurt e no Japão e nunca havia tão grande e popular como esta feira. Ela é pelo menos dez vezes maior do que as dos Estados Unidos. A visão é fantástica, aqui na praça ou no Cais do Porto.  E as vistas são fantásticas, tanto aqui da praça, quanto do Cais do Porto. É inspirador.

Pergunta - O Brasil pode ser cenário para um dos seus próximos livros?
Deaver - Claro. Não uma história toda, mas uma parte da trama. Seria em Porto Alegre mesmo, pois um funcionário meu, o Adriano Rocha, é daqui. (Rocha é adestrador dos cães que Deaver leva a competições de Kennel Clubs nos Estados Unidos). O Cais me pareceu um lugar assustador, bom para a morte de algum personagem. O Adriano me disse para beber a cerveja Xingu e a caipirinha, que não tem em nenhum outro lugar.

Pergunta - E sobre os próximos livros?
Deaver - Estou terminando “The Kill Room” que deve ser publicado em junho de 2013. Será outro livro sobre o criminologista Lincoln Rhyme. Recentemente, publiquei “XO”, outra história da personagem Kathryn Dance. Uma Thurman já comprou esta história para filmar. Quero sempre dar aos leitores algo valioso, que rearranje suas percepções. Não consigo fazer isso como Jorge Luis Borges ou Gabriel García Marquez. Eles exploram coisas que levam os leitores com eles, a desfrutarem a obra com prazer.